O estado e a geração nem nem: como as distorções governamentais levam os jovens a não estudar nem trabalhar

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Tem sido notado há algum tempo, até pelos meios de comunicação mainstream, o surgimento de um preocupante fenômeno: um número cada vez maior de jovens não estuda e nem procura emprego. Esta tendência tem se tornado um problema em diversos países, mas toma proporções alarmantes no Brasil. Embora tal fenômeno seja notado, ele raramente é analisado e compreendido.

Dentre as falhas de compreensão destacam-se a atribuição do fenômeno a uma corrupção das virtudes dos mais jovens, uma reclamação recorrente desde os tempos do império romano, e a análise do fenômeno como um acontecimento de origem sociológicas, uma mudança na mentalidade das pessoas. Estas abordagens não poderiam estar mais equivocadas. A análise adequada é feita pela ótica do estudo dos mecanismos de ação humana.

O problema real em mãos é um simples trade-off econômico, uma escolha difícil no bom português. Para os jovens, trabalhar não compensa, e o porquê disso é evidente numa simples análise do equilíbrio do mercado de trabalho, compreensível até para leigos que nunca leram um livro de economia sequer. Me acompanhem por favor.

O trabalho é um acordo voluntário entre empregado e empregador, ou seja, as partes negociam livremente e só assinam contrato se chegarem num entendimento que seja razoável para ambos. Se não chegarem numa proposta mutuamente aceitável, não firmam o acordo e cada um segue com sua vida.

Da parte do empregador a decisão é baseada em uma conta simples, quanto o funcionário pode gerar de valor para a empresa menos o seu custo. Por mais que o empregador trabalhe apenas com estimativas, muitas vezes grosseiras, da produtividade do funcionário, ele ainda assim decide baseado nestes parâmetros. Quanto mais qualificado e experiente o funcionário mais ele vale para a empresa.

Para o trabalhador a conta é um pouco mais difícil. Ele compara a remuneração oferecida, e seu custo de oportunidade. O custo de oportunidade é tudo aquilo de que ele precisa abrir mão para poder trabalhar, ou seja, tudo o que poderia fazer com o tempo que vai gastar no emprego. Dois fatores se destacam na percepção do custo de oportunidade. O primeiro é constituído pelas outras possibilidades de trabalho, ou seja, se o trabalhador poderia ganhar mais trabalhando em outra empresa. Caso uma outra empresa ofereça melhor salário com condições de trabalho semelhantes, essa tenderá a ser preferida pelo trabalhador. O segundo fator é o valor atribuído pelo trabalhador ao ócio. O trabalhador tem a opção de invés de trabalhar usar seu tempo para outras atividades, como o lazer por exemplo.

Em outras palavras, antes de aceitar o emprego o trabalhador analisa se poderia receber melhor salário em outra empresa, e se a remuneração oferecida é suficiente para ele abrir mão do seu tempo, que poderia ser utilizado jogando cartas, andando de bicicleta, ou jogando videogame por exemplo. Embora o trabalhador não atribua um quantitativo monetário exato ao seu tempo livre, certamente ele valoriza esse tempo, e naturalmente o pondera na decisão.

Com os mecanismos de decisão esclarecidos, é simples entender a negociação entre empregador e empregado. O empregador tem um teto para sua oferta, definido pelo valor que ele estima que as habilidades do trabalhador podem agregar a empresa. Já o trabalhador tem um piso definido pelo menor salário que cubra seu custo de oportunidade. Desse modo, os trabalhadores aceitarão a maior proposta de trabalho que receber desde que ela seja maior que o valor que ele atribui ao ócio. E aí que aparecem as regulações.

Primeiramente o salário de corte (erroneamente chamado de salário mínimo), proíbe os trabalhadores sem experiência e sem qualificação de entrar no mercado de trabalho. Como não conseguem gerar valor suficiente para ser contratados pelos empregadores que são obrigados a contratar pelo salário de corte, eles não conseguem o primeiro emprego, que seria sua chance de aprender uma profissão e ganhar experiência, levando ao desenvolvimento de habilidades que os levariam a oportunidades melhores. Dessa maneira o salário de corte cria uma armadilha da pobreza, onde pessoas não podem evoluir profissionalmente pois sua entrada no mercado foi proibida por lei, uma lei que supostamente visa ajudá-los.

Existem porém muitos jovens que poderiam conseguir empregos, mas não procuram vagas. São aqueles que têm se tornado conhecidos como “geração nem nem”. Neste caso, a sua entrada no mercado é desestimulada tanto por conta de leis trabalhistas, quanto por conta de impostos, sobretudo os impostos sobre consumo.

As leis trabalhistas atuam aumentando os custos de contratação, o que acaba por reduzir a oferta de salário. Por exemplo, se um empregador acredita que as habilidades de um candidato a uma vaga de emprego valem R$ 2.000,00 para a empresa, mas tem que gastar pelo menos 25% (algumas estimativas apontam até 80%) do salário com encargos e demais exigências legais, ele poderá oferecer apenas R$ 1.600,00 de salário, uma vez que o seu teto de oferta considera o custo total do trabalhador. A burocracia, e arbitrariedade da justiça do trabalho também geram custos que irão diminuir ainda mais o salário máximo ofertado.

Do lado do trabalhador, além de sua parte dos encargos, pesam os impostos indiretos embutidos nos produtos consumidos, que levam cerca de 20% da renda dos mais pobres segundo o IPEA (órgão estatal, que bem pode estar subestimando os números), e os impostos diretos. O total é estimado entre 35% e 50% da renda dos trabalhadores mais pobres, uma vez que estes são mais afetados pelos impostos sobre consumo. Assim, num cenário otimista, o trabalhador que receber os R$ 1.600,00 de salário terá o poder compra efetivo de apenas R$ 1.040,00, pouco mais da metade do que o seu empregador se dispôs a pagar. Isso sem considerar o imposto de renda, que pode tomar até 27,5% da renda antes do impostos sobre consumo, ou seja, impostos sobre impostos.

O pesadelo não acaba aí. O Brasil possui leis que restringem e tarifam as importações, limitando drasticamente a concorrência e encarecendo produtos. Em nome de proteger a fortuna dos industriais bem relacionados com o governo, e financiadores de campanha, o estado obriga o consumidor a escolher entre comprar de um pequeno cartel de produtores nacionais ineficientes que cobram preços exorbitantes por seus produtos, ou comprar produtos importados com impostos altíssimos, custando muitas vezes mais que seu preço no mercado estrangeiro. O preço desse regime de privilégios do qual desfrutam as corporações bem relacionadas com a casta política, é uma corrosão ainda maior do poder de compra dos trabalhadores.

O que nos leva de volta aos jovens que não estudam e nem trabalham. Ao entrar em contato com o mercado de trabalho, e constatar que o poder de compra obtido pelo seu esforço é muito pequeno, eles concluem que trabalhar não vale a pena. Esse fenômeno afeta predominantemente os jovens porque estes, de modo geral, não precisam sustentar uma família, e podem morar na casa dos pais. Além disso, por terem menos experiência, enfrentam um teto de oferta salarial mais baixo.

Como estes jovens não se sentem estimulados a trabalhar, perdem também o interesse pela qualificação profissional, uma vez que sentem que o esforço e o investimento não serão suficientemente remunerados. Dessa forma, são levados a desperdiçar aqueles que poderiam ser os anos mais produtivos de suas carreiras. Reduzindo assim os ganhos potenciais de toda a sua vida, e levando a geração seguinte a ter um “ponto de partida” ainda mais difícil.

Em tempos de crise, estes jovens fazem muita falta empreendendo, trabalhando, e gerando riqueza. Trabalhadores e empreendedores, são os motores do desenvolvimento, principalmente quando aliados aos poupadores, que sacrificam o consumo presente em nome do investimento, que se tornará renda futura. Essas distorções aliás têm um efeito terrível também sobre a taxa de poupança, mas este é um tema para outro artigo.

É nesse ambiente que se propagam os mercados negros, também conhecidos como mercados informais. Para os trabalhadores se torna melhor ter empregos sem registros formais, e escapar dos custos trabalhistas impostos pelo estado. Os mercados negros também os ajudam a escapar dos cartéis protegidos pelo estado, das tarifas de importação e dos impostos sobre consumo. Basta observar a popularidade dos camelódromos nas cidades, especialmente nas áreas de mais baixa renda. O contrabando e o trabalho informal não são um mal que assola os mais pobres como faz parecer a propaganda estatal. Eles são a forma de resistência que possibilita a sobrevivência dessas pessoas. São uma reação de mercado, oferta e demanda. Estes jovens não estão ociosos porque desprezam o trabalho, estão ociosos porque sua liberdade de trabalhar e manter os frutos desse esforço foi severamente atacada. Restam-lhes as opções de ignorar essas restrições, produzir, empreender e criar, arriscando serem agredidos pelo estado, ou cruzar os braços e esperar.

2 COMENTÁRIOS

  1. Apesar do estado (como sempre) ter sua parcela de culpa, acredito que grande parte da responsabilidade está nesses mesmos jovens sim.Como o próprio artigo citou sempre existe a opção do mercado informal, de trabalhar sem carteira assinada, etc.E some-se a isso o fato de que o governo criou uma cultura de vítimas profissionais que esperam tudo cair do céu pelas mãos do estado, e isso afeta inclusive gente de todas as idades.
    Esses serão os ´jovens´que serão futuros concurseiros, já desperdiçam grande parte da própria vida sem fazer nada e vão desperdiçar mais ainda estando anos pra algum concurso sem passar.