Iguais só em teoria

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Sentir prazer com a desgraça dos outros é sem dúvida uma parte indelével do mau caráter de alguém, e duvido que exista alguém no mundo que nunca tenha sentido isso. Porém, geralmente a maioria de nós possui o suficiente de decência, ou possui o suficiente de desejo de parecer decente perante os outros, para não expressar este prazer abertamente. Imerso em nosso regozijo sentimos um certo elemento de vergonha em nosso próprio prazer.

Nem tanto porém para um tal de George Eaton, editor chefe da New Statesman, semanário político e cultural esquerdista britânico (que possui uma história destacada). O Sr. Eaton publicou uma versão reduzida, para não dizer distorcida e falseada, de uma entrevista com Sir Roger Scruton, o filósofo conservador polímata, em uma mídia social, na qual Scruton foi falsamente representado como um racista e xenófobo grosseiro, tipo um anticristo politicamente incorreto. Quatro horas depois, como se fosse uma situação real de emergência nacional, um ministro do governo britânico, James Brokenshire, demitiu Scruton de um cargo honorário que ele havia sito nomeado pelo ministro apenas alguns meses antes, o de presidente de uma comissão para promover a construção de moradias mais agradáveis esteticamente no Reino Unido do que as que têm sido construídas nas últimas décadas – coisa que, sabe Deus, é muito necessária, dada a absoluta feiura que se espalhou pelo país.

Tão logo a injustificada demissão de Scruton foi anunciada o Sr. Eaton postou uma foto, usando o que parecia ser um paletó sem uma gravara, bebendo orgulhosamente, ou ao menos condescendentemente, uma champanhe direto da garrafa, comentado na descrição que era assim que ele se sentia por ter conseguido que uma pessoa tão perversa e tão preconceituosa quanto Scruton fosse demitida. Um pouco depois, o jornalista deletou esta nada edificante foto dele e seu comentário, mas foi tarde demais: ainda podem ser facilmente encontrados na internet. Ele se sentiu constrangido a se desculpar por isso, embora não esteja muito claro para quem. A Sra. Sparsit, no Hard Times, disse que ela achou que havia um certo incômodo no ambiente, mas não sabia ao certo dizer se ela o sentia; o Sr. Eaton se desculpou a alguém, mas não se sabe ao certo a quem, ou mesmo por o que.

Todavia, ele ainda é jovem (32), e podemos relevar as indiscrições da juventude. Aquele que nunca cometeu uma indiscrição que nunca se desculpe por nada. Vou aproveitar e confessar uma indiscrição minha, para dar um significado concreto a generalização: Quando estava na Romênia logo depois da queda do casal Ceausescu, senti prazer quando eles foram depostos e depois fuzilados. Só depois que vi o que deveria ter visto antes, que o “julgamento” deles foi uma farsa corrupta e perniciosa e, por mais odioso que fosse o casal, eles foram tratados como nenhum ser humano deveria ser tratado. Eles conseguiram algo que achei que não era possível: Eles ocuparam uma estatura moral mais elevada e foram mais dignos do que seus acusadores.

Entretanto, o gesto do Sr. Eaton foi extremamente desagradável e refletiu uma feiura da alma (que ainda pode ser melhorada). Porém, uma outra coisa me perturbou sobre isso, algo muito mais relevante culturalmente.

O editor chefe da revista esquerdista é, quase que por definição, um igualitarista, ao menos em teoria. Ele supostamente deveria ficar horrorizado pela desigualdade em nossa sociedade. Mas ser contra a desigualdade na teoria não é a mesma coisa de não querer se diferenciar dos outros e ocupar uma posição que seja de alguma forma superior a eles, assim como alguém que em teoria não acredite em monogamia esteja necessariamente isento de sentir ciúmes de seu parceiro sexual (na verdade, vemos o contrário).

Muitos igualitaristas são na verdade esnobes, tanto intelectualmente quanto socialmente, mas ainda querem manter sua fama de igualitarista, fama da qual depende sua carteirinha do clube das pessoas maravilhosas. Beber champanhe direto da garrafa se encaixa neste grupo específico: Um proletário beberia direto de uma garrafa, mas apenas uma pessoa de um certo padrão econômico ou social bebe champanhe. O mesmo vale para o paletó sem uma gravata: Uma camiseta é casual, mas um paletó é formal. Alguém é um bom proletário e um bom burguês ao mesmo tempo; alguém tem o bolo social e o come também.

Isto explica a moda do jeans artisticamente rasgado. Ninguém acha que a pessoa que usa uma peça de roupa assim só tenha dinheiro para comprar trapos velhos; ao contrário, acham exatamente o oposto, que a pessoa com roupas rasgadas é na verdade rica. E ninguém que realmente só tenha dinheiro para comprar trapos velhos iria escolher usar um jeans rasgado.

Mas por que as pessoas que são na verdade burguesas fingem ser outra coisa? (À propósito, isto serve para modos de falar também.) E nisto podemos testemunhar o verdadeiro triunfo da ideologia marxista ou socialista. Ela induziu um estado de auto-aversão na burguesia, talvez mesclado com medo. O burguês quer continuar sendo burguês do ponto de vista econômico, mas não quer ser visto como tal. Quando ele usa um jeans rasgado, ou fala como um motoboy, ele na realidade não quer estar numa posição que não possa comprar roupas novas ou que tenha que fazer entregas para sobreviver. Ele não quer abrir mão de sua renda ou seu patrimônio ou dar a seus filhos uma educação defasada destinada aos filhos do proletariado, mas ele também não quer declarar abertamente seu igualitarismo, ao contrário. Como alguém com piercings no rosto – no nariz, orelha, língua – ele quer chamar atenção para si e evitar que o notem ao mesmo tempo. Ele é uma confusa metáfora ambulante.

Portanto, beber champanhe direto da garrafa usando um paletó sem gravata. Todos os homens são iguais, mas eu sou melhor.

 

Tradução de Fernando Chiocca

Artigo original aqui.

1 COMENTÁRIO

  1. Lembrou de um texto sobre ambientalistas aqui mesmo nesse site.

    A sua grande maioria vive de luxo, conforto e benesses promovidas pela produtividade e capitalismo.

    Ninguém vive de modo primitivo.

    Ótimo texto.

    No mais, sugiro uma breve revisão, vez que há diversos erros de digitação.

    Forte abraço!