Por uma nova liberdade – O Manifesto Libertário

0
Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Introdução de Llewellyn H. Rockwell, Jr

Existem muitas variantes do libertarianismo vivas no mundo atual, porém o rothbardianismo continua a ser seu centro de gravidade intelectual, sua musa e consciência primordial, seu cerne moral e estratégico, e o ponto focal de debate até mesmo quando seu nome não é mencionado. O motivo é que Murray Rothbard foi o criador do libertarianismo moderno, um sistema político-ideológico que propõe uma fuga decisiva das armadilhas da esquerda e da direita e seus planos centrais acerca de como o poder estatal deve ser usado. O libertarianismo é a alternativa radical que afirma que o poder estatal é impraticável e imoral. “Senhor Libertário,” era como Murray N. Rothbard era chamado, e “O Maior Inimigo Vivo do Estado”. Ele continua a sê-lo. Sim, ele teve muitos antecessores, pelos quais ele foi influenciado; toda a tradição liberal clássica, os economistas austríacos, a tradição antiguerra americana, e a tradição dos direitos naturais. Porém foi ele quem juntou todas estas peças num sistema unificado que parece implausível, a princípio, porém inevitável, uma vez definido e defendido por Rothbard. As peças individuais deste sistema são claras (autonomia individual, direitos de propriedade taxativos, mercados livres, antiestado em todos os aspectos concebíveis), porém suas implicações são impactantes.

Após você ser exposto ao panorama completo—e Por uma Nova Liberdade vem sendo o principal meio de exposição por mais de um quarto de século—é impossível esquecê-lo. Ele se torna a lente indispensável pela qual podemos ver os eventos no mundo real com a maior clareza possível.

Este livro, mais que qualquer outro, explica porque a importância de Rothbard parece aumentar ano após ano (sua influência cresceu enormemente desde sua morte) e porque o rothbardianismo tem tantos inimigos na esquerda, na direita e no centro. A ciência de liberdade que ele trouxe claramente à tona é, pura e simplesmente, tão eletrizante na esperança que ela cria de um mundo livre, quanto é implacável com o erro. Sua consistência lógica e moral, aliada à sua força evidente, representa uma ameaça a qualquer visão intelectual que procure utilizar o estado para refazer o mundo de acordo com algum plano pré-programado. E, com a mesma intensidade, ela impressiona o leitor com uma visão auspiciosa do que pode ser realizado.

Rothbard começou a escrever este livro logo após receber uma ligação de Tom Mandel, um editor da Macmillan que havia visto um editorial de Rothbard no New York Times publicado na primavera de 1971. Foi a única comissão recebida por Rothbard em toda sua vida de uma editora comercial. Ao se examinar o manuscrito original, tão consistente em sua tipografia e praticamente finalizado após o seu primeiro rascunho, parece visível que escrevê-lo foi para ele uma alegria quase natural. Ele é consistente, implacável e enérgico.

O contexto histórico ilustra um ponto que frequentemente é ignorado: o libertarianismo moderno não nasceu em reação ao socialismo ou ao esquerdismo—embora ele seguramente seja antiesquerdista (da maneira com que o termo é comumente definido) e antissocialista. Para ser mais exato, o libertarianismo, no contexto histórico americano, surgiu como uma resposta ao estatismo do conservadorismo e sua celebração seletiva de um planejamento central de estilo conservador. Os conservadores americanos podem não adorar o estado de bem-estar social ou as regulamentações econômicas excessivas, porém apreciam o exercício do poder em nome do nacionalismo, do belicismo, de políticas “pró-família” e da invasão da privacidade e da liberdade pessoal. No período pós-LBJ da história americana, os presidentes republicanos, mais que os democratas, foram responsáveis pelas maiores expansões dos poderes executivo e judiciário. E foi para defender uma liberdade pura contra as concessões e corrupções do conservadorismo—iniciando-se com o período de Nixon, porém continuando ao longo das presidências de Reagan e Bush—que inspiraram o nascimento da economia política rothbardiana.

Também é notável como Rothbard opta por não usar meias-palavras em seu argumento. Outros intelectuais que tivessem recebido um convite semelhante poderiam ter sucumbido à tentação de diluir seus argumentos, para torná-los mais palatáveis. Por que, por exemplo, defender a ausência do estado ou o anarquismo, quando defender um governo limitado poderia trazer mais pessoas para o movimento? Por que condenar o imperialismo americano quando fazê-lo apenas acabaria limitando a atração do livro a conservadores antissoviéticos que, não fosse por este motivo, poderiam apreciar suas inclinações ao livre-mercado? Por que se aprofundar tanto na privatização dos tribunais, estradas e dos sistemas hídricos e correr o risco de, ao fazê-lo, se indispor com tantas pessoas? Por que entrar no terreno pantanoso da regulamentação do consumo e da moralidade pessoal—e fazê-lo com uma consistência tão desconcertante— quando seguramente um público maior teria sido atraído caso isto não fosse feito? E por que entrar em detalhes como questões monetárias, bancos centrais e tópicos semelhantes, quando um argumento mais diluído pela livre iniciativa teria agradado muito mais conservadores da Câmara do Comércio?

Porém enfeitar e ceder para agradar sua época ou ganhar mais público simplesmente não era uma de suas características. Ele sabia que tinha uma oportunidade única na vida de apresentar o pacote completo do libertarianismo, em toda a sua glória, e não estava disposto a abrir mão disto. E é por isso que lemos aqui não apenas um argumento para a diminuição do governo, mas para a sua eliminação pura e simples, não apenas um argumento para a atribuição de direitos de propriedade mas para a submissão ao mercado até mesmo em questões relativas a aplicações de contratos, e não apenas um argumento a favor do corte do bem-estar social, mas para o completo banimento de todo o sistema de bem-estar social.

Enquanto outras tentativas de se defender o libertarianismo, tanto antes como depois deste livro, costumam pedir por medidas transicionais ou parciais, ou estão dispostas a ceder o máximo possível aos estatistas, não é isto que Murray nos oferece. Não ele, para quem sistemas como vales escolares ou a privatização de programas governamentais não deveriam sequer existir. Em seu lugar, ele apresenta e dá sequência à visão inteiramente completa e totalmente envigorante do que deve ser a liberdade. É por isto que tantas outras tentativas semelhantes de se escrever o Manifesto Libertário não resistiram ao teste do tempo, enquanto este livro continua a ser tão procurado.

Da mesma maneira, muitos livros foram escritos sobre o libertarianismo durante estes anos, que cobriram apenas a filosofia, a política, a economia ou a história. Aqueles que reuniram todos estes temas geralmente eram coletâneas de diversos autores. Apenas Rothbard tinha o domínio em todos os campos, o que lhe permitiu escrever um manifesto integral— um que jamais foi superado. E ainda assim, sua abordagem é tipicamente modesta: ele constantemente se refere a outros escritores e intelectuais do passado e de sua própria geração.

Ademais, algumas introduções deste tipo são escritas para dar ao leitor uma transição mais facilitada para um livro difícil; este, no entanto, não é o caso aqui. Ele jamais se refere ao leitor com condescendência, mas sempre com clareza. Rothbard fala por si mesmo. Pouparei o leitor de uma lista de minhas partes favoritas, ou de especulações sobre quais passagens Rothbard teria tornado mais claras se ele tivesse tido a chance de lançar uma nova edição. O leitor ou a leitora descobrirá por sua própria conta que cada página exala energia e paixão, que a lógica de seu argumento é incrivelmente persuasiva, e que o fogo intelectual que inspirou sua obra continua a arder com a mesma intensidade, hoje em dia, com que vinha ardendo por todos esses anos.

O livro ainda é considerado “perigoso” exatamente porque, uma vez ocorrida a exposição ao rothbardianismo, nenhum outro livro sobre política, economia ou sociologia poderá novamente ser lido da mesma maneira. O que era um fenômeno comercial acabou por se tornar genuinamente um manifesto clássico, que, eu prevejo, será lido por muitas gerações vindouras.

 

 

Llewellyn H. Rockwell, Jr.

Auburn, Alabama

6 de julho de 2005