Nietzsche, Pandemia e Libertarianismo

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Nada mais conveniente do que se apoiar em uma filosofia forjada durante o suplício de um homem constantemente perturbado por sua doença para entender a pandemia atual.  Nietzsche viveu a maior parte da sua vida sob as mazelas da sífilis que no século XIX, vinda das Américas, se espalhara ferozmente pela Europa. Na época não havia remédios eficientes e suas vítimas eram fadadas a apodrecer lentamente até o colapso total do sistema nervoso.

Seguindo uma lógica inesperada levando em conta seu constante sofrimento, o filósofo se propôs a criar um pensamento de completa afirmação da vida e, para ele, isso só seria possível se o homem pudesse se ver liberto de suas amarras. Ou seja, só a liberdade poderia garantir ao homem o firme espírito para habitar a vida em sua plena serventia.

Para o filósofo prussiano ser livre significava ser capaz de fazer desmoronar dentro de si todas as forças de controle social que permeiam a sociedade sem que o seu próprio eu desmoronasse junto, já que além da função de domínio aquelas forças eram os próprios alicerces sustentadores e definidores do homem enquanto ser social. Uma tarefa individual e tão impossível que, segundo sua teoria, o ser que a concluísse seria chamado de Ubermensch que pode ser traduzido como o Além-homem ou Super-homem.

Nietzsche enxergava a religião como uma força político-social que exerceu grande poder sobre o homem na história, mas que chegava a sua decadência no século XIX dada a efervescência científica que vinha tomando o seu lugar. Fazendo jus a sua alcunha de filósofo do futuro ele previu que ao ‘’matar Deus’’ o espírito humano sucumbiria junto e se agarraria a qualquer esperançosa ideia que o pudesse liderar novamente. Através desse pensamento pode-se entender, pelo menos em parte, porque a humanidade abraçou, no século seguinte, tão prontamente regimes totalitários como o fascismo e o comunismo que banharam de sangue toda uma era. Assim a filosofia nietzschiana converge com o Libertarianismo sob a ótica da mente humana ao explicar a psique de rebanho do homem e alertar como essa tendência é venenosa a sua própria existência.

Munido dessas duas teorias fica mais fácil entender como a pandemia de Covid-19 se tornou uma ferramenta de controle político. Nietzsche apontou que a ciência ocuparia o trono vago deixado por Deus. E assim se sucedeu, a profissão de fé dos homens modernos se voltou para tudo que é científico. E os estados que antes se alinhavam com a religião, buscaram se alinhar com a ciência formando uma sociedade tecnocrata. O tempo passou e os poderes se realinharam, mas seguindo a previsão do filósofo prussiano, o homem não se aperfeiçoou. A energia que se é despendida para acreditar no divino é praticamente a mesma que o homem usa para acreditar em um cientista que aborda um tema do qual seu interlocutor não tem domínio.

Certamente, não há nada de errado em acreditar na ciência visto que é inegável que ela foi responsável por diversas mudanças significativas na sociedade. A questão muda de aspecto quando a ciência se soma ao governo. O estado é um ser dotado do monopólio das armas e, portanto, da violência além de que, na maioria das vezes, tem objetivos bastante desconexos da realidade das pessoas que vivem sob o seu regime. Ao invés de pensar racionalmente, o leviatã gasta boa parte da sua energia competindo com outros estados ou com outras forças políticas que disputam seu poder central e, assim, pauta suas ações com o objetivo de ganhar essas disputas. Se não fosse assim, não lançaríamos um foguete para lua ou criaríamos milhares de ogivas nucleares sem antes resolver problemas mais prioritários e menos dispendiosos como saneamento básico ou tornar a saúde um serviço mais acessível.

Essa simbiose entre políticos e cientistas faz com que a relação entre o indivíduo e a ciência ganhe tons mais dramáticos, já que o governo com sua força de coerção ilimitada pôde, doravante, transformar aquelas que antes eram tidas apenas como recomendações médicas como caminhar todos os dias, beber 2 litros de água ou comprar o remédio x e etc; Em obrigações suscetíveis à punições extremas. Todas as ditaduras precisam de um respaldo altruísta. A China, com a política do filho único, assassinou bebês, esterilizou à força mulheres e raptou crianças a fim de evitar uma provável fome futura decorrida de um crescimento populacional que os seus cientistas econômicos garantiram que ocorreria. Nada muito diferente do que os sacerdotes dos povos pré-colombianos, como os Incas e Maias, pregavam ao dizer que sacrifícios infantis eram necessários para que houvesse boas colheitas e a população não morresse de fome futuramente.

Em face do vírus chinês governos tomaram pra si uma tese científica como verdade mesmo não havendo consenso entre os próprios especialistas: O Lockdown. Do alto da sua usual arrogância políticos se postaram novamente como salvadores da humanidade através de uma medida que só poderia ser colocada em voga pelo uso da força. É inimaginável que dentro de um grupo de pessoas saudáveis não existiram algumas que prefeririam correr o risco de se contaminar à se despir totalmente dos seus direitos individuais de propriedade privada, de trabalhar voluntariamente e de ir e vir em prol de uma pouco embasada e debatida solução.

A ética libertária não abre exceções mesmo à epidemia de um vírus sendo uma crise comunitária. O direito libertário à vida é negativo assim como os demais direitos, ou seja, ninguém pode atentar contra a vida ou propriedade, mas ao mesmo tempo não se pode onerar ninguém para que outro possa viver. Ninguém deve ser obrigado a tomar uma ação contra sua vontade para manter outra pessoa viva. Supondo que para sobreviver Bolsonaro precisasse do toque dos nove dedos do Lula três vezes na semana não caberia punição ao Lula por não querer fazer isso mesmo sendo uma atitude moralmente mesquinha. Da mesma forma, não se pode obrigar um indivíduo a se trancar em casa, fechar seu comércio ou não trabalhar porque há uma chance disso indiretamente matar outrem.

Dessa maneira, a saúde deve ser abordada como algo estritamente subjetivo e de responsabilidade individual porque para cada pessoa há uma infinidade de aspectos a serem levados em conta que perpassam a questão de apenas estar vivo ou morto.  Há, por exemplo, pessoas que irão preferir viver três dias com a sua família em casa do que anos dentro de um hospital dopado sem poder vê-los devidamente.

Nietzsche salienta bem esse aspecto no seu livro A Gaia Ciência: ‘’Importa que se conheça os seus objetivos, os seus horizontes, as suas forças, os seus impulsos, os seus erros e, sobretudo, o ideal e as fantasias da sua alma para determinar o que significa saúde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indivíduo particular, e a quem não podemos comparar-nos, que levante a cabeça, mais se desprendera o dogma ‘’igualdade dos homens’’, mais necessário será que nossos médicos percam a noção de uma saúde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doença. Somente então se poderá refletir na saúde e na doença da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta doença, que corre muito mais o risco de ser em um o contrário do que se sucede com o outro.’’

No contexto da pandemia atual é simples verificar que para o governo somos apenas números, uma questão binária que nos resume em estar vivo ou morto, e como essa estatística vai ser útil para gerar capital político. Torna-se, então, indispensável separar o cientista da ciência e, mais ainda, o indivíduo do estado. A tecnologia avança e irá avançar, mas isso não significa que o homem vai se aperfeiçoar ao mesmo passo. O cientista é passível de erros, tem seu viés político, religioso e cultural e jamais, por mais benevolente que seja, conseguirá que todos sigam suas teses a não ser que a mão pesada do estado intervenha.

8 COMENTÁRIOS

  1. A ciência e a arte da navegação, e o confinamento da vida do homem do mar e seu código de conduta e ética, revelando um filósofo e estudioso da vida!
    O texto auxilia aqueles em busca da compreensão (em termos de causa e efeito) da realidade e atual cenário em que vivemos, procurando tornar compreensível a verdade e essência da vida do ponto de vista filosófico…

  2. Com publicações assim fica fácil fidelizar leitores e mantê-los “ancapis” ou libertários. Tô de saco de “ain #fiqueemcasa, ain #elenao”;

    Continuem sendo “não viadinhos” e, pelo menos da minha parte, terão mais um simpatizante, leitor, divulgador e até, porque não, patrocinador ( ainda que pequeno provisoriamente).

    Paz e força!