Lembranças de Murray Rothbard

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Murray Rothbard, o principal fundador do libertarianismo americano pós-Segunda Guerra Mundial, morreu vinte e quatro anos atrás. O que ele representou? Lew Rockwell, um dos amigos mais próximos de Murray e fundador do Mises Institute e do LewRockwell.com, oferece a melhor resposta.

Lew diz: “Se você quer entender Murray Rothbard, precisa manter um princípio em mente. Se você se lembrar disso, terá a chave para entender o pensamento dele. E você deve entender Murray Rothbard, porque ele foi o maior defensor da liberdade americano no século XX.

O princípio em questão é que Murray Rothbard teve uma visão consistente da boa sociedade que ele sustentou ao longo de sua longa carreira. Ele descreveu essa visão em um vasto número de livros e artigos, incluindo Man, Economy, and State, Governo e Mercado, A ética da liberdade e Egalitarianism as a Revolt Against Nature. Essa visão sempre foi a mesma.

Qual foi essa visão? Como todos sabem, Murray acreditava em um mercado completamente livre. O Eestado, que Nietzsche chamou de “o mais frio dentre todos os monstros “, era o inimigo.

Para manter uma sociedade livre, as pessoas precisavam manter certos valores. Murray era um tradicionalista que acreditava no direito natural e na família. Ele deplorou ataques à tradição, como o movimento feminista moderno. Em questões culturais, Murray começou na direita, e ele sempre permaneceu lá. ”

Os leitores que querem saber o que Murray Rothbard representa têm, como Lew sugere, uma tarefa fácil. Eles só precisam ler o que ele escreveu. Mas havia muito mais em Murray Rothbard do que a visão libertária e as contribuições à economia austríaca e à história americana que o tornaram famoso.

Uma das maiores alegrias da minha vida era ouvir Murray Rothbard. Uma conversa com ele pode levá-lo a qualquer lugar. A última vez que falei com ele, cerca de uma semana antes de sua morte, ele falou sobre um problema na teoria econômica de Schumpeter, um livro recente sobre teologia judaica, as falácias em uma defesa filosófica da causalidade reversa, o caso OJ Simpson e a relação de Hegel com a tradição do misticismo alemão. Em todos os tópicos, ele tinha coisas esclarecedoras para dizer, todas expressas em seu jeito rápido de falar, acompanhadas por aquela risada inconfundível. Murray conseguia entender o essencial de um argumento mais rápido que qualquer pessoa que já vi na vida e, ao mesmo tempo, abordar qualquer que seja o ponto em questão de seu imenso aprendizado. Em uma ocasião, tive que dar um seminário junto com ele no programa de verão da Ludwig von Mises University. Ele tinha acabado de ler um artigo de Milton Friedman, criticando duramente Mises, que ele via com certa indiferença. Ele propôs dedicar o seminário a uma análise do artigo e, com apenas uma pausa para respirar, demoliu cada parágrafo do texto. Em outro ano, ele iniciou seu seminário com uma brilhante discussão de uma hora sobre o poder político, que ia de Lao-tsé a Hobbes e de Locke a Escola de Escolha Pública.

Seu imenso conhecimento em muitas áreas diferentes, na minha opinião, foi insuperável. Em uma palestra sobre a Teoria Austríaca do Ciclo Econômicos, ele mencionou a objeção comum de que a expansão do crédito bancário pode não ter efeito, se os investidores anteciparem o problema. Após a palestra, perguntei se Mises havia respondido a esse ponto. Ele disse: “Veja sua resposta a Lachmann em Economica, 1943.” Eu costumava ir a livrarias com ele, tanto em Palo Alto quanto em Manhattan, e o ouvia enquanto ele comentava sobre quase todos os livros nas prateleiras. Quando ele era estudante na Columbia, admirava o filósofo Ernest Nagel, que, segundo ele, sempre incentivava os alunos a realizar novos trabalhos. Murray era assim mesmo. Ele sempre incentivava os alunos a trabalhar em tópicos austríacos e libertários.

Seu imenso conhecimento se estendia muito além dos tópicos acadêmicos. Ele não apenas acompanhava as campanhas presidenciais, como também tinha um conhecimento detalhado das eleições do Congresso. Ele podia pegar qualquer distrito do Congresso nos Estados Unidos e dizer quem estava concorrendo e quais eram os principais problemas do distrito.

O Partido Libertário, no qual ele foi uma força ativa por vários anos, atraiu muitas figuras estranhas e, é claro, Murray tinha informações detalhadas sobre quase todas elas. Ele costumava presentear seus amigos com histórias hilariantes sobre as aventuras deles. Nisso, ele teve a companhia de sua esposa Joey, que compartilhava de seu interesse pelo que todos estavam fazendo. Durante a convenção do PL de 1979 no Bonaventure Hotel, em Los Angeles, ele deu uma palestra em um clube gastronômico libertário local. Joey me disse sobre a líder do clube: “Você sabe quanto ela pagou a Murray pela palestra? Zero!”

Ele vilipendiava o domínio de uma auto-proclamada elite composta por “intelectuais da corte”; ao invés dela, ele preferia o senso comum do americano médio, embora certamente não fosse um democrata de governo da maioria. Ele defendeu Joe McCarthy e apoiou as campanhas presidenciais de Ross Perot e Pat Buchanan, embora ele não fosse de maneira alguma um defensor acrítico de nenhuma delas. Pode parecer estranho, a princípio, que um libertário anarcocapitalista apóie esses populistas, cujas opiniões sobre a economia diferem muito das suas, mas na verdade não era.

Sua posição política fundamental era a oposição a uma política externa americana belicosa, e esses nacionalistas americanos opunham os esforços para subordinar a América a cruzadas ideológicas em todo o mundo. Joe McCarthy argumentou que a principal ameaça representada pelo comunismo era interna, e não externa, e nesse ponto Rothbard concordou totalmente. Ele era bem próximo de Pat Buchanan, que defendeu os “isolacionistas” pré-Segunda Guerra Mundial e se opôs à invasão americana do Iraque.

Pela mesma razão, William Buckley e seus sucessores neocons se opuseram ferozmente a Rothbard. Eles fizeram o possível para expurgar da direita todos os partidários de uma política externa pacífica. Rothbard, que já foi um colaborador importante da National Review, não era mais bem-vindo em suas páginas, uma vez que suas opiniões sobre política externa se tornaram claras.

Rothbard gostava dos populistas por outro motivo, e aqui voltamos à citação de Lew Rockwell do começo do artigo. Ele deplorava as tentativas de reformular os valores tradicionais americanos em favor do “politicamente correto”. Ele admirava a crítica abrangente de Paul Gottfried a esse projeto e juntou-se a Gottfried e outros “paleoconservadores” em 1989 para formar o John Randolph Club.

Blumert, Rockwell, Gordon e Rothbard

Ele tinha completa admiração por uma pessoa envolvida na política, que era obviamente seu grande amigo e libertário Ron Paul. Ele e Ron Paul trabalharam juntos na defesa do padrão ouro, na oposição ao Fed e na defesa de uma política externa não intervencionista. Nessas empreitadas, eles foram acompanhados de Burt Blumert e Lew Rockwell; e é em suas atividades com esses amigos que se encontra a essência dos comprometimentos políticos de Rothbard.

Naturalmente, Murray tinha fortes preferências e rejeições. Ele detestava Bill Clinton, e Joey me disse que, quando estava assistindo Clinton falar na televisão, ela teve que impedi-lo de dar um chute na TV.

Seus livros davam a impressão de estarmos ouvindo ele falar: estavam cheios de material, como se ele mal pudesse esperar para transmitir aos leitores os resultados de sua leitura prodigiosa. Seu Man, Economy and State é uma das principais obras da economia do século XX, na opinião de peso de nada maisnada menos que Ludwig von Mises e Henry Hazlitt. Os dois volumes de seu History of Economic Thought que, infelizmente, ele não viveu para ver publicados, mostram que ele era um grande intelectual historiador e também um grande economista. Murray Rothbard foi meu amigo por dezesseis anos. Depois de quase um quarto de século, ainda acho difícil acreditar que não posso mais ligar para ele, perguntar sobre um novo livro e experimentar seu carinho e bondade inesgotáveis. Seu apoio a mim nunca falhou, e devo tudo a ele. “Um homem, na acepção lata do termo; jamais poderei ver alguém como ele” (Hamlet).

 

Artigo original aqui.

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