Por que é tão difícil parar de cuidar da vida dos outros?

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Talvez o aspecto mais admirável do libertarianismo seja sua simplicidade, o que o torna fácil de entender. O conceito central é que todos devem deixar os outros em paz – desde que os outros façam o mesmo. É uma reformulação da Regra de Ouro, com a qual – ironicamente – a maioria das pessoas diz concordar e ensina aos seus filhos.

Pelo menos, costumavam fazer isso.

Compare o conceito libertário – o princípio de deixar as outras pessoas em paz, desde que elas façam o mesmo – com a confusão caótica de posições frequentemente contraditórias que não definem o que é ser de direita ou esquerda, porque nada é definido quando se trata de uma confusão caótica e em constante mudança de posições frequentemente contraditórias. Um exemplo é a prática direitista de “aprimorar” – mas não acabar com – programas autoritários como o SUS. “Aprimorar”, neste contexto, é um sinônimo funcional para concordar com o mérito básico do “programa”, mas dizer que podemos fazê-lo “funcionar” melhor. Outro exemplo é a “descriminalização” — *gaslighting* puro! — do simples uso, posse ou venda de certas “drogas”, como a maconha (e o álcool também), condutas que, por definição, não são criminosas. É de uma incoerência gritante rotular um partido político como o partido da “liberdade” quando ele próprio dosa as liberdades que as pessoas têm permissão de exercer. O que se tem, na verdade, é um partido que apenas adota uma abordagem ligeiramente diferente quanto a quais liberdades irá dosar e com que finalidade.

Em outras palavras: trata-se do mesmo partido.

É por isso que votar com consciência — seja na direita ou na esquerda — não faz nenhuma diferença significativa. Mais pessoas do que nunca estão começando a compreender isso e decidiram parar de votar de vez. Elas perceberam que votar não é apenas inútil, mas destrutivo, pois confere poder e legitima o que é ilegítimo.

Por natureza, a maioria das pessoas ainda age — no seu dia a dia — em consonância com o princípio de não incomodar o próximo. Elas não importunam seus vizinhos; na verdade, esforçam-se para manter uma boa convivência, pois desejam ser tratadas da mesma forma. Elas acenam, sorriem e, às vezes, até se oferecem para ajudar. Elas não vão até a porta do vizinho, tocam a campainha e lhe entregam uma cobrança por “serviços” que ele não solicitou nem utilizou. No entanto, essas mesmas pessoas, que prezam pela boa vizinhança, votam para que outra pessoa faça exatamente isso com o seu vizinho. Se pararmos para pensar, isso revela uma profunda esquizofrenia moral. Uma ação que quase todos consideram errada quando praticada pelo indivíduo — que sentiria vergonha de realizá-la — passa a ser vista apenas como algo natural quando executada à distância por pessoas autorizadas a agir assim por essa construção chamada estado.

O conceito libertário sustenta que é errado, em qualquer circunstância, usar a força contra pessoas que respeitaram o princípio de não interferir na vida alheia. Esse princípio também pode ser expresso como a ausência de qualquer dano causado a terceiros. É notável que seja controverso defender a ideia de que as pessoas têm o direito de não serem incomodadas, desde que também não incomodem os outros — isto é, que não tenham causado dano a ninguém —, visto que a maioria das pessoas concorda com essa ideia no cotidiano e até a ensina aos filhos. No entanto, tudo isso é deixado de lado quando as interações ultrapassam a divisa da propriedade do vizinho. A mesma pessoa que jamais iria até a porta do vizinho exigir pagamento por “serviços” que ele não solicitou nem utilizou não sente qualquer constrangimento em fazer exatamente a mesma coisa com a comunidade — por meio das urnas. Os direitos são individuais; por isso, são corrompidos quando as questões são coletivizadas. É por essa razão que aqueles que desejam minar os direitos individuais recorrem ao coletivo para promover o coletivismo.

Como é fácil — e como é difícil! — considerar todos como vizinhos, pessoas que têm o mesmo direito de não serem incomodadas que você deseja para si mesmo e que provavelmente respeita quando se trata do seu vizinho de porta.

Essa é a essência do libertarianismo. Não é libertinagem. Não é liberdade de responsabilidade. É nada mais — e nada menos — do que ser um bom vizinho para todos.

 

 

 

Artigo original aqui

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