O “consenso de especialistas” também apoiou a proibição do álcool

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A maioria das pessoas hoje considera o experimento dos EUA com a proibição do álcool uma vergonha nacional, corretamente revogado em 1933. O mesmo acontecerá com os lockdowns e quarentenas de 2020, algum dia.

Em 1920, porém, foi necessário coragem para defender a revogação da proibição que foi aprovada. Foi preciso argumentar contra a opinião dominante apoiada por cientistas celebrados e pensadores sociais de renome. O que foi dito foi contra o “consenso dos especialistas”.

Há uma analogia óbvia com as Quarentenas 2020.

O primeiro indício que tive dessa história de proibição veio ao ler as transcrições do então famoso Padre da Rádio James Gillis dos anos 1920. Ele era contra a proibição da produção e venda de álcool, alegando que os custos sociais superavam em muito os supostos benefícios. O que me surpreendeu foi a atitude defensiva de seus comentários. Ele teve que assegurar aos seus ouvintes que ele era pessoalmente a favor da temperança, que o álcool era realmente demoníaco, que é verdade que essa coisa horrível tinha causado coisas terríveis ao país. Ainda assim, disse ele, proibições totais são muito caras.

Por que ele foi tão cauteloso em sua retórica? Acontece que, durante a década de 1920, ele foi uma das poucas figuras públicas americanas famosas (H.L. Mencken também estava entre elas) que ousou falar contra o que era obviamente uma política desastrosa. Ler isso me fez percorrer mais à fundo a literatura da época em que muitos intelectuais importantes argumentaram que a Lei Seca fazia todo o sentido como um passo necessário para limpar a ordem social.

Para resumir a “ciência” por trás da Lei Seca, a sociedade tinha um número enorme de patologias fora de controle e todas elas derivadas de uma variável dominante: bebidas alcoólicas. Havia pobreza, crime, famílias sem pai, analfabetismo, alienação política, imobilidade social, miséria urbana e assim por diante. Você pode examinar cuidadosamente os dados para descobrir que, em todos esses casos, existe um elemento comum, o álcool. É lógico que a eliminação desse fator seria a maior contribuição isolada para a eliminação das patologias. A evidência era incontestável. Faça isso, depois aquilo, e pronto.

Pra dizer a verdade, o argumento nem sempre foi tão claro. Simon Patten (1852-1922) foi presidente da Wharton School of Business. Seu argumento do final do século XIX para a proibição do álcool apresentava um argumento complicado sobre o clima nos EUA. Fica frio, depois quente e depois frio, e o consumo de álcool parece acompanhar essas mudanças, levando as pessoas a beber cada vez mais até que suas vidas desmoronem.

Conforme resumido por Mark Thornton, que é o principal estudioso da economia da Lei Seca e sua história, “Para Patten, o álcool é um produto sem equilíbrio no consumo. Ou alguém é bom e se abstém de álcool, ou se torna um bêbado e se autodestrói.”

O economista pró-proibição mais influente da geração seguinte foi a super estrela acadêmica e progressista social Irving Fisher, cujas contribuições para tornar a economia mais sobre dados do que teoria são lendárias. Assim como sua promoção da eugenia. Nenhuma surpresa se você conhece este período e essas pessoas, mas ele também era um adversário apaixonado de todo tipo de álcool. Foi ele quem fez uma diferença decisiva para convencer o Congresso e o público de que uma proibição total era o caminho certo. Seu livro estranhamente intitulado Prohibition at Its Worst (1927) mostra tudo.

No mesmo ano de sua publicação, Fisher convocou uma mesa redonda na reunião anual da American Economic Association. Seu próprio relato é revelador.

Eu fiz uma lista dos economistas que deveriam ser contra a Lei Seca e escrevi para eles; todos eles responderam que eu estava errado em pensar que eles se opunham à Lei Seca ou que, se fôssemos limitar a discussão à economia da Lei Seca, eles não se importariam em responder. Quando descobri que não teria nenhum orador representando o ponto de vista oposto, escrevi a todos os economistas americanos listados em “Minerva” e a todos os professores americanos de estatística. Nenhum aceitou.

Claramente, seus colegas estavam enganados pela “ciência” prevalecente ou com medo de discordar da ortodoxia reinante. Mesmo enquanto o establishment político estava sendo corrompido, os senhores do crime e das bebidas estavam crescendo em todo o país, e dezenas de milhares de bares clandestinos prosperavam. Alegando que a Lei Seca havia criado US$ 6 bilhões em riqueza para os EUA – um valor frequentemente citado como oficial, Fisher escreveu o seguinte:

A proibição veio para ficar. Se não for aplicada, suas bênçãos rapidamente se transformarão em uma maldição. Não há tempo a perder. Embora as coisas estejam muito melhores do que antes da Lei Seca, com a possível exceção do desrespeito à lei, elas podem não permanecer assim. A fiscalização vai curar o desrespeito à lei e outros males dos quais reclamam, bem como aumentar muito o bem. A Lei Seca americana entrará para a história como o prenúncio de uma nova era no mundo, da qual esta nação terá orgulho para sempre.

Para ver como o número de $6 bilhões conforme calculado e para observar o resto da surpreendente ginástica matemática por trás da Lei de apoio à “ciência”, dê uma olhada na apresentação detalhada de Thornton. É uma imagem perfeita da pseudociência em ação.

Mas não era incomum para a época. O Journal of the American Medical Association disse sobre a proibição do álcool em 1920: “A maioria de nós está convencida de que é um dos atos mais benéficos já aprovados por uma legislatura”.

Lendo toda essa literatura, lembro-me da conclusão científica do CDC de que fechar restaurantes durante uma pandemia salvará vidas – uma conclusão baseada em um estudo tão fraco que qualquer pessoa com a mínima familiaridade com estatísticas e causalidade pode perceber imediatamente suas falhas (o mesmo estudo, se o demonstrar, também demonstraria que as máscaras não fazem diferença na propagação do vírus). Outro caso óbvio foi o fechamento brutal e não científico de escolas.

Também é verdade que os oponentes da Lei Seca eram rotineira e publicamente acusados de serem bêbados, protetores de contrabandistas ou de simplesmente não seguirem a ciência. Eles eram os anormais e assim permaneceram por uma década. O que finalmente quebrou a Lei Seca não foi a substituição de uma ortodoxia científica por outra, mas o descumprimento por parte da maioria da população. Quando a aplicação se tornou inviável e FDR viu a oposição à Lei Seca como politicamente vantajosa, a lei finalmente mudou.

Quando olhamos para a história americana, a Lei Seca se destaca como uma das experiências sociais e econômicas mais loucas dos tempos modernos. A própria ideia de que o governo, por sua própria autoridade e poder, iria expurgar de uma sociedade ocidental a produção e distribuição de álcool, nos soa hoje como um sonho milenar, que se transformou em desastre para todo o país.

Poderíamos dizer o mesmo sobre as quarentenas em 2020. Na verdade, medindo os absurdos em uma escala de extremismo, a ideia de quarentenas, com separação humana forçada, uso de máscara obrigatório e a abolição prática de todas as grandes aglomerações, diversão, arte e viagens, parece ainda mais sadicamente absurdo do que a proibição do álcool.

O desvario da turba, muitas vezes apoiada pela “melhor ciência”, nunca acaba. Apenas encontra novas formas de expressão jurídica em novos tempos. Somente quando a turba recobra o juízo é que os verdadeiros cientistas voltam e prevalecem, enquanto a falsa ciência que apoiou o despotismo finge que nunca aconteceu.

 

Artigo original aqui.

4 COMENTÁRIOS

  1. Acho que vocês estão confundindo as coisas, e isso tá afetando o julgamento de vocês. O distanciamento social e o uso de máscaras diminui o contágio pela diminuição do espalhamento de gotículas com vírus, o necessário pra provar isso é saber que o vírus é contagioso e que ele se espalha por secreções respiratórias, é bem intuitivo e nada mirabolante, ninguém precisa manipular dados pra chegar nessa conclusão.

    Eu não vejo os lockdowns por si como violações da liberdade, se você não quer usar mascaras e é contra lockdowns, simplesmente defenda seu direito de viver em um lugar onde isso não existe.

    O problema é forçar as pessoas a viverem em lugares onde elas são forçadas a usar mascara, não forçar o uso da mascara em si. Não existem violações da liberdade se forem regras consensuais previstas em contrato.

    Mas já que não vivemos em uma sociedade livre, estamos a mercê do governo para aplicar essas regras, por mais ineficiente e generalizante que seja essa aplicação.

    • Mas esse contrato nunca aconteceu, não é consensual, é impositivo.

      Concordo que muitos de nós estamos sendo de certa forma negacionistas, o vírus existe e é perigosos para muitos. E existem medidas a serem tomadas para não transmiti-lo, não devemos simplesmente viver como se ele não existisse.

      O ponto aqui é a tirania que são as medidas impostas, tais ações devem partir do indivíduo. Se o cara quiser se trancafiar em casa, perfeito. Mas se o cara quiser obrigar os outros a ficar em casa, daí temos um problema.

      Para a maioria da população é inviável ir para outro lugar onde tais medidas não existem, bem que eu gostaria de “ir pra Liberlândia, irmão”.

    • É bem intuitivo e nada mirabolante que o álcool altera os reflexos e “pode causar o mal”. Se não vivemos a lei seca até hoje, só pode ser porque o governo não usou opressão suficiente, não é mesmo?
      É cada um que me aparece…

  2. Devemos considerar o seguinte. Em 1920 não havia ainda os regimes da esquerda comunista e nazistas em toda a sua plenitude totalitária – outro mito. Com a ajuda dos intelectuais e do cinema, provavelmente se criou no inconsciente coletivo que existe um oficial do governo em cada esquina nos vigiando e isso de fato, ajuda na desmotivação da desobediência civil. Nos anos 20 subverter a ordem talvez fosse a norma. Em plenos anos 20 a submissão é a norma.

    O impacto de agentes da KGB no cinema não pode de todo ser descartado. Ou seja, é uma guerra cultural em larga escala promovida pelo sistema. Não acreditam? eu li tempos atrás o depoimento de soldados americanos no livro “Black Hawk Down”, sobre uma medonha intervenção na Somália em 1992. Quando as tropas foram pegas de surpresa pela resistência, alguns soldados simplesmente não reagiram, pois a sensação que passava pelas suas cabeças é que estavam em um jogo de videogame, e que nada de grave estava acontecendo…