Por que o Ocidente odeia a Rússia: pouca lacração?

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Faz apenas dez anos desde que Barack Obama zombou de Mitt Romney por sugerir que a Rússia é a maior ameaça geopolítica do mundo. Naquela época, todos podiam ver o que é óbvio: a Rússia é um país com uma economia pequena e um exército de segunda categoria. Sua única reivindicação ao status de grande potência é que possui um arsenal nuclear. Além disso, a Rússia é totalmente incapaz de projetar seu poder em qualquer região onde não haja uma minoria ou maioria russa considerável (ou seja, Ossétia do Sul, Crimeia, leste da Ucrânia). A Rússia carece de recursos para lidar com qualquer tipo de insurgência real fora de suas próprias fronteiras. Então, quando Romney tentou fazer do ódio à Rússia uma questão da campanha em 2012, Obama corretamente ridicularizou a ideia.

Isso foi importante porque, enquanto uma postura anti-Rússia permanecesse apenas uma obsessão do Partido Republicano, não poderia realmente decolar. Mas então aconteceu algo que fez os democratas e os órgãos do establishment bipartidário aderirem ao ódio à Rússia. Não está claro exatamente o que era, mas ocorreu antes da anexação de fato da Crimeia pela Rússia em 2014 – uma anexação possibilitada apenas pelo fato de a população da Crimeia ser majoritariamente russa.

Em uma coluna de 26 de janeiro, no entanto, Richard Hanania apresenta uma teoria. O retrato da Rússia como uma grande ameaça global tornou-se popular porque a Rússia deixou claro que não estava de acordo com a agenda social da esquerda. Especificamente, a Rússia parecia desinteressada em agradar aos grupos de interesse LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros). Hanânia escreve:

    Em 2013, a Rússia aprovou uma lei que proíbe a propaganda gay dirigida a menores. Isso aconteceu logo após a prisão em 2012 de membros do Pussy Riot, um coletivo de arte performática feminina, por atos sacrílegos na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou. Três membros do grupo foram condenados a dois anos de prisão cada um….

A resposta dos EUA na mídia ao Pussy Riot e à lei anti-gay foi nada menos que histérica, e a cobertura da Rússia, um país que antes era visto com grande indiferença pelas elites americanas, nunca mais foi a mesma. Minha impressão é que a lei de propaganda gay pode ter recebido mais cobertura na imprensa americana do que qualquer outro evento que aconteceu na Rússia desde a queda da União Soviética.

É claro que a Rússia está longe de ser exclusivamente “anti-gay”. É muito mais fácil – e muito mais legal – ser gay na Rússia do que em muitos outros países que são considerados importantes aliados dos EUA. Pense na Arábia Saudita, no Paquistão e na Turquia, que é um país da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Gays em muitos desses lugares enfrentam severas penalidades criminais por atos sexuais privados. Isso claramente não é o caso na Rússia. Mas, como Hanania observa,

    A oposição russa ao LGBT enfurece as elites americanas mais do que leis e práticas anti-gays em outros lugares, porque a Rússia é uma nação branca que justifica suas políticas com base em um apelo aos valores cristãos. Ao contrário de um país como a Hungria, isso realmente importa para a política internacional. Lembre-se, estamos falando da mesma elite que só consegue se importar com ataques aleatórios a asiáticos se puder caracterizar os agressores como brancos, e não dão a mínima para negros atirando uns nos outros todos os dias, mas inventa desculpas para aqueles que queimam cidades em resposta a um policial que atirou em um criminoso durante uma prisão. Muçulmanos ou africanos homofóbicos nunca inspirarão tanta fúria de justiça nessas pessoas. O modelo de “cristãos brancos conservadores ruins” é fundamental para sua visão de mundo, e isso leva não apenas à hostilidade em relação a Putin, mas também a nações como Hungria e Polônia, mesmo que estas últimas sejam aceitas com dificuldade como amigas porque foram englobadas à OTAN, a aliança que visa, obviamente, a Rússia.

Enquanto populistas como Tucker Carlson e Sohrab Ahmari não estão interessados ​​em antagonizar a Rússia, a maioria dos republicanos no Congresso e nos think tanks mais influentes ainda estão presos na década de 1980. Os democratas às vezes defendem uma postura menos agressiva em relação ao Irã e à China, mas tornou-se impossível para eles fazê-lo em relação à Rússia, a nação branca homofóbica que nos deu Trump e destruiu nossa democracia.

Agora, nenhuma acusação sobre os males de Putin é muito estranha. Com o início da greve dos caminhoneiros no Canadá, uma especialista canadense de esquerda sugeriu – completamente sem provas – que “atores russos” estavam por trás da greve.

Muitos outros fatores estão, sem dúvida, em jogo, mas a teoria de Hanania é plausível, e é provável que a falta de entusiasmo do establishment russo por políticas lacradoras esteja certamente prejudicando a nomenklatura americana e europeia. Como José Niño aponta em seu artigo, a “lacração” tornou-se cada vez mais um aspecto fundamental da política externa dos EUA e da política do Pentágono. Se os ostensivos conservadores antiestablishment aderirem a campanha anti-Rússia da mídia, pode ser que isso sinalizasse uma das grandes vitórias da esquerda sobre os fantoches conservadores nas últimas décadas.

 

 

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1 COMENTÁRIO

  1. ”Além disso, a Rússia é totalmente incapaz de projetar seu poder em qualquer região onde não haja uma minoria ou maioria russa considerável (ou seja, Ossétia do Sul, Crimeia, leste da Ucrânia). A Rússia carece de recursos para lidar com qualquer tipo de insurgência real fora de suas próprias fronteiras.”

    A intervenção russa na Síria destrói essa tese. O autor é no mínimo formado em Ciências Militares ou sequer acompanha os recentes acontecimentos geopolíticos?