Cada geração produz sua leva de porta-vozes do poder estatal em detrimento da liberdade. Os economistas estatistas estão entre os mais sofisticados, por três razões.
Primeiro, eles aparentam criticar o atual sistema capitalista de compadrio, quando na realidade o defendem e desejam reforçá-lo de diversas maneiras. Segundo, eles geralmente se baseiam em estatísticas e matemática para fundamentar seus argumentos de forma “científica”, o que dificulta a percepção das falhas em seu raciocínio por parte do leigo. Terceiro, eles revestem sua argumentação com valores morais “simpáticos”, que superficialmente atraem o público, como a luta contra a desigualdade.
Utilizando esses três métodos ardilosos, tais macroeconomistas conseguiram influenciar fortemente a opinião pública ao longo de décadas, favorecendo uma maior intervenção do estado na sociedade. Suas políticas justificam a concentração de ainda mais poder nas mãos do estado, o que prejudica a sociedade, pois reduz a liberdade individual e impede o funcionamento natural do mercado. Esses economistas estatistas devem, portanto, ser constantemente desmascarados.
Em 1959, Henry Hazlitt desferiu um golpe significativo no popular sistema keynesiano do pós-guerra com seu livro de grande sucesso, O fracasso da “economia moderna”. Hoje, a crítica deveria ser direcionada a economistas ocidentais renomados como Stephanie Kelton, Mariana Mazzucato, Thomas Piketty e o promissor Gabriel Zucman.
É provavelmente mais fácil refutar Piketty e Zucman do que Kelton e Mazzucato, que são intelectualmente mais astutos e estão mais bem sintonizados com a realidade. Os franceses Piketty e Zucman desenvolvem suas ideias a partir de uma análise socialista mais convencional do “capitalismo”. Já Kelton e Mazzucato — por serem acadêmicas norte-americanas — apresentam argumentos mais sutis, uma vez que defendem um modelo de “estado empreendedor” que, de fato, impulsiona a criação de riqueza e de empregos, sem desqualificar o capitalismo, do ponto de vista ideológico, na mesma medida.
Mulheres inteligentes em uma missão estatista
Kelton e Mazzucato demonstram uma sensibilidade maior — ou, pelo menos, menos desajustada — em suas declarações sobre os benefícios da economia de mercado do que Piketty e Zucman. Elas colocam o estado eficiente e gestor no centro de uma economia dirigida pelo próprio estado, alimentada pela emissão ilimitada de moeda pelo banco central. Existem precedentes para essa política econômica: a Alemanha, a Itália e os EUA nas décadas de 1930 e 1940. Se Piketty e Zucman são socialistas, Kelton e Mazzucato são fascistas.
Kelton, em O mito do déficit: teoria monetária e o nascimento da economia (2020), apresenta o argumento mais conhecido em defesa da TMM. Tanto na visão dela quanto na de Mazzucato, os déficits orçamentários do governo não são realmente relevantes e podem ser sustentados quase indefinidamente para financiar projetos estatais. Mas isso só é possível até certo ponto devido ao “privilégio exorbitante” do dólar como moeda de reserva, para usar as palavras do ex-presidente francês Giscard D’Estaing. Imprimir dinheiro funciona, até que deixa de funcionar, com consequências de longo prazo que podem ser desastrosas para toda a sociedade.
Tanto Kelton quanto Mazzucato defendem políticas que beneficiam principalmente a minoria governante, utilizando o efeito Cantillon, consequência inevitável de tal política inflacionária, para conferir ainda mais poder às instituições financeiras com conexões políticas. A redução dos benefícios financeiros e dos salários reais para a maioria governada são, em geral, as consequências dessas políticas.
Em O estado empreendedor (2014), Mazzucato argumenta que o estado é o verdadeiro motor da inovação, observando que subsídios governamentais e financiamento militar lançaram as bases para a internet e o GPS, que foram então desenvolvidos pelo mercado. Mazzucato é mais uma “vítima” da Falácia da Janela Quebrada de Bastiat, do “O que se vê e o que não se vê“. O que se vê são as inovações que podem surgir de gastos governamentais ineficientes com defesa. O que não se vê é a enorme quantidade de inovação, riqueza e descobertas privadas que não existiram porque o estado utilizou e tributou esses recursos, retirando-os do mercado em primeiro lugar. Esse tipo de pensamento geralmente não é incentivado, pois é inconveniente se o objetivo é afirmar o poder do estado sobre a sociedade.
Em Missão economia: Um guia inovador para mudar o capitalismo (2021) — como aponta a resenha do think tank de livre mercado Epicenter —, Mazzucato
“…tenta ilustrar como os governos podem implementar políticas orientadas por missões. Uma missão pode ser considerada um grande objetivo social formulado pelos legisladores, por exemplo, levar um homem à Lua, reduzir as emissões de CO2 ou diminuir drasticamente a pobreza.”
No entanto, os benefícios sociais indiretos dessas “missões” exorbitantemente caras costumam ser marginais. Aparentemente, o Pacto Ecológico Europeu é em grande parte uma criação de Mazzucato, que já se torna um exemplo de tudo o que há de errado com o planejamento estatal ideológico. Ela obviamente tem pouca fé no mercado, afirmando que “os mercados não encontrarão uma direção verde por conta própria”, ao mesmo tempo que critica os capitalistas de risco privados, apesar de serem essenciais para a inovação no livre mercado. Além disso, como a verdadeira inovação no livre mercado inevitavelmente requer, e leva à, destruição criativa, como Schumpeter demonstrou em 1942, a abordagem orientada por “missões” está fadada ao fracasso.
O Epicenter concluiu:
“Políticas orientadas a missões… atraem os formuladores de políticas, uma vez que são apresentadas como visionárias e capazes de enfrentar e solucionar os grandes desafios que o nosso mundo atravessa. Ao analisar o histórico dessas políticas e recorrer a noções básicas de teoria econômica, torna-se evidente que elas devem ser encaradas com cautela — e, talvez, até com desconfiança. Políticas que emergem de engrenagens políticas em interação com grupos de interesse tendem, na verdade, a fortalecer empresas e tecnologias já consolidadas, em vez de promover uma mudança transformadora real.”
Mazzucato, portanto, desconsidera — ou simplesmente aceita — o fato de que os agentes estatais jamais agem puramente em prol do bem público. Economistas da vertente da “escolha pública“, como James Buchanan, demonstraram que os burocratas agem movidos pelo próprio interesse — buscando orçamentos maiores, estabilidade no emprego e favores políticos, exatamente como seria de esperar. Ela não descreve o estado como uma burocracia inchada, mas sim como um ousado e sofisticado “capitalista de risco” estatal que conduz “missões”. Tais “missões” dirigidas pelo estado, ainda que por vezes alcancem os resultados esperados, envolvem inevitavelmente o uso de verbas públicas para fins eleitoreiros, lobby corporativo e a chamada “captura regulatória” — situações em que políticos financiam projetos que rendem votos, em vez de projetos que promovam o bem-estar humano.
Falta conhecimento, mas sobra arrogância
Além disso, os burocratas governamentais não dispõem das informações necessárias para selecionar projetos com a mesma eficiência que o processo descentralizado do livre mercado. O estado enfrenta um problema de conhecimento — em comparação com a forma como as informações fluem no livre mercado —, conforme explicado por Hayek em seu ensaio “O uso do conhecimento na sociedade” (1945). Projetos de investimento estatal podem, por vezes, ser “bem-sucedidos”, embora a definição de “sucesso” não possa ser, de fato, a mesma que a do livre mercado. O capital de risco privado funciona justamente porque permite uma experimentação descentralizada, baseada em tentativa e erro, utilizando recursos privados. Quando o estado define uma “missão”, ele aloca somas vultosas — provenientes dos pagadores de impostos — a um único objetivo político, eliminando, assim, o mecanismo de feedback do mercado, representado pelo lucro e pelo prejuízo.
Em sua obra final, A Fatal Arrogância (1988), Hayek argumentou que o erro fundamental do socialismo reside na crença de que um pequeno grupo de indivíduos pode, de forma deliberada e bem-sucedida, moldar e projetar a ordem incrivelmente complexa da sociedade humana. Kelton e Mazzucato são “vítimas” dessa pretensão fatal. Ambas estão imbuídas de uma soberba tecnocrática — a ideia presunçosa de que, dispondo de dados suficientes, poder computacional e burocratas inteligentes, o estado seria capaz de conduzir o processo de desenvolvimento da sociedade humana de maneira superior ao mercado descentralizado e livre de entraves. Dificilmente existe um pensamento mais perigoso para alguém que exerce influência.
Por fim, é interessante refletir sobre os imensos elogios e a fama que vêm sendo conferidos a esses economistas. Sem o apoio inabalável de grande parte do meio acadêmico, de muitos conselhos editoriais, da maior parte da mídia corporativa e, naturalmente, de líderes políticos, esses macroeconomistas — francamente perigosos — provavelmente jamais teriam alcançado tal patamar. Eles são, evidentemente, vistos com bons olhos pela oligarquia ocidental; funcionam como porta-vozes úteis para uma minoria dominante no Ocidente que, nestes tempos de incerteza, busca intensificar seu controle sobre a sociedade. J. M. Keynes foi, de modo semelhante, celebrado pelas elites dominantes durante a década de 1930, por conferir uma aura de legitimidade a políticas de gastos públicos que, até então, eram amplamente rejeitadas pela opinião pública — e com razão. Isso contrasta drasticamente com a forma como Hayek e, em particular, Mises — economistas notavelmente superiores a Keynes, Kelton ou Mazzucato — foram ignorados pelo meio acadêmico e pela mídia durante décadas após a Segunda Guerra Mundial. Cada geração tem sua cota de economistas estatistas que precisam ser expostos pelo que realmente são: inimigos da liberdade.
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