O Caminho da Servidão

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CAPÍTULO 8 – QUEM, A QUEM?

A melhor oportunidade que o mundo já teve foi desperdiçada porque a obsessão pela igualdade frustrou as esperanças deliberdade. – Lord Acton

 

É significativo que uma das objeções mais frequentes à concorrência é que ela é “cega”. Convém lembrar, entretanto, que, para os antigos, a cegueira era atributo da deusa da justiça. Se bem que a concorrência e a justiça pouco mais tenham em comum, ambas são dignas de elogio justamente por não admitirem discriminação entre as pessoas. A impossibilidade de prever quem será bem-sucedido e quem fracassará, o fato de recompensas e perdas não serem distribuídas segundo um determinado conceito de mérito ou demérito, dependendo antes da capacidade e da sorte de cada um – isso é tão importante quanto não sermos capazes de prever, na feitura das leis, quem em particular sairá ganhando ou perdendo com a sua aplicação. E a circunstância de, no regime de concorrência, o destino das diferentes pessoas ser determinado não só pela habilidade e a capacidade de prever, mas também pelo acaso e a sorte não torna isso menos verdadeiro.

O que se nos apresenta não é a escolha entre um sistema em que cada um receberá o que merece de acordo com um padrão absoluto e universal de justiça, e um sistema em que a parcela de cada um seja determinada em parte pelo acaso ou pela boa ou má sorte: é a escolha entre um sistema em que a vontade de poucos decida a quem caberá isto ou aquilo e outro em que essa parcela dependa, pelo menos em parte, da habilidade e iniciativa dos indivíduos e, também em parte, de circunstâncias imprevisíveis. Essa distinção mantém a sua importância mesmo se, num sistema de livre iniciativa, as oportunidades não são iguais, visto que tal sistema se baseia necessariamente na propriedade privada e (talvez não tão necessariamente) no direito à herança, com as diferenças de oportunidade que lhes são inerentes. Com efeito, justifica-se a redução dessa desigualdade de oportunidades tanto quanto o permitem as diferenças congênitas, e na medida em que seja possível fazê-lo sem destruir o caráter impessoal do processo pelo qual cada um tem de assumir os próprios riscos, e em que nenhum conceito individual sobre o que é justo e desejável prevaleça sobre os demais.

Sem dúvida, no regime de concorrência, as oportunidades ao alcance dos pobres são muito mais limitadas que as acessíveis aos ricos. Mas mesmo assim em tal regime o pobre tem uma liberdade maior do que um indivíduo que goze de muito mais conforto material numa sociedade de outro gênero. No regime de concorrência, as probabilidades de um homem pobre conquistar grande fortuna são muito menores que as daquele que herdou sua riqueza. Nele, porém, tal coisa é possível, visto ser o sistema de concorrência o único em que o enriquecimento depende exclusivamente do indivíduo e não do favor dos poderosos, e em que ninguém pode impedir que alguém tente alcançar esse resultado. Já esquecemos o que significa a falta de liberdade; essa é a razão pela qual muitas vezes não percebemos o fato evidente de que, em todos os sentidos, um trabalhador não-especializado e mal pago tem, na Inglaterra, mais liberdade de escolher o rumo da sua vida do que muitos pequenos empresários na Alemanha, ou do que engenheiro ou gerente de empresa muito mais bem pago na Rússia. Quer se trate de mudar de emprego ou de residência, de externar certas opiniões ou de passar deste ou daquele modo as horas de lazer – embora seja por vezes elevado o preço que se tem de pagar pelo direito de seguir as próprias inclinações, e a muitos esse preço se afigure exagerado – não existe empecilho absoluto ou perigo para a integridade física e para a liberdade que prendam à força esse trabalhador à tarefa e ao ambiente designados por um superior.

É verdade que o ideal de justiça da maioria dos socialistas seria satisfeito com a simples abolição da renda privada resultante da propriedade, permanecendo inalteradas as diferenças entre os rendimentos individuais do trabalho1. O que eles esquecem é que, ao transferir para o estado toda a propriedade dos meios de produção, dão-lhe automaticamente condições de determinar todos os outros rendimentos. Conferir tal poder ao estado e exigir que este o use para “planejar” implica que o estado deverá usá-lo com plena consciência de todos esses efeitos.

É errôneo supor que isso não passa de uma transferência de poder ao estado. Trata-se da criação de um novo poder que, numa sociedade competitiva, ninguém possui. Enquanto a propriedade estiver dividida entre muitos donos, nenhum deles, agindo independentemente, tem o poder exclusivo de determinar a renda e a posição de um indivíduo. Ninguém fica vinculado a um proprietário, a não ser pelo fato de este oferecer condições melhores que qualquer outro.

Nossa geração esqueceu que o sistema de propriedade privada é a mais importante garantia da liberdade, não só para os proprietários mas também para os que não o são. Ninguém dispõe de poder absoluto sobre nós, e, como indivíduos, podemos escolher o sentido de nossa vida – isso porque o controle dos meios de produção se acha dividido entre muitas pessoas que agem de modo independente. Se todos os meios de produção pertencessem a uma única entidade, fosse ela a “sociedade” como um todo ou um ditador, quem exercesse esse controle teria poder absoluto sobre nós.

Quem duvidaria que um membro de uma pequena minoria racial ou religiosa seja mais livre sem nada possuir – no caso de outros membros de sua comunidade terem propriedades e, portanto, estarem em condições de empregá-lo – do que o seria se a propriedade privada fosse abolida e ele se tornasse possuidor nominal de uma parte da propriedade comum? Ou que o poder exercido sobre mim por um multimilionário, que pode ser meu vizinho e talvez meu patrão, é muito menor que o do mais insignificante funcionário que exerce o poder coercitivo do estado e decide em que condições poderei viver ou trabalhar? E quem negará que um mundo em que os ricos são poderosos ainda é preferível àquele em que só os poderosos podem adquirir riquezas?

É patético, e ao mesmo tempo estimulante, constatar que um velho e famoso comunista como Max Eastman redescobre esta verdade:

Parece-me agora evidente – [escreve ele em recente artigo] -, embora deva confessar que tardei em chegar a essa conclusão, que a instituição da propriedade privada é um dos principais fatores que conferiram ao homem justamente aquela porção limitada de liberdade e igualdade que Marx esperava tornar infinita, ao abolir tal instituição. O estranho é que Marx foi o primeiro a perceber esse fato. Foi ele que nos informou, remontando ao passado, que a evolução do capitalismo privado com o mercado livre foi a condição prévia da evolução de todas as nossas liberdades democráticas. Nunca lhe ocorreu, considerando o futuro, deduzir que, se assim acontecia, essas outras liberdades poderiam desaparecer com a abolição do mercado livre2.

Afirma-se às vezes, em resposta a esses temores, que não há razão para supormos que o planejador determina a renda do indivíduo. Decidir a participação de cada indivíduo na renda nacional envolve dificuldades políticas e sociais tão evidentes que até o mais inveterado planejador hesitará antes de encarregar qualquer autoridade dessa tarefa. Provavelmente, quem compreende o que isso implica preferiria limitar o planejamento à produção e empregá-lo apenas para garantir uma “organização racional da produção”. deixando a distribuição da renda tanto quanto possível a forças impessoais. Embora não se possa dirigir a produção sem influir de certo modo na distribuição, e ainda que nenhum planejador deseje deixar a distribuição inteiramente às forças do mercado, é provável que todos eles preferissem limitar-se a fazer a distribuição obedecer a certas normas gerais de equidade e justiça, evitando as desigualdades extremas e estabelecendo uma relação justa entre as remunerações das principais classes ou às gradações e diferenciações entre indivíduos e pequenos grupos.

Já vimos que a íntima interdependência de todos os fenômenos econômicos torna difícil deter o planejamento exatamente no ponto desejado e que, ao impedir que o livre funcionamento do mercado se estenda além de certo limite, o planejador será forçado a ampliar os seus controles até estes abrangerem todos os aspectos da sociedade. Estas considerações econômicas, que explicam por que razão é impossível fazer cessar o controle no ponto desejado, encontram poderoso apoio em certas tendências sociais ou políticas cuja força se faz sentir cada vez mais com a extensão do planejamento.

À medida que se torna evidente à maioria das pessoas que a situação do indivíduo não é determinada por forças impessoais, como resultado da concorrência, mas pela decisão de uma autoridade, mudará necessariamente a atitude de cada um para com a sua posição na ordem social. Haverá sempre desigualdades que parecerão injustas aos que as sofrem decepções e infortúnios imerecidos. Mas quando essas coisas acontecem numa sociedade conscientemente dirigida, a maneira como as pessoas reagem é muito diferente daquela como o fazem quando tais desigualdades e infortúnios não resultam de escolha consciente. A desigualdade gerada por forças impessoais é, sem dúvida, melhor suportada, e afeta bem menos a dignidade do indivíduo, do que quando é intencional. No regime de concorrência, não representa desconsideração ou ofensa à dignidade de uma pessoa ser avisado pela direção da firma de que seus serviços já não são necessários ou de que não se lhe pode oferecer emprego melhor. É certo que, em épocas de desemprego em massa e prolongado, muitos poderão sentir-se assim. Há, porém, outros métodos de impedir essa desgraça, melhores do que o planejamento central; e o desemprego ou a perda de rendimentos que nunca deixarão de atingir a alguns em qualquer sociedade são, por certo, menos degradantes quando causados por infortúnio do que quando deliberadamente impostos pela autoridade. Por mais amarga que tal experiência seja, seria muito pior numa sociedade planificada. Nesta, caberia à autoridade decidir, não se precisa de uma pessoa para certo emprego, mas se ela pode ter qualquer utilidade e em que medida. Sua posição na vida seria determinada por outrem.

Embora muitos suportem os sofrimentos a que qualquer um pode estar sujeito, não lhes é fácil aceitar aqueles causados pela decisão da autoridade. Talvez seja desagradável não representar mais que uma peça num mecanismo impessoal; mas é infinitamente pior quando já não podemos escapar, quando estamos acorrentados a nossa posição e aos superiores que nos foram designados. O descontentamento de todos com a própria sorte crescerá inevitavelmente com a consciência de que ela resulta das decisões de alguém.

Quando o governo empreende o planejamento tendo a justiça como objetivo, não pode furtar-se à responsabilidade pelo destino ou pela posição de cada cidadão. Numa sociedade planificada todos saberemos que estamos em melhor ou pior situação que outrem, não em virtude de circunstâncias que ninguém controla e que é impossível prever com certeza, mas porque alguma autoridade assim o quer. E todos os esforços que envidaremos para melhorar nossa situação não visarão a prever da melhor maneira essas circunstâncias sobre as quais não temos nenhum controle e a prepararmo-nos para elas; visarão antes a influenciar em nosso favor a autoridade que detém todo o poder. O pesadelo dos pensadores políticos ingleses do século XIX, o estado em que “não haveria caminho para as honras e a riqueza senão por intermédio do governo”3, alcançaria um grau de realidade nunca imaginado por eles – embora já bastante comum em alguns países que, de então para cá, adotaram o regime totalitário.

Assim que o estado assume a tarefa de planejar toda a vida econômica, o problema da posição dos diferentes indivíduos e grupos torna-se inevitavelmente a questão política predominante. Como só o poder coercitivo do estado decidirá a quem cabe isto ou aquilo, o único poder efetivo e desejável será a participação no exercício desse mesmo poder. Não haverá questão econômica ou social que não seja também uma questão política, no sentido de que a sua solução dependerá exclusivamente de quem manejar o poder coercitivo, daqueles cujas ideias estiverem predominando.

Creio ter sido o próprio Lênin que introduziu na Rússia a famosa expressão “quem, a quem?”, com a qual nos primeiros anos do regime soviético o povo sintetizava o problema universal de uma sociedade socialista4. Quem planeja a vida de quem? Quem dirige e domina a quem? Quem determina a posição do indivíduo durante sua existência e quem tem o que lhe cabe determinado por outrem? Estas se tornam as questões essenciais, que só podem ser decididas pelo poder supremo. Mais recentemente, um pesquisador político norte-americano ampliou a expressão de Lênin, afirmando que o problema de todo governo é “quem recebe o que, quando e como?” De certo modo, isso é verdade. Não se pode contestar que todo governo exerce influência na posição relativa das diferentes pessoas e que, em todos os sistemas, quase não há aspecto da nossa existência que não seja atingido pela ação governamental. Na medida em que o governo age, sempre influirá na questão de “quem recebe o que, quando e como”.

Há, todavia, duas distinções fundamentais a fazer. Em primeiro lugar, é possível tomar medidas concretas sem saber de que modo elas atingirão cada indivíduo e, portanto, sem visar a tais efeitos específicos. Já discutimos esse ponto. Em segundo lugar, é a amplitude das atividades governamentais que determina se tudo o que um indivíduo recebe em qualquer ocasião depende do governo, ou se a influência deste se limita a condicionar se certas pessoas receberão certas coisas, de certo modo, em certas ocasiões. Nisto consiste toda a diferença entre um sistema livre e um sistema totalitário. O contraste entre a sociedade liberal e a sociedade totalmente planificada fica patente nos ataques movidos por nazistas e socialistas à “separação artificial da economia e da política” e na sua exigência de que a política domine a economia.

Essas expressões parecem significar que hoje se permite às forças econômicas atuar em benefício de fins alheios à política adotada pelo governo, e também que o poder econômico pode ser usado de maneira independente do controle governamental, para objetivos que o governo talvez não aprove. A alternativa, porém, não é apenas a existência de um poder único, mas de um poder, o grupo dirigente, que controle todos os objetivos humanos e, em especial, detenha autoridade total sobre a posição de cada indivíduo.

Um governo que assume a direção da atividade econômica sem dúvida tem de usar seu poder para realizar um determinado ideal de justiça distributiva. Mas como poderá usar esse poder, e como o usará de fato? Por que princípios se orientará ou deveria orientar-se? Existe uma solução definida para as inúmeras questões de mérito relativo que surgirão e que terão de ser resolvidas deliberadamente? Há uma escala de valores que possa ser aceita pelas pessoas de bom senso, que justifique uma nova ordem hierárquica da sociedade e atenda às reivindicações de justiça?

Só existe um princípio geral, uma regra simples que de fato ofereceria uma resposta inequívoca a todas essas perguntas: igualdade, completa e absoluta igualdade de todos os indivíduos em todos os assuntos que estão sujeitos ao controle humano. Se isso fosse considerado desejável pela maioria (independentemente de ser ou não praticável, ou seja, de oferecer incentivos adequados), contribuiria para dar maior clareza à ideia vaga de justiça distributiva e para dar orientação definida ao planejador. Nada, porém, está mais longe da verdade do que a ideia de que os homens em geral consideram desejável semelhante igualdade mecânica. Nenhum movimento socialista que tenha pretendido a igualdade completa conseguiu até hoje apoio substancial. O que o socialismo prometia não era uma distribuição absolutamente igual, mas uma distribuição mais justa e mais equitativa. A única meta a que de fato se visa não é a igualdade em sentido absoluto, mas uma “igualdade maior”.

Embora esses dois ideais pareçam muito semelhantes, são diferentes ao extremo no que concerne ao nosso problema. Ao passo que a igualdade absoluta determinaria com exatidão a tarefa do planejador, o desejo de uma igualdade maior é apenas negativo, mera expressão de desagrado em face da situação atual; e enquanto não estivermos dispostos a aprovar cada medida que vise à igualdade completa, tal desejo não solucionará quase nenhuma das questões que cumpre ao planejador decidir.

Isso não é um simples jogo de palavras. Estamos tratando de uma questão crucial que a semelhança dos termos tende a ocultar. Embora o consenso em torno da igualdade completa solucionasse todos os problemas de mérito que o planejador tem de resolver, a opção por uma igualdade maior não soluciona quase nenhum. Seu teor não vai muito além de expressões vagas como “o bem comum” ou “o bem-estar social”. Não nos livra da necessidade de decidir em cada caso entre os méritos de determinados indivíduos ou grupos, e não nos auxilia nessa decisão. Limita-se, com efeito, a dizer que devemos tirar dos ricos o mais que pudermos. Mas no que diz respeito à distribuição dos despojos, o problema continua o mesmo, como se nunca se houvesse concebido optar por uma “igualdade maior”.

A maioria das pessoas acha difícil admitir a inexistência de padrões morais que nos permitam resolver essas questões – se não perfeitamente, pelo menos de maneira mais satisfatória do que o faz o sistema de concorrência. Não temos todos nós, por acaso, noção do que seja um ”preço justo” ou um “salário razoável”? Não podemos confiar no forte senso de justiça do povo. E, mesmo que hoje não concordemos de todo sobre o que é justo ou razoável num caso determinado, as ideias populares não se consolidariam em padrões mais definidos se os homens tivessem oportunidade de ver realizados os seus ideais?

Infelizmente, tais esperanças têm pouco fundamento. Os padrões que possuímos originam-se do sistema de concorrência em que vivemos, e portanto desapareceriam tão logo este fosse suprimido. O que entendemos por preço justo e por salário razoável são os preços ou salários usuais, o retorno que a experiência passada nos levou a esperar, ou o preço e salário que existiriam se não houvesse a exploração monopólica. A única exceção importante era a reivindicação do “produto integral do trabalho” que costumava ser feita pelos trabalhadores, e da qual se originou grande parte da doutrina socialista. Mas poucos socialistas acreditam hoje que numa sociedade socialista o produto de cada indústria seria inteiramente partilhado por quem nela trabalhasse; pois isso significaria que os trabalhadores das indústrias de capital intensivo teriam uma renda muito maior que os trabalhadores das indústrias que empregam pouco capital, o que a maioria dos socialistas acharia bastante injusto. E hoje em dia quase todos reconhecem que essa reivindicação se baseava numa interpretação errônea dos fatos. Mas uma vez rejeitada a reivindicação individual do trabalhador ao produto integral do “seu” trabalho e estabelecido que o retorno sobre o capital seja dividido entre todos os trabalhadores, o problema de como dividi-lo suscita a mesma questão básica.

É concebível que o “preço justo” de certa mercadoria ou a remuneração “razoável” por um dado serviço pudessem ser determinados de maneira objetiva se as quantidades necessárias fossem fixadas de modo independente. Se estas fossem especificadas sem levar em conta o custo, o planejador poderia tentar encontrar o preço ou o salário necessários para produzir tais quantidades. Mas o planejador também deve decidir em que quantidade cada mercadoria será produzida e, ao fazê-lo, determina qual será o preço justo ou o salário razoável a pagar. Se ele resolver que a economia precisa de um número menor de arquitetos ou de relojoeiros, e que se pode atender a essa necessidade utilizando o trabalho daqueles que estão dispostos a aceitar uma remuneração inferior, o salário “razoável” será mais baixo. Ao fixar a importância relativa dos diferentes objetivos, o planejador também fixa a importância relativa das diferentes pessoas e grupos. Visto que não deve tratar as pessoas como simples meios, terá de levar em conta esses efeitos e avaliar a importância das diferentes finalidades em relação aos resultados da sua decisão – o que significa, no entanto; que terá de exercer um controle direto sobre as condições dos diferentes indivíduos.

Isso se aplica não só à posição relativa dos indivíduos, mas também a dos diferentes grupos ocupacionais. Em geral temos uma grande tendência a considerar mais ou menos uniformes os rendimentos de cada profissão. Mas as diferenças entre os rendimentos, não só do médico ou arquiteto, escritor ou ator cinematográfico, jóquei ou boxeador, de maior ou menor fama, mas também do jardineiro ou encanador, alfaiate ou dono de mercadoria bem ou malsucedido, são tão grandes como as que existem entre a classe dos proprietários e dos não proprietários. E embora houvesse, sem dúvida, alguma tentativa de padronizar essas diferenças pela criação de categorias, a necessidade de discriminar entre indivíduos continuaria a existir, quer tal discriminação se fizesse mediante a fixação dos rendimentos individuais, quer pela sua inclusão em categorias determinadas.

É desnecessário estendermo-nos sobre a probabilidade de membros de uma sociedade livre submeterem-se a tal controle – ou de permanecerem livres, caso o façam. A este respeito, hoje não é menos válido o que John Stuart Mill escreveu há quase um século:

Poder-se-ia admitir uma regra fixa, como a da igualdade, ou a sorte ou uma necessidade externa; mas seria intolerável que um punhado de seres humanos pesasse todos na balança, dando mais a este e menos àquele a seu bel-prazer ou segundo o próprio critério de julgamento, a não ser que se tratasse de indivíduos considerados super-homens e apoiados em poderes sobrenaturais5.

Enquanto o socialismo é apenas a aspiração de um grupo limitado e bastante homogêneo, essas dificuldades não conduzem forçosamente a conflitos abertos. Estes só afloram quando se tenta pôr em prática uma política socialista com o apoio dos numerosos grupos diferentes que compõem a maioria do povo. Então, não tarda a converter-se em questão suprema a escolha do ideal a ser imposto a todos, e a serviço do qual será colocada a totalidade dos recursos do país. O planejamento bem-sucedido exige a criação de uma opinião comum sobre os valores essenciais; é por isso que a restrição da nossa liberdade no que diz respeito às coisas materiais atinge de modo tão direto nossa liberdade espiritual.

Os socialistas – pais civilizados da progênie bárbara de nossos dias – sempre esperaram resolver esse problema pela educação. Mas que significa educação neste caso? Por certo já aprendemos que o saber não pode criar novos valores éticos e que o acúmulo de conhecimentos não leva os homens a terem a mesma opinião sobre as questões morais suscitadas pelo controle consciente de todas as relações sociais. Não se justifica um plano concreto por uma convicção racional, mas pela aceitação de uma fé. De fato, os socialistas foram em toda parte os primeiros a reconhecer que a tarefa por eles assumida exigia a aceitação generalizada de umaWeltanschauung (N. do T.: literalmente, “visão de mundo”), comum de um conjunto definido de valores. Foi nessa tentativa de produzir um movimento de massas baseado numa única concepção do mundo que os socialistas criaram a maioria dos instrumentos de doutrinação usados com tanta eficácia pelos nazistas e fascistas.

Com efeito, tanto na Alemanha como na Itália, nazistas e fascistas pouco tiveram a inventar. Os costumes desses novos movimentos políticos que impregnaram todos os aspectos da vida já tinham sido introduzidos em ambos os países pelos socialistas. Foram estes os primeiros a pôr em prática a ideia de um partido político que abrange todas as atividades do indivíduo, do berço ao túmulo, que pretende orientar todas as suas concepções e se deleita em converter todos os problemas em questões de Weltanschauung partidária. Falando do movimento socialista no seu país, declara com orgulho um autor austríaco que sua feição característica era ter criado “organizações especiais para cada campo de atividade de operários e assalariados em geral”.6 Embora os socialistas austríacos tenham ido talvez mais longe do que outros neste particular, a situação não era muito diferente nos demais países. Não foram os fascistas, mas os socialistas, que começaram a arregimentar as crianças desde a mais tenra idade em organizações políticas para garantir que elas se tornassem bons proletários. Não foram os fascistas, mas os socialistas, os primeiros que pensaram em organizar esportes e jogos, futebol e passeios a pé, em clubes do partido onde os membros não pudessem ser contagiados por outras ideias. Foram os socialistas os primeiros a insistir em que o membro do partido se distinguisse dos demais pela maneira de saudar e pelas formas de tratamento. Foram eles que, com a sua organização de “células” e de dispositivos destinados à fiscalização permanente da vida privada, criaram o protótipo do partido totalitário. Conceitos como Balilla e Hiüerjugend, Dopolavoro e Kraft durch Freude,uniformes políticos e a estruturação militar dos partidos, pouco mais são do que imitações de instituições socialistas mais antigas.7

Enquanto, num país, o movimento socialista estiver intimamente ligado aos interesses de um grupo particular, em geral constituído pelo operariado das categorias mais especializadas, será bastante simples criar uma opinião comum quanto ao status desejável dos diferentes membros da sociedade. A primeira preocupação do movimento será elevar o status de um grupo acima do dos outros grupos. O problema, todavia, muda de caráter à medida que, na marcha progressiva para o socialismo, evidencia-se para o indivíduo que sua renda, e de um modo geral sua posição, são determinadas pelo mecanismo coercitivo do estado e que ele só pode manter ou melhorar essa posição como membro de um grupo organizado capaz de influenciar ou controlar a máquina estatal.

No conflito entre os vários grupos de pressão, que emerge nesse estágio, não prevalecem necessariamente os interesses dos grupos mais pobres e mais numerosos. Nem constitui necessariamente uma vantagem para os partidos socialistas mais antigos, que representavam os interesses de um grupo específico, terem sido os primeiros a aparecer e terem moldado toda a sua ideologia de modo a atrair o operariado especializado. O seu próprio êxito, e a sua insistência na aceitação da doutrina como um todo, estão fadados a criar um poderoso movimento contrário – não um movimento dos capitalistas, mas das classes numerosas e igualmente não proprietárias, cujo status relativo é ameaçado pelo avanço da elite operária.

A teoria e a tática socialistas, mesmo quando não dominadas pelo dogma marxista, têm-se baseado sempre na ideia de uma divisão da sociedade em duas classes com interesses comuns, porém conflitantes: os capitalistas e os operários. Os socialistas confiavam no rápido desaparecimento da antiga classe média e esqueceram por completo a ascensão de uma nova classe média, o incontável exército de escrituramos e datilógrafos, funcionários administrativos e professores, varejistas e pequenos burocratas e as camadas inferiores das profissões. Durante algum tempo, essas classes produziram muitos dos líderes do movimento trabalhista. À medida, porém, que se tornava mais evidente a deterioração do status dessas classes em relação aos operários, os ideais por que estes se norteavam perderam em grande parte o atrativo que tinham para aqueles. Embora fossem todos socialistas no sentido de não estarem satisfeitos com o sistema capitalista e desejarem uma distribuição intencional da riqueza de acordo com sua ideia de justiça, tal ideia revelou-se bem diversa daquela que se achava incorporada à prática dos partidos socialistas mais antigos.

O meio empregado com êxito pelos antigos partidos socialistas para garantir o apoio de uma categoria profissional – a elevação do status econômico relativo dessa categoria não pode ser usado para conquistar a adesão de todos. Surgirão forçosamente movimentos socialistas rivais, buscando o apoio daqueles cujostatus relativo foi reduzido. Há uma forte dose de verdade na afirmação corrente de que o fascismo e o nacional-socialismo são uma espécie de socialismo da classe média, como muitos afirmam. Ocorre, porém, que, na Itália e na Alemanha, a população que apoiava esses novos movimentos já não constituía, do ponto de vista econômico, uma classe média. Esse apoio representava, em grande parte; a revolta de uma nova classe desfavorecida contra a aristocracia trabalhista criada pelo movimento operário. Não há dúvida de que nenhum fator econômico contribuiu mais para o sucesso desses movimentos do que a inveja do profissional frustrado – do engenheiro ou advogado saídos da universidade e do “proletariado de colarinho branco” em geral – ao maquinista, ao tipógrafo e a outros membros dos sindicatos mais fortes cuja renda muitas vezes era superior à daqueles.

Tampouco se pode duvidar de que, em termos de renda monetária, o adepto comum do movimento nazista era, no início desse movimento, mais pobre que o trabalhador sindicalizado ou que um membro do antigo partido socialista – circunstância exacerbada pelo fato de muitos deles terem visto dias melhores e viverem ainda no ambiente que refletia esse passado. A expressão “luta de classes às avessas”, usada na Itália nos anos da ascensão do fascismo, destacava um aspecto muito importante do movimento. O conflito entre o fascismo ou o nacional-socialismo e os partidos socialistas mais antigos deve, com efeito, ser considerado, em grande parte, um conflito que fatalmente surge entre facções socialistas rivais. Eles não diferiam quanto à ideia de que cabia ao estado fixar a posição adequada a cada indivíduo na sociedade. Divergiam profundamente, no entanto, como sempre ocorrerá, acerca de qual seria a posição adequada das diversas classes e grupos.

Os velhos líderes socialistas, que tinham sempre considerado seus partidos a vanguarda do futuro movimento geral rumo ao socialismo, não podiam compreender por que razão, cada vez que se ampliava o emprego dos métodos socialistas, voltavase contra eles o ressentimento de classes pobres e numerosas. Mas enquanto os velhos partidos socialistas, ou os sindicatos organizados em determinados setores da economia, em geral não haviam encontrado muita dificuldade em chegar a um acordo para uma negociação conjunta com os empregadores, classes bastante numerosas de outros setores ficavam marginalizadas. Na opinião destas – que não deixava de ter fundamento -, os setores mais prósperos do movimento trabalhista pertenciam à classe exploradora e não à explorada.8

O descontentamento da classe média baixa, na qual o fascismo e o nacional-socialismo recrutaram tão grande número de adeptos, intensificou-se pelo fato de sua educação e preparo os terem levado em muitos casos a ambicionar posições de mando, considerando-se com direito de pertencer à classe dirigente. A geração mais jovem, à qual os ensinamentos socialistas haviam incutido o desprezo pelo lucro, voltava as costas às posições independentes que envolviam riscos e acorria em número cada vez maior ao trabalho assalariado que prometia segurança. Exigia, no entanto, uma posição que lhes proporcionasse a renda e o poder que, a seu ver, sua educação justificava. Embora acreditasse numa sociedade organizada, esperava obter nela um lugar muito diferente daquele que parecia oferecer a sociedade regida pelo trabalho. Estava disposta a adotar os métodos do antigo socialismo, mas pretendia empregá-los a serviço de uma classe diferente. O movimento logrou conquistar a adesão de todos aqueles que, embora concordando com o controle estatal de toda a atividade econômica, discordavam das finalidades para as quais a aristocracia operária utilizava sua força política.

O novo movimento socialista nasceu com várias vantagens táticas. O socialismo trabalhista desenvolvera-se num ambiente democrático e liberal, adaptando a este seus métodos e incorporando muitos ideais do liberalismo. Seus protagonistas ainda acreditavam que a implantação do socialismo resolveria, por si só, todos os problemas. Por sua vez, o fascismo e o nacional-socialismo nasceram da experiência de uma sociedade cada vez mais planificada, que ia despertando para o fato de que o socialismo democrático e internacional visava a ideais incompatíveis. Sua tática desenvolveu-se num mundo já dominado pela política socialista e pelos problemas que esta suscita. Não tinham ilusões quanto à possibilidade de uma solução democrática para problemas que exigem um consenso muito maior dos homens do que seria razoável esperar.

Não se iludiam pensando que a razão poderia decidir todas as questões sobre a importância relativa dos desejos de diferentes pessoas ou grupos, questões geradas pelo planejamento. Tampouco acreditavam que a fórmula da igualdade oferecesse uma solução. Sabiam que o grupo mais forte, aquele que arregimentasse um número suficiente de adeptos em favor de uma nova ordem hierárquica da sociedade e oferecesse abertamente privilégios às classes a quem se dirigia, poderia conquistar o apoio de todos aqueles que se sentiam decepcionados porque, depois de lhes ter sido prometida a igualdade, haviam descoberto que só tinham contribuído para favorecer os interesses de uma classe específica. Acima de tudo, foram bem-sucedidos porque ofereciam uma teoria, ou uma concepção do mundo, que parecia justificar os privilégios por eles prometidos aos seus adeptos.

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NOTAS AO CAPÍTULO 8

1 – É provável que exageremos habitualmente a importância dos rendimentos da propriedade como causa da desigualdade de renda, e, portanto, exageremos também o grau em que as principais desigualdades seriam reduzidas pela supressão desses rendimentos. O pouco que sabemos sobre a distribuição da renda na Rússia Soviética não faz crer que as desigualdades sejam ali muito menos acentuadas do que nas sociedades capitalistas. Max Eastman [The End of Socialism in Russia, 1937, pp. 30-4) dá algumas informações fornecidas por fontes oficiais russas, mostrando que as diferenças entre os salários mais elevados e os mais baixos naquele país são da mesma ordem de grandeza (mais ou menos 50 para 1) que nos Estados Unidos; e Leon Trotsky, em artigo citado por James Burnham (The Managerial Revolution, 1941, p. 43), calculava recentemente (em 1939) que “os 11% ou 12% que constituem a camada superior da população soviética percebem hoje, aproximadamente, 50 por cento da renda nacional. Essa diferença é mais acentuada do que nos Estados Unidos, onde a camada superior – 10 por cento da população – percebe cerca de 35 por cento da renda nacional”.

2- Eastman, M., em The Reader’s Digest, jul. 1941, p. 39

3 – Palavras do jovem Disraeli.

4 – Muggeridge, M., Winter in Moscow, 1934; Feiler, Arthur. The Experiment of

Bolshevism, 1930.

5 – Mill, V.S. Principles of Political Economy, Livro I, cap. II, § 4.

6- Wieser.G. Ein Staat stirbt – Österreich 1934-1938. Paris, 1938. p. 41.

7- Os clubes do livro políticos da Inglaterra oferecem um paralelo importante.

8- Há doze anos, um dos mais eminentes intelectuais socialistas da Europa, Hendrick de Man (que depois disso, como resultado de uma evolução coerente, fez as pazes com os nazistas), observava que “pela primeira vez, desde os inícios do socialismo, os sentimentos anticapitalistas se voltam contra o movimento socialista” (Sozialismus und National-Faszismus, Potsdam, 1931, p. 6).