Hino nacional no esporte é uma manipulação política

0
Tempo estimado de leitura: 6 minutos

O dono do Dallas Mavericks, Mark Cuban, está sendo criticado por não tocar o hino nacional nos jogos em casa de seu time. De acordo com a NBC News:

    O hino não foi tocado em nenhum dos 13 jogos da pré-temporada e da temporada regular disputados até agora no American Airlines Center sob a direção do proprietário do Mavs, Mark Cuban….

Cuban confirmou ao The Athletic e à ESPN que alterou o ritual antes do jogo, mas não quis explicar mais.

Em resposta, a NBA rapidamente emitiu um decreto que todas as equipes da NBA devem tocar o hino antes de cada jogo.

Ridiculamente, a organização Mavericks foi forçada a esclarecer que “a decisão de não tocar o hino antes dos jogos não foi porque a franquia não gostava dos Estados Unidos”.

Esta é uma atitude comum. Durante o início do século XX e o final do século XIX, os americanos adotaram uma variedade de novos rituais de pró governo destinados a inculcar uma preferência ideológica pela unidade política, uniformidade e obediência ao regime. O mais notável entre eles foi a introdução do “Pledge of Allegiance”, escrito por um socialista e projetado para inculcar nos americanos a ideia de que os Estados Unidos eram para sempre “indivisíveis”. (Também fazia parte de um esquema de negócios para vender bandeiras americanas.)

Na década de 1920, o hino nacional também estava crescendo em popularidade.

Tudo isso estava em contradição com os valores do republicanismo jacksoniano do início do século XIX, que valorizavam o localismo e a alimentavam a desconfiança dos rituais nacionais. Andrew Jackson, por exemplo, recusou-se a concordar com as declarações políticas habituais de dias de oração e “Ação de Graças”. A visão jacksoniana era que os americanos podem administrar seus próprios assuntos culturais em nível local, sem qualquer necessidade de rituais nacionais quase religiosos de “unidade”.

Graças à Guerra Civil e à Primeira Guerra Mundial, no entanto, a autonomia cultural local deu lugar a novas expectativas culturais de que os americanos jurassem fidelidade ao Estado e cantassem hinos seculares exaltando as maravilhas da “terra dos livres”. Qualquer dissidência dessas “tradições” deveria ser condenada como atos de “odiar os EUA”.

Essa politização do esporte profissional continua até hoje, mesmo que tenha dado uma guinada para a esquerda nos últimos anos.

A ascensão da conexão esporte-hino

O fato de a participação nesses rituais em jogos esportivos ter se tornado quase obrigatória – no Brasil a execução do hino nacional em eventos esportivos é obrigatória por lei – teria impressionado a maioria dos americanos do século XIX como um tanto estranho.

Na verdade, a conexão entre o hino nacional e os jogos esportivos profissionais parece não ter começado até o final da Primeira Guerra Mundial. Antes da Primeira Guerra Mundial, tocar o hino nacional em eventos esportivos era muito raro. Ninguém esperava que fosse feito, e contratar uma banda era caro.

De acordo com o mlb.com, o uso do hino nacional começou principalmente no jogo 1 da World Series de 1918 durante a Primeira Guerra Mundial. Inesperadamente, durante um dos intervalos, uma banda militar tocou o hino nacional em um esforço para animar um grupo de espectadores supostamente mal-humorado e cansado da guerra.

O uso do hino se espalhou a partir daí. O uso do hino se expandiu ainda mais durante a Segunda Guerra Mundial, como observa Matt Soniak:

    Durante a Segunda Guerra Mundial, os jogos de beisebol tornaram-se novamente locais para exibições em grande escala de patriotismo, e os avanços tecnológicos nos sistemas de comunicação ao público permitiram que as músicas fossem tocadas sem banda. O hino nacional foi tocado antes dos jogos durante o curso da guerra, e quando a guerra acabou, o canto anterior do hino nacional tornou-se um ritual de beisebol, depois do qual se espalhou para outros esportes.

Mas mesmo depois da guerra, o hábito de tocar o hino em todos os jogos não estava firme até a Guerra do Vietnã.

Foi durante a Guerra do Vietnã, entretanto, que a difusão do uso do hino nacional finalmente encontrou alguma resistência. O historiador Marc Ferris, em seu livro Star Spangled Banner, observa que protestos semelhantes ocorreram na NFL durante o final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Ferris relata como “respondendo aos [protestos durante a execução do hino nas Olimpíadas de 1968] o comissário da liga, Pete Rozelle, exigiu que os jogadores segurassem seus capacetes com a mão esquerda e saudassem a bandeira durante o hino.” Mas, isso não aconteceu sem seus detratores dentro da NFL, e, Ferris observa, “as controvérsias do hino [durante a década de 1970] ajudaram a instituir e aumentar a análise dos esportes, que se tornaram o principal campo de batalha em torno do hino nacional sitiado e seu significado”.

Na era Obama, porém, nem mesmo essa disseminação popular do hino era suficiente para o governo federal.

Em 2009, o Pentágono estava usando ativamente o dinheiro do contribuinte para pagar a National Football League para expandir as exibições “patrióticas”:

    Em 2009, o Departamento de Defesa de Barack Obama começou a pagar centenas de milhares de dólares para times em uma estratégia de marketing projetada para mostrar apoio às tropas e aumentar o recrutamento. A NFL então exigiu que todos os jogadores e funcionários estivessem alinhados durante o hino nacional, em troca de dólares dos contribuintes. Anteriormente, o hino nacional era tocado no estádio, mas os jogadores tinham a opção de ficar no vestiário antes de sair para o campo.

Além disso, as equipes que exibiram “Saudações do Veterano” durante os jogos receberam mais de US$ 5,1 milhões de dólares.

No total, US$ 6,8 milhões em dinheiro do contribuinte foram distribuídos para times esportivos – principalmente times da NFL – para o chamado patriotismo pago.

Um truque de marketing

Na maioria dos casos, o uso do hino não era subsidiado diretamente. Normalmente, os donos das equipes empregavam voluntariamente o hino como um artifício de marketing. Em tempos de guerra, os proprietários das equipes ficavam felizes em usar o hino como um tipo de propaganda para estabelecer uma conexão emocional entre os clientes – ou seja, os espectadores – e o produto da equipe. Embalar um produto comercial com a bandeira e a torta de maçã para aumentar as vendas não é exclusividade dos esportes profissionais. Mas os esportes profissionais podem ter usado essa tática com mais sucesso do que qualquer outro setor.

Antes de ser usado em eventos esportivos, o hino nacional tinha sido astutamente usado em apresentações do Vaudeville, “quando a administração trazia a bandeira para ganhar aplausos por uma atuação ruim”. Esse fato, relatado pelo gerente geral do Baltimore Orioles – e veterano da Primeira Guerra Mundial – Arthur Ehlers foi apresentado como uma razão pela qual Ehlers se opôs a executar o hino nacional em todos os jogos. Ehlers sentiu que o uso excessivo do hino poderia ser feito cinicamente e “rebaixaria” a música.

Ehlers, ao que parece, lembrava-se das coisas corretamente. Em um artigo na revista Collier’s em 1914, o divertido autor observa o uso generalizado do hino para obter uma resposta positiva do público nas apresentações:

    Nada é mais destrutivo para a gravidade do que assistir a um pequeno cão poodle oprimido andando sobre um arame farpado em um show de Vaudeville com a bandeira dos Estados Unidos pendurada na boca, enquanto a orquestra toca o hino nacional e alguma mulher séria e corpulenta, parada em solitária grandeza no meio da arena, olha para a massa encharcada da humanidade que se recusa a reverenciar o hino, a bandeira ou o cachorro … Se encorajado por este tipo de coisa, algum dançarino de tamancos ainda pode fazer a Doxologia ao ritmo do ragtime enquanto o público fica com a cabeça baixa e arrependida.

Aparentemente, em 1914, já havia se tornado moda usar o hino para intimidar os espectadores a atribuir um significado profundo ao que era claramente – como o basquete da NBA –nada mais do que entretenimento trivial e tosco. O autor, com sua referência sarcástica ao hino como uma doxologia sabia quando estava sendo manipulado.

Décadas depois que o escritor do Collier observou o valor do hino como uma estratégia comercial, Ehlers, ao que parece, estava tentando realmente preservar alguma dignidade para o hino.

Tudo é político

O novo decreto da NBA de que todos os times devem tocar o hino é o tipo de coisa que esperamos de organizações como a NBA e a NFL. Embora a NBA tenha passado muito de seu tempo nos últimos anos tentando atrair os cidadãos chineses, ela aparentemente decidiu que ainda está no negócio de agradar os americanos, com demonstrações enganosas de “patriotismo” por um lado e slogans de “Vidas negras importam” do outro. Claro, as organizações esportivas profissionais poderiam ter optado por simplesmente não ter nenhum conteúdo político em seus jogos. Essa teria sido a coisa mais inteligente a fazer. Em vez disso, organizações como a NBA e a NFL passaram as últimas décadas contando com o hino nacional como uma manobra cínica. Empregar o “anti-racismo” e a política BLM é apenas a evolução natural disso. A mais recente virada da NBA para apoiar o uso do hino nacional não deve ser lida como qualquer tipo de movimento em direção à política de direita. É apenas um sinal de que a NBA continua a acreditar que pode facilmente manipular seu público com slogans e exibições de chauvinismo. A NBA provavelmente está certa.

 

Artigo original aqui.