O Caminho da Servidão

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CAPITULO 7 – CONTROLE ECONÔMICO E TOTALITARISMO

O controle da produção da riqueza é o controle da própria existência humana. – Hilaire Belloc

A maioria dos planejadores que analisaram em profundidade os aspectos práticos de sua tarefa está certa de que uma economia dirigida deve seguir linhas mais ou menos ditatoriais. Para ser submetido a um controle consciente, o complexo sistema de atividades interrelacionadas que constitui uma economia terá de ser dirigido por uma única equipe de especialistas, devendo a responsabilidade e o poder últimos ficar a cargo de um chefe supremo, cujos atos não poderão ser tolhidos pelos processos democráticos. Essas são consequências demasiado óbvias das ideias em que se baseia o planejamento central, razão por que não poderiam deixar de conquistar o consenso da maioria dos adeptos da planificação. Para abrandar tal realidade, nossos planejadores afirmam que essa gestão autoritária se aplicará “apenas” às questões econômicas. Assegura-nos, por exemplo, um dos mais eminentes planejadores norte-americanos, Stuart Chase, que, numa sociedade planificada, “poderá ser mantida a democracia política, desde que não interfira nos assuntos econômicos”. Tais afirmações costumam ser acompanhadas da ideia de que, renunciando à liberdade naquilo que constitui, ou deveria constituir, os aspectos menos importantes da nossa existência, conquistaremos uma liberdade maior no que tange à obtenção de valores mais elevados. Baseados nisso, muitos dos que abominam a ideia de uma ditadura política costumam exigir um ditador no campo econômico.

Os argumentos empregados evocam nossos melhores sentimentos e muitas vezes seduzem os espíritos mais idealistas. Se a planificação de fato nos libertasse dos cuidados menos importantes, permitindo-nos uma existência despreocupada que poderíamos dedicar a questões mais elevadas, quem desejaria depreciar semelhante ideal? Se as atividades econômicas realmente envolvessem apenas os aspectos menores ou mesmo mais ignóbeis da vida, seria, é claro, nosso dever lançar mão de todos os meios para nos desobrigarmos da preocupação excessiva com os objetivos materiais e libertar nossa mente, dedicando-a às coisas mais nobres da vida, enquanto aqueles objetivos seriam confiados a algum mecanismo utilitário.

Infelizmente, a ideia de que o poder exercido sobre a vida econômica só afeta questões de importância secundária – ideia que leva as pessoas a menosprezar a ameaça à liberdade de ação no campo econômico – éde todo infundada. Ela decorre em grande parte da noção errônea de que existem objetivos puramente econômicos, distintos dos outros objetivos da existência. No entanto, afora o caso patológico do avarento, não existe tal distinção. Os objetivos últimos da atividade dos seres racionais nunca são econômicos. Rigorosamente falando, não existe “interesse econômico”, mas apenas fatores econômicos que condicionam nossos esforços pela obtenção de outros fins. Aquilo que na linguagem comum se costuma definir por equívoco como “interesse econômico” significa apenas o desejo de oportunidades, o desejo do poder de alcançar objetivos não especificados1.

Se lutamos pelo dinheiro, é porque ele nos permite escolher da forma mais ampla como melhor desfrutar os resultados de nossos esforços. Visto que, na sociedade moderna, as restrições ainda impostas por nossa relativa pobreza se refletem na limitação da nossa renda pecuniária, muitos passaram a odiar o dinheiro como símbolo dessas restrições. Mas isso significa confundir com a sua causa o meio pelo qual uma força se faz sentir. Seria muito mais certo dizer que o dinheiro é um dos maiores instrumentos de liberdade já inventados pelo homem. É o dinheiro que, na sociedade atual, oferece ao homem pobre uma gama de escolhas extraordinariamente vasta, bem maior do que aquela que há poucas gerações se oferecia aos ricos. Compreenderemos melhor a importância desse serviço prestado pelo dinheiro se considerarmos o que de fato aconteceria se, como propõem muitos socialistas, o “incentivo pecuniário” fosse em grande parte substituído por “incentivos não-econômicos”. Se, em vez de serem oferecidas em dinheiro, todas as recompensas o fossem sob a forma de distinções públicas ou privilégios, posições de poder, melhores condições de moradia ou alimentação, oportunidade de viajar ou educar-se, isso significaria apenas que o beneficiário já não teria liberdade de escolha e que o dispensador das recompensas determinaria não somente o seu valor mas também a forma específica em que elas seriam desfrutadas.

Quando compreendemos que o interesse econômico não se distingue dos outros e que um ganho ou uma perda de caráter econômico não passam de um ganho ou de uma perda nas situações em que cabe a nós decidir quais das nossas necessidades ou desejos serão afetados, torna-se também mais fácil perceber a pequena e importante verdade contida na ideia de que os assuntos econômicos só envolvem as questões menos importantes da existência, e entender o desprezo em que são tidas muitas vezes as considerações “meramente” econômicas. Em certo sentido, essa ideia se justifica numa economia livre, de mercado – mas apenas em tal economia.

Enquanto pudermos dispor, sem restrições, dos nossos rendimentos e de todos os nossos bens. uma perda econômica só nos privará daquilo que consideramos o menos importante dos desejos que teríamos condições de satisfazer. Uma perda “meramente” econômica é, pois, uma perda cujo efeito podemos fazer recair sobre nossas necessidades menos importantes. Mas quando dizemos que o valor de uma coisa perdida é muito maior do que seu valor econômico, ou que ela não pode sequer ser avaliada em lermos econômicos, isso significa que temos de suportar a perda no ponto em que ela incide. O mesmo, em termos gerais, se aplica aos ganhos econômicos. Em outras palavras, as mudanças de ordem econômica geralmente só afetam a periferia, a “margem” das nossas: necessidades. Há inúmeras coisas mais importantes do que aquilo que os ganhos ou perdas de ordem econômica podem afetar, e que julgamos bastante superiores aos confortos e mesmo a muitas necessidades da vida sujeitos aos sucessos e revezes econômicos. Comparados a elas, o “vil metal”, a questão da vantagem ou desvantagem econômica, parecem de pouco valor. Isso leva muita gente a acreditar que tudo aquilo que, como a planificação, só afeta os nossos interesses de ordem econômica, não constituirá séria interferência nos valores mais básicos da existência.

Trata-se, porém, de uma conclusão errônea. Os valores econômicos são-nos menos importantes do que muitas outras coisas justamente porque em matéria de economia temos liberdade para decidir o que é mais (ou menos) importante para nós. Ou, bem poderíamos dizê-lo, porque na sociedade atual cabe a nós resolver os problemas econômicos da nossa existência. Ter as nossas atividades econômicas controladas significa ser controlados sempre, a menos que declaremos em cada caso o nosso propósito específico. Mas como cada declaração de propósito dependeria de aprovação de autoridade, todos os nossos atos seriam realmente controlados.

A questão suscitada pela planificação econômica não consiste, portanto, apenas em determinar se teremos condições de satisfazer o que consideramos nossas necessidades mais (ou menos) importantes segundo nossas preferências. Consiste em determinar se cabe a nós decidir o que nos é de maior ou menor importância ou se essa decisão será tomada pelo planejador. A planificação econômica não atingiria apenas as necessidades “marginais” que temos em mente quando nos referimos com desdém aos aspectos puramente econômicos. Ela significaria, com efeito, que nós, como indivíduos, já não poderíamos decidir o que consideramos marginal.

A autoridade que dirigisse toda a atividade econômica controlaria não só o aspecto da nossa existência que envolve as questões inferiores; controlaria também a alocação dos meios escassos e os fins a que seriam destinados. Quem controla toda a atividade econômica também controla os meios que deverão servir a todos os nossos fins; decide, assim, quais deles serão satisfeitos e quais não o serão. É este o ponto crucial da questão. O controle econômico não é apenas o controle de um setor da vida humana, distinto dos demais. É o controle dos meios que contribuirão para a realização de todos os nossos fins. Pois quem detém o controle exclusivo dos meios também determinará a que fins nos dedicaremos, a que valores atribuiremos maior ou menor importância – em suma, determinará aquilo em que os homens deverão crer e por cuja obtenção deverão esforçar-se. Planejamento central significa que o problema econômico será resolvido pela comunidade e não pelo indivíduo; isso, porém, implica que caberá à comunidade, ou melhor, aos seus representantes, decidir sobre a importância relativa das diferentes necessidades.

A chamada liberdade econômica prometida pelos adeptos da planificação quer dizer precisamente que seremos libertados da necessidade de resolver nossos próprios problemas econômicos, e que as duras decisões que isso muitas vezes envolve serão tomadas por outrem. Como, hoje em dia, dependemos em quase tudo dos meios proporcionados pelos nossos semelhantes, o planejamento econômico importaria o controle da quase totalidade da nossa vida. Não existiria praticamente nenhum aspecto desta – desde as necessidades primárias até as relações de família e de amizade, da natureza do nosso trabalho até o uso que fazemos de lazer – sobre o qual o planejador não exercesse seu “controle consciente”2.

O poder do planejador sobre nossa vida privada seria total, mesmo se ele resolvesse não exercê-lo mediante o controle direto do consumo. Embora seja provável que uma sociedade planificada venha até certo ponto a empregar o racionamento e outros mecanismos semelhantes, o poder do planejador sobre a nossa vida privada não depende disso e não seria menos efetivo se o consumidor tivesse a liberdade nominal de gastar o seu rendimento como lhe aprouvesse. Esse poder sobre todo o consumo, que a autoridade deteria numa sociedade planificada, se origina do controle da produção.

Nossa liberdade de escolha, no regime de concorrência, repousa na possibilidade de podermos procurar outra pessoa para satisfazer os nossos desejos, caso alguém se recuse a fazê-lo. Quando nos deparamos com um monopolista, porém, ficamos à sua mercê. E a autoridade que dirigisse todo o sistema econômico seria o mais poderoso monopolista que se possa conceber. Embora provavelmente não tenhamos de recear que tal autoridade explorasse esse poder como o faria um monopolista que não fosse o estado; embora se possa presumir que o seu objetivo não seria a extorsão do lucro financeiro máximo, ela teria poder absoluto para decidir o que caberia a cada um, e em que termos. Não só decidiria quais as mercadorias e serviços a serem oferecidos, e em que quantidades; mas estaria em condições de dirigir sua distribuição entre diferentes regiões e grupos e poderia, se assim o desejasse, discriminar entre as pessoas como bem entendesse. Quando analisamos o motivo por que o planejamento costuma ser defendido, podemos duvidar de que esse poder seria usado para a realização dos objetivos aprovados pela autoridade, e para impedir a consecução dos que ela condena?

É quase ilimitado o poder conferido pelo controle da produção e dos preços. No regime de concorrência, os preços que temos de pagar por um artigo, a taxa a que podemos obter uma coisa em troca de outra, dependem da quantidade de outros artigos da mesma espécie que ficam à disposição dos demais membros da sociedade depois de termos adquirido o nosso. Esse preço não é determinado pela vontade consciente de quem quer que seja. E se uma certa forma de alcançarmos nossos fins se mostra demasiado dispendiosa, temos liberdade de buscar outras. Os obstáculos que se erguem no nosso caminho não se devem ao fato de alguém condenar os nossos objetivos, mas ao de que os mesmos meios também estão sendo demandados por outras pessoas. Numa economia dirigida, em que a autoridade se interessa diretamente pelos objetivos visados, ela sem dúvida usaria seus poderes para auxiliar a consecução de certos fins e impedir a realização de outros. Nossos resultados não seriam determinados pela opinião que tivéssemos acerca do que devemos ou não preferir, mas pelas ideias de outra pessoa. E, como a autoridade teria o poder de anular todas as tentativas de escapar ao seu controle, ela dirigiria o nosso consumo de modo tão efetivo como se nos ditasse diretamente a maneira de gastar nossos rendimentos.

Entretanto, não seria apenas no que se refere à nossa condição de consumidores, nem mesmo especialmente nessa qualidade, que a vontade do governo daria forma e “orientação” a nossa vida cotidiana. Fá-lo-ia sobretudo na nossa condição de produtores. Esses dois aspectos da existência não podem ser separados um do outro; e como quase todos nós passamos grande parte da vida no trabalho, e é ele que costuma determinar também o lugar em que moramos e as pessoas com quem convivemos, certa liberdade na escolha da profissão talvez tenha mais importância para a nossa felicidade do que a liberdade de gastar os próprios rendimentos durante as horas de lazer.

Não há dúvida de que, mesmo no melhor dos mundos, essa liberdade será muito limitada. Poucas pessoas chegam a ter a possibilidade de escolher entre um grande número de ocupações. Mas o importante é termos uma margem de escolha e não estarmos amarrados por completo a uma determinada ocupação que outros escolheram para nós, ou pela qual optamos no passado. Se uma posição se tornar de todo intolerável ou se aspirarmos a outra, é importante que haja sempre uma saída para as pessoas capacitadas, algum sacrifício mediante o qual possam alcançar sua meta. Nada é mais intolerável do que saber que nenhum esforço de nossa parte pode mudar as circunstâncias; e, mesmo que nunca tenhamos a força de vontade suficiente para fazer o sacrifício necessário, saber que poderíamos escapar se nos esforçássemos bastante torna suportáveis muitas situações, por piores que sejam.

Não estamos pretendendo afirmar que a situação seja a melhor possível no mundo atual, ou que assim tenha sido nas épocas mais liberais do passado, tampouco que não haja muito a fazer para melhorar as oportunidades de escolha individual. Neste campo, como em outros, o estado muito pode fazer para auxiliar a difusão de conhecimentos e informações e permitir maior mobilidade. Mas a questão é que o tipo de ação estatal que de fato contribuiria para aumentar as oportunidades é quase o oposto do “planejamento” hoje em dia defendido e praticado. A maioria dos adeptos do planejamento, é claro, promete que no novo mundo planificado a livre escolha da ocupação será escrupulosamente preservada e até ampliada. Prometem, porém, bem mais do que lhes é possível realizar. Pois, para planejar, terão de controlar o ingresso nas diferentes profissões e ocupações, ou o valor da remuneração, ou ambas as coisas.

Em quase todos os exemplos de planejamento conhecidos, o estabelecimento de tais controles e restrições foi uma das primeiras medidas adotadas. Se tal controle fosse universal e exercido por uma só autoridade planejadora, não é necessário grande imaginação para perceber o que aconteceria com a prometida “livre escolha de ocupação”. A “liberdade de escolha” seria puramente fictícia, uma simples promessa de que não haveria discriminação num caso cuja própria natureza exigiria o seu uso, e com relação ao qual tudo que se poderia esperar seria uma seleção de acordo com critérios considerados objetivos pela autoridade.

Não seria muito diferente se a autoridade planejadora se limitasse a fixar as condições de emprego e tentasse controlar o número de empregados pela alteração dessas condições. Ao estabelecer os termos de remuneração, ela impediria o acesso de determinadas pessoas a muitas profissões de modo tão eficaz como se as excluísse expressamente. Uma moça pouco atraente que tem grande desejo de tornar-se vendedora, um rapaz franzino que almeja um emprego no qual sua fraqueza física constitui um empecilho, assim como, de modo geral, os que parecem menos hábeis ou menos qualificados, não são necessariamente excluídos numa sociedade competitiva. Se de fato desejam tais posições, muitas vezes haverá oportunidade de se iniciarem nela mediante um sacrifício financeiro, e poderão mais tarde se destacar por qualidades a princípio menos evidentes. Mas quando a autoridade fixa a remuneração de toda uma categoria e a seleção dos candidatos é feita por meio de um teste objetivo, a força com que desejam conseguir a posição terá pouca probabilidade de ser levada em conta. A pessoa cujas qualificações não correspondem ao padrão, ou que tenha um temperamento fora do comum, já não conseguirá trabalho mediante entendimento especial com um empregador cujas inclinações se ajustem às suas necessidades específicas. Aqueles que, à rotina cotidiana, preferem trabalhar fora de horário ou mesmo levar uma existência sem obrigações, com uma renda reduzida e talvez incerta, já não terão escolha.

A situação será, sem exceções, aquela que, até certo ponto, ocorre inevitavelmente numa grande organização – ou antes pior, pois não haverá escapatória. Já não teremos liberdade de ser racionais ou eficientes apenas quando isso nos parece proveitoso. Teremos todos de nos adaptar aos padrões que a autoridade planejadora é obrigada a fixar a fim de simplificar sua tarefa. Para tornar exequível essa imensa tarefa, ela terá de reduzir a diversidade das inclinações e capacidades humanas a umas poucas categorias de unidades facilmente permutáveis, desprezando as pequenas diferenças pessoais. Embora o objetivo declarado da planificação seja o de dar condições ao homem para que deixe de ser um simples meio, na realidade – uma vez que seria impossível levar em conta as preferências e aversões pessoais – o indivíduo se tornaria mais do que nunca um simples meio, usado pela autoridade a serviço de abstrações como o “bem-estar social” ou o “bem da comunidade”.

É de importância inegável o fato de que, numa sociedade competitiva, a maior parte das coisas pôde ser obtida mediante um preço – embora muitas vezes esse preço seja terrivelmente elevado. A alternativa que se oferece não é, contudo, a completa liberdade de escolha, mas ordens e proibições que têm de ser obedecidas e, em última análise, o favor dos poderosos. As censuras feitas ao regime de concorrência pelo fato de que, nele, tudo pode ser obtido mediante um preço indicam a falta de compreensão de todos esses assuntos. Há pessoas que protestam contra a inclusão dos valores mais elevados da vida na “lógica do dinheiro”. Se com isso querem dizer que não deveríamos ter de sacrificar nossas necessidades menores à preservação dos valores superiores, e que a escolha deveria ser feita por outrem, esse protesto parece bastante estranho e não demonstra grande respeito pela dignidade do indivíduo. A vida e a saúde, a virtude e a beleza, a honra e a paz de espírito, muitas vezes só podem ser preservadas à custa de consideráveis sacrifícios materiais, e alguém tem de fazer a escolha. Esse é um fato inegável, assim como também o é que nem todos estamos dispostos, por vezes, a fazer os sacrifícios materiais necessários para proteger esses valores mais altos contra qualquer violação.

Tomemos um exemplo: poderíamos reduzir a zero o número de vítimas de acidentes de automóveis, é claro – se nos dispuséssemos a pagar o preço, abolindo os automóveis. O mesmo se aplica a milhares de outras situações em que arriscamos constantemente a vida, a saúde e todos os valores espirituais mais nobres, tanto nossos como dos nossos semelhantes, a fim de promover aquilo que ao mesmo tempo chamamos, com desprezo, de conforto material. Nem podia ser de outro modo, visto que todos os nossos fins disputam o emprego dos mesmos meios; assim, se tentássemos evitar que esses valores absolutos jamais fossem ameaçados, seríamos incapazes de perseguir quaisquer outros objetivos. Não surpreende que os homens desejem livrar-se da cruel escolha que as circunstâncias muitas vezes lhes impõem.

Mas poucos desejam fazê-lo deixando a outros resolver por eles. O que querem é simplesmente que a escolha não seja necessária. Por isso acreditam com muita facilidade que ela de fato não o é, e que não passa de uma imposição do sistema econômico existente. Na realidade, o que os irrita é a existência de um problema econômico. Essa crença, sem fundamento, de que já não há realmente um problema econômico, tem sido estimulada por afirmações irresponsáveis acerca da “abundância em potencial” – o que, se fosse uma realidade, implicaria com efeito que a escolha não é inevitável, uma vez que inexiste problema econômico. Mas, embora esse chamariz tenha servido à propaganda socialista sob várias denominações desde o aparecimento do socialismo, sua falsidade é tão palpável como quando foi utilizado pela primeira vez, há mais de cem anos. Durante todo esse tempo, nem uma só das muitas pessoas que o usaram apresentou um plano viável para aumentar a produção de modo a se poder abolir o que chamamos pobreza – nem mesmo na Europa Ocidental, para não falar no resto do mundo. O leitor pode ficar certo de que todo aquele que fala sobre abundância em potencial ou é desonesto, ou não sabe o que diz3. E, no entanto, essa falsa esperança é uma das principais forças que nos impelem no caminho da planificação.

Conquanto o movimento popular continue tirando proveito dessa ideia errônea, quase todos os estudiosos do problema vêm abandonando aos poucos a tese de que numa economia planejada a produção seria bastante maior do que no sistema de concorrência. E mesmo grande número de economistas favoráveis ao socialismo que estudaram a fundo os problemas do planejamento centralizado contentam-se agora em esperar que uma sociedade planejada iguale a eficiência de um sistema competitivo. Já não defendem a planificação por sua produtividade superior, mas porque nos permitirá realizar uma distribuição da riqueza mais justa e equitativa. Este é, com efeito, o único argumento em seu favor digno de debate. Não há dúvida alguma de que, se quisermos assegurar uma distribuição da riqueza segundo um padrão predeterminado, se quisermos estabelecer conscientemente o que caberá a cada um, teremos de planifícar todo o sistema econômico. Resta saber se o preço que teríamos de pagar pela realização desse ideal de justiça não seria um descontentamento e uma opressão maiores do que os jamais causados pelo livre jogo das forças econômicas, alvo de tão severas críticas.

Estaríamos incorrendo em grave erro se procurássemos abrandar essas apreensões julgando que a adoção do planejamento central significaria apenas um retorno, após breve período de liberdade econômica, aos controles e restrições que têm governado a atividade econômica ao longo de quase toda a história, e que por isso as violações da liberdade pessoal não seriam maiores do que eram antes da era do laissez-faire. Perigosa ilusão. Mesmo nos períodos da história europeia em que mais se tentou sujeitar a vida econômica ao controle governamental, esse controle importava em pouco mais que a criação de um corpo de normas geral e semipermanente, no qual o indivíduo mantinha uma ampla esfera de liberdade. O mecanismo de controle então disponível não se prestaria senão para impor algumas diretrizes muito gerais. E mesmo o controle mais completo só abrangia as atividades pelas quais uma pessoa tomava parte na divisão social do trabalho. Na esfera muito mais ampla em que ele ainda vivia dos seus próprios produtos, cada um era livre para agir como bem entendesse.

A situação agora é inteiramente diversa. No decorrer da era liberal, a progressiva divisão do trabalho criou uma situação em que quase todas as nossas atividades passaram a fazer parte de um processo social. É impossível inverter o rumo dessa evolução, pois só em virtude dela é que podemos manter a população, hoje tão numerosa, dentro de padrões mais ou menos semelhantes aos atuais. Mas, como resultado, a substituição da concorrência pelo planejamento central exigiria um controle muito maior sobre a nossa vida do que até hoje foi tentado. Essa ingerência não poderia limitar-se àquilo que consideramos nossas atividades econômicas, porque hoje dependemos em quase tudo das atividades econômicas dos nossos semelhantes4.

A paixão pela “satisfação coletiva das nossas necessidades”, com que os socialistas souberam tão bem preparar o caminho para o totalitarismo, e segundo a qual nossos prazeres e necessidades deveriam ser satisfeitos à hora marcada e na forma prescrita, pretende ser em parte um meio de educação política. Mas também decorre das exigências da planificação, cuja essência é privar-nos da liberdade de escolha para nos dar aquilo que mais se ajuste ao plano, no momento determinado pelo plano.

Afirma-se muitas vezes que a liberdade política nada significa sem a liberdade econômica. Isto em parte é verdade, porém num sentido quase oposto ao usado pelos defensores da planificação. A liberdade econômica que constitui o requisito prévio de qualquer outra liberdade não pode ser aquela que nos libera dos cuidados econômicos, segundo nos prometem os socialistas, e que só se pode obter eximindo o indivíduo ao mesmo tempo da necessidade e do poder de escolha: deve ser a liberdade de ação econômica que, junto com o direito de escolher, também acarreta inevitavelmente os riscos e a responsabilidade inerentes a esse direito.

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NOTAS AO CAPÍTULO 7

1 – Cf. Robbins, L. The Economic Causes of’ War, 1939, apêndice.

2 – Não se pode exemplificar melhor a abrangência do controle econômico sobre todos os outros aspectos da vida do que na área do câmbio. A primeira vista, nada parece afetar menos a vida privada do que o controle estatal das transações em moeda estrangeira, e a maior parte das pessoas olha com total indiferença a introdução dessa política. No entanto, a experiência de quase todos os países europeus ensinou-nos a considerar essa medida um passo decisivo no caminho do totalitarismo e da supressão da liberdade individual. Ela constitui, na verdade, o abandono completo do indivíduo à tirania do estado, a eliminação definitiva de todos os meios de fuga – não somente para os ricos, mas para todos. Quando o indivíduo já não tem liberdade de viajar nem de comprar livros e revistas estrangeiros, e quando todos os meios de contato com o exterior se limitam aos aprovados pela opinião oficial ou aos que esta considera necessários, o controle efetivo da opinião torna-se muito maior do que o exercido por qualquer governo absolutista dos séculos XVII e XVIII.

3 – Para justificar essa enfática afirmação, podemos citar as seguintes conclusões a que chegou Colin Clark, um dos mais conhecidos especialistas em estatística econômica, homem de ideias incontestavelmente progressistas e de espírito rigorosamente cientifico, em sua obra Conditions of Economic Progress (1940. pp. 3-4): “Tudo o que já foi dito repetidas vezes sobre a pobreza no seio da abundância e sobre o fato de já terem sido resolvidos os problemas da produção, faltando-nos apenas compreender a questão da distribuição, revela-se um dos mais falsos clichês da nossa época. A subutilização da capacidade produtora é uma questão que só tem importância considerável nos Estados Unidos, embora, em certos períodos, também se tenha tornado relevante na Inglaterra, Alemanha e França; na maior parte do mundo, porém, é inteiramente subordinada ao fato maior de que, embora fazendo uso integral dos seus recursos de produção, estes produzem muito pouco. A era da abundância ainda tardará muito a chegar. Se fossem eliminadas as formas evitáveis de desemprego ao longo de todo o ciclo econômico, teríamos uma indiscutível melhoria no padrão de vida da população dos EUA; mas, do ponto de vista mundial, isso contribuiria apenas em pequena escala à solução do problema muito mais importante da elevação dos rendimentos reais do grosso da humanidade a um nível mais próximo ao dos padrões civilizados”.

4 – Não é por mera coincidência que nos países totalitários, seja na Rússia, Alemanha ou Itália, a organização do lazer se tornou um problema de planejamento. Os alemães chegaram a inventar para esse problema a horrível e contraditória denominação de Freizeitgestaltung (literalmente: organização das horas livres), como se essas horas continuassem a ser “livres” quando se é obrigado a passá-las à maneira prescrita pela autoridade.