O Caminho da Servidão

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PREFÁCIO DA EDIÇÃO NORTE-AMERICANA DE 1975

Este livro seria talvez diferente sob alguns aspectos se, ao escrevê-lo, eu tivesse em vista sobretudo os leitores norte-americanos. No entanto, ele já conquistou nos Estados Unidos uma posição por demais definida, embora inesperada, para que se torne aconselhável revê-lo. Sua republicação sob nova forma tipográfica, contudo, mais de dez anos após a primeira edição, talvez seja uma ocasião apropriada para explicar seu objetivo original e para alguns comentários sobre o sucesso absolutamente imprevisto e em muitos sentidos curioso que ele aqui obteve.

O livro foi escrito na Inglaterra durante a guerra e destinava-se quase exclusivamente ao público inglês. Na verdade, dirigia-se sobretudo a uma classe muito especial de leitores britânicos. Não foi de modo algum por zombaria que eu o dediquei “aos socialistas de todos os partidos”. Teve sua origem nas numerosas discussões que, durante os dez anos anteriores, eu tivera com amigos e colegas cujas simpatias inclinavam-se para a esquerda. Foi em prosseguimento a essas discussões que escrevi O caminho da servidão. Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha, eu já ensinava havia vários anos na Universidade de Londres, mantendo-me, porém, sempre em contato estreito com os assuntos do continente, o que tive condições de fazer até o início da guerra. O que assim pude observar sobre as origens e a evolução dos diversos movimentos totalitários fez-me sentir que a opinião pública inglesa, e meus amigos que abraçavam posições “avançadas” em matéria de questões sociais em particular, concebia aqueles movimentos de modo completamente errôneo. Já antes da guerra isso me havia levado a expor, num breve ensaio, o que se tornou o tema central deste livro. Após a eclosão do conflito, entretanto, senti que essa concepção distorcida, e tão generalizada, acerca dos sistemas políticos de nossos inimigos, e logo depois também de nosso novo aliado, a Rússia, constituía perigo sério, que deveria ser enfrentado com esforço mais sistemático. E já era bastante evidente que após a guerra a própria Inglaterra talvez viesse a experimentar a mesma orientação política que, como eu estava convencido, contribuíra tanto para destruir a liberdade em outros países.

Assim, este livro tomou gradualmente o aspecto de uma advertência à intelligentsia socialista inglesa. Com os atrasos inevitáveis durante um período de guerra, ele foi por fim publicado em princípios da primavera de 1944. Essa data também explica por que julguei que, para ser ouvido, deveria restringir um tanto meus comentários sobre o regime de nossos aliados russos, escolhendo para exemplo sobretudo o que se passava na Alemanha.

O livro apareceu num momento propício. Só posso alegrar-me com o sucesso que ele teve na Inglaterra, o qual, embora de natureza muito diferente, não foi quantitativamente menor do que o que teria mais tarde nos Estados Unidos. Em linhas gerais, o livro foi recebido com o mesmo espírito com que foi escrito, e a sua argumentação foi examinada a sério por aqueles a quem em primeiro lugar se dirigia. Excetuados apenas certos líderes do Partido Trabalhista (os quais, como que para ilustrar minhas observações sobre as tendências nacionalistas do socialismo, atacaram o livro alegando que era escrito por um estrangeiro), foram impressionantes a atenção e a receptividade com que em geral o examinaram pessoas que devem ter julgado minhas conclusões contrárias às suas mais firmes convicções1. O mesmo se aplica aos outros países europeus onde o livro foi publicado. A aceitação especialmente cordial que teve por parte da geração pós-nazista da Alemanha, quando exemplares de uma edição suíça chegaram por fim àquele país, constituiu um dos inesperados prazeres que esta obra me trouxe.

Bem diferente foi a acolhida que teve nos Estados Unidos, quando de sua publicação poucos meses depois de ter aparecido na Inglaterra. Ao escrevê-lo, quase não me perguntei se ele atrairia o público norte-americano. Fazia então vinte anos que eu estivera nos Estados Unidos pela última vez, como estudante, e perdera um tanto o contato com o pensamento deste país. Não me era possível avaliar com segurança até que ponto minha argumentação teria aplicabilidade direta no cenário norte-americano, e não me surpreendi em absoluto quando o livro foi rejeitado pelas três primeiras editoras consultadas2. Foi por certo sobremodo inesperado que, após sua publicação pelos atuais editores, tenha logo começado a vender em proporções quase sem precedentes para estudos dessa natureza, não destinados ao público comum3. E surpreendeu-me ainda mais a violência da reação que provocou em ambas as correntes políticas: foi prodigamente elogiado em alguns círculos, e não menos apaixonadamente hostilizado em outros.

Ao contrário do que se dera na Inglaterra, o público norte-americano ao qual o livro mais se dirigia rejeitou-o de imediato, como um ataque tendencioso e torpe contra seus melhores ideais; esse público parece nunca se ter detido para examinar sua argumentação. A linguagem e a emoção de algumas das críticas mais violentas dirigidas contra o livro foram realmente extraordinárias4. Mas foi quase tão surpreendente, para mim, a acolhida entusiástica recebida de muitos que nunca julguei leriam uma obra desse tipo – e de muitos mais, que ainda hoje duvido terem-na de fato lido. E devo acrescentar que algumas vezes a maneira como o livro foi tratado trouxe-me muito viva à memória aquela observação de lord Acton: “em todos os tempos, foram raros os amigos sinceros da liberdade, e os triunfos desta se deveram a minorias que venceram associando-se a companheiros cujos objetivos com frequência diferiam dos seus; essas alianças, sempre arriscadas, têm sido às vezes desastrosas”.

Parece muito pouco provável que a acolhida extraordinariamente diversa que a obra teve num e noutro lado do Atlântico se deva apenas a dessemelhança de temperamentos nacionais. Venho-me convencendo sempre mais de que a explicação reside numa diferença de situações intelectuais, por ocasião do aparecimento do livro. Na Inglaterra, como na Europa em geral, os problemas nele tratados tinham deixado de ser, havia muito, questões abstratas. Os ideais por mim analisados já haviam caído por terra, e mesmo seus partidários mais entusiastas haviam presenciado de modo concreto algumas das dificuldades e alguns dos resultados indesejados produzidos por sua aplicação prática. Eu escrevia, pois, sobre fenômenos dos quais quase todos os meus leitores europeus tinham uma experiência mais ou menos próxima e apenas expunha com método e coerência o que muitos sentiam intuitivamente. Já ia a meio caminho uma desilusão quanto a esses ideais, e estudá-los com espírito crítico apenas tornava essa desilusão mais articulada ou explícita.

Nos Estados Unidos, pelo contrário, esses ideais ainda tinham frescor e virulência. Havia apenas dez ou quinze anos – e não quarenta ou cinquenta, como na Inglaterra – que grande parte da intelligentsia contraíra a infecção. E, a despeito da experiência do New Deal, o entusiasmo por esse novo tipo de sociedade racionalmente construída ainda não fora maculado pela experiência prática. O que em alguma medida se tornava vieux jeu para a maioria dos europeus continuava sendo, para os radicais norte-americanos, a esperança radiosa de um mundo melhor, por eles abraçada e alimentada durante os anos ainda recentes da grande depressão econômica.

A opinião pública altera-se depressa nos Estados Unidos. Pouco tempo antes do aparecimento de O Caminho da Servidão(quão pouco, relativamente, era esse tempo, mesmo hoje é difícil lembrar), o planejamento econômico mais extremado havia sido defendido a sério, e o modelo russo recomendado como exemplo por homens que em breve desempenhariam papel importante na vida pública. Isso poderia ser demonstrado com facilidade, mas seria injurioso apontar nomes agora. Basta mencionar que em 1934 o recém-criado National Planning Board dedicou enorme atenção aos exemplos de planejamento fornecidos por estes quatro países: Alemanha, Itália, Rússia e Japão. Dez anos mais tarde, havíamos aprendido a nos referir aos mesmos países como “totalitários”, tínhamos feito uma longa guerra com três deles, e com o quarto estávamos a ponto de iniciar a guerra fria. Mesmo assim, a argumentação deste livro, de que os acontecimentos políticos naqueles países tinham algo a ver com a orientação de sua política econômica, ainda naquela época foi rejeitada com indignação por aqueles que, nos Estados Unidos, defendiam o planejamento. Subitamente tornou-se moda negar que a inspiração do planejamento viera da Rússia, e sustentar, como o fez um de meus críticos eminentes, que era “fato óbvio que a Itália, a Rússia, o Japão e a Alemanha tinham chegado ao totalitarismo por caminhos muito diferentes”.

Todo o clima intelectual nos Estados Unidos, por ocasião do aparecimento de O Caminho da Servidão, era de molde a que o livro provocasse obrigatoriamente ou profundo choque, ou enorme regozijo, entre os membros dos grupos que se contrapunham de modo radical. Em consequência, apesar do sucesso aparente, a obra não teve aqui o tipo de efeito que eu desejara, e que se produzira em outros lugares. É verdade que suas principais conclusões são hoje largamente aceitas. Tornou-se quase um lugar-comum afirmar que fascismo e comunismo são meras variantes do mesmo totalitarismo que o controle centralizado da atividade econômica tende a produzir – afirmação que a muitos se afigurava quase sacrílega há doze anos. Reconhece-se amplamente, agora, até mesmo que o socialismo democrático é algo muito precário e instável, corroído por contradições internas e produzindo em toda a parte resultados dos mais desagradáveis para muitos de seus defensores.

Para que se chegasse a esse clima de sobriedade, contribuíram por certo, mais do que este livro, as lições dadas pelos acontecimentos e debates “mais populares do problema”. E minha tese central não era tão original, ao ser publicada. Embora advertências semelhantes, feitas anteriormente, possam ter sido em grande parte esquecidas, os perigos inerentes à orientação política que eu criticava haviam sido apontados repetidas vezes. Quaisquer que sejam os méritos deste livro, não consistem em haver reiterado essa tese, mas em ter examinado, com paciência e minúcia, as razões por que o planejamento econômico produz tais resultados indesejados, e o processo pelo qual eles se verificam.

Por esse motivo, espero que as circunstâncias nos Estados Unidos sejam agora mais favoráveis a uma consideração séria da tese real deste livro do que o eram quando ele surgiu pela primeira vez. Creio que o que existe nele de importante deve ainda prestar seus serviços, embora reconheça que está quase morto no mundo ocidental o socialismo radical contra o qual ele se dirigia primordialmente: aquele movimento estruturado, que visava uma organização premeditada da vida econômica pelo estado transformado em principal proprietário dos meios de produção. O século do socialismo, nesse sentido, provavelmente chegou ao fim por volta de 1948. Muitas de suas ilusões foram abandonadas, mesmo por seus próprios líderes, e em outros países, assim como nos Estados Unidos, até a palavra socialismo perdeu muito de seu poder de atração. Sem dúvida haverá quem tente salvar esse nome, em benefício de movimentos menos dogmáticos, menos doutrinários e menos sistemáticos. Mas uma argumentação aplicável apenas contra as concepções bem definidas de reforma social que caracterizavam os movimentos socialistas do passado poderia hoje afigurar-se mera investida contra moinhos de vento.

No entanto, ainda que o socialismo radical seja talvez coisa do passado, algumas de suas concepções penetraram demasiado a fundo em toda a estrutura do pensamento de hoje, a ponto de justificar atitudes de complacência. Se poucos, no Ocidente, querem reconstruir a sociedade a partir de seus alicerces com base em algum plano ideal, são entretanto numerosos os que ainda acreditam em medidas que, embora não visem a uma reforma completa da economia, podem no entanto produzir involuntariamente esse mesmo resultado, por efeito de conjunto. E, mais ainda do que quando escrevi este livro, a defesa de uma política que a longo termo seja inconciliável com a preservação da sociedade livre já não é assunto a ser decidido por um partido. Essa mistura de ideais contraditórios e com frequência inconsistentes que, sob o rótulo de estado previdenciário, em grande parte substituiu o socialismo como objetivo dos reformadores, precisa ser analisada com discernimento, se não quisermos que seus resultados sejam semelhantes aos do socialismo extremado. Não negamos que alguns de seus alvos, além de praticáveis, sejam louváveis. Mas há muitos meios de buscar o mesmo alvo, e nas presentes condições da opinião pública há um certo perigo de que nossa impaciência por obter resultados rápidos nos conduza a escolher instrumentos que, embora talvez mais eficientes para produzir determinados fins, são entretanto incompatíveis com a preservação de uma sociedade livre. A tendência crescente para confiar em coerções e discriminações de procedência administrativa, em casos em que a modificação de normas legais de ordem geral poderia, talvez mais lentamente, atingir a mesma meta, bem como para recorrer a controles estatais diretos ou para criar entidades monopolísticas onde o uso judicioso de incentivos financeiros poderia atrair esforços espontâneos constituem ainda um legado poderoso da era socialista, o qual talvez ainda influencie a política por muito tempo.

Exatamente porque nos próximos anos as ideologias políticas não parecem propensas a visar um objetivo definido com clareza, mas reformas esparsas, afigura-se agora da maior importância uma compreensão plena do processo mediante o qual certas medidas podem destruir as bases de uma economia de mercado, e asfixiar gradualmente o poder criador de uma civilização livre. Só compreendendo por que e como certo tipo de controle econômico tende a paralisar as forças propulsoras de uma sociedade livre, e que espécie de medidas são em particular perigosas nesse campo, poderemos esperar que as experiências sociais não nos conduzam a situações que ninguém entre nós deseja.

Este livro pretende ser uma contribuição para essa tarefa. Espero que, na atmosfera mais calma de hoje, seja ele enfim recebido no espírito dentro do qual foi concebido: não como uma exortação à resistência contra qualquer progresso ou experiência, mas como uma advertência para que insistamos em submeter previamente toda modificação a certos testes (descritos no capítulo central que trata do estado de Direito) antes de nos comprometermos a tomar um rumo do qual dificilmente conseguiremos nos afastar mais tarde.

O fato de que este livro foi escrito com vistas apenas ao público inglês não parece ter prejudicado seriamente sua inteligibilidade pelo leitor americano. Há, porém uma questão de terminologia sobre a qual devo aqui dar uma explicação, a fim de prevenir mal-entendidos. Uso a todo momento a palavra “liberal” em seu sentido originário, do século XIX, que é ainda comumente empregado na Inglaterra. Na linguagem corrente nos Estados Unidos, seu significado é com frequência quase o oposto, pois, para camuflar-se, movimentos esquerdistas deste país, auxiliados pela confusão mental de muitos que realmente acreditam na liberdade, fizeram com que “liberal” passasse a indicar a defesa de quase todo tipo de controle governamental.

Interrogo-me ainda, perplexo, sobre a razão pela qual os que de fato creem em liberdade neste país não só permitiram que a esquerda se apropriasse desse termo quase insubstituível, mas chegaram a colaborar nessa manobra, passando a usá-lo em sentido pejorativo. Isso é lamentável sobretudo porque daí resultou a tendência de muitos verdadeiros liberais a se autodenominarem conservadores. É sem dúvida verdade que, na luta contra os adeptos do estado todo-poderoso, o verdadeiro liberal deve às vezes fazer causa comum com os conservadores. Em certas circunstâncias, como na Inglaterra de hoje, ser-lhe-ia difícil encontrar outro meio de trabalhar efetivamente pelos seus ideais. Mas o verdadeiro liberalismo distingue-se do conservantismo e é perigoso confundi-los. Embora elemento necessário em toda sociedade estável, o conservantismo não constitui, contudo, um programa social; em suas tendências paternalistas, nacionalistas, de adoração ao poder, ele com frequência se revela mais próximo do socialismo que do verdadeiro liberalismo; e, com suas propensões tradicionalistas, anti-intelectuais e frequentemente místicas, ele nunca, a não ser em curtos períodos de desilusão, desperta simpatia nos jovens e em todos os demais que julgam desejáveis algumas mudanças para que este mundo se torne melhor. Por sua própria natureza, um movimento conservador tende a defender os privilégios já instituídos e a apoiar-se no poder governamental para protegê-los. A essência da posição liberal, pelo contrário, está na negação de todo privilégio, se este é entendido em seu sentido próprio e original, de direitos que o estado concede e garante a alguns, e que não são acessíveis em iguais condições a outros. Talvez seja necessária ainda uma palavra para esclarecer por que estou permitindo que este livro reapareça sem absolutamente nenhuma modificação, depois de decorridos quase doze anos. Várias vezes tentei revê-lo, e há numerosas passagens em que eu gostaria de apresentar explicações mais pormenorizadas, ou de ser mais cauto, ou de fortalecer a argumentação com maior número de ilustrações e provas.

Mas todas as tentativas de reescrevê-lo só demonstraram que eu nunca poderia redigir novamente um livro tão breve cobrindo um campo tão amplo; e parece-me que, entre os méritos que ele possa ter, o maior é sua relativa brevidade. Fui portanto forçado a concluir que, se lhe quiser fazer quaisquer acréscimos, devo elaborar estudos à parte. Comecei a executar essa tarefa escrevendo vários ensaios, alguns dos quais analisam mais minuciosamente certas posições filosóficas e econômicas em que este livro mal toca6. Sobre as origens das ideias aqui criticadas, em especial, e suas relações com alguns dos movimentos intelectuais mais poderosos e marcantes de nossos tempos, teci comentários em outro estudo7. E em breve espero complementar o sumaríssimo capítulo central deste livro com uma análise mais extensa das relações entre igualdade e justiça8.

Há, porém, um tópico sobre o qual o leitor com razão esperaria um comentário meu neste prólogo, comentário esse que, mais do que qualquer outro, pediria um novo livro. Pouco mais de um ano após a primeira edição de O caminho da servidão, assumiu o poder na Inglaterra um governo socialista, que durou seis anos. Devo responder, pelo menos brevemente, à pergunta sobre se essa experiência confirmou ou desmentiu minhas apreensões. Em todo caso, ela deu novo alcance a minha argumentação, e creio poder acrescentar que revelou a muitos, aos quais raciocínios abstratos nunca teriam convencido, serem reais as dificuldades por mim apontadas. Com efeito, não muito depois da ascensão do governo trabalhista, numerosas questões postas de lado por meus críticos norte-americanos, como sendo produto de simples fantasia, tornaram-se temas centrais de debates políticos na Inglaterra. Em pouco tempo, até mesmo documentos oficiais estavam analisando com atenção o perigo do totalitarismo criado pela política de planejamento econômico. Nada ilustra melhor a maneira pela qual a lógica inerente à política socialista levou, involuntariamente, aquele governo a um tipo de coerção que lhe causava desagrado, do que a passagem seguinte do Economic Survey for 1947 (que o primeiro-ministro apresentou ao parlamento em fevereiro daquele ano) e os acontecimentos que vieram depois.

Há uma diferença essencial entre o planejamento totalitário e o democrático. O primeiro subordina todos os desejos e todas as preferências individuais às exigências do estado. Com esse objetivo, emprega vários métodos de coerção sobre o indivíduo, privando-o da liberdade de escolha. Tais métodos podem ser necessários mesmo numa democracia, na situação extremamente crítica de uma grande guerra. Por isso, o povo britânico conferiu ao governo, durante a guerra, poderes especiais para intervir no setor trabalhista. Mas em tempos normais o povo de um país democrático não transferirá para o governo sua liberdade de escolha. Um governo democrático deve portanto conduzir o planejamento econômico de modo a preservar ao máximo a liberdade de escolha de cada cidadão.

O ponto interessante dessa profissão de boas intenções é que, seis meses mais tarde, o mesmo governo viu-se, em plena paz, obrigado a fazer votar leis autorizando-o a intervir no campo trabalhista. A importância disso não diminui, como querem alguns, pelo fato de esses poderes nunca terem sido empregados; pois, quando se sabe que as autoridades podem usar a coação, poucos esperam o seu emprego efetivo. Mas é difícil compreender como pôde o governo insistir em tais ilusões, se o mesmo documento proclama que lhe caberia então “declarar qual o melhor uso dos recursos, tendo em vista o interesse nacional” e “estipular qual o dever da nação em matéria econômica: determinar o que é mais importante e quais serão os objetivos políticos”.

Evidentemente, seis anos de governo socialista na Inglaterra nada produziram que se assemelhasse a um estado totalitário. Mas os que alegam que isso desmentiu a tese de O Caminho da Servidão na realidade deixaram escapar uma das afirmações fundamentais do livro: a mais importante transformação que um controle governamental amplo produz é de ordem psicológica, é uma alteração no caráter do povo. Isso constitui um processo necessariamente lento, que se estende não apenas por alguns anos, mas talvez por uma ou duas gerações. O importante é notar que os ideais políticos de um povo e sua atitude em face da autoridade tanto são efeitos quanto causas das instituições políticas sob as quais ele vive. O que significa, entre outras coisas, que mesmo uma vigorosa tradição de liberdade política não constitui garantia suficiente, quando o perigo consiste precisamente em novas instituições e novas orientações políticas que ameaçam corroer e destruir pouco a pouco aquele espírito. Sem dúvida, as consequências poderão ser evitadas se o mesmo espírito se reafirmar a tempo, e se o povo não apenas puser abaixo o partido que o vinha conduzindo para cada vez mais longe do caminho perigoso, mas também reconhecer a natureza da ameaça e mudar resolutamente de orientação. Não há ainda muitas razões para pensar que isso se deu na Inglaterra.

Mesmo assim, saltam aos olhos as mudanças por que passou o caráter do povo britânico, não apenas durante o governo trabalhista, mas ao longo do período muito maior em que gozou das bênçãos de um estado previdenciário paternalista. Essas mudanças não podem ser demonstradas com facilidade, mas são sentidas com clareza por quem mora no país. A título de ilustração, citarei algumas passagens significativas de uma pesquisa sociológica sobre o impacto causado nas atitudes mentais dos jovens pelo excesso de regulamentação. A pesquisa refere-se à situação anterior à subida do governo trabalhista ao poder, por volta da época em que este livro foi publicado pela primeira vez, e examina sobretudo os efeitos das regulamentações do tempo da guerra, as quais o governo trabalhista tornou permanentes. É especialmente na cidade que a esfera de escolhas livres tende a desaparecer. Na escola, no local de trabalho, no vaivém do dia a dia, mesmo no arranjo e no suprimento do próprio lar, muitas das atividades em geral facultadas aos homens são quer proibidas, quer impostas.

Escritórios especiais, denominados Agências para Orientação dos Cidadãos, são criados para guiar o povo desnorteado através do matagal de regras e para indicar aos obstinados as raras clareiras em que um indivíduo ainda pode fazer escolhas… [o rapaz da cidade] está condicionado a não levantar um dedo sem antes se reportar mentalmente a algum regulamento. O programa de um jovem comum da cidade para um dia comum de trabalho mostra que ele passa grandes períodos das horas em que está acordado movimentando-se de forma predeterminada por diretrizes de cuja elaboração não participou, cuja finalidade precisa raramente entender, e cujo acerto não pode julgar… A inferência de que um jovem da cidade necessita de mais disciplina e de um controle mais estrito é excessivamente apressada. Seria mais certo dizer que ele já sofre de uma dose exagerada de controles… Olhando para seus pais e irmãos ou irmãs mais velhos, descobre que também eles estão presos a regulamentos. Ele os vê tão aclimatados a essa situação, que raramente planejam e realizam por conta própria qualquer excursão ou iniciativa social. Assim, não vislumbra um período futuro em que um vigoroso espírito de responsabilidade lhe possa ser útil ou ter utilidade para outros… [Os jovens] são obrigados a engolir tantos controles externos sem sentido a seus olhos que procuram a fuga e a compensação numa ausência de disciplina tão completa quanto possível9. Haverá excesso de pessimismo em recear que uma geração criada sob tais condições não rompa os grilhões aos quais se habituou?

Creio, pelo contrário, que essa descrição antes confirma plenamente o que de Tocqueville previu sobre um “novo tipo de servidão”, que apareceria quando, depois de ter subjugado sucessivamente cada membro da sociedade, modelando-lhe o espírito segundo sua vontade, o estado estende então seus braços sobre toda a comunidade. Cobre o corpo social com uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e uniformes, rede que as mentes mais originais e os caracteres mais fortes não conseguem penetrar para elevar-se acima da multidão. A vontade do homem não é destruída, mas amolecida, dobrada e guiada; ele raramente é obrigado a agir, mas é com frequência proibido de agir. Tal poder não destrói a existência, mas a torna impossível; não tiraniza, mas comprime, enerva, sufoca e entorpece um povo, até que cada nação seja reduzida a nada mais que um rebanho de tímidos animais industriais, cujo pastor é o governo. Sempre pensei que uma servidão metódica, pacata e suave, como a que acabo de descrever, pode ser combinada, com mais facilidade do que em geral se pensa, com alguma forma aparente de liberdade, e que poderia mesmo estabelecer-se sob as asas da soberania popular10.

O que de Tocqueville não considerou foi por quanto tempo tal governo permaneceria nas mãos de déspotas benevolentes, quando seria tão mais fácil para qualquer grupo de rufiões conservar-se indefinidamente no poder, desprezando todo o decoro tradicional da vida política. Talvez eu deva também recordar ao leitor que nunca acusei os partidos socialistas de visarem deliberadamente a um regime totalitário, ou sequer suspeitei que os líderes dos velhos movimentos socialistas jamais mostrassem tais inclinações. O que afirmei neste livro, e o que a experiência inglesa me vem tornando cada vez mais evidente, é que as consequências imprevistas mais inevitáveis da planificação socialista criam um estado de coisas em que, persistindo a mesma orientação, as forças totalitárias acabarão dominando. Saliento explicitamente que o socialismo só pode ser posto em prática mediante a utilização de métodos que a maior parte dos socialistas desaprova, e acrescento mesmo que nisso os velhos partidos socialistas eram inibidos por seus ideais democráticos, e não possuíam a rudeza necessária para realizar a tarefa que escolheram. Temo que a impressão deixada pelo governo trabalhista seja de que tais inibições são, afinal de contas, menores entre os socialistas britânicos do que o foram entre seus companheiros socialistas da Alemanha vinte e cinco anos antes. Sem dúvida os sociais-democratas alemães, na década de 1920, sob condições econômicas iguais ou mais difíceis, nunca chegaram tão perto do planejamento totalitário como o governo trabalhista britânico.

Como não posso aqui examinar em detalhe os efeitos dessas orientações políticas, citarei de modo conciso a opinião de outros observadores, menos suspeitos do que eu. Algumas das condenações mais enérgicas, na realidade, vêm de homens que pouco antes haviam sido membros do Partido Trabalhista. Assim, Ivor Thomas, em obra aparentemente destinada a explicar por que deixou o partido, chega à conclusão que,”sob o ponto de vista das liberdades humanas fundamentais, há pouca escolha entre comunismo, socialismo e nacional-socialismo. Todos eles são exemplos do estado coletivista ou totalitário. Na sua essência, socialismo pleno não é apenas o mesmo que comunismo, mas dificilmente se diferencia do fascismo”.

O mais grave dessa evolução é o crescimento da coerção administrativa arbitrária e a progressiva destruição do estado de Direito, fundamento da liberdade britânica, e isso pelas exatas razões aqui analisadas no capítulo 6. Evidentemente, esse processo se iniciara muito antes da ascensão do último governo trabalhista, e havia sido acentuado pela guerra. Mas as experiências de planejamento econômico sob o governo trabalhista levaram essa evolução a tal ponto que se tornou hoje duvidoso se se pode dizer que o estado de Direito ainda prevalece na Inglaterra. O “novo despotismo” sobre o qual um ministro da Suprema Corte de Justiça advertiu a Inglaterra há vinte e cinco anos é, como The Economist observou em data recente, não mais um simples perigo, mas um fato concreto11. Trata-se de um despotismo exercido por uma burocracia conscienciosa e honesta, em prol daquilo que ela sinceramente acredita ser o bem do país. Mas, apesar disso, o governo é arbitrário, e na prática não está sujeito a um efetivo controle parlamentar. A sua máquina poderia ser eficaz para outros fins, que não os de ordem beneficente para os quais é agora usada. Duvido que tenha havido muito exagero quando, há pouco tempo, um eminente jurista britânico, em cuidadosa análise dessas tendências, chegou à conclusão de que, “na Inglaterra de hoje, vivemos à beira da ditadura. A transição seria fácil e rápida, podendo ser realizada em plena legalidade. Se considerarmos os poderes incomensuráveis de que goza o atual governo, bem como a ausência de qualquer fiscalização eficaz como seria uma constituição escrita ou uma segunda câmara realmente ativa, veremos que já foram dados tantos passos em direção à ditadura que os que ainda faltam são relativamente pequenos”13.

Para uma análise mais minuciosa da política econômica do governo trabalhista inglês e de suas consequências, nada posso fazer de melhor do que remeter o leitor à obra Ordeal by Planning, do prof. John Jewkes (Londres, Macmillan, 1948). É o estudo mais bem feito que conheço sobre um exemplo concreto dos fenômenos que analisei aqui em termos genéricos. Ele complementa este livro melhor do que tudo quanto eu pudesse acrescentar, e é uma lição cuja importância vai muito além da Grã-Bretanha.

Parece agora improvável que, mesmo se outro governo trabalhista vier a subir ao poder na Inglaterra, ele retome as experiências de nacionalização e planejamento em larga escala. Mas nesse país, como em todo o mundo, a derrota sofrida pelo violento ataque do socialismo sistemático apenas tem dado, aos que desejam ardentemente a preservação da liberdade, uma pausa para respirar, durante a qual devemos reexaminar nossas ambições e desfazer-nos de todos os elementos da herança socialista que representam um perigo para a sociedade livre. Sem semelhante revisão de nossos objetivos sociais, é provável que continuemos a ser arrastados na mesma direção para a qual um socialismo completo apenas nos teria conduzido um pouco mais rapidamente.

F.A. Hayek

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NOTAS AO PREFÁCIO DA EDIÇÃO NORTE-AMERICANA DE 1975.

1 – O exemplo mais significativo das críticas feitas ao livro na Inglaterra, de um ponto de vista esquerdista, talvez seja o estudo cortês e franco da sra. Barbara Wootton, Freedom under Planning (Londres, George Allen & Unwin, 1946). Ele é citado frequentemente nos Estados Unidos como uma contestação válida de minha argumentação, embora eu não possa deixar de pensar que mais de um leitor deve ter ficado com a impressão de que, como disse um jornalista americano, “em substância, a obra parece confirmar a tese de Hayek” (Barnard, Chester I. Southern Economic Journal, jan. 1946).

2 – Na ocasião eu não sabia que, como foi posteriormente admitido por um conselheiro de uma das editoras, esse fato parece ter sido devido não a dúvidas quanto ao sucesso do livro, mas a preconceitos políticos. Chegou-se ao extremo de qualificar o livro como “impróprio para ser publicado por uma editora de reputação” (ver, a esse propósito, a afirmação de William Miller citada por W. T. Couch em “The Sainted Book Burners”, The Freeman, abr. 1955, p. 423; e também Miller, William, The Book Industry: a Report oj lhe Public Library Inquiry o/ the Social Science Research Council. Nova Iorque, Columbia University Press, 1949. p. 12).

3 – Isso foi devido, em grande parle, à publicação de um resumo deste livro no Reader’s Digest. Desejo prestar aqui minha homenagem pública aos editores da revista pela extrema perícia com que o elaboraram sem a minha assistência. É inevitável que a redução de um argumento complexo a uma fração de seu tamanho original produza simplificações enormes, mas, que o resumo tenha sido realizado sem distorções e melhor do que eu mesmo teria conseguido fazer, é um fato digno de nota.

4 – A um leitor que deseje conhecer um exemplo de crítica violenta e injuriosa, provavelmente sem par nas discussões acadêmicas de nossos tempos, recomendo a obra Road to Reaction, do prof. Herman Finer (Boston, Little Brown, 1945).

5 – Dessas, a mais eficaz foi sem dúvida 1984, de George Orvell. Antes, seu autor tivera a amabilidade de fazer resenha deste meu livro.

6 – Individualism and Economic Order, Chicago, 1948.

7 – The Counter Revolution of Science, Glencoe, III; 1952.

8 – Um esboço antecipado do modo pelo qual pretendo tratar esse assunto encontra-se em quatro conferências minhas publicadas pelo Banco Nacional do Egito em The Political Ideal oj the Rule oj Law, Cairo, 1955.

9 – Barnes, L. J. Youth Service in an English Country. a Report Prepared for King George’s Jubilee Trust. Londres, 1945.

10 – De Tocqueville, A. Democracy in America. Parte II, livro IV, cap. VI. Seria necessário ler todo esse capítulo para dar-se conta da perspicácia com que de Tocqueville conseguiu prognosticar os efeitos psicológicos do moderno estado previdenciário. Diga-se de passagem que foram suas frequentes referências à “nova servidão” que me sugeriram o título deste livro.

11- The Socialist Tragedy. Londres, Latimer House, 1949. pp. 241 e 242.

12- Em artigo publicado no número de 19 de junho de 1954, onde é analisado o Report on the Public Inquiry Ordered by the Minister of Agriculture into the Disposal of Land at Crichel Down (Cmd. 9176, Londres, H. M. Stationery Office, 1954). O artigo merece estudo cuidadoso por parte de todos os que se interessam pela psicologia de uma burocracia planificadora.

13 – Keeton, G. W. The Passing of Parliament. Londres, 1952.