Hoppefobia Redux

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Hans-Hermann Hoppe, apesar de ter se aposentado há cerca de quinze anos e de publicar pouco desde então, tem uma característica invejável: ele ainda consegue provocar em seus oponentes explosões violentas de fúria, e um tanto bobas. A mais recente emanou de Phillip Magness, que parece ter caído no mesmo raciocínio de conspiração e culpa por associação (usando o termo amplamente!) exposta em autores de esquerda como Nancy MacLean (sobre James Buchanan) ou Quinn Slobodian (sobre Ludwig von Mises).

Stephan Kinsella respondeu às insinuações pessoais contra Hoppe e a maioria das outras alegações que Magness fez, e podemos crer que o assunto tenha sido encerrado. No entanto, algo sugere que os inimigos de Hoppe não serão persuadidos mesmo depois disso. Recentemente, em uma entrevista na ReasonTV, Magness novamente fez afirmações semelhantes contra Hoppe, então outro pequeno ensaio sobre a questão Hoppe parece justificado, principalmente para ajudar o espectador inocente, que de outra forma poderia se assustar com a retórica odiosa dos hoppefóbicos, entender o que está acontecendo.

Vou aqui abordar brevemente três grandes acusações contra Hoppe.

Hoppe o nazista

A culpa por associação desempenha um papel importante nas insinuações de nazismo contra Hoppe – na verdade, não existe outro argumento além desse. Hoppe citou David Irving sem condená-lo adequadamente por pensamento errado; Hoppe se recusou a aceitar que os alemães são “vilões congênitos” de singularidade histórica mundial. Nisso, ele contradiz o que na Alemanha tem sido um dogma básico desde a Historikerstreit, mas é difícil achar que Hoppe tenha dito algo censurável – ou por que devemos simplesmente nos submeter aos dogmas esquerdistas. Quanto à alegação de Hoppe de que houve uma tentativa de lavagem cerebral nos alemães após a guerra – bem, isso é verdade e simplesmente história oficial, conforme detalhado, por exemplo, em Exorcizing Hitler.

Há mais substância, pelo menos à primeira vista, na afirmação de Magness et al. de que um memorando que Hoppe escreveu em 1996, “From Nation to Household”, entrega sua simpatia pelo nazismo. Afinal, Hoppe escreve claramente que o que há de errado com o “nacional socialismo” é a parte do socialismo – livre-se disso e teremos “nacional capitalismo”, e isso é muito melhor. Parece que temos que aceitar que Hoppe realmente está torcendo pelo extermínio em massa etc.; ele só quer privatizá-lo (o que, presumivelmente, significa que ele é realmente pior que os nazistas clássicos, já que o nacional capitalismo de Hoppe seria muito mais eficiente).

Certo? Na verdade, não. É um caso básico de omissão de contexto crucial. O memorando é uma crítica extensa das políticas econômicas propostas por Samuel Francis e Pat Buchanan, que Hoppe caracteriza como socialismo. A outra parte do programa, a parte cultural ou social, com a qual concorda, Hoppe chama de nacionalismo; daí a conclusão de que Francis defende o nacional-socialismo. Hoppe afirma explicitamente, no entanto, que não há nada antissemita ou racista no programa de Francis – ele é simplesmente uma rejeição do politicamente correto e um apelo ao retorno à normalidade e aos valores tradicionais da classe média. No mesmo memorando, Hoppe continua criticando os aspectos socialistas do programa de Francis e, em seu lugar, propõe o “nacional capitalismo”: em suma, políticas econômicas liberais mais adequadas aos objetivos culturais e sociais de Francis e Buchanan. Enxergar qualquer associação com nazistas alemães nisso é simplesmente desconcertante – a menos que alguém pense que a verdadeira parte maligna do nazismo não era seu socialismo, ou seu racismo, ou seu antissemitismo, mas seu apoio à moralidade e normalidade mais tradicionais (sem mencionar o fato de que os nazistas nem mesmo promoveram os valores tradicionais).

Ironicamente, há um argumento muito melhor para chamar Mises de simpatizante fascista do que Hoppe. Afinal, Mises escreveu explicitamente: “Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes visando o estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que sua intervenção salvou, no momento, a civilização europeia. O mérito que o fascismo conquistou para si mesmo viverá eternamente na história”. Qualquer um com um cérebro reconhecerá que Mises não era um fascista e que essa afirmação ocorre no contexto de uma refutação completa do fascismo (nem ninguém pode negar que no momento em que foi escrito, em 1927, era obviamente verdade). No entanto, quando se trata de Hoppe, a declaração mais inócua é usada para pintá-lo como fascista ou pior.

Portanto, é difícil ver qualquer nazismo ou fascismo em Hoppe ou Mises – a menos, é claro, que se adote a definição mais descritiva de fascismo proposta uma vez: fascismo é o que Stalin não gosta!

Hoppe, o teórico crítico

Magness repetidamente acusou Hoppe de não ser um economista austríaco, mas sim um teórico crítico. A evidência para essa afirmação é a estreita conexão pessoal de Hoppe com o filósofo alemão Jürgen Habermas, um dos líderes da escola de Frankfurt. O trabalho de Hoppe sobre a ética argumentativa também está repleto de referências a Habermas e especialmente a Karl-Otto Apel, cuja ética comunicativa Hoppe reformulou em sua própria ética argumentativa ao longo de linhas misesianas. No entanto, isso faz de Hoppe um teórico crítico? O que, exatamente, ele tirou de Habermas, a bête noire na representação de Hoppe feita por Magness? Por que simplesmente não ouvimos o que o próprio Hoppe diz:

    Meu relacionamento com Habermas, embora não seja íntimo, foi cordial, e aprendi bastante com ele, principalmente com seus trabalhos anteriores, como Erkenntnis und Interesse (conhecimento e interesse). (Desde o final da década de 1970, parei essencialmente de seguir seu trabalho, pois era cada vez mais tedioso e obscuro.) De qualquer forma, foi Habermas quem me apresentou a tradição anglo-saxã da filosofia analítica e da filosofia da linguagem. Ele me ajudou a entender o “dualismo metodológico”, ou seja, que o estudo de objetos com os quais podemos nos comunicar (e ação comunicativa) requer métodos diferentes daqueles apropriados para o estudo de objetos não comunicativos (e ação instrumental). E, contra todas as afirmações empiristas e relativistas, Habermas sempre defendeu a noção de algum tipo de verdades sintéticas a priori.

Filosofia analítica, filosofia da linguagem, dualismo metodológico e a existência de verdades a priori – se isso é teoria crítica, aproveite! Não há nada aqui incompatível com a economia austríaca, nenhum materialismo ou polilogismo, e de fato há muitos blocos de construção para o sistema praxeológico de Mises.

Ainda assim, Hoppe pode ser maculado pela exposição pessoal a Habermas e, assim, pode inconscientemente trazer a teoria crítica para seu trabalho sobre a economia austríaca. Talvez Magness e outros devam então considerar a pessoa de Carl Grünberg. Grünberg foi o fundador da escola de Frankfurt, pois em 1924 foi o primeiro diretor do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. E daí? Antes de ir para Frankfurt, Grünberg lecionou em Viena, e entre seus alunos de doutorado estava… Ludwig von Mises. De acordo com Guido Hülsmann, Mises aprendeu muito com o seminário de Grünberg e publicou artigos na linha da abordagem mais historicista de Grünberg. Se Magness está preocupado com o marxismo cultural manchando a economia austríaca, e se aprender com os marxistas é suficiente para manchar irrevogavelmente uma pessoa, então ele terá que extirpar uma parte substancial da tradição austríaca.

Hoppe, o anti-imigracionista

As opiniões de Hoppe sobre a imigração são bem conhecidas, embora muitas vezes deturpadas. Em suma, ele argumenta que em uma sociedade livre, a imigração pode ser apenas por convite. Proprietários de propriedades privadas e comunidades conveniadas simplesmente decidirão quem querem aceitar e quantos imigrantes querem. Isso não implica, no entanto, que nas condições atuais fronteiras abertas – ou seja, nenhum controle sobre a imigração – sejam a melhor política. O Estado limita coercitivamente o número de imigrantes desejados e impõe coercivamente a imigração indesejada à população. A proposta mais prática de Hoppe é limitar a externalização dos custos da imigração, limitando o acesso dos migrantes aos serviços do Estado, adotando algum tipo de sistema de patrocínio e exigindo que o anfitrião poste uma fiança para cada imigrante que ele convidar para o país.

Essa proposta, nos dizem, é ao mesmo tempo iliberal e em desacordo com a visão de Mises sobre imigração. Agora, certamente é verdade que Mises escreveu favoravelmente sobre a migração livre. Olhando simplesmente para os rendimentos e a produção, a imigração livre é ideal. Os trabalhadores se deslocarão para onde os salários são mais altos e, como os diferenciais salariais refletem as diferenças subjacentes na produtividade e no valor da produção, a livre circulação do trabalho leva a um aumento geral da produção social. As restrições à migração, portanto, tornam alguns países relativamente subpovoados, elevando os salários, e outros relativamente superpovoados, reduzindo os salários.

No entanto, Mises não era a favor de fronteiras abertas, mesmo em seus momentos mais otimistas. Em Liberalismo, ele afirma claramente que a liberdade de movimento é incompatível com um Estado intervencionista ou socialista. Dada a influência onipresente do estado sob tais condições, Mises argumenta que as minorias nacionais estão fadadas a serem perseguidas em tais estados. Portanto, Mises acha que a decisão de, digamos, os australianos manter os imigrantes afastados para evitar serem inundados por asiáticos e europeus não ingleses e se tornarem uma minoria é totalmente compreensível. Somente se insistirmos em uma concepção puramente econômica do homem podemos colocar Mises sob a bandeira das fronteiras abertas e contra Hoppe. Como essa claramente não era a concepção de Mises, não podemos fazê-lo.

Quanto mais as coisas mudam

É claro que Hoppe pode ser criticado. Mas a tentativa de pintá-lo como uma espécie de intruso maligno, um agente do nazismo e da teoria crítica voando abaixo do radar e corrompendo a economia austríaca, é simplesmente ridiculamente errada. Como tentei mostrar aqui, nenhum dos pontos levantados contra Hoppe pode resistir ao escrutínio, e em todas as questões substanciais, Hoppe está muito mais próximo de Mises do que os críticos aceitam.

 

 

 

 

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1 COMENTÁRIO

  1. O nosso Kogos, Paulo é um ex-libertário? ele falou que a ética da liberdade do Rothbard não serve para nada. E curiosamente, em um de seus vídeos ele repete a crítica exposta aqui contra o Hoppe: “Magness repetidamente acusou Hoppe de não ser um economista austríaco, mas sim um teórico crítico”.