Em defesa do Racionalismo Extremo: reflexões sobre The Rhetoric of Economics de Donald McCloskey

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Por algum tempo, o establishment da filosofia tem estado sob o ataque de gente como Paul Feyerabend, Richard Rorty, Hans G. Gadamer e Jacques Derrida. Um movimento do tipo que já conquistou numerosos membros da profissão filosófica está ganhando área firmemente, não apenas em campos amenos como crítica literária e sociologia, mas também nas rígidas ciências naturais. Com The Rhetoric of Economics de Donald McCloskey (Madison: University of Wisconsin Press, 1985), esse movimento está pronto para invadir a Economia. Porém, não é só o ortodoxo economista neoclássico de Chicago McCloskey que prega o novo sistema; há também G. L. S. Shackle e, nas margens da Escola Austríaca de Economia, Ludwig Lachmann e os hermeneutas da George Mason University os quais dão apoio ao novo credo.

No entanto, esse credo não é inteiramente novo. É a antiga melodia do ceticismo e do niilismo, do relativismo epistemológico e ético que está sendo cantada aqui em vozes modernas sempre em mudança. Richard Rorty, um dos principais defensores do credo, apresentou-o com admirável franqueza em seu Philosophy and Mirror of Nature.[1] O oponente do novo velho movimento é o racionalismo e, em particular, a epistemologia como um produto do racionalismo. O racionalismo, escreve Rorty:

“é um desejo por constrangimento – um desejo por descobrir “fundamentos” aos quais se deve apegar, quadros para além dos quais não se deve vagar, objetos que se impõem, representações, que não podem ser contraditas. (p. 315)
“A noção dominante da epistemologia é a de que para ser racional, totalmente humano, fazer o que devemos, nós devemos ser capazes de achar concordância com outros seres humanos. Construir uma epistemologia é achar a quantidade máxima de terreno comum com os outros. A afirmação de que uma epistemologia pode ser construída é a afirmação de que tal terreno comum existe.” (p. 326)

Entretanto, Rorty reivindica que tal base comum não existe: por isso o falso ídolo do racionalismo deve cair e uma posição “relativista” denominada hermenêutica deve ser adotada.

“A hermenêutica vê as relações entre vários discursos como aquelas de cadeias numa conversa possível, uma conversa que não pressupõe nenhuma matriz disciplinar que una os falantes, mas onde a esperança da concordância nunca é perdida enquanto a conversa dure. Essa esperança não é uma esperança pelo descobrimento de uma base comum previamente existente, mas simplesmente esperança por concordância ou, pelo menos, por uma emocionante e frutífera discordância. A epistemologia vê a esperança por concordância como um sinal da existência da base comum que, talvez desconhecida pelo falantes, une-os numa racionalidade comum. Para a hermenêutica, ser racional é estar disposto a abster-se da epistemologia – abster-se de pensar que existe um conjunto especial de termos no qual todas as contribuições à conversa deveriam ser postas – e estar disposto a pegar o jargão do interlocutor em vez de traduzi-lo para o próprio. Para a epistemologia, ser racional é achar o conjunto apropriado de termos nos quais todas as contribuições possam ser traduzidas se quisermos que a concordância seja possível. Para a epistemologia, conversa é implicitamente inquérito. Para a hermenêutica, inquérito é conversa de rotina.” (p. 318)

O que Rorty denomina hermenêutica, McCloskey chama de retórica. Em The Rhetoric of Economics, eles tenta nos persuadir de que em Economia, bem como em qualquer outro jogo de linguagem que podemos jogar, as reivindicações racionalista e epistemológica de prover um terreno comum que torna possível a concordância em algo objetivamente verdadeiro não têm cabimento. Economia também é mera retórica. É outra contribuição para a conversa da humanidade, outra tentativa de manter uma rotina. Existe não para investigar o que é verdadeiro, mas para si mesmo; não para convencer qualquer um de qualquer coisa baseado em padrões objetivos, mas, na ausência de qualquer padrão desse tipo, simplesmente para ser persuasivo e persuadir pela persuasão.

“Retórica é a arte de falar. Mais amplamente, é o estudo de como as pessoas convencem. (p. 29)
Retórica … é a caixa de ferramentas da persuasão no seu conjunto, disponível para bons e maus persuasores. (pp. 37-38)[A Economia deveria aprender sua lição a partir da crítica literária.] “A crítica literária não meramente faz juízos bons ou ruins; nas suas formas mais recentes a questão parece mal surgir. Está preocupada, principalmente, com fazer os leitores verem como poetas e romancistas obtiveram seus resultados. Uma crítica econômica … não é uma maneira de fazer juízos sobre Economia. É uma maneira de mostrar como ela alcança seu resultado. Aplica as ferramentas da crítica literária à literatura econômica. (p. XIX)[As categorias verdadeiro e falso não têm papel nenhum nessa tentativa. Acadêmicos] buscam outras coisas, mas coisas que tem apenas uma relação acidental com a verdade. Eles assim fazem não porque são inferiores a filósofos em fibra moral, mas porque são humanos. A busca da verdade é uma teoria pobre de motivação humana e não operacional como um imperativo moral. Os cientistas humanos buscam poder de persuasão, beleza, a resolução de enigmas, a conquista de detalhes teimosos, o sentimento de um trabalho bem feito e a honra e a renda do ofício. … A própria ideia de Verdade – com T maiúsculo, algo além do que é meramente persuasivo para todos os interessados – é uma quinta roda. … Se nós decidirmos que a teoria da quantidade de moeda ou a teoria da produção marginal de distribuição é persuasiva, interessante, útil, razoável, atraente, aceitável, nós não precisamos saber também que é Verdade. … Há argumentos particulares, bons e ruins. Após elaborá-los, não faz sentido levantar uma última questão resumindo: “Bem, isso é Verdade?” Isso é o que for – persuasivo, interessante, útil e assim por diante. … Não há razão para procurar uma qualidade geral chamada Verdade. (p. 46-47)[A Economia em particular, e a ciência em geral, são como as artes;[2] a lei da demanda é persuasiva ou não exatamente da mesma forma que um poema de Keats;[3] e do mesmo jeito que não existe uma fórmula metodológica para o avanço da expressão artística, também não há para o avanço da Economia. A retórica] acredita que a ciência avança por meio da conversa saudável, não da adesão a uma metodologia. … A vida não é tão fácil quanto permita a um economista ser melhor naquilo que faz só por ele ter lido um livro.” (p. 174)

Certamente depois disso tudo deve-se tomar fôlego. Mas o racionalismo não refutou essa doutrina repetidamente como autocontraditória e, se levada a sério, como um nonsense fatalmente perigoso? Livros como os de McCloskey decerto não podem fazer a vida melhor ou mais fácil. Mas não seria pior a vida, não se ignorássemos os seus conselhos, mas se efetivamente os seguíssemos?

Considere isto: depois de ler Rorty e McCloskey, não pareceria apropriado perguntar “E as suas próprias afirmações?” Se não há nada semelhante a uma verdade baseada num terreno comum e objetivo, então toda a conversa precedente por certo não pode reivindicar ter dito nada verdadeiro. Na verdade, seria autorrefutável fazer o que eles parecem estar fazendo: negar que se pode fazer uma defesa objetiva de qualquer afirmação e ao mesmo tempo reivindicar que essa é a defesa de suas próprias visões. Ao fazê-lo, falsifica-se o conteúdo da própria afirmação. Não se pode argumentar que não se pode argumentar.[4] Assim, para entender corretamente Rorty e McCloskey, deve-se primeiro perceber que eles não podem verdadeiramente estar dizendo aquilo que parecem dizer. Nem eu posso aqui dizer nada reivindicando ser objetivamente assim e verdadeiro. Não, as falas deles assim como as minhas podem meramente ser entendidas como contribuições para o seu e o meu entretenimento.

Mas então por que eu ou eles deveríamos ouvir e ser entretidos? Afinal de contas, se não existe verdade e, consequentemente, nenhuma distinção objetiva entre proposições que reivindicam verdade e outras, então nós estamos evidentemente frente a uma situação de permissividade intelectual extrema.[5] Sendo cada alegação apenas outra contribuição para a conversa da humanidade, absolutamente qualquer coisa dita é tão boa candidata para o meu entretenimento quanto qualquer outra coisa. Mas por que se incomodar ouvindo essa conversa permissiva em que vale tudo? McCloskey pode responder: “Porque a sua ou a minha conversa é persuasiva”. Mas isso não vai mudar muita coisa, se mudar. Pois de acordo com sua doutrina, as categorias “persuasivo” e “não persuasivo” não são simplesmente outros nomes para “verdadeiro” e “falso”. O ponto todo seria perdido se fosse isso. Não, ele está dizendo que algo é convincente porque de fato convenceu, porque resultou em concordância. Ir além disso e perguntar “bem, alguém foi persuadido de algo correto?” seria uma pergunta totalmente inapropriada. Na verdade, em relação a qualquer pergunta desse tipo, ele teria de apontar que o próprio problema de determinar se uma persuasão foi baseada numa fala correta ou não teria mais uma vez de ser decidida na atual persuasão de ter sido convencido corretamente. Por isso, que ele é consistente em sua rejeição à ideia de verdade objetiva; que a ideia de sair da mera conversa e fundá-la sobre algo que não é novamente simples conversa é falaciosa; e que a própria verdade então não é nada mais que a crença subjetiva de que aquilo no que se acredita é objetivamente verdadeiro.[6] Mas se essa é a posição dele, então a sua fala, seja persuasiva, seja não persuasiva, decerto não pode ser mais que mero entretenimento. Tampouco essa afirmação relativa ao que significa conversar pode reivindicar ser objetivamente verdadeira; ela só pode estar destinada a entreter.

Desse modo, parece que a primeira pergunta com relação a livros tais como o de McCloskey teria de ser “estamos sendo entretidos?” Sem dúvida, muitos leitores responderão que sim, e McCloskey então pode pensar que ele de fato atingiu o seu objetivo. Mas será que atingiu? Ou o sentimento do leitor de ser bem entretido só se deve ao fato de ele ter interpretado mal o que leu, entendendo como algo reivindicando ser verdadeiro, o que na realidade jamais foi o caso? O leitor não teria que, após perceber isso, mudar sua opinião? A conversa de McCloskey então claramente não cairia em nenhuma categoria diferente da de um romancista ou poeta. Mas comparado à prosa deles, e em disputa direta com qualquer romance ou poema escrito para nosso entretenimento, eu digo que o livro de McCloskey é meramente chato e falha miseravelmente em seu objetivo.

Porém, pode o seu livro ser mesmo um entretenimento ruim sem ainda estar indispensavelmente comprometido com a noção de um terreno comum que serve como a base da verdade objetiva? O racionalismo nega que possa. Ele reivindica que a noção de verdade, de verdade objetiva, de verdade fundada numa realidade fora da própria linguagem, é indispensável para qualquer tipo de conversa, que a linguagem pressupõe racionalidade e que, por conseguinte, é impossível livrar-se da noção de verdade objetiva tão logo o sujeito seja capaz de entrar em qualquer jogo de linguagem. Pois de que outra forma poderíamos descobrir se alguém foi de fato entretido por alguma coisa, ou se foi persuadido por isso, se ele entendeu ou não o que foi dito para entreter e persuadir; e mais, se houve algo que de fato quis dizer algo e dessa forma poderia ser entendido, em lugar de ser meramente um farfalhar sem significado? É claro o suficiente que não poderíamos reivindicar saber nada disso a menos que tenhamos uma língua comum com conceitos amplamente entendidos como “ser persuadido” ou “entretido” bem como qualquer outro termo usado em nossa conversa. Na verdade, nós não poderíamos significativamente querer negar tudo isso sem ter de pressupor ainda outro conjunto de conceitos amplamente entendidos. E tão claro quanto isso é que esse terreno comum que deve ser pressuposto se qualquer pessoa deseja dizer qualquer coisa significativa não é apenas um terreno de sons flutuantes em harmonia no ar. Em vez disso, é o terreno comum de termo sendo usados e aplicados cooperativamente no curso de um caso prático, de uma interação. E de novo, fazendo essa reivindicação, não se poderia negar isso sem se pressupor que pode-se estabelecer um terreno comum cooperativamente com respeito à aplicação prática de alguns termos.

Linguagem, então, não é um meio etéreo desconectado da realidade, mas é ela mesma uma forma de ação. É um ramo da cooperação prática e como tal, via ação, está inseparavelmente conectada a um mundo objetivo. Conversa, seja factual, seja ficcional, é inevitavelmente uma forma de cooperação e assim pressupõe uma base comum de termos objetivamente definidos e aplicados.[7] Não no sentido de que se teria sempre que concordar com o conteúdo do que foi dito ou de que se teria sempre de entender tudo que foi dito. Mas, antes, no sentido de que, tão logo se reivindicou expressar algo significativo, ter-se-ia de assumir a existência de alguns padrões comuns, apenas para ser capaz de concordar ou não e a respeito de que se estava em acordo com os outros, e em que extensão de fato se entende o que foi dito. E esses padrões comuns teriam de ser admitidos objetivos na medida em que envolveriam a aplicação de termos dentro da realidade. Dizer, então, que não existe um terreno comum é contraditório. O próprio fato de essa afirmação poder transmitir significado implica que esse terreno comum existe. Implica que termos podem ser objetivamente aplicados e fundados numa realidade comum de ação como a pressuposição prática da linguagem.

Assim, se McCloskey estava certo e não existe de fato nenhuma verdade objetiva, ele não poderia nem reivindicar estar entretendo qualquer significativamente com seu livro. Sua conversa seria sem significado, indistinguível do barulho de sua máquina de escrever. Ele defenderia uma permissividade intelectual ainda maior do que o primeiro pensamento. Não apenas ele teria de largar a distinção entre proposições que reivindicam verdade e proposições que meramente reivindicam estar entretendo, como também sua permissividade iria tão longe que não permitiria qualquer distinção entre conversa significativa e uma reunião de sons sem significado. Pois não se pode nem querer entreter com conversa que não envolve reivindicação de verdade além de ser pura conversa significativa sem ainda ter que saber o que é verdade objetiva e ser capaz de distinguir entre proposições que reivindicam verdade e aquelas alegações (por exemplo em conversa ficcional) que não implicam tal pretensão.

E há mais. Como McCloskey e Rorty podem conciliar sua visão científica como mera conversa com sua própria defesa da ética da conversa, uma ética descrita por McCloskey tal como segue:

“Não minta [mas como poderíamos mentir, se não existe verdade objetiva? H.H.H.]; preste atenção; não zombe; coopere; não grite; deixe outras pessoas falarem; seja mente aberta; explique-se quando requisitado; não recorra à violência ou conspiração em auxílio às suas ideias.” (p. 24)

Por que deveríamos seguir seu conselho de prestar atenção à conversa e não recorrer à violência, particularmente em vista do fato de que o que é defendido aqui é conversa do tipo em que vale tudo e que tudo dito é tão bom candidato para a atenção quanto qualquer outra coisa? Certamente não é evidente que se deveria prestar muita atenção à conversa se é disso que a conversa se trata! Ademais, seria absolutamente fatal seguir essa ética. Pois toda ética humana viável deve evidentemente permitir que as pessoas façam algo além de conversar, apenas para ter um único sobrevivente humano que poderia levantar quaisquer questões éticas; a ética da conversa de McCloskey, entretanto, dá-nos precisamente o conselho mortífero de jamais parar de falar ou parar de ouvir a palestra dos outros. Adicionalmente, McCloskey mesmo e seus parceiros hermeneutas devem admitir que eles não podem ter padrões objetivos para verdade, então deve também ser o caso que as propostas éticas tampouco podem reivindicar ser objetivamente justificáveis.[8] Mas o que há de errado, então, em não ser persuadido por isso tudo e, em vez de continuar ouvindo, bater na cabeça de McCloskey imediatamente sem esperar que ele conclua sua própria prescrição de conversa eterna? É claro que, se McCloskey estivesse certo, não se poderia dizer nada sobre isso ser objetivamente errado. (Na verdade, não se teria de concluir que McCloskey não poderia sequer dizer que algo objetivo ocorreu?) Ele pode não considerar meu ato de agressão como uma contribuição para a conversa da humanidade (embora saibamos agora que ele não poderia objetivamente sequer alegar saber se esse é o caso), mas se a própria ética da conversa não pode ser fundada em algo objetivo fora da conversa, então se eu for convencido, ao contrário, de uma ética da agressão, e eu terminei nossa palestra de uma vez por todas com um ataque preventivo, McCloskey não poderia achar nada de objetivamente errado nisso também.

Dessa forma, não é só permissividade intelectual que é pregada por hermeneutas e retóricos, é também total permissividade prática – relativismo epistemológico e, como o outro lado da mesma moeda, ético.[9] Porém tal relativismo é impossível de ser seguido e, assim, está errado no sentido mais objetivo de ser literalmente incompatível com nossa natureza enquanto agentes. Tanto quanto é impossível dizer e querer dizer que não existe verdade objetiva sem, ao fazê-lo, pressupor critérios objetivos para a aplicação de termos, assim também é impossível defender relativismo ético. Porque para defender qualquer posição ética, deve-se ter permissão para se comunicar ao invés de ser coercivamente calado e silenciado, e assim, ao contrário da mensagem mesma dos relativistas, o emissor dela, ao trazê-la para nós, deve de fato pressupor a existência de direitos absolutos objetivamente definidos. Mais especificamente, ele deve pressupor como válidas aquelas normas de ação cuja observância torna possível a conversa, como uma forma especial de cooperação entre falantes fisicamente separados, enquanto elas devem também permitir que todos façam coisas além de iniciar palestra sem fim; e cuja validade deve então ser considerada objetiva e absoluta de modo que ninguém jamais possa estar vivo e, por meio da fala, objetá-las.[10]

Hermenêutica versus Empirismo – Racionalismo contra ambos

Round I

A tese geral de McCloskey e de Rorty então, a mesma tese que lhes trouxe notoriedade, está absolutamente errada. De fato, McCloskey e Rorty só podem fazer e dizer o que fazem e dizem porque o que eles dizem é falso.

Há certamente muito a ser dito sobre o racionalismo, o velho oponente do relativismo. No entanto, as eternas alegações do racionalismo continuam incontestadas por esse ataque relativista moderno: a alegação de que existe um terreno comum na base do qual proposições objetivamente verdadeiras podem ser formuladas; a afirmação de que uma ética racional objetivamente fundada na natureza dos homens enquanto agentes e falantes existe; e finalmente a afirmação, apenas um pouco estabelecida indiretamente no argumento anterior e ainda a ser fundamentada, de que se pode saber que certas proposições são verdadeiras a priori (isto é, independentes de experiências contingentes), como podem ser derivadas dedutivamente de proposições básicas axiomáticas cuja veracidade não pode ser negada objetivamente sem se cair numa contradição prática, isto é, sem se pressupor, no próprio ato da negação, o que é supostamente negado (assim, seria literalmente impossível destruir a veracidade dessas proposições).[11]

Com essa crítica fundamental desbancada, o que dizer das declarações de McCloskey se, por uma questão de argumentação, estivermos dispostos a ignorar que ele não pode de fato afirmar nada? Não é totalmente surpreendente, como se verá, que a falha geral do livro – sua falta de rigor argumentativo – também venha se mostrar aqui.

O próprio ponto de partida do argumento de McCloskey é marcado por um equívoco do problema que ele encara. Porque para avançar a tese de que economistas deveriam conceber seu trabalho como uma conversa contínua entre si sem alegar dizer nada verdadeiro (i.e., sem nunca supor que alguém pudesse ter à sua disposição um argumento decisivo que encerrasse a conversa), McCloskey teria de direcionar seu argumento contra a oposição mais extrema disponível e refutá-la. Ele teria que escolher como alvo as afirmações do racionalismo acerca dos fundamentos epistemológicos e da metodologia da Economia. E sendo apenas uma pequena minoria entre os economistas teóricos de hoje, certamente existem alguns racionalistas dogmáticos, doutrinários, extremistas, absolutistas (ou qualquer outro rótulo depreciativo que se possa escolher).[12] Os principais representantes dessa persuasão são Ludwig von Mises e Murray Rothbard, os quais, dentro do quadro geral kantiano ou, respectivamente, da epistemologia aristotélica, concebem a Economia como parte de uma teoria pura da ação e escolha (praxeologia).[13] Lionel Robbins promove visões apenas levemente menos descompromissadas, em particular na primeira edição de seu Nature and Significance of Economic Science.[14] E de uma posição bem diferente dentro do espectro político-ideológico estão Martin Hollis e Edward J”. Nell, os quais em seu Rational Economic Man propõem alegações arquirracionalistas similares com relação à lógica da Economia.[15] McCloskey teria que atacar a todos eles, uma vez que eles são os mais radicais que param conversas de modo que, apesar de algumas diferenças importantes, estão completamente descompromissados em insistir que a Economia não só pode produzir e de fato produz proposições que são objetivamente verdadeiras como também em insistir que algumas proposições da Economia são fundadas em axiomas incontestavelmente verdadeiros e definições reais (em contraste com definições arbitrárias, estipulativas), e por isso pode-se dar uma justificação a priori.[16]

Entretanto, em nenhum lugar em seu livro McCloskey ataca esses vários representantes de uma metodologia arquirracionalista da Economia, nem ataca ninguém mais que entra nesse campo. Em nenhum lugar no seu livro ele ataca, muito menos refuta, a própria posição que é o pólo oposto da sua. Robbins, Rothbard, Hollis e Nell nunca são mencionados no texto de McCloskey, nem aparecem em sua bibliografia. Nem o nome de Mises aparece na bibliografia, mas é mencionado duas vezes no texto em auxílio às próprias declarações de McCloskey (pp. 15, 65). Porém não há referência à posição racionalista extremista de Mises. A metodologia austríaca somente é citada de passagem e descrita num modo que esmurraria qualquer um apenas fracamente familiar a essa tradição intelectual com uma deturpação ingênua: “A metodologia austríaca diz: a história de todas as sociedade existentes até aqui é a história das interações entre indivíduos egoístas. Usem-se estatísticas cautelosamente, isso se forem usar, pois elas são ficções transitórias. Cuidado com as observações que não estão de acordo com  os preceitos da metodologia austríaca” (p. 25).[17]

Em lugar de batalhar contra seu adversário lógico direto, McCloskey escolheu estabelecer sua própria posição relativista por meio de um ataque ao empirismo-positivismo. Mas derrubar o empirismo-positivismo não é mais que derrubar um homem de palha, de modo que, a partir de sua queda, absolutamente nada se segue em suporte às próprias declarações de McCloskey. Na verdade, todos os arquirracionalistas previamente mencionados desferiram críticas muito mais pesadas contra o empirismo-positivismo e ainda aparentemente não pensam que ao fazê-lo eles se comprometeriam com o relativismo. Ao contrário, sua visão é a de que toda crítica ao empirismo-positivismo, se tiver peso intelectual, teria de reivindicar as próprias afirmações do racionalismo. Assim, e este é a má interpretação fundamental de seu argumento inteiro, McCloskey, dado seu objetivo, simplesmente atira no alvo errado e, pior, parece não notar.

No entanto, tanto quanto possa merecer o empirismo-positivismo ser intelectual destruído, McCloskey não se faz bem-sucedido nem aqui. Ele começa com uma descrição do empirismo-positivismo, ou modernismo econômico, como ele denomina a aplicação dessa filosofia ao campo da Economia, e lista seus maiores preceitos (pp. 7-8): previsão é, em última análise, o que conta em ciência; não há verdade objetiva sem observações; somente observações quantitativas são dados objetivos; introspecção é subjetivo e sem valor; a ciência é positiva e não lida com questões normativas; explicar algo positivamente significa trazê-lo a uma lei geral; e a validade de uma lei geral é para sempre hipotética, requerendo testes permanentemente frente a dados observacionais objetivos.

Há pouco para se discutir com respeito à caracterização do modernismo. Bem corretamente, McCloskey também cita os mais influentes expoentes modernos desse credo: o Círculo de Viena, a filosofia analítica e o popperianismo em filosofia propriamente dita[18], bem como aquelas figuras representativas dentro da profissão econômica, tais quais T. W. Hutchison, Milton Friedman e Mark Blaug.[19] E McCloskey está certamente correto também ao identificar essa visão de mundo modernista como o atual livro-texto da ortodoxia. Não obstante, desde o início seu entendimento do empirismo-positivismo é insuficiente, de maneira que ele falha ao reconstruir as suposições fundamentais do modernismo (i.e., aquelas suposições que estão na base de seus vários preceitos). Ele deixa de atribuir-lhes um lugar específico numa estrutura conceitual geral logicamente unificada. Ele falha ao esclarecer que os vários preceitos específicos do modernismo fluem essencialmente da admissão de uma suposição crucial. A suposição, fundamental ao empirismo moderno, é a de que o conhecimento relativo à realidade, ou conhecimento empírico, deve ser verificável ou pelo menos falsificável pela experiência; de que o que quer que seja conhecido por experiência não poderia sê-lo de outro modo, ou, pondo de maneira diferente, de que nada acerca da realidade poderia se saber ser verdadeiro a priori; de que todas as afirmações verdadeiras a priori são simplesmente afirmações analíticas que não têm conteúdo factual, mas que são verdadeiras por convenção, representando meramente informação tautológica sobre o uso e as regras de transformação de sinais; de que todas as afirmações cognitivas significativas são ou empíricas ou analíticas, mas nunca ambas; e, por isso, de que afirmações normativas, porque não são nem empíricas nem analíticas, não podem legitimamente conter qualquer reivindicação de verdade, mas devem ser consideradas, em vez disso, meras expressões de emoção, dizendo na realidade nada mas que “wow” ou “grr”.[20] E ao falhar no esclarecimento disso, McCloskey precipita sua falha subsequente em derrubar o empirismo-positivismo, seu oponente escolhido. Seu ataque é simplesmente não sistemático, e portanto necessariamente erra o objetivo.

A primeira crítica de McCloskey é bem direcionada. Ele mostra que, ao contrário das declarações de Popper e sua escola em particular, seguir o conselho da filosofia empirista-falsificacionista levaria, em última análise, ao ceticismo. Sempre que uma lei hipotética é empiricamente testada e vista estar deficiente, dentro do próprio âmbito de uma metodologia empirista, é sempre possível imunizar sua teoria negando as observações recalcitrantes em absoluto e as declarando ilusórias; reconhecendo-as porém atribuindo sua recalcitrância a erros de medição, ou postulando alguma variável interferente não observada, cuja falta de controle é responsável pelas observações aparentemente falseadoras. McCloskey observa:

“Isolamento de teste crucial é a substância da maioria das discordâncias científicas. Economistas e outros cientistas irão reclamar com seus parceiros: “seu experimento não foi controlado adequadamente”; “você não resolveu o problema da identificação”; “você usou um modelo de equilíbrio (competitivo, equação única) quando um modelo de desequilíbrio (monopolístico, equação-500) é relevante”. … Não há nenhuma ‘falsificação’ ocorrendo.” (p. 14).

E, observa ele mais adiante, nós sabemos, desde o Structure of Scientific Revolutions de Thomas Kuhn[21], que a verdadeira história da ciência natural não parece chegar a nada perto da ilusão popperiana de ciência como uma empreitada racional firmemente avançando através de um processo contínuo de falsificações sucessivas. “A falsificação foi suficientemente falseada” (p. 15).

McCloskey também mostra algum entendimento da sociopsicologia da metodologia modernista: uma filosofia como o empirismo, que começa com a pressuposição de que nada acerca da realidade pode ser conhecido com certeza e portanto tudo é possível, e de que não há lugar para nada como considerações objetivas a priori; uma epistemologia, diga-se, que não nos põe sob quaisquer restrições quando vem escolher nossas variáveis a serem medidas e determinar a relação entre tais variáveis (exceto na medida em que a relação escolhida deve  caber nos dados) pode ser seguida por quase qualquer um, e quase todo mundo pode de maneira justa sentir que, se é disso que a ciência se trata, pode ser tão bom cientista quanto qualquer um. Qualquer pessoa pode medir o que quer que ele se sinta a medir e depois, com a ajuda de um computar, ajustar algumas curvas ou equações aos seus dados e finalmente mudar ou não as curvas ou equações dependendo de novo material e/ou novas hipóteses sobre erros de medida ou variáveis interferentes não controladas. O empirismo é uma metodologia adequada ao intelectualmente pobre, daí sua popularidade.[22] McCloskey observa:

“Estudantes de graduação nas ciências sociais veem os cursos de econometria, sociometria e psicometria como cursos de como se tornar economistas, sociólogos e psicólogos aplicados. … A ilusão é nutrida pela democracia, o que explica em parte sua prevalência na América. Todos de inteligência normal podem, depois de um tal curso, decifrar a produção do Pacote Estatístico para Ciências Sociais. Nenhuma cultura de elite é necessária, nem a subordinação ao Doktor Herr Professor[23], nenhum conhecimento acumulado através da meia idade.” (p. 163)

Bem naturalmente, ele enxerga tudo isso como uma fala forte contra a epistemologia modernista. E decerto pode ser suficiente persuadir alguém a parar de dar crédito ao modernismo, e isso certamente seria para o melhor. Mas, mesmo se verdadeiro, constitui isso prova de uma falha sistemática na filosofia empirista-positivista? E isso constitui prova nas mãos de um hermeneuta?

Com relação a essa última pergunta, deve ser observado que o próprio McCloskey entender suas afirmações sobre o modernismo como uma crítica dessa filosofia seria simplesmente estranho. Pois em sua discussão do empirismo-positivismo, ele claramente culpa essa filosofia por permitir aos cientistas entrar numa permissividade intelectual permeável a tudo; por produzir uma ciência que não avança para lugar nenhum, tratando-se antes de uma mera caminhada aleatória de ideias através do tempo a serem entendidas apenas ex post por explicação histórica e sociológica; e portanto por abrir as comportas para a invasão da academia por bárbaros intelectuais. Porém McCloskey quer substituir essa permissividade com uma ainda maior. Ele quer que nos engajemos numa conversa interminável e sem restrições acerca de qualquer disciplina intelectual que seja. Desse modo, em lugar de criticar o empirismo-positivismo, não deveria ele abraçá-lo entusiasticamente por já de fato se aproximar tanto de suas próprias ideias relativistas? Se o empirismo soa tão ridículo a McCloskey, sua razão para isso só pode ser que ele não soe ridículo o suficiente, que o empirismo é ridículo porque a hermenêutica é ainda mais, e que o puro nonsense deve prevalecer sobre o nonsense apenas parcial.

Porém, afora a própria posição de McCloskey, seus argumentos contra o modernismo não podem contar como valendo algo. “E daí?”, poderia retrucar o empirista. McCloskey mostrou que seguir os preceitos modernistas leva a uma forma particular de relativismo. Admitidamente, alguns empiristas, mais notavelmente Popper e sua escola, não reconheceram isso e ainda não reconhecem.[24] McCloskey está certo ao salientar isso de novo. Mas então ele deve admitir que isso também foi percebido por empiristas sem causar-lhes muita dor intelectual. Não foi Feyerabend quem primeiro e mais energicamente nos trouxe a mensagem relativista do popperianismo?[25] E não foi ele mesmo um líder dessa mesma escola o qual simplesmente desenhou as derradeiras conclusões lógicas do popperianismo?[26] O empirismo não pode explicar o processo de desenvolvimento científico como uma empreitada racional. Verdadeiro o bastante. Mas não pode explicá-lo porque o processo não é racional. E o que há de errado nisso? O que há de errado com o empirismo uma vez que ele admita seu próprio relativismo?

McCloskey não dá resposta alguma a essas questões. Ele não desenvolve nenhum argumento baseado em princípios provando que o empirismo é uma posição autorrefutável. Ele também não objeta o empirismo na mais óbvia frente empírica. Parece ser evidente que ao menos a declaração empirista de fornecer-nos uma epistemologia correta das ciências naturais deveria, em vista dos fatos, ser considerada incorreta. Pois qual quer que seja o verdadeiro estado de coisa com relação à Economia e às ciências sociais, com respeito à ciências naturais parece difícil negar que, de mãos dadas com seu desenvolvimento, deu-se um estável e universalmente reconhecido processo de avanço tecnológico e aperfeiçoamento, e que esse fato do processo tecnológico dificilmente pode ser trazido em conformidade com a visão empirista da ciência como uma empreitada relativista não-cumulativa. O empirismo, então, parece simplesmente ter sido empiricamente refutado como uma metodologia apropriada para as ciências naturais.[27]

Porém tal refutação de maneira alguma sustenta a posição de McCloskey. Pois a existência de progresso tecnológico teria que se colocar tanto no caminho do relativismo hermeneuta quanto no do empirismo.[28] Somente uma metodologia racionalista das ciências naturais poderia explicar esse progresso. Somente uma metodologia que começa com o reconhecimento do fato (como um fato inegavelmente verdadeiro sobre nossa natureza humana enquanto agentes e falantes) de que a linguagem em geral e as teorias científicas em particular são, em última instância, fundadas sobre uma realidade comum objetiva de ação e cooperação pode explicar por que tal progresso é possível sem desse modo ter de negar algum acerto parcial nas descrições relativistas de Kuhn e Feyerabend da história das ciências naturais.

A impressão relativista deve-se ao fato, típico de empiristas desde Locke e Hume, de que Kuhn e Feyerabend em última análise compreendem mal as teorias científicas como meros sistemas de proposições verbais e ignoram sistematicamente as bases dessas e de quaisquer outras proposições numa realidade de ação e interação.[29] Se se considerarem observações e teorias como sendo completamente separadas da ação e cooperação, não somente qualquer teoria torna-se passível de se imunizar, como também quaisquer duas teorias rivais cujos respectivos termos não possam ser reduzidos a e definidos em termos uma da outra vão parecer completamente incomensuráveis e nenhuma escolha racional será possível. Se afirmações são mera e exclusivamente expressões verbais suspensas no ar, qual razão poderia existir para um afirmação dar lugar a outra? Qualquer afirmação pode perfeitamente estar ao lado de qualquer outra sem nunca ser contestada – a menos que desejemos isso, por qualquer motivo arbitrário. Foi isso que Kuhn e Feyerabend demonstraram. Mas isso não afeta a refutabilidade de qualquer teoria e a comensurabilidade de teorias rivais no nível inteiramente diferente de aplicar essas teorias na realidade da ação, de usá-las como instrumentos da ação. No nível de meras palavras, teorias podem ser irrefutáveis e incomensuráveis, mas na prática jamais. Na verdade, não se poderia nem alegar que uma única teoria fosse irrefutável ou que quaisquer duas teorias fossem incomensuráveis e sob qual aspecto, a menos que se pressupusesse um quadro comum categórico que pudesse servir como uma base para tal avaliação ou comparação. E é essa refutabilidade e comensurabilidade prática de teorias da ciência natural que explica a possibilidade de progresso tecnológico – mesmo embora sua explicação para o progresso tecnológico seja bem diferente da tentativa falha de Popper em explicar.[30]

Popper nos faria abandonar toda teoria que fosse contradita por qualquer fato, algo que, mesmo se fosse possível, nos levaria a ficar virtualmente de mãos vazias, indo a lugar nenhum. Em reconhecendo a insolúvel conexão entre conhecimento teórico (linguagem) e ações, o racionalismo julgaria tal falsificacionismo completamente irracional, mesmo se possível. Não existe nenhuma situação concebível em que seria razoável abandonar qualquer teoria – concebida como um instrumento cognitivo da ação – que tenha sido aplicada com sucesso numa situação passada mas se provou mal-sucedida numa nova aplicação – a menos que já se tenha em mãos uma teoria ainda mais bem-sucedida. E portanto imunizar uma teoria da experiência é perfeitamente racional do ponto de vista de um agente. E é igualmente racional para um agente considerar quaisquer duas teorias rivais t1 e t2, cujos escopos de aplicabilidade coincidam, como incomensuráveis enquanto houver ao menos uma aplicação na qual t1 seja mais bem-sucedida que t2 ou vice-versa. Somente se t1 puder ser tão bem sucedidamente aplicada quanto t2 para toda instância em que t2 é aplicável, mas ainda tiver mais e diferentes aplicações que t2, é que seria racional descartar t2. Descartá-la antes disso por causa de aplicações mal-sucedidas ou porque t1 pode ser aplicada mais bem sucedidamente em algumas ou em até mais situações seria, do ponto de vista de um agente cognoscente, não progresso, mas retrocesso. E até mesmo se t2 for racionalmente descartada, o progresso não é obtido falseando-a, visto que t2 realmente teve algumas aplicações bem sucedidas que não poderiam ser anuladas por nada (no futuro). Em vez disso, t1 sobrepujaria t2 de modo tal que qualquer futura adesão a t2, ainda que possível, seria apenas possível ao custo de não ser capaz de realizar com sucesso tudo aquilo que um aderente de t1 poderia realizar, o qual poderia fazer com sucesso tanto quanto o proponente de t2 e ainda mais.

Por mais trivial que pareça essa explicação da possibilidade de progresso (bem como de retrocesso) nas ciências naturais, ela não é compatível com o empirismo. Em ignorando sistematicamente o fato de que observações e teorias são de um agente, feitas e criadas para se realizar uma ação bem sucedida, o empirismo naturalmente privou-se do próprio critério frente ao qual o conhecimento é continuamente testado e medido: o critério de, bem ou mal sucedidamente, alcançar um conjunto de objetivos aplicando-se conhecimento numa dada situação.[31] Sem o reconhecimento explícito da operacionalidade universal do critério de sucesso instrumental, o relativismo torna-se inescapável. No entanto, tal relativismo seria mais uma vez impossível de se adotar, porque ele é incompatível com a nossa natureza de agentes falantes e conhecedores. O relativismo não poderia nem querer significativamente negar a operacionalidade desse critério, visto que essa própria negação teria de ser uma ação que pressupusesse algum padrão objetivo de sucesso. Antes, em cada uma de nossas ações, nós confirmamos a alegação racionalista (acerca das ciências naturais) de que se pode objetivamente identificar uma gama de aplicações para algum conhecimento e depois testar seu sucesso dentro dessa gama, e portanto teorias rivais devem ser consideradas comensuráveis em relação a essas gamas de aplicações e sucesso.

Hermenêutica versus Empirismo – Racionalismo contra ambos

Round II

O primeiro round de McCloskey criticando o empirismo é, então, um fracasso completo. Tampouco seu segundo round de críticas é mais bem sucedido. Neste, McCloskey tem problemas com a ênfase modernista em predição como a pedra angular da ciência. Ainda que ele não negue a possibilidade de predição nas ciências naturais, ele duvida de sua grande importância. Entretanto, predição em economia, afirma ele, é impossível. “Predizer a economia futura é, como diria Ludwig von Mises, além da capacidade de qualquer homem mortal” (p. 15).

Para defender essa tese, esperaríamos que ele estabelecesse duas afirmações separadas, mas relacionadas. Primeiro seria a afirmação de que há algo errado com o monismo metodológico – o programa de uma Einheitwissenschaft [NT.: alemão para ciência unificada] – e que o dualismo metodológico deveria ser adotado. Caso contrário, não fará sentido nenhum dizer que predições são possíveis em um campo de investigação mas impossíveis em outro. A segunda afirmação seria a de que, com base nesta posição dualista, pode ser demonstrado por que predições são possíveis em um campo mas não em outro. McCloskey não faz nada disso. Foge completamente de sua atenção que sua posição vis-à-vis o modernismo requer que ele ataque o empirismo com base em seu monismo; que sua posição monista torna de fato impossível para o empirismo explicar como predições, que alegadamente constituem o próprio coração do programa empirista, podem concebivelmente ser possíveis – e impossíveis pela mesma razão que o empirismo não possa explicar a possibilidade de progresso nas ciências naturais; e que uma posição dualista (à qual McCloskey teria de aderir se quisesse desafiar o modernismo sistematicamente) seria incompatível com a hermenêutica – ela mesma sendo uma posição monista, ainda que de um tipo diferente da do empirismo – e, de novo, somente pode ser reconciliada com uma epistemologia racionalista, que por si só pode explicar a possibilidade do sonho empirista de predições.

O empirismo é monismo observacional, afirmando que todo o nosso conhecimento é derivado de observações e consiste em inter-relacionar estas observações, bem como que relações têm o status permanente de serem apenas verdades hipotéticas. É assim em Economia, bem como em qualquer outro campo preocupado com o conhecimento empírico, daí o problema da predição ser o mesmo em qualquer outro campo. McCloskey não responde a esse desafio sistematicamente. Ele não apresenta a refutação conclusiva desse monismo ao assinalar que, em se afirmando o que o empirismo afirma, de fato se falsifica o conteúdo da própria afirmação. Porque ao afirmar o que afirma, o empirismo deve pressupor que, além de observações, existem objetos significativos – palavras ligadas à realidade via cooperação – os quais, junto às relações entre eles, devem ser antes compreendidos que observados. Daí a necessidade do dualismo metodológico.[32]

McCloskey também não nota a incompatibilidade do monismo observacional com a noção de predição. A ideia de predição e causalidade (isto é, de que há causas operacionais constantes que permitem projetar observações passadas acerca de relações entre variáveis no futuro) é algo (como o empirismo já notou desde Hume) que não tem nenhum fundamento empírico e, logo, não pode ser justificado (dentro do sistema empirista). Não se pode observar a ligação entre observações, exceto que elas são, de alguma forma, relacionadas contingentemente no tempo. E mesmo que se pudesse observar, esta observação não provaria que tal ligação observada é invariável no tempo. Estritamente falando, dentro do sistema do monismo observacional, nem faz sentido colocar observações em tempo objetivo.[33] Ao invés disso, as relações observadas são aquelas entre dados na ordem temporal em que o observador as observou (algo claramente bastante diferente de nossa noção de estarmos aptos a distinguir entre sequência de observações e ordem reais causalmente efetivas e a mera ordem temporal na qual observações são feitas). Por isso, estritamente falando, de acordo com o empirismo, predições são epistemologicamente impossíveis. É irracional querer predizer, pois a própria possibilidade de predição não pode ser racionalmente estabelecida. E isto, então, é a razão irredutível do posicionamento cético do empirismo acerca da própria possibilidade de progresso científico. Pois, se não se pode defender racionalmente a própria ideia de causalidade, como se pode esperar algo da ciência senão uma série de observações incomensuráveis? Progresso, como é comumente compreendido, é o avanço do conhecimento preditivo. Entretanto, claramente algo do tipo não pode ser possível se a predição em si mesma não puder ser estabelecida como algo possível.[34]

McCloskey também não enfrenta o desafio de explicar como a hermenêutica explicaria o dualismo e a própria possibilidade de predição (mesmo que apenas nas ciências naturais). Nem poderia lograr êxito nesta tarefa. Porque um argumento dualista demonstraria que certas proposições podem se dizer serem objetivamente  verdadeiras a priori – e isso contradiria  a mensagem relativista da hermenêutica. Ainda assim, como uma posição monista, a hermenêutica não pode explicar a causalidade mais do que o empirismo poderia. Como um monismo observacional, o empirismo reduz todo o nosso conhecimento empírico a observações e observações de relações contingentes entre observações, e é portanto forçado, em última análise, a abandonar a idéia de causas operacionais invariáveis. A hermenêutica se reduz a monismo-de-conversa, a conversa desligada de qualquer causa fora da própria conversa, a sequências de jactâncias pairando no ar sem qualquer base a restringir a conversa. Por esta razão, a hermenêutica não pode explicar a causalidade. Pois, na falta de algum padrão objetivo comum, toda conversa é simplesmente incomensurável e nenhum elo objetivo pode existir entre qualquer conversa além da mera ordem temporal da conversa.

Ambos, dualismo e causalidade, podem ser explicados apenas pelo racionalismo. O racionalismo começa com a compreensão de que o empirismo é autorrefutável, uma vez que não pode, de fato, afirmar sua própria posição sem implicitamente admitir que, além de observações e relações contingentes entre observações, outras coisas e relações significativas (isto é, palavras sustentadas pela ação e que adquirem significado no curso de tais ações) devem existir. Similarmente, o racionalismo também rejeita a hermenêutica como autorrefutável, porque um monismo-de-conversa também não poderia ser afirmado sem implicitamente admitir que isso é falso, pois teria de pressupor a própria existência de ações guiadas por observações para sustentar a conversa – assim falsificando a afirmação de que a conversa não é restringida por nada de objetivo. E o racionalismo, então, conclui que a chave para o problema da causalidade deve estar no reconhecimento do fato (ignorado por ambos, empiristas e hermeneutas) de que observações, bem como palavras, são constrangidas pela ação, e que isso não pode ser estabelecido nem por observação nem por mera conversa, mas deve ser compreendido com base no nosso conhecimento sobre ação como uma pressuposição prática de qualquer observação ou conversa como um fato verdadeiro a priori da natureza humana.

É desse entendimento a priori acerca da ação que a ideia de causalidade pode ser derivada.[35] A causalidade não é uma categoria de observações. É uma categoria da ação, cujo conhecimento como uma característica a priori da realidade está enraizado em nosso próprio entendimento de nossa natureza enquanto agentes. Só por sermos agentes e nossas experiências serem aquelas de agentes individuais é que observações podem ser concebidas como ocorrendo objetivamente antes ou depois e serem relacionadas umas às outras por meio de causas operando sem variar no tempo.[36] Ninguém que não saiba o que significa agir poderia experimentar eventos ocorrendo no tempo real e em sequências causais invariáveis. E o conhecimento de qualquer pessoa do significado de ação e causalidade poderia ser derivado de evidências observacionais contingentes, uma vez que o próprio fato de experimentar já pressupõe a ação e observações interpretadas causalmente. Toda ação é e deve ser compreendida como uma interferência no mundo observável, feita com a intenção de alterar o curso “natural” de eventos a fim de produzir (isto é, causar a existência de algo) um estado de coisas diferente preferido – fazer algo acontecer que não aconteceria de outra maneira – e, assim, pressupõe a noção de eventos localizados no tempo objetivo e de causas operando sem variar no tempo. Um agente pode errar quanto a seus pressupostos específicos sobre qual interferência anterior produzirá  qual resultado posterior, e, logo, uma interferência talvez não se revele bem sucedida. Entretanto, bem sucedida ou não, qualquer ação, alterada ou inalterada, à luz de seu sucesso ou fracasso, pressupõe que há eventos ligados constantemente no tempo, mesmo que nenhuma causa específica para cada evento possa ser pré-conhecida por nenhum agente em cada ponto do tempo. De fato, refutar que eventos observáveis são regidos por causas operando sem variar no tempo requereria que se mostrasse que algum dado evento não pode ser observado ou produzido baseando-se em uma interferência anterior. Ainda assim, tentar refutar isso, de novo, pressupõe necessariamente que a ocorrência ou não ocorrência do fenômeno sob escrutínio poderia de fato ser afetado ao se tomar o curso de ação apropriado, e que o fenômeno presumivelmente deve estar incorporado numa rede de causas operando constantemente. Portanto, o racionalismo conclui que a validade do princípio da causalidade não pode ser falsificada ao se tomar nenhuma ação, já que toda ação teria de pressupô-la.[37]

McCloskey não atenta para nada disso. E então não é surpresa que os argumentos dados em apoio à sua afirmação sobre a impossibilidade da predição em Economia também erram o alvo. Ainda que por si só corretos, eles simplesmente não constituem o teorema da impossibilidade que é necessário.

O que McCloskey oferece como prova, a qual ele incidentalmente reivindica ser “mais precisa” que alguns pensamentos austríacos anteriores (p. 90), é a seguinte ideia: “Se economistas pudessem predizer melhor que homens de negócios, os economistas seriam ricos. Eles não o são.” (p. 93). Logo, não deveríamos confiar em pessoas que afirmam ter informações sobre eventos econômicos futuros. Pois que se eles realmente tivessem esse conhecimento, porque eles não ficariam ricos, em vez de contar a nós como fazê-lo? (p. 16). Realisticamente, deveríamos considerar previsores econômicos como fornecedores de informações que, falando de um modo geral, são sem valor econômico para nos dizer mais sobre eventos econômicos futuros do que as pessoas interessadas, na média, já acreditam e esperam de qualquer forma e que já levam em conta nas suas ações presentes (p. 93f).

Até aí tudo bem. Entretanto, uma apresentação muito mais sucinta que essa já pode ser encontrada em Mises.

“Não há regras segundo as quais a duração do boom ou da depressão que se segue possa ser computada. E mesmo se essas regras estivessem disponíveis, elas não seriam de nenhuma serventia para o homem de negócios. O que o homem de negócios individual precisa para evitar prejuízo é de conhecimento sobre a data do ponto de virada, enquanto outros homens de negócios ainda acreditam que a quebradeira está mais distante do que realmente está. … Julgamento empreendedorial não pode ser comprado no mercado. A ideia empreendedorial que se mantém e rende lucro é justamente aquela que não ocorre à maioria. Não é previsão em si que rende lucro, mas previsões melhores que as dos outros.”[38]

Entretanto, como Mises, mas não McCloskey, sabia, isso não prova a impossibilidade de predições causais em Economia.[39] Tudo o que se prova é que diferenças de lucro podem surgir apenas de diferenças em conhecimento. A questão, porém, é se esse conhecimento – a despeito de se é desigualmente distribuído e assim permita a possibilidade de lucros e prejuízos diferentes, ou igualmente distribuído e logo tendendo a prestar contas de apenas uma taxa de retorno uniforme para os prognosticadores – é tal que possa ser expresso em uma fórmula de predição que pudesse legitimamente fazer uso da suposição de causas invariáveis no tempo e, logo, pudesse ser concebido como sistematicamente testável e otimizável.

Por certo, McCloskey não quer negar a possibilidade de predição em si mesma em Economia. Nós constantemente fazemos tais predições. Ademais, enquanto prognosticadores econômicos possam não ser em geral ricos e, logo, evidentemente não possam saber mais que o resto de nós, alguns deles são, e certamente há alguns homens de negócio que também são ricos. Evidentemente, pessoas não apenas podem predizer, mas podem predizer corretamente e com sucesso. O teorema da impossibilidade não pode ser tomado como prova de que nenhuma predição (bem sucedida) possa ser feita no campo econômico, mas sim que apenas um certo tipo de predição é impossível aqui e possível em outro campo. Ainda assim, o argumento não prova isso. Porque não temos dificuldade para aplicar a ideia de conhecimento preditivo diferencial e de retornos diferenciais de predição ao campo das ciências naturais, e ainda assim concebê-las como progredindo gradualmente e produzindo fórmulas de predição cada vez melhores. Um previsor em ciências naturais pode saber mais que outro e até permanecer à frente da competição permanentemente, mas isso não implica que sua vantagem relativa não seja do tipo que não possa ser expressa, a qualquer momento, em termos de uma fórmula que use constantes preditivas e esteja apta a sistemático aperfeiçoamento por meio de testes sucessivos. Por que, então, seria diferente no campo da predição econômica? Por que o homem de negócios rico não pode ter ganhado sua posição da mesma maneira que o relativamente mais bem sucedido previsor em ciências naturais?

Isso é o que deve ser respondido pelo teorema da impossibilidade. Sobre isso, entretanto, McCloskey não fala. Tampouco uma resposta pode ser formulada por um hermeneuta. Pois um teorema da impossibilidade seria precisamente do tipo de argumento encerrador-de-conversa que McCloskey afirma ser inexistente. Provar que predição econômica é categoricamente diferente de predição em ciências naturais significaria apenas confirmar as reivindicações do racionalismo. Tal prova não teria consequências relativistas sobre predições econômicas, como pode parecer ao primeiro olhar – como dizer que nenhum erro sistemático pode ser cometido por um prognosticador econômico e que qualquer sucesso ou falha de predição seria, então, devido inteiramente a má ou boa sorte. Em vez disso, mesmo que fosse demonstrado que há, de fato, algum elemento de sorte inextirpável, tornar o progresso como ocorre em predição tecnológica impossível no campo da ciência econômica, ao mesmo tempo essa prova estabeleceria a existência de proposições verdadeiras a priori no campo da pesquisa econômica, o que iria então restringir sistematicamente o escopo das predições possíveis sobre eventos econômicos futuros e abriria possibilidades de predições que seriam sistematicamente falhas de modo que estariam em desacordo com esse conhecimento fundamental válido a priori.

E de fato, argumenta o racionalismo, as predições econômicas que fariam uso da suposição de causas operacionais constantes devem ser, então, consideradas sistematicamente falhas.[40] Enquanto toda ação pressupõe causalidade, nenhum agente pode conceber suas ações como sendo previsíveis com base em causas operando constantemente. A causalidade só pode ser aceita como existente fora do campo da ação humana, e predições econômicas como predições sobre ações futuras são impossíveis. Isso advém do próprio modernismo que McCloskey critica, acidentalmente provando que a  posição é autorrefutável, mais uma vez. O empirismo afirma que ações, como qualquer outro fenômeno, podem e devem ser explicadas por meio de hipóteses causais, que podem ser confirmadas ou falseadas por experiência. Entretanto, se fosse assim, o empirismo seria forçado a assumir – contrariamente à sua própria doutrina de que não há conhecimento a priori sobre a realidade – que causas operacionais invariáveis em relação às ações existem. Não se sabe a priori quais eventos específicos poderiam ser a causa de uma ação específica. A experiência teria de nos revelar isso. Mas, a fim de proceder da maneira que o empirismo quer que procedamos (isto é, narrar experiências diferentes acerca de sequências de eventos como confirmando ou falsificando uma à outra e, se falsificando, respondendo então com uma reformulação da hipótese causal), deve ser pressuposta uma constância ao longo do tempo na operação das causas enquanto tais. (Sem este pressuposto, as diferentes experiências seriam simplesmente observações incomensuráveis e desconexas.[41]) No entanto, se isso fosse verdade, e ações pudessem, de fato, ser concebidas como regidas por causas constantes, como explicaríamos os explicadores (isto é, as pessoa que fazem o próprio processo de criação de hipóteses) da verificação e falsificação? Evidentemente, para assimilar experiências de verificação e falsificação – substituir hipóteses antigas por novas – presumivelmente deve-se ser capaz de aprender. Entretanto, se formos capazes de aprender através da experiência, então não podemos saber, em qualquer ponto do tempo, o que saberemos em um tempo posterior e como agiremos baseados neste conhecimento posterior. Pelo contrário, só se podem reconstruir as causas de suas ações após o evento, da mesma forma que só se pode explicar seu conhecimento uma vez que o possua. Logo, a metodologia empirista aplicada ao campo do conhecimento e da ação, a qual contém conhecimento como um ingrediente necessário, é simplesmente contraditório – um absurdo lógico.[42]

Além disso, é claramente contraditório argumentar que se poderia predizer os próprios conhecimento e ações com base em causas anteriores operando constantemente. Pois argumentar isso não é apenas absurdo porque implicaria que se saberia agora o que saberíamos no futuro, é também autodestrutivo porque fazê-lo seria, na verdade, dizer que havia algo que ainda não era compreendido mas que, ao contrário, tinha de ser aprendido e examinado quanto à aceitabilidade de suas reivindicações de validade, com resultados ainda desconhecidos em relação ao desenlace disso (ou pelo nosso conhecimento futuro ou pelo conhecimento nosso e de outros sobre o conhecimento de outros).

Logo, como McCloskey afirma, mas não prova, explicações causais empíricas sobre conhecimento e ações são, de fato, impossíveis. Quem quer que alegue, como economistas empiristas invariavelmente fazem, ser capaz de predizer conhecimentos e ações futuras baseado em variáveis antecedentes operando constantemente está simplesmente falando absurdos. Não existem tais constantes no campo da ação humana, como Mises insistiu repetidamente. Predição econômica não é e não pode ser uma ciência, mas será para sempre uma arte não ensinável de maneira sistemática. Ainda assim, e retornarei a este ponto em breve, isso não significa que tais predições não seriam restringidas por nada.  Enquanto nenhuma ação específica pode ser predita cientificamente, toda e qualquer predição de ações futuras e as consequências das ações é restringida por nosso conhecimento a priori de ações enquanto tais.

Racionalismo e os fundamentos da economia

No segundo round de sua crítica ao empirismo-positivismo, a hermenêutica falha, como já falhara no primeiro round. E, de novo, é o racionalismo filosófico – igualmente crítico à hermenêutica e ao empirismo – que é vindicado. Mesmo assim, McCloskey coloca mais um ponto que vale a pena mencionar, pois ele nos lembra de que a hermenêutica moderna é um produto da disciplina de interpretação da Bíblia.[43] Em acordo com esta orientação tradicionalista, o argumento em favor da hermenêutica, em última análise, se reduz à aceitação e ao apelo acrítico à autoridade. McCloskey pede que adotemos este novo velho credo porque algumas autoridades nos dizem para fazê-lo. Em sua visão, o empirismo não está errado enquanto tal – aliás, houve um tempo em que estava tudo bem seguir a opinião empirista. Mas isso foi quando as autoridades filosóficas compraram o empirismo. Nesse meio tempo, o empirismo está em desgraça com os filósofos-reis e apenas os praticantes de ciência ainda se agarram a ele – sem perceber que a moda mudou. É boa hora, então, para mudar e seguir novos criadores de tendências. McCloskey escreve: “O argumento que Hutchinson, Samuelson, Friedman, Machlup e seus seguidores dão para adotar a metafísica deles era um argumento de autoridade, correto à época, a saber, de que isto era o que os filósofos estavam dizendo. A confiança na filosofia foi um erro tático, porque a própria filosofia estava mudando enquanto eles falavam” (p. 12). E o mesmo se aplica à matematização da Economia. Uma vez já foi boa; agora está se tornando ruim. Os ventos da moda mudaram e é melhor prestar atenção a isto. “Os economistas antes da chegada da matemática caíram precipitadamente … em confusões que um pouco de matemática teria aclarado.” Imagine que eles

“Não podiam manter claro, por exemplo, a diferença entre um movimento de toda uma curva e um movimento ao longo da curva. … Mas agora, tanto tempo depois da vitória, pode-se perguntar se a fé que a sustentava ainda serve a uma função social. Pode-se perguntar se a conversa estridente da Ciência em Economia, que serviu bem ao trazer claridade e rigor ao campo, ultrapassou sua utilidade.” (pp. 3-5)

Sem dúvida isso faz jus ao relativismo. Ainda assim, como já vimos, não há razões para aceitar tal relativismo. O relativismo é uma posição autocontraditória. E da mesma forma que é impossível defender o relativismo hermenêutico como a metodologia de hoje, também é impossível defender o empirismo-positivismo como a metodologia de ontem. O empirismo-positivismo também é uma doutrina autodestrutiva, e não apenas pelo seu monismo observacional, que não pode ser afirmado sem implicitamente admitir sua falsidade e aceitar um dualismo de fenômenos significativos e observáveis a serem compreendidos com base em nosso conhecimento da ação e da cooperação. A distinção fundamental do empirismo entre proposições analíticas, empíricas e normativas é igualmente indefensável. Qual seria então o status da própria proposição introduzindo essa distinção? Assumindo que o raciocínio empirista está correto, deve ser ou uma proposição analítica ou uma empírica, ou então deve ser uma expressão de emoções. Se for entendido como analítica, então de acordo com sua própria doutrina é apenas um jogo de palavras, não dizendo nada sobre o mundo real, mas apenas definindo um som ou sinal por outro, e então bastaria retrucar “e daí?” A mesma resposta seria adequada se, ao invés disso, a proposição empirista básica for entendida como empírica. Pois, se fosse assim, não apenas teria de se admitir que a proposição pode muito bem estar errada. Mais decisivamente, como uma proposição empírica, o máximo que ela poderia afirmar seria um fato histórico, e então ela seria totalmente irrelevante para determinar se seria ou não impossível algum dia produzir quer proposições verdadeiras a priori que não fossem analíticas, quer proposições normativas que não fossem emotivas. E, finalmente, se a linha de pensamento empirista for tomada como um argumento emotivo, então, de acordo com suas próprias afirmações, ela seria cognitivamente sem significado e não se teria de prestar atenção a isso mais do que ao ladrar de um cão. Portanto, novamente se teria de concluir que o empirismo-positivismo é um fracasso total. Se estivesse correta, sua premissa básica não poderia sequer ser afirmada como uma proposição cognitivamente expressiva; e, se isso pudesse ser dito e o empirismo estivesse, de fato, afirmando aquilo que pensávamos desde o início, então a distinção analítico-empírico-normativo estaria provada falsa pela própria afirmação que a introduziu.[44]

Como, então, poderia ser correto seguir uma doutrina falsa? Conceber a ciência econômica, ou mais precisamente as ações, como o empirismo faz, e por conseguinte tratar fenômenos econômicos como variáveis observáveis, mensuráveis e tratáveis por raciocínio matemático, sempre foi errado. E o surto de positivismo em Economia jamais poderia ter aclarado isso, mas, desde o início, ajudou a introduzir cada vez mais falsidades no campo.

sim conhecimento empírico que seja válido a priori. E este conhecimento nos diz que nunca foi correto representar relações entre fenômenos econômicos em termos de equações que contenham a hipótese de constantes causais empíricas, porque conceber ações como sendo causadas por e previsíveis com base em variáveis antecedentes é contraditório. O mesmo conhecimento a priori, ademais, mostra-nos que é sempre incorreto conceber variáveis econômicas como grandezas observáveis. Pelo contrário, todas as categorias da ação devem ser entendidas como existindo apenas como interpretações subjetivas de eventos observáveis. O fato de que conhecimento e conversa são elementos de um agente, sendo restringidos por nossa natureza enquanto agentes, não pode ser observado, mas deve ser compreendido. Nem a causalidade nem o tempo objetivo podem ser simplesmente observados, mas nosso conhecimento deles deve ser baseado em nossa compreensão a priori do que é agir. E assim é também a respeito das outras categorias econômicas, como principalmente Mises demonstrou. Não há valores a serem observados, mas coisas podem ser compreendidas como valiosas apenas por causa de nosso conhecimento a priori da ação. Na verdade, também não pode ser observado que ações existem, mas deve ser compreendido. Não pode ser observado que com cada ação um agente busca um objetivo e qual seja seu objetivo; o fato de ser buscado por um agente mostra que ele atribui um valor maior a este do que a qualquer outro objetivo de ação que ele, no começo de sua ação, poderia pensar. Além disso, não se pode observar nem que, a fim de atingir seu objetivo mais valioso, um agente deve interferir (ou decidir não interferir) em um ponto anterior do tempo para produzir algum resultado posterior, e nem que estas interferências invariavelmente implicam o uso de alguns meios escassos (ao menos o corpo do agente, o lugar onde este se encontra e o tempo gasto na interferência).  Não é observável (1) que esses meios também devem ter um valor para um agente – um valor derivado do valor do objetivo –, porque o agente deve considerar seu uso necessário para efetivamente atingir seu objetivo, e (2) que ações só podem ser realizadas sequencialmente, sempre envolvendo uma escolha (i.e., tomar um curso de ação que em algum ponto do tempo promete o resultado mais valorizado para o agente e, ao mesmo tempo, excluir a realização de outros objetivos menos valorizados).  Não pode ser observado que como uma consequência de ter de fazer escolhas e preferir um objetivo a outro – de não estar apto a atingir todos os objetivos simultaneamente – toda e qualquer ação implica incorrer em custos (i.e., renunciar ao valor atribuído ao objetivo alternativo mais valioso que não possa ser realizado ou cuja realização deve ser adiada porque os meios necessários para atingi-lo estão voltados à produção de outro fim ainda mais valioso). E, por último, não é observável que em seu início todo objetivo deve ser considerado (1) mais valioso para o agente que seus custos e (2) capaz de render um lucro (i.e., um resultado cujo valor é classificado em um grau superior às oportunidades renunciadas; e ainda assim toda ação está aberta à possibilidade de um prejuízo se o agente considerar, em retrospecto, que o resultado realmente atingido – contrário a expectativas prévias – de fato tem um valor menor que o da alternativa renunciada teria).

Todas essas categorias (valores, fins, meios, escolha, preferência, custo, lucro e prejuízo, tempo, causalidade) estão implicadas no conceito de ação. Ser capaz de interpretar experiências em tais categorias requer que já se conheça o que significa agir. Ninguém que não seja um agente poderia entendê-las, pois elas não são “dadas”, prontas para serem experimentadas, mas a experiência é expressa em termos dessas categorias conforme é construída por um agente. E, então, tratar esses conceitos, como o faria o empirismo-positivismo, como coisas se estendendo no espaço e permitindo mensurações quantificáveis é errar inteiramente o ponto. O que quer que possa ser explicado segundo a opinião empirista não tem nada que ver com explicar ações e experiências presentes nas categorias da ação. Estas categorias são inescapavelmente subjetivas. E mesmo assim elas representam conhecimento empírico pois são organizações conceituais de eventos e ocorrências reais. Elas não são apenas definições verbais; são definições reais de coisas reais e observações reais.[45] Ademais, elas não são apenas conhecimento empírico; contrariamente a todas as aspirações relativistas, elas incorporam conhecimento empírico válido a priori. Pois seria claramente impossível refutar sua validade empírica, visto que tentar fazê-lo seria em si mesmo uma ação visando a um objetivo, requerendo meios, excluído outros cursos de ação, incorrendo em custos e sujeitando o agente à possibilidade de atingir ou não atingir o objetivo desejado e, desse modo, rendendo lucro ou causando um prejuízo. A própria posse desse conhecimento não pode ser contestada, e a validade desses conceitos não pode jamais ser falseada por nenhuma experiência contingente, uma vez que contestar ou falsear qualquer coisa já pressupõe a própria existência deles. Na verdade, a situação em que essas categorias deixariam de ter uma existência real jamais poderia ser observada, pois fazer uma observação é em si mesmo uma ação.

O raciocínio econômico tem seus fundamentos nesse conhecimento a priori do significado da ação.[46] Diz respeito a fenômenos que, ainda que existindo objetivamente, não podem ser sujeitos a mensurações físicas, mas que devem ser compreendidas como eventos conceitualmente distintos. E diz respeito a fenômenos que não podem ser previstos baseando-se em causas operando constantemente; e nosso conhecimento preditivo sobre esses fenômenos, consequentemente, não se pode dizer constrangido por leis empíricas contingentes (i.e., leis que teriam de ser descobertas por meio de experiências a posteriori). Em vez disso, diz respeito a objetos e eventos que são constrangidos pela existência de restrições e leis praxeológicas ou lógicas válidas a priori (i.e., leis cuja validade é completamente independente de qualquer tipo de experiência a posteriori). O raciocínio econômico consiste em (1) uma compreensão das categorias da ação e do significado de mudanças de valores, preferências, conhecimento, meios, custos, lucro ou prejuízo, e assim por diante; (2) uma descrição de uma situação na qual estas categorias assumem significados específicos e indivíduos específicos são descritos como agentes, com coisas definidas especificadas como seus objetivos, meios, lucros e custos; e (3) uma dedução lógica das consequências que resultam da introdução de alguma ação especificada nesta situação, ou das consequências que resultam para um agente caso esta situação seja alterada de uma maneira especificada. Desde que não haja falhas no processo de dedução, as conclusões a que esse raciocínio chega são válidas a priori porque sua validade é, em última análise, oriunda do incontestável axioma da ação. Se a situação e as mudanças introduzidas nelas são fictícias ou hipotéticas, então as conclusões são verdadeiras a priori apenas para um mundo possível. Se, por outro lado,  a situação e as mudanças situacionais podem ser identificadas como reais, percebidas e conceituadas enquanto tais, por agentes reais, então as conclusões são proposições verdadeiras a priori sobre o mundo como ele realmente é. E essas conclusões realistas, que são o principal interesse dos economistas, agem como restrições lógicas sobre nossas atuais predições quanto a eventos econômicos futuros. Elas não garantem predições corretas – mesmo que as suposições empíricas estejam de fato corretas e as deduções perfeitas – porque na realidade pode haver todos os tipos de mudanças situacionais acontecendo simultaneamente ou seguindo a mudança explicitamente introduzida nas informações do mundo das ações. E embora elas afetem o contorno das coisas por acontecer (e cancelem, aumentem, diminuem, acelerem ou desacelerem os efeitos vindo de outras fontes), essas mudanças simultâneas não podem em princípio ser previstas ou mantidas experimentalmente constantes, porque conceber conhecimento subjetivo (cuja mudança sempre tem um impacto sobre a ação) como previsível baseado em variáveis antecedentes e como capaz de ser mantido constante é um absurdo total. O experimentador que quisesse mantê-lo constante teria, de fato, que pressupor que o seu próprio conhecimento, especificamente seu conhecimento sobre o resultado do experimento, não poderia ser suposto como constante ao longo do tempo. Entretanto, enquanto eles não podem tornar certo nenhum evento econômico futuro ou mesmo previsível com base em uma fórmula, tais conclusões a priori, não obstante, restringem sistematicamente o escopo de previsões corretas possíveis. Previsões que não estejam em acordo com esse conhecimento seriam sistematicamente falhas e levariam a um número sistematicamente crescente de erros de prognóstico – não no sentido de que qualquer um que baseasse suas previsões em raciocínios praxeológicos corretos teria de necessariamente ser um melhor previsor de eventos econômicos futuros do que alguém que chegasse a suas previsões por meio de deliberações e cadeias de raciocínios logicamente falhos, mas no sentido de que no longo prazo, ceteris paribus, o primeiro grupo de prognosticadores teria, na média, um melhor registro que o segundo.

Acerca de qualquer previsão específica, é bem possível errar apesar da identificação correta de uma mudança situacional como descrita em termos das categorias a priori da ação e da correta análise das consequências praxeológicas desta mudança, porque pode se errar sobre a própria identificação de outras mudanças concomitantes. É igualmente possível chegar a previsões corretas apesar do fato de as inferências derivadas de descrições corretas de mudanças situacionais estarem praxeologicamente erradas, porque outros eventos simultâneos podem ser de tal tipo que contrabalanceiem esta avaliação errada das consequências. No entanto, se for suposto que, na média, prognosticadores com ou sem um entendimento sólido das constantes e leis praxeológicas são igualmente bem equipados para antecipar essas mudanças simultâneas nas informações do mundo das ações e para levá-las em conta em suas predições, então o grupo de prognosticadores que faz suas predições em acordo com essas leis e reconhecendo-as será mais bem sucedido do que aquele que não o fizer.

Como o são todos os teoremas econômicas, a lei da demanda (que causa aos empiristas bem como aos hermeneutas um mal-estar considerável por causa de sua posição central apoditicamente suposta na ciência econômica) é uma restrição verdadeira a priori a predições atuais acerca das consequências de certas ações. O empirismo diz-nos para concebermos isso como uma hipótese falseável em princípio relativa às consequências de mudanças de preços. Porém, se aceitamos isso e testamos empiricamente a lei, frequentemente verificamos que um aumento de preços, por exemplo, está associado a um aumento na quantidade demandada, ou que uma diminuição do preço é acompanhada de uma demanda reduzida. A lei vigora às vezes e para alguns bens, mas noutras vezes para os mesmos ou outros bens não vigora. Então como, conclui o empirismo, podem os economistas atribuir a essa lei a posição axiomática que ela ocupa em teoria econômica e construir uma rede complexa de pensamento baseado nela? Fazer isso deve parecer ao empirista nada além de metafísica ruim, que precisa ser extirpada da disciplina tão cedo quanto possível a fim de trazer a ciência econômica de volta ao caminho correto.[47]

A hermenêutica não é mais bem sucedida em justificar a lei da demanda. McCloskey entende que o argumento empirista em favor da lei é, no mínimo, fraco. Mesmo assim, ele acredita ser aceitável aderir a ela – como, a despeito de seu empirismo professado, faz a maioria dos economistas – porque a lei da demanda é alegadamente persuasiva à luz de outras evidências hermenêuticas (pp. 58-60). Esta evidência auxiliar supostamente vem da “introspecção”, de “experimentos mentais” e casos históricos ilustrativos; há o fato persuasivo de que “homens de negócios” acreditam na lei, além de “muitos economistas sábios”; a “simetria da lei” a torna esteticamente atraente; “mera definição” adiciona força; e “sobretudo, há analogia. A Lei da Demanda ser verdadeira para sorvete e cinema, como ninguém negaria, a faz mais persuasiva também para gasolina” (p. 60). Nada disso, entretanto, poderia fundamentar melhor a lei da demanda e dar-lhe a autoridade que ela com efeito parece impor. Para deixar claro, é a introspecção que é a fonte de nosso conhecimento da lei da demanda. Esta lei específica não é mais fundada em observações do que as leis da lógica e da matemática. Ainda assim, introspecções enquanto tais, ou experimentos mentais, não podem fundamentar a lei da demanda mais do que evidências observacionais poderiam. Evidência introspectiva também não é outra coisa senão experiência contingente. Aqui e agora alguém chega a este pensamento, e depois e lá alguém chega ao mesmo ou a outro. Como o próprio McCloskey afirma, “se apropriadamente socializadas em ciência econômica”, introspecção e experimentação mental tornam a lei altamente persuasiva (p. 59). Mas então, mutatis mutandis, se a lei não for tão socializada, introspecção pode tornar a lei bem menos atraente. Então, no entanto, introspecção enquanto tal dificilmente pode prestar qualquer apoio sistemático. Na verdade, apelar à evidência introspectiva dos economistas equivaleria a desvirtuar a questão, pois teria de se explicar porque, em primeiro lugar, se deveria aceitar essa socialização econômica ou lavagem cerebral. Da mesma forma, histórias de casos ou convicções de certos homens de negócios ou, ainda, de economistas sábios não são prova de nada. Critérios estéticos e meras definições também não têm valor epistemológico. E conclusões per analogiam só são conclusivas se a própria analogia puder ser dita correta – além do fato de que certamente não seria impossível para alguém dizer que a lei da demanda não soa persuasiva nem mesmo para sorvete e cinema.[48] Logo, a hermenêutica não oferece nada de substantivo para vindicar nossa crença na lei da demanda.

E, no entanto, a lei da demanda é objetivamente verdadeira apesar do fato de que não é baseada em experiências contingentes externas ou internas. Pelo contrário, seu fundamento jaz em nossa compreensão introspectiva da ação como o pressuposto prático de nossas experiências externas, bem como internas, e no reconhecimento do fato de que esta compreensão deve ser considerada como epistemologicamente anterior a qualquer ato contingente de compreensão, uma vez que não poderia ser falsificada por ele.  O fato de que, a fim de trocar unidades sucessivas do bem A por unidades sucessivas do bem B, a relação de troca de A por B deve cair obedece à lei da utilidade marginal: enquanto o suprimento de A diminui e a utilidade marginal de uma unidade de A aumenta, o suprimento de B aumenta e a utilidade marginal de B diminui, e portanto unidades sucessivas de A se tornarão trocáveis por unidades sucessivas de B apenas se, contrabalanceando essas mudanças divergentes na avaliação de As e Bs que resultam de cada troca, B se tornasse sucessivamente mais barato em termos de A. E como o fundamento da lei da demanda, essa lei da utilidade marginal também é inferida diretamente da proposição inegavelmente verdadeira de que todo agente sempre prefere aquilo que o satisfaz mais àquilo que o satisfaz menos.[49] Pois então qualquer aumento no suprimento de um bem homogêneo (i.e., um bem cujas unidades são consideradas intercambiáveis e de igual serventia) em uma unidade adicional pode ser empregado apenas como um meio para a realização de um fim que é considerado menos valioso (ou a remoção de uma inquietação que seja considerada mais urgente) que o objetivo menos valioso satisfeito por meio de uma unidade desse bem se o suprimento fosse de uma unidade a menos.[50] E, como se requer de qualquer lei a priori e independente de quaisquer experiências contingentes, essa lei delineia precisamente seu escopo de aplicação e explica que possíveis ocorrências não podem ser consideradas exceções ou eventos falseadores. Em primeiro lugar, a validade da lei da utilidade marginal não é de modo algum afetada pelo fato de que a utilidade marginal de um bem pode aumentar, bem como diminuir, ao longo do tempo. Se, por exemplo, um uso até então desconhecido de uma unidade de algum bem for considerada mais valiosa que o uso presente menos urgente de uma unidade deste bem, a utilidade derivada do emprego marginal seria maior agora do que antes. Ainda assim, apesar deste aumento na utilidade marginal, não há dúvidas sobre algo como a lei da utilidade marginal crescente. Pois não apenas o agente cujo suprimento do bem em questão foi inalterado e que realizou tal emprego teve de renunciar a algum desejo previamente satisfeito a fim de satisfazer outro; ele renunciou ao menos urgente. Além disso, se, com este novo estado de coisas acerca do conhecimento de um agente sobre os empregos possíveis para unidades de um dado bem, o suprimento do bem aumentasse em uma unidade adicional, sua utilidade marginal diminuiria, pois seria empregada para satisfazer precisamente aquele desejo que previamente teve de ser excluído da satisfação por causa de sua urgência relativamente menor.

Nem é uma exceção à lei da utilidade marginal decrescente que um aumento no suprimento de um bem de n para n+1 unidades pode levar a um aumento na utilidade atribuída a uma unidade deste bem se este suprimento maior, considerado e avaliado como um todo, puder ser empregado para a satisfação de uma necessidade considerada mais valiosa que o valor atribuído à toda a satisfação que poderia ser obtida se as unidades do suprimento fossem cada uma empregadas separadamente para os vários fins que poderiam ser conseguidos por meio de uma unidade individual deste bem.[51] Entretanto, nesse caso, o aumento no suprimento não seria de unidades de suprimento consideradas como igualmente úteis, porque as unidades não mais seriam avaliadas separadamente. Pelo contrário, ao aumentar o suprimento de n para n+1, um bem diferente de unidade maior seria criado, o qual seria avaliada enquanto tal, e a lei da utilidade marginal, então, se aplicaria a esse bem da mesma maneira que se aplicava ao bem de menor tamanho, pois a primeira unidade desse bem de tamanho n+1, de novo, seria empregada para o uso mais urgente a que esse bem desse tamanho poderia ser empregado, a segunda unidade desse bem seria empregada para o segundo fim mais importante a ser satisfeito por essa unidade desse tamanho, e assim por diante.

A lei da demanda, então, visto que fundada nesse teorema válido a priori, nunca fez a previsão desqualificada de que menos de um bem será comprado se seu preço aumentar. Pelo contrário, ela afirma que será assim apenas ceteris paribus, i.e., se nenhum aumento na demanda pelo bem em questão ocorrer ao longo do tempo e se o aumento no seu suprimento não criar uma unidade maior de um bem diferente e, mutatis mutandis, a demanda por dinheiro não diminuir nem seu suprimento menor criar unidades menores de dinheiro.[52] Uma vez que é impossível ter uma fórmula que permita predizer se tais mudanças ocorreram ou não simultaneamente com o dado aumento no preço (tais mudanças sendo dependentes dos estados futuros de conhecimento das pessoas, e conhecimento futuro sendo em princípio imprevisível baseado em causas operando constantemente), esse conhecimento a priori, então, tem um uso bastante limitado para o negócio de predizer o futuro econômico. Não obstante, ele age como uma restrição lógica sobre as predições, pois de todos os prognosticadores que igualmente imaginam de forma correta que esta mudança simultânea não acontecerá, apenas aquele que reconhecer a lei da demanda fará de fato uma previsão correta, enquanto aquele cujas convicções estão em desarmonia com a lei estará às cegas. Esta é a lógica das previsões econômicas e a função do raciocínio praxeológico.

O empirismo recomenda a lei da demanda porque ela parece supostamente boa – mas não podemos vê-la, nem ela sobreviveria a testes empíricos. A hermenêutica, por outro lado, a recomenda porque ela supostamente soa bem – embora mal para alguns. E sem algum critério extralinguístico objetivo de distinção entre bom ou mau, é impossível dizer mais em apoio à lei da demanda do que já foi dito.

Os austríacos, como deve estar claro agora, não têm nenhuma razão para levar a sério nem a velha moda empirista nem a nova moda hermenêutica. Em vez disso, eles deveriam levar mais a sério do que nunca a posição do racionalismo extremo e da praxeologia como esposada sobretudo pelo “doutrinário” Mises, não importa quão essa posição possa parecer fora de moda.

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Notas

[1] Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1979.

[2] Esta é também a tese de um livro de Paul Feyerabend, Wissenschaft als Kunst  Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1984).

[3] Veja a entrevista com McCloskey no Institute for Humane Studies Newsletter Institute Scholar, vol. 6, no. 1 (1986): 7.

[4] Sobre o “A priori da Argumentação”, veja K.O. Apel, Transformation der Philosophie, vol. II (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1973).

[5] Em conexão com o movimento hermeneuta, a expressão permissividade intelectual foi cunhada por Henry Veatch no seu ensaio “Deconstruction in Philosophy: Has Rorty Made it the Denouement of Contemporary Analytical Philosophy?” Review of Metaphysics, 39, December 1985.

[6] McCloskey pergunta: “Não precisamos de algo … além do mero fato social de que um argumento provou-se persuasivo?” Não, ele contrapõe, “fala contra fala é autorrefutável. A pessoa ao fazer isso [i.e., levantando a questão precedente] apela a um padrão social não epistemológico de poder de persuasão pelo próprio ato de tentar convencer alguém de que a mera persuasão não é o bastante” (pp. 38-39).

Ironicamente, porém, esse argumento não prova seu ponto. Ao contrário, o argumento pode ser dito persuasivo somente porque uma posição autocontraditória é considerada falsa, e não considerado falso porque obteve concordância. Caso contrário, se eu não concordasse, o argumento não teria de ser considerado falso?

[7] Sobre a inseparável conexão entre linguagem e ação, veja esp. Ludwig Wittgenstein, Philosophische Untersuchungen, in Schriften, vol. I (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1963).

[8] Sobre isso, veja também H. Veatch (note 5), esp. p. 319f.

[9] De jeito nenhum é um acidente, então, que defensores de cada ideologia política concebível podem ser achados entre os hermeneutas. O credo se encaixa com o libertarianismo e anarquismo (McCloskey e Feyerabend), com o socialismo (Ricoeur e Foucault) e com o fascismo (Heidegger), bem como com o “em-cima-do-murismo”, na maioria dos casos. Gadamer – o herói especial de Don Lavoie e dos hermeneutas da George Mason University e um dos “pensadores” mais sombrios dentre todos eles, que consegue preencher centenas de páginas sem dizer nada e que divaga infinitamente acerca de interpretação sem nunca realmente interpretar texto algum de um maneira inteligível (testemunhe sua obra-prima, Wahrheit und Methode, Tubingen: Mohr, 1960; English transl., 1975) – avançou bem sucedidamente sua carreira sob o nazismo, o comunismo e a democracia liberal. Sobre sua filosofia e sua vida como uma ilustração vívida do significado da hermenêutica, veja o brilhante ensaio de Jonathan Barnes, “A Kind of Integrity” London Review of Books, November 6, 1986; veja também David Gordon, “Hermeneutics vs. Austrian Economics”, Occasional Paper (Ludwig von Mises Institute, Washington, D.C., 1986).

[10] Sobre os fundamentos a priori absolutos da ética, veja Hans-Hermann Hoppe, “From the Economics of Laissez Faire to the Ethics of Libertarianism,” in Man, Economy and Liberty, Llewellyn H. Rockwell and Walter Block, eds., Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1988; Hoppe, Eigentum, Anarchie und Stoat, Opladen: Westdeutscher Verlag, 1986. O absolutismo ético, tanto quanto o absolutismo epistemológico, está muito em descrédito. T. W. Hutchison {The Politics and Philosophy of Economics, New York: New York Press, 1981, esp. pp. 196-97) vai tão longe que chega a rotular todos os comprometidos com essa posição como perigosos ditadores em potencial – reveladoramente, sem nunca ir ao problema de explicar quais são os princípios éticos e metodológicos cuja fundamentação a priori alegadamente implica tal ameaça. Em vez disso, o pluralismo – ético e metodológico – é o que o iluminado professa hoje. Somente esse pluralismo, diz-se, permite tolerância e liberdade. (Veja como outro pluralista típico Bruce Caldwell, Beyond Positivism, , London: Allen & Unwin, 1982, capítulo 13.) Deve-se salientar que essa doutrina é falaciosa? Sem um fundamento a priori, o pluralismo é só outra ideologia infundada e não há razão para adotá-lo em lugar de qualquer outra. Apenas se pudessem ser dadas razões válidas a priori para se adotar o pluralismo é que este poderia alegar salvaguardar tolerância e liberdade. Um pluralismo que fosse meramente apenas plural de valores na verdade seria destrutivo para o dois. Sobre isso em particular veja Henry Veatch, Rational Man: A Modern Interpretation of Aristotelian Ethics (Bloomington: Indiana University Press, 1962), pp. 37-46. Em contraste com nossos pluralistas modernos, Benito Mussolini entendeu tudo isso muito bem. Veatch cita-o na p. 41: “Do fato de que todas as ideologias são de igual valor … os relativistas modernos inferem que todo mundo tem o direito de criar para si mesmo a própria ideologia e tentar impingi-la com toda a energia de que dispõe.”

[11] Em defesa da ideia de proposições sintéticas a priori, veja A. Pap, Semantics and Necessary Truth (New Haven: Yale University Press, 1958); B. Blanshard, Reason and Analysis (LaSalle, 111.: Open Court, 1964); P. Lorenzen, Methodisches Denken (Frankfurt/M.: Suhrkamp 1968); P. Lorenzen, Normative Logic and Ethics (Mannheim: Bibliographisches Institut, 1969); F. Kambartel, Erfahrung und Struktur (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1968); F. Kambartel and J. Mittelstrass, eds., Zum normativen Fundamentder Wissenschaft (Frankfurt/M.: Athenaeum, 1973); Ludwig von Mises, Human Action (Chicago: Henry Regnery, 1966); Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State (Los Angeles: Nash, 1971).

[12] Sobre a defeituosa razão para o uso de tais rótulos, veja a nota 10. Recentemente seu uso tornou-se crescentemente popular entre os austríacos como Mario Rizzo e Don Lavoie para caracterizá-los e distanciá-los da escola de Mises-Rothbard dentro da tradição austríaca.

[13] Ludwig von Mises, Epistemological Problems of Economics (New York: New York University Press, 1981); Mises, Human Action, (Chicago: Henry Regenery, 1966); Mises, Theory and History (Washington, D.C.: Ludwig von Mises Institute, 1985); Mises, The Ultimate Foundation of Economic Science (Kansas City: Sheed Andrews and McMeel, 1978); Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State (Los Angeles: Nash, 1971); Rothbard, Individualism and the Philosophy of the Social Sciences (San Francisco: Cato Institute, 1979); Rothbard, “Praxeology: The Methodology of Austrian Economics”, em Edwin Dolan, ed., The Foundations of Modern Austrian Economics (Kansas City: Sheed & Ward, 1976).

[14] London: Macmillan, 1932.

[15] Cambridge, England: Cambridge University Press, 1975

[16] Lionel Robbins, assim como os antigos austríacos Carl Menger e Eugen von Böhm-Bawerk, admitidamente não usa o termo a priori, mas deveria ser suficientemente claro a partir de seus argumentos, bem como a partir de suas frequentes e aprovadoras referências a Mises (que usa o termo) que Robbins na verdade quer dizer que fornece [means to provide] uma justificação a priori para as proposições e teoremas básicos da Economia.

O caráter apriorístico das proposições econômicas é explicitamente salientado por Frank H. Knight em “What Is Truth in Economics”, em On the History and Method of Economics (Chicago: University of Chicago Press, 1956).

Para aqueles familiarizados com a tradição da filosofia racionalista, dificilmente é preciso mostrar que a afirmação de que se produziu uma proposição verdadeira a priori não implica que a afirmação é infalível. Nenhuma é, e o racionalismo nunca disse nada em contrário. O racionalismo meramente argumenta que o processo de validação ou falseamento de uma afirmação reivindicando ser verdadeira a priori é categoricamente diferente do processo de validação ou falseamento do que é comumente referido como uma proposição empírica. Porém, McCloskey parece pensar que o racionalismo assume-se infalível e, por isso, que o fato (triunfalmente citado em pp. 33-34) de que, mesmo numa ciência tão pura como a matemática, alguns argumentos alegados à prova d’água acabaram, no final, sendo inconclusivos constitui prova de uma falha fundamental no racionalismo – assumindo-se aqui em favor de McCloskey que algo como falhas fundamentais podem existir na ausência de qualquer padrão verdadeiramente objetivo: esse ponto precisa ser realçado aqui. As próprias revisões de argumentos matemáticos são a priori. Elas mostram apenas que um argumento pensado anteriormente ser verdadeiro a priori não era.

[17] Sua descrição da metodologia econômica marxista, na mesma página, não é muito melhor.

[18] Karl R. Popper, para distinguir seu falsificacionismo do verificacionismo do antigo Círculo de Viena, prefere rotular sua filosofia de “racionalismo crítico”. Fazer isso, no entanto, é altamente enganoso, se não ilusório; é muito semelhante à prática nos EUA de chamar socialistas e social-democratas de “liberais”. Pois na verdade Popper está em completo acordo com as suposições fundamentais do empirismo (veja a discussão seguinte no texto) e rejeita explicitamente as afirmações tradicionais do racionalismo, i.e., de ser capaz de nos fornecer um conhecimento empírico verdadeiro a priori no geral e uma ética objetivamente fundamentada no particular. Veja, por exemplo, seu “Why Are the Calculi of Logic and Arithmetic Applicable to Reality”, em Karl R. Popper, Conjectures and Refutations (London: Routledge & Kegan Paul, 1969), onde ele desenvolve a tese empirista tradicional de que “somente quando estamos prontos para aceitar refutações é que estamos falando da realidade” (p. 212) e “refuta” a ideia de as regras da lógica e aritmética serem leis da realidade apontando que “se você colocar 2 + 2 coelhos numa cesta, você pode em breve achar sete ou oito dentro dela” (p. 211). Para uma correta localização da filosofia de Popper dentro do quadro geral do empirismo, veja a suprema discussão por um importante filósofo analítico, W. Stegmueller, Hauptstroemungen der Gegenwartsphilosophie, vol. I (Stuttgart: Kroener, 1965), capítulos 9-10.

Na verdade, só é justo dizer que foi Popper quem contribuiu mais que qualquer outro para persuadir a comunidade científica a adotar uma visão de mundo modernista e empirista-positivista. Deveria ser enfatizado, em particular, que foi Popper o responsável pelos crescentes desvios de Hayek e Robbins de suas posições metodológicas originalmente muito mais misesianas. Sobre isso veja Lionel Robbins, An Autobiography of an Economist (London: Macmillan, 1976); Friedrich A. Hayek, “The Theory of Complex Phenomena,” em Hayek, Studies in Philosophy, Politics and Economics (Chicago: University of Chicago Press, 1964); Hayek, “The Pretence of Knowledge,” em Hayek, New Studies in Philosophy, Politics, Economics and the History of Ideas (Chicago: University of Chicago Press, 1978), esp. p. 31f. Veja também o “Einleitung” de Hayek para Ludwig von Mises, Erinnerungen (Stuttgart: Fischer, 1978), e seu “Foreword” para Ludwig von Mises, Socialism (Indianapolis: Liberty Fund, 1981).

[19] Terence W. Hutchison, The Significance and Basic Postulates of Economic Theory (London: MacMillan, 1938); Milton Friedman, “The Methodology of Positive Economics”, em Friedman, Essays in Positive Economics (Chicago: University of Chicago Press, 1953); Mark Blaug, The Methodology of Economics (Cambridge, England: Cambridge University Press, 1980).

[20] Sobre isso veja a excelente discussão em Martin Hollis and Edward J. Nell (nota 15), “Introduction”.

[21] Chicago: University of Chicago Press, 1970.

[22] Sobre isso veja as mordazes observações de Mises, Human Action, p. 872f., “Economics and the Universities”.

[23] A numenclatura correta é “Herr Professor Doktor”.

[24] Veja Imre Lakatos e Alan Musgrave, eds., Criticism and the Growth of Knowledge (Cambridge, England: Cambridge University Press, 1970). Empiristas como Blaug (nota 19), p. 17ff., argumentam que Popper na verdade percebeu a possibilidade de “estratagemas imunizadores” e já “resolveu” esse problema, escapando assim ao relativismo e ceticismo. Nada poderia estar mais distante da verdade. É correto que Popper sempre esteve ciente da possibilidade de se imunizarem hipóteses contra o falsificacionismo. (Veja seu Logik der Forschung, Tubingen: Mohr, 1969, capítulo 4, sessões 19,20.) Sua resposta a tal ameaça ao falsificacionismo, porém, dificilmente pode ser aceita como uma solução. Pois na realidade ele admite que não pode mostrar que esse “convencionalismo” está errado. Ele simplesmente propõe superar isso pela adoção da convenção metodológica de não se comportar como convencionalistas. Mas como pode tal convencionalismo metodológico (i.e., uma metodologia sem fundamento epistemológico) alegar estabelecer a ciência como uma empreitada racional e estimular o progresso científico? Para uma avaliação como essa do popperianismo, veja A. Wellmer, Methodologie als Erkenntnistheorie (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1967). Desse modo mantém-se a anterior classificação do popperianismo como relativismo e ceticismo.

[25] Veja Paul Feyerabend, Against Method (London: New Left Books, 1975); Feyerabend, Science in a Free Society (London: NLB, 1978).

[26] Sobre a complexa relação entre Feyerabend e Popper, veja H.P. Duerr, ed., Versuchungen. Aufsaetze zur Philosophie Feyerabends, 2 vols. (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1980).

[27] Estritamente falando, tal refutação empírica não seria inteiramente decisiva e seriam requeridas outras razões a priori para acabar com o empirismo. (Sobre essas razões, veja a discussão seguinte no texto.) Pois empiristas poderiam em retorno contestar a validade da descrição do fatos como não sendo efetivamente fatos do progresso tecnológico. Eles poderiam, dado seu próprio quadro, negar que se podem conhecer até mesmo fatos pequenos, fenômenos muito menos complexos que o progresso tecnológico, porque mesmo a descrição de algo como um fato poderia, em última instância, ser hipotético e por isso a alegada refutação empírica poderia não ser crucial em nenhum senso estrito. Sobre o caráter hipotético de proposições básicas, veja Karl Popper, Logik der Forschung (Tubingen: Mohr, 1969), capítulo V e apêndice X. Ironicamente, o caráter hipotético das proposições básicas invalida a afirmação de Popper, fundamental para sua filosofia falsificacionismo inteira, de que existe uma relação assimétrica entre verificacionismo e falsificacionismo (i.e., de que nunca se pode verificar a hipótese, mas falseá-la). Sobre isso veja A. Pap, Analytische Erkenntnistherie (Wien, 1955).

[28] Veja também Juergen Habermas, “Der Universalitaetsanspruch der Hermeneutik”, em K.O. Apel et al., Hermeneutik und Ideologierkritik (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1976), esp. pp. 129-31.

[29] Veja Hans-Hermann Hoppe, Handeln und Erkennen (Bern: Lang, 1976).

[30] Sobre isso veja W. Stegmueller, Hauptstroemungen der Gegenwartsphilosophie, vol. II (Stuttgart: Kroener, 1975), capítuo 5, esp. pp. 523ff.

[31] Sobre isso veja também Juergen Habermas, Erkenntnis und Interesse (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1968), esp. capítulo II, sessões 5-6; e K.O. Apel, Die Erkaeren: Verstehen Kontroverse in Transzendental-pragmatischer Sicht (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1979), esp. p. 284.

[32] Sobre isso veja também K.O. Apel, “Die Entfaltung der Sprachanalytischen Philosophic und das Problem der Geisteswissenschaften”, em Apel, Transformation der Philosophie, vol. II (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1973); Apel (nota 31).

[33] Sobre isso veja também Hans-Hermann Hoppe (nota 29), capítulo 3 e esp. pp. 62-65; também Immanuel Kant, Kritik der reinen Vernunft, em Kant, Werke, vol. II, W. Weischedel, ed., (Wiesbaden: Insel, 1956), esp. p. 226ff

[34] Vale a pena enfatizar aqui que essas observações sobre as conclusões céticas, relativistas, do empirismo com respeito à possibilidade de previsão também aplicam-se totalmente ao popperianismo. Popper, com grande auto-confiança, alega ter resolvido – por meio da adoção do falsificacionismo – o problema humeano da indução e desse modo ter restabelecido a ciência como uma empreitada racional. (Veja em particular Karl R. Popper, Objective Knowledge, Oxford, England: Oxford University Press, 1972, p. 85ff.) Infelizmente, isso é simplesmente uma ilusão. Pois como pode ser possível relacionar duas ou mais experiências observacionais, ainda que digam respeito a relações entre coisas notadamente idênticas ou parecidas, como uma falseando (ou confirmando) a outra, em vez de meramente registrá-las de maneira neutra como uma experiência aqui e outra ali, sendo uma a repetição da outra ou não, e deixar isso assim mesmo (i.e., considerá-las logicamente incomensuráveis), a menos que se tenha pressuposto a existência de causas operacionais constantes? Somente se fosse assumida a existência dessas causas operacionais constantes é que existiria qualquer razão logicamente impelidora para considerá-las comensuráveis e falseadora ou confirmadora uma da outra. Entretanto, Popper, como todos os empiristas, nega que a tal suposição possa ser dada uma defesa a priori (para ele não há proposições verdadeiras a priori sobre a realidade como teria de ser o princípio da causalidade) e a julga meramente hipotética. No entanto, claramente, se a possibilidade de causas operacionais constantes como tais é apenas hipotética, então dificilmente pode-se afirmar, como faz Popper, que toda hipótese particular preditiva pudesse ser falseada ou confirmada. Porque a falsificação (ou a confirmação) teria que ser considerada hipotética: qualquer hipótese preditiva só iria se submeter a testes cujos status de testes fossem eles mesmos hipotéticos. E assim se estaria voltando ao meio lamacento do ceticismo. Somente se o princípio da causalidade puder ser incondicionalmente estabelecido como verdadeiro é que se poderá testar qualquer hipótese causal particular, e o resultado de um teste fornecerá bases racionais para se decidir se uma dada hipótese se sustenta.

[35] Sobre essa ideia (kantiana) veja F. Kambartel, Erfahrung und Struktur (nota 11), capítulo 3, esp. pp. 122f, 127,144; Hans-Hermann Hoppe (nota 29), capítulo 4, esp. p. 98.

[36] Sobre isso veja Ludwig von Mises, Human Action (note 13), capítulo 1.5; Carl Menger, Grundsaetze der Volkswirtschaftslehre (Vienna: Braumueller, 1871), pp. 3, 7ff.

[37] Embora muito frequentemente citado como um contra-exemplo empírico, deve-se notar que a física quântica ou, mais precisamente, a indeterminação ou o princípio de Heisenberg, interpretado corretamente, está de acordo com isso. O que foi dito anteriormente não impossibilita – e essa é precisamente a situação na física quântica – que, para produzir experimentalmente um resultado, dois ou mais atos de medição devam ser feitos e que, porque quaisquer dois atos separados só podem ser feitos em sequência, a realização do último ato de medição possa mudar os resultados do anterior, de modo que, se isso se prova inevitável, os resultados em questão só vão poder ser previstos estatisticamente, e uma explicação determinista se provará impossível. Mas mesmo aqui cada ato separado de medição pressupõe a validade do princípio de constância – caso contrário, nenhum deles teria sido realizado; e a sequência de atos também pressupõe causas operacionais constantes, pois de outro modo seria simplesmente impossível repetir dois experimentos no campo da física quântica e verificar que esse é o caso. Além do mais, a experiência da física quântica está em exato acordo com a conclusão anterior relativa ao caráter da causalidade como um fenômeno produzido pela ação e como uma característica necessária (sabida ser válida a priori) da realidade. Se causas de fato só podem ser medidas e identificadas sequencialmente, por meio de ações que têm repercussões umas sobre as outras, então elas podem, em princípio, somente ser causas cuja operação constante é do tipo probabilístico – e isso, para se ter certeza, pode novamente se saber ser verdadeira a priori. A física quântica, portanto, apenas revela que casos como esse não são meramente concebíveis, mas de fato existem. Sobre isso veja F. Kambartel, Erfahrung und Struktur (nota 11), p. 138ff.; também P. Mittelstaedt, Philosophische Probleme der odernen Physik (Mannheim: Bibliographisches Institut, 1968).

[38] Human Action (nota 13), pp. 870-71.

[39] Mises corretamente enfatiza que o argumento decisivo contra previsões causais na Economia deve ser a ausência de “relações constantes” no campo das ações e do conhecimento humanos. Veja, por exemplo, Human Action (nota 13), p. 55f.

[40] Sobre o que vem em sequência veja Hans-Hermann Hoppe, Kritik der kausalwissenschaftlichen Sozialforschung (Opladen: Westdeutscher Verlag, 1983); Hoppe, “Is Research Based on Causal Scientific Principles Possible in the Social Sciences”, Ratio, XXV, no. 1, 1983.

[41] Sobre isso veja a nota 34.

[42] Curiosamente, essa prova foi primeiro formulada por Popper no prefácio de seu The Poverty of Historicism (London: Routledge & Kegan Paul, 1957). No entanto, Popper falhou em perceber que tal prova na verdade invalida a ideia de monismo metodológico e demonstra a inaplicabilidade de sua filosofia falsificacionista no campo da ação e do conhecimento humanos. Sobre isso veja Hans-Hermann Hoppe, Kritik der kausalwissenschaftlichen Sozialforschung (nota 40), pp. 44-49; K.O. Apel, Die Erklaeren: Verstehen Kontroverse (nota 31), pp. 44-46, nota 19.

[43] Sobre isso veja H. Albert, Traktat ueber kritische Vernunft (Tubingen: Mohr, 1969), esp. capítulo 5.V, VI.

[44] Mises escreve:

“A essência do positivismo lógico é negar o valor cognitivo de um conhecimento a priori apontando que todas as proposições a priori são meramente analíticas. Elas não fornecem informação nova, mas são meramente verbais e tautológicas. … Apenas a experiência pode levar a proposições sintéticas. Há uma objeção óbvia a essa doutrina, a saber, que essa proposição é em si mesma uma proposição sintética a priori – falsa, como pensa o presente escritor -, pois ela manifestamente não pode ser estabelecida pela experiência.” (The Ultimate Foundation of Economic Science [nota 13], p. 5.)

É notável observar quão absolutamente impotentes os empiristas reagiram a tais argumentos estabelecendo a defesa das proposições sintéticas a priori. Testemunhe, por exemplo, Mark Blaug, The Methodology of Economics (nota 19), pp. 91-93, onde ele se engaja num ataque total a Mises (“Os últimos escritos de Mises … sobre os fundamentos da ciência econômica são tão excêntricos e idiossincráticos que nós podemos apenas imaginar se foram levados a sério por alguém”, p. 93) sem apresentar sequer um único argumento e sem notar o quão estranhamente sua autoconfiança e a apoditicidade com a qual ele apresenta suas declarações metodológicas antiapriorísticas contrastam com seu próprio falsificacionismo professado. A mesma discrepância entre, de um lado, uma completa falta de argumento e, do outro, arrogância apodíctica também marca sua “discussão” do Rational Economic Man de Hollis e Nell (nota 15) nas pp. 123-26.

[45] Empiristas, é claro, iriam estigmatizar essas definições como tautológicas. Porém deveria ser perfeitamente claro que a precedente definição de ação é de uma natureza categoricamente distinta de uma definição como “celibatário” significando “homem não casado”. Enquanto o último é uma estipulação verbal completamente arbitrária, as proposições definindo ação com certeza não o são. Na realidade, enquanto pode-se definir qualquer coisa como se desejar, não se pode deixar de fazer a distinção conceitual entre meios e fins e assim por diante, pois “definir isso por aquilo” seria em si mesmo uma ação. Assim, é contraditório negar, como fazem os empiristas-positivistas, a existência de “definições reais”. Hollis e Nell (nota 15) observam que “definições honestas são, de um ponto de vista empirista, de dois tipos: léxicas e estipulativas” (p. 177). Mas

“Quando se trata de justificar essa visão, a nós está sendo oferecida uma definição de definição. Seja qual for a categoria de definição em que cai a definição, nós não precisamos aceitá-la como tendo qualquer valor epistemológico. De fato, não seria sequer uma tese epistemológica possível, a menos que seja léxica ou estipulativa. A visão [então] é inconveniente e autorrefutável. Uma opinião contrária com um longo pedigree é a de que existem definições “reais”, que capturam a essência da coisa definida.” (p. 178)

Veja também B. Blanshard (nota 11), p. 268f.

[46] Hollis e Nell (nota 15, p. 243) afirmam que não a “ação” mas a “reprodução do sistema econômico” é que é o conceito básico sobre o qual repousa a Economia, concebida como uma ciência a priori. Observar essa discordância entre aprioristas levou Caldwell (nota 10, p. 131ff.) à curiosa conclusão de que algo deve estar errado com o apriorismo e então ele defendeu um pluralismo não-se-comprometa-com-nada. (Veja a nota 10.) Porém esse raciocínio é tão conclusivo (ou melhor, inconclusivo) quanto, do fato de que existem desacordos entre pessoas com relação à validade de certas proposições empíricas, inferir que nenhum fato empírico existe e que por isso nenhuma ciência empírica é possível. A conclusão de Caldwell, decerto, é ainda mais curiosa, dado o fato de que na controvérsia em mãos a solução é tão clara quanto o dia: seja qual for o “sistema” econômico, este certamente não pode existir ou ser capaz de se reproduzir sem pessoas agindo. Ademais, dizer que a “reprodução do sistema” é o conceito básico para a análise econômica é manifestamente contraditório – a não ser que isso fosse simplesmente um sinônimo para dizer que a ação é tal conceito -, porque na verdade dizer isso pressuporia um agente a dizê-lo.

[47] Sobre a posição empirista acerca da lei da demanda, veja Mark Blaug (nota 19), capítulo 6.

[48] Além do mais, por que o argumento não iria também por outro caminho? Se, empiricamente, a lei da demanda parece não funcionar para certos bens, por que a analogia não nos levaria a questionar sobre os bens para os quais funciona? (Devo esse argumento a David Gordon.)

[49] Sobre isso veja Ludwig von Mises, Human Action (nota 13), p. 124.

[50] Robert Nozick (“On Austrian Methodology”, em Synthese, 36, 1977) acredita que os austríacos são inconsistentes em (1) afirmar que ações invariavelmente mostram preferência (e nunca indiferença) e (2) empregar a ideia de “homogeneidade” e “igual utilidade” de bens na sua formulação da lei da utilidade marginal (p. 37ff.). Entretanto, essa acusação somente seria correta se “preferência” e “indiferença” fossem ambas consideradas categorias do mesmo tipo.  Isso foi corretamente apontado por Walter Block (“On Robert Nozick’s ‘On Austrian Methodology'”, Inquiry, 23, 1980), que insiste que “indiferença”, ao contrário de “preferência”, não é uma categoria praxeológica. Mas sua classificação de indiferença como uma “categoria psicológica” também está incorreta. Na realidade, “semelhança” é uma categoria epistemológica: humanos são conhecedores e agentes; eles só agem porque conhecem, e só conhecem porque agem. Que algo é idêntico (ou diferente) a alguma outra coisa nós sabemos qua agentes que conhecem. (Com efeito, “semelhança” é uma categoria epistemológica universal de modo que não se poderia dizer nada, por exemplo acerca de ações, sem a noção de algo sendo um exemplo de algum tipo particular de coisa.) Que alguma coisa que é sabida ser a mesma nunca pode ser tratada com indiferença nós sabemos qua conhecedores que agem. A lei da utilidade marginal decrescente, então, é uma lei relativa a conhecedores que agem.

[51] Veja Ludwig von Mises, Human Action (nota 13), p. 125; M.N. Rothbard, Man, Economy, and State (nota 13), p. 268ff.

[52] Empiristas vão reclamar que essa formulação da lei a fará tautológica e não falseável. Ambas as classificações são falsas. Claramente, a descoberta de um novo uso mais valorizado para, por exemplo, uma unidade de um dado bem, i.e., o evento “aumento na demanda”, e o evento “um maior preço é pago por isso” são dois eventos conceitualmente distintos, e então relacioná-los logicamente é algo categoricamente diferente de estipular que “celibatário significa ‘homem não casado'”. (Veja também a nota 45.) Que o uso da cláusula ceteris paribus em Economia implica uma estratégia imunizadora, por outro lado, apenas seria verdade se as proposições econômicas fossem de fato concernentes a leis causais empíricas contingentes. Nas ciências naturais, onde leis possuem esses status, tal queixa seria apropriada – embora lá, curiosamente, dificilmente se achem cláusulas ceteris paribus. Nas ciências naturais, hipóteses preditivas na forma “se… então” são de fato tratadas como aplicáveis sempre que a condição “se” é dada, não importando qual seja ou não o caso. E é apenas porque isso é feito que essas hipóteses podem ser validadas. (Só há uma maneira de testar hipóteses sobre relações causais empíricas contingentes: por meio de aplicações factuais e dentro delas.) Se, ao contrário disso, se requeresse que, para aplicar uma hipótese ou repetir sua aplicação, fosse dada uma descrição completa do mundo no momento da aplicação, ou que tudo na segunda aplicação fosse igual a tudo na primeira (além da semelhança da condição explicitamente atestada na cláusula “se”), a hipótese se tornaria inaplicável e, assim, vazia pela razão prática de que tal exigência literalmente envolveria descrever todo o universo, e pela razão teórica de que ninguém em nenhum ponto do tempo poderia jamais saber quais são todas as variáveis que compõem este universo (visto que essa questão continua aberta para novas descobertas).

A situação é totalmente diferente em Economia, e de fato é curioso que isso não tenha sido percebido – dados os fatos de que o uso de cláusulas ceteris paribus nas ciências empíricas tornaria fúteis estas ciências e de que essas cláusulas, não obstante, são constantemente empregadas em Economia. Então por que não levar seriamente em consideração a ideia de que a Economia pode ser uma ciência inteiramente distinta? De fato, como nós vimos, esse é o caso. Proposições econômicas podem ser validadas independentemente de qualquer aplicação factual, como implicado (ou não implicado) no incontestável axioma da ação, mais determinadas situações e mudanças situacionais descritas em termos de categorias de ação. Porém, cláusulas ceteris paribus são completamente inofensivas. Na realidade, seu uso simplesmente serve para lembrar-nos de que consequências deduzidas  apenas são inferidas corretamente se a situação for de fato como está descrita (e não se forem lógica e praxeologicamente distintas) e de que é impossível em todas as aplicações reais dos teoremas econômicos (i.e., sempre que a situação analisada possa ser identificada como real) manter o ceteris experimental constante (pois a “manutenção da constância”, em princípio, só pode ser feita logicamente, por meio de experiências mentais. Sobre isso veja também Hans-Hermann Hoppe, Kritik der kausalwissenschaftlichen Sozialforschung (nota 40), p. 78-81.

 

Tradução e Revisão de João Marcos Theodoro e Marcos Paulo Silva do Nascimento

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