O mito dos EUA como uma “superpotência relutante”

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Análise do livro Tomorrow the World: The Birth of U.S. Global Supremacy
de Stephen Wertheim
Harvard University Press, 2020
255 páginas

Existem duas abordagens dominantes contrastantes da história da política externa americana. Nesse excelente estudo, Stephen Wertheim, pesquisador de pós-doutorado na Columbia University e membro do Quincy Institute, mostra que as duas estão erradas. Ao fazer isso, ele reivindica os méritos atuais de uma política externa não intervencionista.

De acordo com a primeira abordagem, os Estados Unidos passaram do isolacionismo nos séculos XVIII e XIX para a política global de hoje.

    A ascensão dos EUA ao poder global é tudo menos algo novo. Dezenas de livros examinam cada episódio importante da história, especialmente o da Segunda Guerra Mundial … Mas a história foi consistentemente narrada em termos que obscurecem e até mesmo negam a decisão pela primazia armada … Os americanos absorveram uma versão da mesma história: os Estados Unidos, antes escravizados pelo “isolacionismo”, abandonaram sua antipatia pelo engajamento global e abraçaram o “internacionalismo”. A premissa é que isolacionistas e internacionalistas se enfrentaram em uma luta prolongada, com os primeiros vencendo após uma guerra mundial e os últimos finalmente prevalecendo após uma segunda. (p. 4)

A segunda abordagem é diferente. “No lugar de uma superpotência relutante e tardia, alguns críticos acham exatamente o oposto: uma superpotência em formação o tempo todo. Os Estados Unidos, impelidos a buscar lucros, impelidos por um senso de destino, aumentaram continuamente seu poder até atingir sua supremacia em todo o mundo?” (p. 6). Wertheim tem em mente historiadores de esquerda como William Appleman Williams, mas o neoconservador Robert Kagan com seu Dangerous Nation (2007) também se encaixa nesse padrão. (Veja a minha análise aqui.)

A principal crítica de Wertheim a essas abordagens é que ambas aceitam um mito. A política externa dos EUA nunca foi isolacionista. Esse foi um termo difamatório inventado depois do fato pelos proponentes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial para caracterizar seus oponentes. Os não intervencionistas não queriam isolar os Estados Unidos das negociações com outras nações, mas na verdade procuraram estender os laços comerciais e sociais com territórios no exterior. Nessas políticas, eles deram continuidade à doutrina estrangeira tradicional americana, em vigor desde Washington e Jefferson, de evitar o emaranhamento na política de poder europeia. “Somente durante a guerra o internacionalismo passou a ser associado à supremacia militar, cujos arquitetos conceberam o novo termo pejorativo isolacionismo e redefiniram o internacionalismo contra ele. Pela mesma razão, não faz sentido caracterizar um grupo de americanos como defensores do isolacionismo” (p. 4, ênfase no original).

Para apoiar seu argumento, Wertheim faz pleno uso das obras do grande advogado internacional americano Edwin M. Borchard, que passou da defesa da Liga das Nações para o apoio robusto à legislação de neutralidade durante os anos 1930. Aqui, porém, não concordo totalmente com a linha de pensamento de Wertheim. Como ele conta a história, a intervenção de Woodrow Wilson na Primeira Guerra Mundial e na Liga das Nações que ele posteriormente apoiou não marcou uma virada decisiva na política externa americana. Se os Estados Unidos tivessem ingressado na liga, isso não implicaria em praticamente nenhum compromisso com o uso da força militar. Assim, ele vê o apoio de Borchard à liga como consistente com sua defesa posterior da neutralidade americana. Isso, a meu ver, subestima a ruptura de Wilson com a política externa não intervencionista e, com ela, a extensão em que Borchard mudou suas opiniões durante os anos 1930, um fato que seus oponentes intervencionistas não deixaram passar. Nesse sentido, Wertheim poderia ter dedicado atenção detalhada ao grande livro de Borchard e William Lage, Neutrality for the United States (Yale, 1937), o canto do cisne da abordagem legalista da política externa não apenas de Borchard, mas também de seu professor John Bassett Moore. A visão de Wertheim da liga também o leva a olhar para James Thomson Shotwell sob uma luz muito favorável; ele foi muito mais intervencionista, mesmo em seus primeiros anos, do que Wertheim permite.

De maneira mais geral, Wertheim falha em notar até que ponto o movimento anti-guerra dos anos 1930 refletiu uma rejeição das políticas não neutras de Wilson na Primeira Guerra Mundial. Embora ele mencione Harry Elmer Barnes, a quem ele chama de “historiador prolífico e intelectual público” (p. 45), ele subestima a influência da história revisionista de Barnes, Sidney Bradshaw Fay e Charles Callan Tansill em mudar a opinião pública nas décadas de 1920 e 30. A propósito, Tansill, o autor do definitivo America Goes to War, teria ficado encantado com a afirmação de Wertheim de que a Doutrina Monroe era um desafio para a marinha britânica (p. 20).

Muito mais significativo do que essas divergências é a cuidadosa pesquisa de Wertheim sobre a formação da política externa americana após o início da Segunda Guerra Mundial. Como ele observa, o Conselho de Relações Exteriores cooperou estritamente com o Departamento de Estado no planejamento do fim de uma guerra que mal havia começado. A queda inesperada da França para os nazistas levou os especialistas do CRE a favorecer o apoio total a Grã-Bretanha. “Mas por que não aceitar uma paz mundial compatível com a visão do Eixo da Europa para os europeus e da Ásia para os asiáticos? Em resposta ao Pacto Tripartite, as elites dos EUA destacaram o excepcionalismo americano: a supremacia do Eixo na Ásia e na Europa negaria o destino dos Estados Unidos de definir a direção da história mundial … Para Roosevelt e [Walter] Lippmann, a oferta do Eixo para conduzir o mundo a uma nova ordem foi empreendida pela parte errada” (p. 73). Wertheim enfatiza acertadamente a influência do inveterado anglófilo Walter Lippmann em levar os EUA em direção à guerra e também enfatiza o famoso ensaio da revista Life de Henry Luce de 1941, “O século americano”, com seu clamor flagrante pela supremacia mundial americana. Wertheim observa que um dos planejadores do CRE foi o historiador de Harvard William Leonard Langer, mas ele deveria ter acrescentado que Langer havia sido anteriormente um dos mais resolutos revisionistas históricos e suas visões intervencionistas foram uma espécie de reviravolta. Em sua discussão sobre a elite da anglofilia americana, Wertheim corretamente chama a atenção para o grupo da Mesa Redonda, mas surpreendentemente falha em citar Tragédia e esperança de Carroll Quigley, (ver p. 221n74 para suas fontes na Mesa Redonda).

Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA continuou a reivindicar a supremacia mundial, e Wertheim habilmente discute os desenvolvimentos sob Harry Truman e seus sucessores. As Nações Unidas, ele deixa claro, não tinham poder independente, mas eram apenas uma cobertura de relações públicas para o domínio dos EUA. Deixarei para os leitores os detalhes da discussão de Wertheim e encerrarei com uma citação apropriada do maior advogado internacional americano do final da década de 1880 até a década de 1940, John Bassett Moore: “Em sua opinião, ‘nada poderia ser mais absurdo … do que a suposição de que a liga das nações falhou em preservar a paz do mundo porque os Estados Unidos não se tornaram parte dela.’ Essa suposição tornou os EUA a nação indispensável para a paz mundial, ‘aparentemente ignorante do fato de que os Estados Unidos não só foram culpados de guerra externa agressiva, como no caso do México, mas também aumentaram o número de grandes guerras civis'”(p. 171).

Wertheim escreveu um dos melhores livros recentes sobre a política externa americana, e eu o recomendo a todos aqueles que rejeitam a política de domínio mundial.

 

Artigo original aqui.