Por uma sociedade mais segmentada: a lição do Linux

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Em 2010 tive um problema no meu computador e para resolver em um período de aperto financeiro, resolvi tentar formatar eu mesmo a maquina sem nunca ter feito algo parecido. Comecei a lei o manual, tentei e errei até conseguir.

Depois de formatado, com o Windows XP, era tudo muito rápido e funcionava como eu queria, mas durou pouco a alegria. Depois de um tempo tudo voltou a ficar lento como antes. Indignado pensei: “não é possível que não exista uma solução, uma alternativa”, e lembrei do meu companheiro de quarto de um curso de inglês que fiz em Londres, era um programador italiano que usava Linux.

Liguei para ele perguntando como se fazia para usar o Linux, que ele tanto me fazia a propaganda que era rápido, não se tornava lento com o tempo e para sempre gratuito, com atualizações grátis; parecia uma utopia.

Depois de algumas tentativas e erros consegui instalar a distribuição Ubuntu recomendada por ele – foi amor à primeira vista, era tudo muito mais rápido que o Windows e sentia que pela primeira vez o computador fazia aquilo que eu mandava fazer.

Depois desta experiência, tive uma curiosidade enorme para saber o que era o sistema operacional Linux, qual a sua história, por que existe?

Cheguei no criador do sistema, o finlandês Linus Torvalds, neto de um matemático que quando tinha 10 anos seu avô o estimulou a usar um computador; com 21 anos tinha um computador mas sem recursos para adquirir um sistema operacional, decidiu criar o seu próprio sozinho. O que parecia uma piada, levando em conta que os sistemas existentes foram criados por grandes empresas do setor e vários engenheiros da computação.

Como descrito no seu livro, Just For Fun, ele prosseguiu, e a um certo ponto queria vender aquilo que havia desenvolvido, mas com poucos ou nenhum interessado, resolveu publicar o trabalho realizado numa espécie de fórum da época para ver se encontrava colaboradores para ajudar a levar o projeto adiante. Para tal propósito registrou o projeto com uma licença de código aberto, que qualquer pessoa poderia usar como quiser, copiar e modificar.

Foi exatamente o que aconteceu. Nos anos seguintes, muitas pessoas e empresas usaram o trabalho feito por ele para criar e modificar o seu próprio sistema operacional. No mundo da computação, cada vez que acontece isso se dá o nome de fork – ou bifurcação, em português – se tratando de sistemas, programas e apps de código aberto, sempre que há alguma divergência sem consenso entre as partes, cada uma pode criar um novo sistema como deseja e seguir um caminho diferente.

Esta característica tribalista do mundo de software de código aberto sempre me fascinou, porque diferente do eu conhecia, existiam alternativas – não somente Windows ou Mac. E mesmo dentro do mundo Linux existiam centenas de escolhas, e se eu não estivesse de acordo com nenhuma, poderia criar a minha distro Linux.

Observando a última década, se pode ver uma explosão do uso do Kernel Linux (a base do sistema operacional) em vários setores, como os telefones Android, o Chrome OS (sistema operacional desenvolvido pelo Google), sistemas core de banco e aviação, entre outros usos onde a segurança é muito importante. Mas ao mesmo tempo que houve um crescimento do uso do Kernel Linux, o que se foi construindo em cima dele foi em parte software proprietário como o sistema Android, que não permite a atualização do Kernel Linux, entre outros problemas que fizeram o Android perder completamente a característica de um sistema aberto desenvolvido por uma comunidade.

Software livre de código aberto e segurança

Porque muitos dizem que Linux é mais seguro que Windows e Mac? Um sistema de código aberto está sujeito a muito mais ataques do que um fechado como Windows e Mac. Estando sujeito à qualquer ataque, será sempre atacado; sendo muito mais atacado, as falhas de segurança serão corrigidas a todo momento, e assim é. Frequentemente se lê que foi descoberta tal falha e foi corrigida, enquanto um sistema de código fechado tem falhas também, mas não se vê. Os poucos indivíduos que têm a capacidade de explorar vão explorá-las e isso geralmente não vem a público, e as falhas não são corrigidas. Resumindo, um sistema de código aberto é como um animal com um sistema imunológico que a cada invasão ou ameaça cria anticorpos contra tal agressão e evolui criando resistências.

Criptomoedas e software livre

Ao mesmo tempo que conheci o mundo Linux, conheci o site do Instituto Rothbard – na época que ainda se chamava Mises – e foi outra descoberta incrível conhecer ideias tão diferentes daquelas que geralmente conhecemos pelos jornais, televisão e internet.

Me interessei rapidamente pela teoria monetária e ideias promovidas pelos autores austríacos e em especial pela TACE (teoria austríaca dos ciclos econômicos).

Sempre tive a curiosidade para entender realmente o que é o dinheiro e como funciona.

Depois de um tempo constatei a obviedade de que uma moeda ideal teria que ser uma moeda forte, como o ouro nos seus 5 mil anos de história como moeda.

E então bate aquela depressão ao ver que a moeda é impressa al bel voler dos banqueiros centrais, e que este monopólio dificilmente será quebrado. Foi então que conheci o tal do Bitcoin – a princípio era muito cético –, como sendo um sistema de pagamento online, onde tudo é facilmente rastreado, e a história do Egold, Paypal e outras empresas que criaram meios de pagamento e moedas eletrônicas e foram rapidamente raptadas por legisladores e regulamentadas, e por fim, castradas.

Mas com o Bitcoin vi que era diferente, que não tinha nenhuma autoridade central no controle. Era um protocolo par a par de transferência em que as transações eram autenticadas pelos participantes da rede, e a melhor parte, de código aberto, ou seja qualquer um poderia copiar criando o meu próprio bitcoin e modificando como quiser.

Aconteceu a mesma coisa que as distribuições Linux. Hoje existem mais de 5.000 tipos de criptomoedas baseadas ou não no bitcoin com características diferentes.

Redes sociais e eleições

Recentemente tem ficado evidente o uso de mídias sociais nas eleições e no uso político para movimento das massas. O poder que hoje tem Google, Amazon, Facebook e Twitter é incrível se comparado aos jornais décadas atrás. É assustador pensar como nos rastreiam e usam essas informações para nos manipular e vender aquilo que “desejamos”.

Mais assustador tem sido a censura feita por Twitter, Google e Facebook contra certos indivíduos, grupos e políticos. Estas plataformas não sendo de código aberto, não temos a opção de copiar e criar um Facebook do modo de gostaríamos, ou que outro indivíduo ou grupo gostaria.

É verdade que estas empresas são privadas e tem o direito de bloquear e excluir aquilo que desejarem, mas dado o poder que adquiriram e o viés político e ideológico evidente, precisamos urgente de alternativas.

A lição do Linux e das criptomoedas foi dada.

Alternativas em criação e existentes

Hoje em dia existem algumas alternativas de celulares com sistema operacional Linux, empresas como a Librem, Pine Phone e Volla desenvolveram hardware para smartphones com sistema operacional Linux, ainda é cedo para ver o uso destes aparelhos ganhar um pedaço significativo do deste mercado, mas a alternativa esta ai e a cada dia crescendo. Para as mídias sociais provavelmente precisaremos de mais algum tempo, mas a gravidade do problema esta cada dia mais evidente para um número maior de pessoas.

Conclusão

Uma reflexão muito interessante é a antiga frase que diz “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe completamente”. Na política, de modo geral, a esquerda promove mais poder ao governo, e a direita mais poder as corporações. Porque não deixar mais poder aos indivíduos e as comunidades?

Melhor ainda se este poder puder ser distribuído de forma pacífica sem nenhuma revolução com a criação de mais softwares grátis, livres e de código aberto.

5 COMENTÁRIOS

  1. Linux é elitista e completamente desconectado com as prioridades das pessoas que querem praticidade. Na verdade é proposital e eles gostam assim. Só é alternativa para aqueles tarados por transformar algo fácil em complicado. Talvez sejam incompetentes em criar interfaces amigáveis ao usuário.

    • Está por fora, amigo. Linux vem se tornando cada vez mais e mais prático no mundo desktop. Ambientes gráficos tem ficado cada vez mais fáceis de usar e intuitivos. O Gnome, por exemplo, estabelece até diretrizes para tornar as interfaces o mais amigável possível: https://developer.gnome.org/hig/stable/

      Sem falar que vários programas de hoje em dia são multiplataforma, isto é, está disponíveis para vários sistemas operacionais. Firefox, VLC, GIMP e vários outros estão disponíveis para Windows, Mac e Linux. Quem está acostumado a usar esses programas no Windows ou no Mac, não deverá ter problema algum em usá-los no Linux, já que não mudam de um sistema para outro.

      Por fim, o mundo dos softwares de código aberto tem uma inegável vantagem: não gosta da interface de um programa? Saiba programar e altere o código do programa para que tenha uma interface melhor. Aliás, foi exatamente o que fez a equipe por trás da distribuição Linux Mint. Eles não gostaram das novidades vindas com Gnome 3 e então criaram seu próprio ambiente gráfico, o Cinnamon, do jeito que eles achavam que deveria ser. Isso é liberdade!

    • Isso é totalmente desconectado do mundo linux. Atualmente, instalar um Ubuntu ou Linux mint, resume-se a “next, next e finish”. Lógico, quem reclama geralmente são aqueles que entopem o Windows de piratex com vírus, games e todo tipo de crapware que encontra pela frente até o computador literalmente parar de funcionar. Existem casos em que não é possível migrar: você quer um Photoshop mais atualizado (O linux funciona com ele até o Cs5), algum programa específico. Mas na maioria das vezes, o utilizador só quer o essencial.