Introdução à primeira edição

0
Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Provavelmente, a pergunta que mais me fizeram — com alguma exasperação — ao longo dos anos é: “Por que você não se atém à economia?”

Por razões distintas, essa pergunta tem sido endereçada a mim por colegas economistas e por pensadores e ativistas políticos de variadas filiações: conservadores, esquerdistas e libertários que discordam de mim em questões de doutrina política e se incomodam com um economista que se aventure “fora de sua disciplina.”

Entre os economistas, tal pergunta é um triste reflexo da hiperespecialização dos intelectuais de nossos tempos.  Creio ser evidente que pouquíssimos especialistas em economia — mesmo entre aqueles mais dedicados — passaram a se interessar por economia por terem se fascinado por curvas de custo, classes de indiferença e o resto da parafernália da teoria econômica moderna.  Quase a unanimidade deles se interessou por economia após ter se interessado por problemas sociais e políticos e por ter percebido que os problemas políticos realmente complicados não podem ser resolvidos sem o conhecimento de economia.  Afinal, se eles estivessem de fato interessados sobretudo em equações e tangentes em gráficos, teriam se tornado matemáticos profissionais e não gastado suas energias em teorias econômicas que são, no máximo, uma aplicação de terceira categoria da matemática.

Infelizmente, o que em geral acontece com essas pessoas é que, ao aprenderem a estrutura e o aparato imponentes da teoria econômica, elas ficam tão fascinadas pelas minúcias da técnica que perdem de vista os problemas políticos e sociais que originalmente despertaram seu interesse.  Esse fascínio também é reforçado pela estrutura econômica da própria profissão de economista (e de todas as outras profissões acadêmicas): a saber, que prestígio, recompensas e gratificações são colhidos não por reflexões acerca dos problemas mais significativos, mas, sim, por agarrar-se a um horizonte estreito e tornar-se um dos principais especialistas em um problema técnico insignificante.

Entre alguns economistas, essa síndrome foi levada tão longe que eles desprezam qualquer atenção conferida a problemas político-econômicos como uma impureza degradante e vil, ainda que tal atenção seja dada por economistas que tenham deixado sua marca no mundo da técnica especializada.  E mesmo entre aqueles economistas que de fato lidam com problemas políticos, qualquer consideração dedicada a temas extra-econômicos mais amplos como os de direitos de propriedade, da natureza do estado ou da importância da justiça é desprezada como incuravelmente “metafísica” e inadmissível.

Não é por acaso, no entanto, que os economistas de visão mais ampla e de espírito mais penetrante do século XX — homens como Ludwig von Mises, Frank H. Knight e F.A. Hayek — chegaram cedo à conclusão que o domínio da teoria econômica pura não era o bastante, e que explorar problemas relacionados e fundamentais da filosofia, da teoria política e da história era vital.  Em especial, eles notaram que era possível e de crucial importância elaborar uma teoria sistemática mais ampla, que abarcasse a ação humana como um todo e em que a economia ocupasse um lugar consistente mas subsidiário.

Em meu próprio caso, o principal foco do meu interesse e dos meus trabalhos ao longo das três últimas décadas tem sido uma parte dessa abordagem mais ampla — o libertarianismo, que é a disciplina da liberdade.  Pois vim a crer que o libertarianismo é de fato uma disciplina, uma “ciência”, se preferirem, independente, embora tenha sido pouco desenvolvida ao longo do tempo.  O libertarianismo é uma disciplina nova e em crescimento intimamente ligada a outras áreas de estudo da ação humana: à economia, à filosofia, à teoria política, à história, e até — mas de modo não menos importante — à biologia.  Todas essas áreas proporcionam de variadas maneiras a base, o corpo e a aplicação do libertarianismo.  Algum dia, talvez, a liberdade e os “estudos libertários” serão reconhecidos como uma parte independente, mas afim, do currículo acadêmico.

Esse ensaio foi apresentado em uma conferência sobre a diferenciação humana organizada pelo Institute for Humane Studies, em Gstaad, na Suíça, no verão de 1972.  Uma razão e alicerce fundamental da liberdade são os fatos inelutáveis da biologia humana; em especial, o fato de que cada indivíduo é uma pessoa única, diferente de todas as outras em muitos aspectos.  Se a diversidade individual não fosse a regra universal, então a defesa da liberdade seria realmente frágil.  Afinal, se os indivíduos fossem intercambiáveis como insetos, por que alguém se preocuparia em maximizar a oportunidade de todos desenvolverem sua mente e suas capacidades e sua personalidade o mais completamente possível?  O ensaio identifica o horror primordial do socialismo na tentativa igualitarista de eliminar a diversidade entre indivíduos e grupos. Em suma, ele reflete a fundamentação do libertarianismo no individualismo e na diversidade individual.

 

Murray N. Rothbard, 1974