Políticos são todos iguais

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Qual é a diferença entre Kim Kataguiri e Marcelo Freixo? Entre Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso? Entre João Dória e Flávio Dino? Entre Ciro Gomes e Rodrigo Maia? Entre Jair Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva? Entre Joice Hasselmann e Alice Portugal? Entre Érika Kokay e Janaína Paschoal? Ou entre Ana Caroline Campagnolo e Manuela d’Ávila? A resposta é bem simples. Nenhuma.

É verdade que os eleitores, os partidos e o próprio establishment impõem diferentes rótulos a cada uma dessas figuras públicas. Esses rótulos servem supostamente para diferenciar um político dos demais. Kim Kataguiri, por exemplo, é um “liberal”. Fernando Henrique Cardoso é um “social-democrata”. Luís Inácio Lula da Silva é “socialista”. Janaína Paschoal é “conservadora”. Manuela d’Ávila é “comunista”. Enfim, todo político tem um rótulo, que serve primariamente para defini-lo melhor perante os eleitores. Em função desse rótulo, é possível supor — ao menos até certo ponto — o que determinado político defende e qual é a sua visão de mundo.

No entanto, como políticos sempre serão muito mais leais ao sistema do que aos seus eleitores e a sua própria visão de mundo, é comum que eles aprovem projetos e façam acordos e alianças que estejam em aparente contradição com suas convicções e posições ideológicas. Portanto, o rótulo que o público confere a um político — na melhor das hipóteses —, oferece apenas uma impressão muito vaga à respeito dele. Se as circunstâncias assim o exigirem, não há dúvida de que um político irá rapidamente abandonar suas crenças, convicções e os seus eleitores, para fazer o que for politicamente mais vantajoso.

O que é fundamental entender, no entanto — mas o eleitor comum tem dificuldade de entender — é que o estado e a sua manutenção dependem totalmente de figuras públicas como as citadas acima, com vocação para o palanque, para perpetuar sua existência, e para isso é necessário que os aspirantes a cargos políticos façam inúmeras promessas aos seus eleitores, para renovar a confiança e a fé das pessoas no estado. Quanto mais barulhentos, polêmicos e controversos forem os candidatos a cargos políticos, melhor. O estado precisa de pessoas prometendo o impensável e o impossível para seduzir as massas ignóbeis, que estão sempre dispostas a votar no candidato a oferecer o maior número de benefícios. Se analisadas de acordo com os parâmetros da realidade objetiva, no entanto, vamos constatar que os integrantes da classe política são tudo, menos úteis ou benéficos para a sociedade.

Todos os políticos vivem para prometer um monte de coisas aos seus eleitores, e posteriormente tentam justificar porque as promessas que fizeram não foram devidamente cumpridas. Periodicamente, a farsa do teatro democrático se repete exatamente com o mesmo enredo, o mesmo cenário e as mesmas desculpas. Os personagens de fato podem até mudar, mas todo o resto continua exaustivamente igual. Os eleitores doutrinados, no entanto, não percebem que fazem parte de uma deplorável novela política, onde eles não passam de figurantes insignificantes. Na melhor das hipóteses, são personagens secundários que ficam no plano de fundo, segurando a bandeirola do seu partido político favorito, e então falam uma frase de efeito para manifestar apoio ao candidato de sua preferência. Políticos com pouca ou nenhuma popularidade normalmente precisam contratar figurantes, para passarem aos eleitores a impressão de que eles são queridos e amados pelo povo. No final das contas, o que vale é quem tem a mais eficiente máquina de propaganda e publicidade.

Na prática, podemos encarar todos os políticos como personagens de um teatrinho vulgar e moribundo, e nenhum deles faz a menor diferença na sua vida. Na verdade, até fazem diferença, mas no pior sentido possível. Estamos falando de pessoas que vivem muito bem com o seu dinheiro; sua qualidade de vida, sua prosperidade e todas as possibilidades econômicas e materiais das quais você poderia usufruir são impiedosamente dilaceradas porque você é obrigado a sustentar através de impostos excruciantes legiões de parasitas oportunistas pérfidos e dissimulados, cujo único interesse genuíno é conquistar e depois se perpetuar no poder, para desfrutar de todos os inúmeros privilégios que eles possuem, por serem integrantes da quadrilha governamental institucionalizada.

É verdade que se analisarmos os políticos individualmente, vamos encontrar diferenças substanciais entre eles. Alguns deles são até mesmo inimigos ferrenhos de outros políticos. Não duvido nem um pouco que as ofensas de Guilherme Boulos constantemente proferidas contra o clã Bolsonaro sejam sinceras, e que ele e Eduardo Bolsonaro não apenas trocariam ofensas, como partiriam para a agressão física, se aparecesse a oportunidade e os ânimos esquentassem. De fato, inúmeros integrantes da classe política se odeiam mutuamente, possuem desafetos, trocam ofensas e injúrias entre si, e até mesmo mandam matar uns aos outros. Na política, isso é absolutamente normal. Isso mostra como a política pode ser tudo, menos civilizada. A política é uma guerra que substitui as armas e o combate físico pela retórica, por narrativas ideológicas e pela subversão semântica da linguagem, que tenta reduzir os cidadãos a uma condição de meros espectadores e escravos passivos.

É verdade, no entanto, que políticos não levantam todos as mesmas bandeiras, nem professam as mesmas ideologias. Existem diferenças superficiais entre eles. Mas isso acontece pelo simples fato de que os seres humanos não são todos iguais. Seres humanos nascem e desenvolvem inúmeras características, particularidades e idiossincrasias distintas, pelo simples fato de que isso é inerente a natureza humana; afinal, seres humanos não são fabricados de forma homogênea em uma linha de produção industrial. Portanto, é inevitável que — mesmo em um cenário monolítico como a política —, vamos encontrar pessoas relativamente diferentes entre si, que defendem regras, regulamentos, princípios, utopias, padrões morais e ideologias conflitantes e divergentes. Teremos invariavelmente uma multiplicidade de personalidades, doutrinas e projetos políticos competindo entre si. Esse caldeirão de doutrinas e conceitos em ebulição é o que faz da política um cenário propício para inúmeras discussões, intrigas e discórdias. Consequentemente, a hostilidade entre os indivíduos, tanto entre políticos quanto entre os eleitores, será sempre um elemento indissociável da política.

É fundamental entendermos, portanto, que o fato de políticos brigarem tanto entre si não significa que eles estão lutando por você. Significa simplesmente que eles estão disputando privilégios e posições de poder. É evidente que um político não vai querer jamais que um rival — que possui uma ideologia e objetivos diferentes — ocupe um cargo de grande importância, como o de governador ou presidente. Por isso, ele fará tudo o que for possível para impedir seus oponentes de obterem sucesso na busca por seus objetivos, que vão sempre na direção de conquistar e acumular cada vez mais poder.

Ainda que políticos tenham suas diferenças, no entanto, no final das contas, todos eles trabalham para o mesmo sistema. E é ao sistema que eles servem, não a você, ao público ou aos eleitores. Se eles não obedecerem ao sistema como cachorrinhos totalmente submissos, serão rechaçados do poder, e perderão todos os inúmeros privilégios aos quais ficaram acostumados. Políticos que são genuinamente anti-establishment — no decorrer da história, nunca passaram de uma diminuta minoria — sempre foram depostos ou assassinados.

Em virtude da lealdade dos políticos para com o sistema, as pessoas frequentemente se decepcionam com os seus candidatos, mas mesmo assim elas raramente despertam, e passam a compreender como o sistema verdadeiramente funciona. Elas assumem simplesmente que o seu político de estimação “se vendeu”. Para citar um exemplo, atualmente inúmeros eleitores de Bolsonaro estão desapontados e reclamam com frequência do presidente nas redes sociais. Afirmam que — a cada dia que passa —, Bolsonaro se afasta gradualmente das suas promessas de campanha. Quem sabe como o sistema funciona, no entanto, não está nem um pouco surpreso ou desapontado.

A verdade é que — em um período de desmesurado e irrefreável lulopetismo totalitário —, Jair Bolsonaro insuflou a tão alardeada revolução conservadora (ou aproveitou-se dela). Pessoas comuns no Brasil inteiro viram em Jair Bolsonaro a possibilidade de retirar o Brasil do Foro de São Paulo e impedir o país de sucumbir no abismo do socialismo totalitário que ameaçava engolir a nação. Seus eleitores o definiram como o arauto de uma “nova era”. A promessa genuína de uma revolução conservadora foi o que o elegeu. Depois que ele se tornou presidente, no entanto, ele mudou de forma inexorável, e hoje, como chefe do executivo federal, ele é um homem relativamente diferente do populista que era quando estava em campanha, prometendo lutar por um Brasil com mais liberdade de mercado e menos intervenção do estado, menos doutrinação progressista nas escolas e mais liberdade para a posse e o porte de armas.

A verdade é que a promessa de um Brasil mais conservador não chegou nem perto de ser minimamente concretizada. E ela não apenas não está em andamento, como provavelmente foi abandonada, (se é que algum dia essa proposta realmente existiu). Possivelmente, pode ter sido simplesmente uma estratégia de campanha.

Se alguém duvida, é só analisar a nossa situação. Bolsonaro é presidente, não obstante o país é governado pela juristocracia de um STF tirânico e arbitrário, cujo ativismo judicial favorece reiteradamente pautas progressistas; o soviético estado brasileiro não chegou nem perto de ser minimamente reduzido, o socialismo de estado, a esquerda política e o marxismo cultural permanecem fortes, resolutos e imbatíveis, e continuamos com trinta e cinco partidos políticos (com outros vinte e oito em processo de reconhecimento oficial), que são em sua esmagadora maioria de esquerda, centro-esquerda ou extrema-esquerda. O proibicionismo relacionado ao porte e a posse de armas foi relativamente afrouxado, mas nem perto do que deveria. E o livre mercado permanece como um sonho extremamente distante para o Brasil. Sem dúvida, continua sendo mais fácil organizar uma excursão para visitar o Sol, do que vislumbrar um Brasil com genuína liberdade econômica.

Ao invés de romper com a “velha política”, Bolsonaro está sempre fazendo novos acordos com o centrão, uma coalizão de partidos sem ideologia, cuja única pretensão é se perpetuar na condição de mandatários fisiológicos do poder político federal. Novos acordos com a China — uma ditadura socialista totalitária — são periodicamente confirmados (o que é bastante bizarro para um governo que pretende ser “conservador”). A indicação de Kassio Nunes para o Supremo foi a última grande decepção dos bolsonaristas mais fervorosos.  A cada dia que passa, os eleitores de Bolsonaro parecem ter novos motivos para reclamar.

O desapontamento dos eleitores, no entanto, é culpa deles próprios. Afinal, foram eles que cultivaram expectativas elevadas e irrealistas em um governo político. Terrivelmente ingênuos e ignorantes, não tem conhecimento algum de como o sistema efetivamente funciona. E realmente acreditam que o estado e os governantes eleitos existem para atender as demandas e necessidades da população, quando na verdade o sistema existe para servir a ele próprio e atender a sua própria agenda. Por outro lado, quem sabe como o sistema funciona não está desapontado, porque não alimentou ilusão alguma.

Todo político é, necessariamente, um encantador de burros. Periodicamente —para perpetuar a fé das massas no estado —, durante o período eleitoral, candidatos fazem aos seus eleitores um grande número de promessas, em comícios preferencialmente alegres e festivos. Ali, eles declamam de forma geralmente bastante sentimental seu amor pelo povo, falam sobre sua trajetória de lutas e determinação, e de como, apesar de enfrentar um grande número de turbulências, provações e dificuldades, ele não desistiu de batalhar pelo povo que ele tanto ama, e que, para a nossa infindável graça e redenção, ele continuará na luta. Então ele revela quais são as suas metas de campanha, promete derrubar a oposição, e fala que, pela graça de Deus, ele continuará sua luta pelo bem do povo.

Obtusas para o fato de que não passam de fantoches vulgares e simplórios, o populacho — com lágrimas nos olhos — aplaude com entusiasmo o discurso do candidato, e depois todos retornam contentes para as suas casas, convictos de que, se o seu candidato vencer, a nação vai tomar um rumo plenamente satisfatório. Mais uma vez, o teatro democrático restaurou a fé das pessoas no sistema. É sempre assim. Na democracia, essa farsa se repete continuamente, e o populacho adestrado segue servil e obediente os seus políticos de estimação.

A verdade é que no grande circo do teatro democrático, você é só um espectador irrelevante. Você não tem poder nem capacidade para mudar o roteiro. O seu voto não faz a menor diferença, em qualquer sentido. O estado vai prosseguir incólume em sua trajetória para depauperar continuamente a sociedade produtiva, usurpando e se apropriando de tudo o que for necessário para se fortalecer e se perpetuar. Nesse sórdido espetáculo de antropofagia positivista — a ciência da coercitividade — você é apenas mais um cidadão a ser explorado. Os próprios políticos, na verdade, também não passam de idiotas úteis do sistema, empregados de interesses muito maiores e mais sádicos do que a ficção da vontade popular, e que são prontamente descartados assim que se tornam desnecessários ou obsoletos.

A verdade é que o sistema é implacável, e sabe usar muito bem todos os idiotas úteis que se colocam à sua disposição.

Conclusão

Não confie no estado, na democracia, nas eleições. Todo esse espetáculo sórdido e inútil realizado com o seu dinheiro roubado existe apenas para perpetuar um deplorável sistema de extorsão e pilhagem institucionalizada. E políticos, acima de tudo, não são nem um pouco confiáveis. Em sua grande maioria, não passam de psicopatas sórdidos, que vão fazer de tudo para conquistar o poder e lá permanecer. Manipuladores astutos, eles sabem como hipnotizar as massas. Falam exatamente o que seus eleitores desejam ouvir, e são especialistas em conquistar a simpatia de um público cativo.

A verdade é que políticos são todos iguais, e todos eles são empregados do mesmo sistema, para o qual você, suas vontades, necessidades e segurança são totalmente irrelevantes.

6 COMENTÁRIOS

  1. Como posso definir esse texto: REALISTA!!! Simples assim.

    Finalmente um instituto sem medo de falar as coisas como elas realmente são. PARABENS AOS RESPONSÁVEIS!!!

    A verdade nua e crua: o sistema é uma m… e está a beira do colapso. Nao estou só falando de política não, incluo a economia e todo o restante. E não, nao tem nada que possamos fazer pra reverter isso. Somente sugiro que cada um tente se proteger (e as pessoas que vc se importa) do modo que puder: financeiramente, estoque de comida …

    E boa sorte pra todos. Vamos precisar.

  2. Excelente síntese da palhaçada chamada estado democrático de direito. Eu chamaria este texto de uma decomposição sobre os métodos de atuação da gangue de ladrões em larga escala. Os libertários enfrentam um problema político especialmente grave: enquanto o reducionismo da política leva a especialização em um único inimigo, os libertários enfrentam interesses bem mais amplos. Um esquerdista tem a capacidade quase obsessiva de se concentrar em um direitista, e de uns tempos para cá, os direitistas assumiram o seu lugar nesse teatro, que deixou de ser um monólogo. Os libertários por outro lado tem que se concentrar em um inimigo difuso e arisco, que não se resume somente a estes dois grupinhos (alguém já disse que são apenas duas teorias diferentes de administrar a fazenda humana), mas interesses de longo prazo que incluem até mesmo inimigos que se encontram no setor privado.