Burocratas são inúteis — um tratado a favor da descentralização radical

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Na sociedade contemporânea pós-moderna em que vivemos, é muito comum que a sociedade julgue equivocadamente necessitar de um corpo centralizado de burocratas, composto por pessoas “especiais”, “benévolas” e “iluminadas” que tomem todas as decisões por nós. Há muito tempo a massa de indivíduos que compõe a sociedade humana foi condicionada a pensar dessa maneira e a não questionar essa premissa. Fomos ensinados desde pequenos que a democracia é o melhor sistema que existe, que anarquia é sinônimo de desordem e caos e que os cidadãos da república devem ser educados para servir a pátria. E esses conceitos são tratados por muitas pessoas como verdades absolutas e imutáveis, que não deveriam ser questionadas de forma nenhuma.

Acontece que nos ensinam conceitos desordenados e deliberadamente distorcidos desde que éramos crianças — e há um propósito nisso. Que nos transformemos em obedientes e leais súditos do sistema e jamais o questionemos. Somos ostensivamente doutrinados desde o momento em que, ainda na infância, ingressamos na escola.

Infelizmente, temos a tendência de assimilar de tal maneira essa inoculação doutrinária que ela permanece coesa em nosso sistema de crenças pessoais por muito tempo, e suplantá-las — ou seja, substituí-las por algo que faça mais sentido do ponto de vista ético e moral — pode ser muito difícil. Requer muito estudo, esforço, análise pessoal e perseverança.

Normalmente, despertamos para a realidade quando finalmente percebemos que o sistema político não nos beneficia, sendo completamente indiferente a nossas necessidades — muito pelo contrário, beneficia unicamente as elites, as oligarquias e as castas de privilegiados que estão no topo da pirâmide — e tende a nos depauperar de múltiplas maneiras, com impostos abusivos, taxações imorais, exigências excruciantes e ainda por cima nos proíbe de empreender; ou no mínimo tenta dificultar ao máximo a atividade empreendedora através de legislação tirânica, regulações impraticáveis, exigências arbitrárias e a burocracia legalista do estado.

Quando paramos para analisar objetivamente o estado, percebemos o que ele de fato é — e objetivamente, o estado é uma máquina de fazer escravos, empenhada arduamente em doutrinar todos aqueles que estão em sujeição. Ou ainda, se preferir, podemos descrever o estado como uma religião secular. O estado pode ser visto como um análogo do cristianismo, pois de fato substitui Deus e Jesus por políticos e burocratas, os mandamentos divinos são substituídos pela burocracia legalista do estado, a congregação cristã (ou paróquia ou igreja) é substituída por prefeituras, câmaras municipais, o senado federal e o congresso nacional e a Bíblia é substituída pela constituição. O estatismo político é a substituição compulsória de Deus e dos mandamentos divinos por uma ordem injusta e imperfeita gerenciada por seres humanos egoístas, sórdidos, autoritários e iníquos.

Ou seja, o estado é uma coalizão de meros mortais que efetivamente tomam o lugar de Deus.

Infelizmente, por mais que utilizemos argumentos racionais para explicar às pessoas quão imoral, ilegítimo, espúrio e criminoso o estado é, muitas delas não conseguem entender isso. E isso acontece justamente pelo fato de que a doutrinação estatal é muito forte. As pessoas foram ensinadas desde cedo que sem o estado elas não terão amparo ou segurança. Elas foram condicionadas a pensar que sem o estado, a sociedade vai mergulhar no caos e a conflagração de um violento e brutal pandemônio será inevitável. Não haverá ordem, apenas violência, rompimento de hierarquias seculares, corrosão dos valores e das normas sociais vigentes e sepultamento das instituições.

As pessoas não veem outra saída porque foram doutrinadas a aceitar o estado como a única solução possível, o baluarte da ordem, da moralidade, da segurança e do equilíbrio de poderes. Por essa razão, muitas pessoas tendem a rejeitar frontalmente uma sociedade sem estado. O estado capturou a mente delas, fazendo-as pensar que ele — o estado — é o baluarte de toda a ordem social vigente, seu guardião moral e a única possibilidade viável de organização da sociedade humana. Todas as demais são utópicas, fantasiosas ou impraticáveis.

Nada mais ilusório, é claro. A ordem é espontânea e a intervenção estatal gera distorções na ordem natural. As pessoas acreditam nas mentiras do estado em virtude de implacável e sórdida doutrinação sistemática. Evidentemente, não devemos odiá-las ou desprezá-las por conta disso; antes de tudo, devemos ajudá-las a ter uma visão mais lúcida, objetiva e pragmática da realidade. Devemos fazer isso por mostrar efetivamente como os burocratas são irrelevantes na vida delas.

É necessário entender que o estado apela primariamente para o medo, que por sua vez apela para o instinto de sobrevivência, que é um impulso humano muito forte. Durante a pandemia global do coronavírus isso ficou bastante evidente. Não obstante, a verdade é que o estado e a política não são necessários para a existência de uma boa governança entre os seres humanos. A sociedade humana poderia se organizar de muitas formas e maneiras distintas e inúmeros exemplos históricos comprovam isso. Organizações sociais diversificadas não apenas existiram, como foram abundantes pelo mundo inteiro antes que o modelo de estado-nação se tornasse o padrão estrutural do sistema político global, imposto de forma arbitrária a todas as pessoas do mundo.

É aí que a descentralização entra como um importante fator de resistência ao estatismo político, sobre o qual poderemos resgatar valores como independência, autonomia e liberdade. Antes do sistema vertical de estado-nação ser gradualmente imposto ao mundo inteiro, boa parte da sociedade humana vivia sob formas descentralizadas de organização social. Precisamos resgatar esse modelo, tanto por suas virtudes éticas quanto pela necessidade de se restabelecer um ordenamento social mais próximo da ordem natural.

Vamos a um exemplo que mostra efetivamente a eficiência prática da descentralização, bem como seus valores coesos e moralmente salutares.

Durante a ascensão do Império Romano, esta, que foi a maior nação que já existiu no continente europeu — no seu apogeu, dominava uma região superior a 6 milhões km², controlando territórios na Europa Central, em toda a Península Balcânica, toda a Península Ibérica, toda a região do Mediterrâneo, todo o norte da África e quase toda a Bretanha, com exceção da Caledônia (atual Escócia) — estava determinada a conquistar tantos territórios quanto fosse possível. De fato, não seria exagero nenhum afirmar que Roma pretendia conquistar o mundo (ao menos o mundo antigo de acordo com a percepção vigente da época).

Os romanos, no entanto, eram ostensivamente brutais e violentos. Tratavam os povos subjugados com extrema crueldade, truculência e hostilidade. E todos aqueles que eram dominados eram obrigados a pagar pesados tributos a Roma. Só que nem todos os povos desafiados pela potência imperial romana estavam dispostos a tornarem-se vassalos ou a renunciar à sua liberdade sem oferecer resistência. Quando decidiram invadir a Germânia — território que corresponderia hoje a atual Alemanha, bem como partes da Suíça, da Holanda, da França e da Bélgica —, os romanos teriam a maior surpresa de toda a sua história.

No ano 9 do nosso calendário atual, os romanos decidiram invadir a Germânia. Publius Quinctilius Varus era um comandante militar que liderava três legiões — XVII, XVIII e XIX — além de tropas auxiliares e três esquadrões de cavalarianos. Ficou sob sua incumbência conquistar a Germânia e subjugá-la ao poderio político e militar romano. A Germânia, por sua vez, não era um território formalmente organizado sob uma estrutura política; ou seja, não era um estado-nação. Era uma região habitada por uma enorme quantidade de povos, tribos e civilizações, cada qual vivendo de acordo com as suas próprias regras, hábitos e costumes. Essas tribos não interferiam no ordenamento social e organizacional umas das outras. Todas elas usufruíam de ampla autonomia e independência.

A relação entre essas tribos, evidentemente, era de natureza muito complexa. Muitas conviviam pacificamente entre si enquanto outras frequentemente guerreavam umas contra as outras. Seja como for — à despeito das eventuais animosidades —, todas essas tribos reconheciam que partilhavam de valores culturais e ancestrais similares, ao menos até certo ponto. Algumas delas falavam o mesmo idioma, às vezes apenas variando no dialeto. De certa forma, todas estas diferentes tribos enxergavam-se como sendo “irmãs”. Reconheciam-se, por assim dizer, como parte de uma mesma nação. Essa estrutura natural e espontânea de organização social poderia ser classificada como uma forma primitiva de anarquia nacional. Existia um reconhecimento tácito de que todas estas diferentes tribos, no conjunto, formavam um mesmo povo. Mas cada uma delas se governava de acordo com os seus próprios princípios comunitários. Existia total soberania local, pois não havia um ordenamento central que subjugava compulsoriamente todas elas a um mesmo sistema de governança.

Apesar das hostilidades frequentes que eclodiam entre as várias tribos, elas se uniam para lutar contra inimigos em comum. Quando as tribos germânicas ficaram sabendo que os romanos haviam organizado uma incursão ao seu território, elas decidiram se unir. Sendo assim, diversas tribos germânicas — queruscos, caúcos, cáticos, marsos, brúcteros e sicambros — se uniram para repelir a invasão romana.

Ao contrário do que os romanos, sempre arrogantes e prepotentes, normalmente supunham, os “bárbaros” não eram burros ou estúpidos. As tribos germânicas decidiram usar a geografia do seu território a seu favor, com a qual estavam muito familiarizadas. A região, no entanto, era relativamente desconhecida para os romanos. Dessa maneira, os germânicos decidiram encurralar os romanos em uma densa floresta localizada na Baixa Saxônia. A Batalha da Floresta de Teotoburgo — como ficou conhecida — durou vários dias. E foi simplesmente a maior humilhação da história militar romana.

As diversas tribos germânicas que lutaram mostraram que não apenas sabiam se defender, como estavam dispostas a lutar arduamente pela sua liberdade. Eles não queriam e não pretendiam ser escravos. Quase todos os vinte mil legionários romanos foram mortos. Muitos preferiram cometer suicídio do que serem capturados. Este foi o caso do comandante da expedição, Publius Quinctilius Varus, que — quando percebeu que a derrota era iminente — decidiu tirar a própria vida. Os poucos romanos que sobreviveram foram escravizados. No lado das tribos germânicas, em extremo contraste com a situação do invasor, as perdas foram mínimas.

Para a potência imperial romana, a humilhação foi tão grande que o exército romano nunca mais repetiu o número das legiões derrotadas, e Roma decidiu nunca mais realizar incursões militares no território da Germânia. Depois desse acontecimento histórico, a expansão romana teve continuidade, mas apenas para o leste e para o oeste. Os romanos nunca mais se atreveram a tentar conquistar o norte da Europa novamente. A duras penas, eles aprenderam que as tribos germânicas não podiam ser subestimadas. No final das contas, eles aprenderam que nem todos os povos, raças e civilizações estavam dispostos a se curvar diante da “gloriosa” e “esplêndida” potência romana.

Agora, aqui vem a importante lição desse relevante acontecimento histórico. Os “bárbaros” germânicos venceram os romanos sem precisar de um sistema de planejamento central, de um aparato político arbitrário e discricionário controlando o seu território ou de um corpo de burocratas que tomasse todas as decisões no lugar dos indivíduos. E o mais interessante, eles venceram os romanos, que dispunham de tudo isso.

Além da atitude moralmente correta, de lutar para se defender — para preservarem as suas liberdades e a liberdade das suas famílias, e impedir que suas comunidades se tornassem escravas de uma potência estrangeira tirânica e opressiva —, as tribos germânicas estavam organizadas de uma maneira que, se não foi o único componente responsável pela vitória, foi fundamental para que obtivessem êxito. Elas viviam em uma sociedade altamente descentralizada, que permitia aos indivíduos exercerem seus direitos naturais, como autonomia, liberdade e independência para tomar as próprias decisões. E, apesar de muitas das tribos germânicas que lutaram lado a lado serem inimigas umas das outras, elas tinham o discernimento de que deveriam cultivar a obrigação moral de se unir para lutar contra uma ameaça maior.

Ou seja, neste cenário, tínhamos seres humanos exercendo suas faculdades morais e mentais pelo bem-comum — nesse caso, a sobrevivência e a preservação da liberdade. Os germânicos foram capazes de colocar desavenças e discórdias tribais de lado, para lutar pela preservação das suas comunidades e da sua liberdade. Os romanos, por outro lado, estavam em uma situação diametralmente oposta. Na Germânia, eles eram invasores estrangeiros completamente destituídos de autonomia e independência para tomar decisões e deviam obedecer cegamente as ordens de um único comandante militar. Qualquer atitude contrária seria considerada insubordinação e o insurgente estaria sujeito a receber a penalidade correspondente, que em muitos casos era a morte.

Aqui temos um clássico e categórico exemplo de luta entre oponentes completamente distintos — comunidades livres, descentralizadas e independentes lutavam contra o despotismo de uma potência política hostil e tirânica, cujo eixo axial era a centralização absoluta.

Os germânicos, portanto — além de estarem muito mais próximos que os romanos de um ordenamento natural —, tinham a motivação correta: eles lutavam pela sobrevivência e pela manutenção da sua liberdade. Os romanos, ao contrário, eram invasores mal-remunerados de uma potência política hostil e violenta, sem nenhum incentivo natural para lutar, a não ser obedecer automaticamente as ordens de um comandante militar, que por sua vez estava obedecendo às ordens da elite imperial romana.

Esse, no entanto, foi apenas um exemplo histórico que mostra a superioridade de um ordenamento social descentralizado; muitos outros poderiam ser citados. Resgatar esses exemplos é fundamental para nós hoje. Eles devem e precisam ser debatidos porque mostram efetivamente que os seres humanos não precisam da política para se organizar, tampouco precisam de uma instituição estatal violenta, centralizadora e arbitrária para guiar ou conduzir a sociedade. Na verdade, qualquer forma de organização compulsória da sociedade eventualmente entrará em colapso. É nossa obrigação expor os fatos e mostrar como é infantil e ingênua a romantização da política.

O que nós precisamos fazer é lutar arduamente para nos aproximarmos do ordenamento social descentralizado que já existiu e foi predominante em lugares como a Europa pré-romana, antes que a eclosão do modelo de estado-nação sequestrasse arbitrariamente a ordem natural no mundo inteiro, e transformasse de maneira compulsória todas as pessoas em escravos de sistemas políticos autárquicos, inflexíveis, autoritários e positivistas.

A verdade é que, analisado de forma objetiva, ao longo de toda a história humana a descentralização sempre funcionou de forma efetiva e pontual, além de ser plenamente funcional e totalmente correta do ponto de vista ético e moral. Infelizmente, explicar para outras pessoas porque a descentralização é um modelo social e econômico superior não é tão simples. A mente humana — em função de limitações intelectuais e cognitivas — não assimila a descentralização tão bem como assimila a centralização. Afinal, é inerente à natureza humana relacionar-se com um sistema único que funcione para todos. E é esse o principal problema que enfrentamos quando tentamos mostrar às pessoas quão imoral e degradante é a política e quão predatório e extorsivo é o estado.

Infelizmente, somos mais propensos a aceitar a homogeneidade no que diz respeito à organização social do que a heterogeneidade. Isso porque a busca por um padrão ou sistema ideal faz parte da natureza humana. Nos debates das redes sociais, por exemplo — quando você denuncia as mazelas do sistema político e declara quão nefasta e aviltante é a democracia, nada além de uma forma sutil e suave de totalitarismo — é muito comum que as pessoas questionem “mas então, qual é o sistema que você acha perfeito?”; Ou ainda “qual é o sistema ideal na sua opinião?”.

Essas pessoas estão simplesmente expressando o seu condicionamento natural de busca e compreensão por um padrão organizacional que tenha um denominador comum que “funcione para todos”. Isso porque elas não compreendem a descentralização tão bem como compreendem a centralização. Em larga medida, a doutrinação e a lavagem cerebral que as pessoas sofreram na escola desde que eram crianças podem ser responsabilizadas por esse “emburrecimento” institucionalizado de seres humanos, que são tratados como gado pelo sistema educacional padronizado implementado por políticos e burocratas.

Por essa razão, apesar da descentralização ser infinitamente superior — e até mesmo exemplos mais modernos como Suíça e Estados Unidos comprovam isso —, as pessoas frequentemente demonstram desconfiança, cinismo e ceticismo quando as convidamos a explorar essa possibilidade. A dramática inclinação humana à uniformização, a homogeneidade e a padronização na questão de organogramas organizacionais de natureza política não deve jamais ser subestimada. Como descrito acima, ela é um impulso muito forte. Embora ela seja um equívoco severo em muitos sentidos e não raro conduz ao despotismo, à tirania e ao totalitarismo de estado.

Outro problema é que conceitos como estado e governo são ostensivamente confundidos. Isso porque o sistema — para o seu próprio benefício — não faz uma distinção entre estado e governança, justamente para confundir a população. Ausência de estado não significa ausência de governo, e sim a ausência de um tirânico e autocrático ordenamento compulsório de escravidão arbitrária, gerenciado por um complexo sistema de máfias organizadas que se perpetuam com a expropriação e a extorsão institucionalizada da sociedade produtiva.

Não podemos esquecer que o estado, além de doutrinar a população, faz de tudo para misturar conceitos com o objetivo deliberado de confundir as pessoas através de um complexo jogo de deturpação semântica. Por exemplo, o estado pratica roubo, extorsão e estelionato, mas chama isso de imposto, taxa e tarifa; tal confusão é suficiente para inocentar o estado de culpa e fazê-lo parecer uma organização legítima aos olhos dos cidadãos doutrinados, incapazes de perceber a real natureza do estado.

Mas — como foi explicado acima —, infelizmente a mente humana não tem o hábito de assimilar a descentralização da mesma forma que assimila a centralização, cujo diagrama organizacional é mais simples porque substitui diversas variáveis possíveis e simultâneas por apenas uma única “solução”, quase sempre de natureza política. Solução esta, é claro, que deverá ser imposta a força a todos aqueles que não concordarem com ela.

Só que a centralização — ao contrário da descentralização — é o eixo axial de uma vasta e colossal profusão de problemas. Um problema vai surgindo como consequência do problema anterior, como uma reação em cadeia. E as “soluções” do estado para esses problemas quase sempre são problemas ainda piores.

Por exemplo, a centralização alimenta o coletivismo, o coletivismo alimenta o populismo, e o populismo alimenta insólitos e tirânicos projetos de poder, cujos resultados nefastos — ao longo de todo o século 20 — foram exatamente os mesmos: tirania, totalitarismo de estado, enriquecimento exacerbado da classe política, de seus associados corporativistas e de outras entidades com conexões políticas, carnificina famélica para boa parte da população, ruína econômica, inanição e mortalidade infantil, degradação e degeneração social, desarmamento da população, explosão da criminalidade, hiperinflação e subsequente redução do poder aquisitivo, escassez, falência generalizada de empresas e miséria crônica em larga escala, entre muitos outros problemas igualmente pungentes, sórdidos e aflitivos.

É triste que, em pleno século 21, ainda existam pessoas que defendem com convicção as ideologias políticas que causaram a humanidade toda essa nefasta e degradante destruição — todas elas insofismáveis variantes do estatismo. Não obstante, é fundamental entender que a maioria das pessoas que defendem isso estão, em grande parte, simplesmente obedecendo a um condicionamento primitivo da mente humana, que busca por respostas de forma imediatista, sem considerar fracassos históricos e suas implicações concretas no mundo real. Para piorar, muitas delas foram doutrinadas para pensar que um sistema político centralizado é não apenas algo natural, como inevitável e indispensável para a organização da sociedade.

Somos projetados para pensar coletivamente, e se livrar desse condicionamento não é tão simples como gostaríamos. O establishment político sabe disso, e se aproveita dessa tendência humana para se perpetuar. Não é de hoje que vemos demagogos populistas como Lula da Silva ou Ciro Gomes apelando ao seu eleitorado com discursos baratos, tediosos e redundantes, onde vemos muita paixão e veemência, mas absolutamente nenhuma coerência, coesão, consistência, fatos concretos ou comprometimento com a realidade. Explorar as necessidades, angústias, ressentimentos e paixões políticas da manada é o que o establishment político sabe fazer de melhor. E enquanto as pessoas cederem a essas paixões de palanque, o estatismo político infelizmente continuará a existir e a infligir graves danos na sociedade produtiva. Nada como algumas boas manadas de idiotas úteis para serem conduzidos como cordeirinhos pelo populista da vez em direção a sua utopia de estimação.

Como as pessoas não conseguem perceber como são manipuladas — e quando percebem, tendem a não reconhecer, por uma questão de vaidade e orgulho —, o establishment sobrevive explorando a imoralidade do seu rebanho e prometendo saciar suas necessidades com medidas populistas, como assistencialismo perpetuamente renovável, verbas para projetos e editais, exclusivismo cultural e desenfreados ataques frenéticos ao capitalismo “maléfico” que, de acordo com a retórica socialista padrão, é o responsável por todas as desgraças da humanidade.

O estatismo político tem a sórdida e inevitável tendência de conduzir a multidão pelas nefastas searas do coletivismo, onde o pensamento de manada predomina, a ponto de se tornar um insalubre condicionamento irreversível, e o individualismo é negligenciado de forma ostensivamente criminosa, sendo até mesmo considerado pela esquerda política como um vulgar e abjeto conceito “burguês”.

Dessa forma, um conceito tão fundamental como descentralização passa a ser visto como uma piada excêntrica e simplória, sendo ridicularizado pelo establishment, que está sempre inclinando-se na direção oposta, a da centralização total, porque isso convenientemente atende aos seus interesses. A centralização, no entanto, invariavelmente conduz a sociedade ao totalitarismo.

Exemplos enfáticos de descentralização, como o americano e o suíço, por si só seriam suficientes para mostrar como a sociedade humana é capaz de se organizar de uma forma incrivelmente eficiente a partir de um organograma descentralizado. Embora nunca tenha sido uma descentralização ideal, ela atingiu níveis de êxito e liberdade que foram poucas vezes conquistados ao longo de toda a história humana, e o fato de que ainda funcionam, ao menos de uma forma relativa, é simplesmente surpreendente, especialmente nesse turbulento período em que vivemos, onde a patológica centralização estatal da política mundial assume contornos cada vez mais tirânicos e autoritários diariamente, e diversas nações ao redor do mundo — seja por medo, influência e pressão interna ou externa — acabam cedendo a essa deplorável e sórdida tendência. Durante a pandemia de coronavírus, vimos muito bem como o estado em diversos países do mundo aproveitou o pânico generalizado, fomentado pela mídia, para expandir de forma autocrática e criminosa os seus poderes plenipotenciários sobre a população.

A verdade é que a descentralização é fundamental para a conquista de progresso, desenvolvimento e prosperidade, e do ponto de vista ético e moral o indivíduo tem todo o direito de exercer a sua autonomia, a sua liberdade e a sua independência. Ao contrário do que os estatistas pensam, a centralização política não beneficia os cidadãos comuns, mas apenas as oligarquias, as máfias e os grupos de interesse que estão no controle do estado, e que enriquecem avidamente cartelizando o mercado, garantindo que suas empresas se tornem monopólios onipotentes, estabelecendo reservas de mercado discricionárias com regulações protecionistas e recebendo polpudas verbas e subsídios governamentais para sustentar negócios que — em um regime de livre mercado — não durariam muito tempo.

Nesse sistema, o cidadão comum é negativamente afetado, pois ele tem tudo a perder e nada a ganhar. Afinal, 70% dos seus rendimentos são surrupiados através de impostos diretos e indiretos, já que é colocado sobre os seus ombros o peso de sustentar a máfia de burocratas que está no comando do sistema, com a obrigação de bancar os seus salários nababescos e o vasto cabedal de benefícios adicionais que os parasitas usufruem.

A verdade é que a sociedade humana nunca precisou de um sistema centralizado para nada — muito menos de burocratas — e os fatos históricos comprovam isso de maneira irrefutável e contundente. Se as pessoas estudassem história com seriedade, comprometimento e desejo sincero de compreender a realidade que as cerca, sentiriam uma enorme vontade de lutar para se libertarem da escravidão tirânica que as aprisiona, impedindo-as de conquistar verdadeira felicidade e prosperidade.

A verdade — dita de forma direta e simples — é que burocratas são completamente desnecessários em qualquer cenário, sendo totalmente irrelevantes em um ordenamento social livre, baseado na propriedade privada e no direito natural. Burocratas não beneficiam ninguém a não ser a eles próprios e aos seus associados corporativistas. Pelo contrário, eles são o eixo axial de um sistema injusto que beneficia poucos em detrimento de muitos. A política e o estado são as engrenagens responsáveis por perpetuar o status quo.

Quanto mais centralização houver, mais poder os burocratas terão. Essa é a principal razão pela qual eles estão exigindo sempre mais poder de decisão a cada dia, que todas as coisas tenham convergência no estado, que o estado assuma um número cada vez maior de funções e responsabilidades e também persistem em suplantar de forma imoral e arbitrária as poucas liberdades que ainda restam aos cidadãos. Ou seja, o estado sempre manifesta tendências nefastas em direção a centralização — que resulta em enorme quantidade de restrições e proporcional perda da liberdade para os indivíduos —, e a centralização por sua vez conduz ao totalitarismo.

A verdade, expressa de forma bem direta, mostra que — além de totalmente desnecessários — burocratas não passam de parasitas que vivem para depredar, expropriar e depenar o cidadão comum ao máximo, em um ciclo contínuo e voraz de rapinagem bestial e deletéria que nunca termina. Precisamos expor continuamente o mal que essa casta de predadores causa para a sociedade, difundir a legitimidade da desobediência civil e proclamar o edificante poder da descentralização, fundamental para resgatar a autonomia, a independência e a liberdade do indivíduo. Virtudes que há muito tempo foram suplantadas e sequestradas por esse nefasto, violento e degradante sistema baseado em roubo, saque, tirania e expropriação institucionalizada que é o estatismo político.

 

7 COMENTÁRIOS

  1. Vocês são malucos? Porra, e quem vai construir as pontes? Eu trabalho numa prefeitura, como é que fica o meu lado se o estado acabar? Tipo: eu comecei a ler esse texto hoje , 19/06/2020, por volta das 16h, enquanto tomava um café e não estava fazendo o que eu sou de fato pago para fazer ( hoje é sexta, foda-se tudo, segunda eu trabalho se não tiver nada melhor pra fazer ou não tiver jeito ). Enfim, onde vou encontrar um trabalho em que eu possa morcegar vendo artigos nesse instituo as sextas-feiras no final da tarde? Mano, nego viaja muito, ptz….

  2. “Por exemplo, o estado pratica roubo, extorsão e estelionato, mas chama isso de imposto, taxa e tarifa”

    Interessante isso, pois eu sempre considerei tudo uma coisa só, simplesmente roubo praticado por uma gangue violenta e monopolista. Mas essa distinção é excelente, pois prova que a máfia é de fato uma organização preferível ao estado, pois o negócio dela é um crime de potencial menor que roubo, já que trabalham basicamente com extorsão.Neste caso, traficantes de drogas seriam mais “inocentes” ainda, já que por conta do estado somos obrigados a aguentar o monopólio dos cartéis, pagando caro por um pino, além da qualidade duvidosa. É a própria empresa pública.