Quarentena: o novo totalitarismo

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Toda ideologia política possui três elementos: uma visão do inferno com um inimigo que precisa ser esmagado, uma visão de um mundo mais perfeito e um plano de transição de um para o outro. Os meios de transição geralmente envolvem a tomada e o uso da ferramenta mais poderosa da sociedade: o estado. Por isso, as ideologias tendem ao totalitarismo. Elas dependem fundamentalmente da superação das preferências e escolhas das pessoas substituindo-as por sistemas de crenças e comportamentos roteirizados e planejados.

Um caso óbvio é o comunismo. O capitalismo é o inimigo, enquanto o controle operário e o fim da propriedade privada é o céu, e o meio para atingir o objetivo é a expropriação violenta. O socialismo é uma versão mais branda do mesmo: na tradição fabiana, você chega lá por meio de um planejamento econômico gradual.

A ideologia do racismo postula algo diferente. O inferno é a integração étnica e a mistura de raças, o céu é a homogeneidade racial e o meio de mudança é a marginalização ou extermínio de algumas raças. O fascismo imagina que o comércio global, o individualismo e a imigração sejam o inimigo, enquanto um nacionalismo poderoso é o paraíso: o meio de mudança é um grande líder. Você pode observar o mesmo sobre certos tipos de tradicionalismo religioso teocrático.

Cada uma dessas ideologias vem com um foco intelectual primário, um tipo de história projetada para ocupar a mente. Pense em exploração. Pense na desigualdade. Pense na teoria racial. Pense na identidade nacional. Pense na salvação. Cada um vem com sua própria linguagem para sinalizar o apego à ideologia.

A maioria das ideologias acima foram bem usadas. Temos bastante experiência na história para observar os padrões, reconhecer os adeptos e refutar as teorias.

Este ano nos deu uma nova ideologia com tendências totalitárias. Ela tem uma visão do inferno, do céu e um meio de transição. Possui um aparato de linguagem único. Tem um foco mental. Possui sistemas de sinalização para revelar e recrutar adeptos.

Essa ideologia é chamada de quarentena. Podemos também adicionar o ismo à palavra: quarentenismo.

Sua visão do inferno é uma sociedade na qual os patógenos circulam livremente. Seu paraíso é uma sociedade administrada inteiramente por tecnocratas médicos, cuja principal tarefa é a supressão de todas as doenças. O foco mental são os vírus e outros microrganismos. A antropologia deve considerar todos os seres humanos como nada mais que portadores de patógenos mortais. As pessoas suscetíveis à ideologia são as pessoas com vários graus de germofobia, antes considerada um problema mental agora elevado à condição de consciência social.

Este ano foi o primeiro teste de quarentenismo. Incluiu os controles mais intrusivos, abrangentes e quase globais de seres humanos e seus movimentos registrados na história. Mesmo em países onde o Estado de Direito e as liberdades são fontes de orgulho nacional, as pessoas foram colocadas em prisão domiciliar. Suas igrejas e negócios foram fechados. A polícia foi enviada para fazer cumprir tudo e prender dissidentes declarados. A devastação se compara ao tempo de guerra, exceto que foi uma guerra imposta pelo governo ao direito das pessoas de se moverem e realizarem trocas livremente. Ainda não podemos viajar.

E, surpreendentemente, depois de tudo isso, o que falta é a evidência empírica, de qualquer parte do mundo, de que esse regime chocante e sem precedentes teve algum efeito no controle, muito menos na parada do vírus. Ainda mais notável, os poucos lugares que permaneceram totalmente abertos (Dakota do Sul, Suécia, Tanzânia, Bielo-Rússia), aponta Will Jones, “perderam não mais que 0,06% de sua população para o vírus”, em contraste com o alto número de mortes na quarentena de Nova York e Grã-Bretanha.

Logo no início, a maioria das pessoas concordou, pensando que era de alguma forma necessário e de curto prazo. Duas semanas se estenderam para 30 dias, que se estenderam para 7 meses, e agora somos informados que nunca haverá um momento em que não praticaremos essa nova fé de política pública. É um novo totalitarismo. E com todos esses regimes, há um conjunto de regras para os governantes e outro para os governados.

O aparato da linguagem agora é incrivelmente familiar: achatamento da curva, desaceleração da propagação, distanciamento social, confinamento por camada, intervenção não farmacêutica. O inimigo é o vírus e qualquer pessoa que não vive sua vida apenas para evitar a contaminação. Como você não pode ver o vírus, isso geralmente significa gerar uma paranoia do Outro: alguém diferente de você tem o vírus. Qualquer um pode ser um super propagador e você pode reconhecê-los por seu descumprimento das regras.

Se Robert Glass ou Neil Ferguson merecem ser chamados de fundadores desse movimento, um de seus praticantes mais famosos é Anthony Fauci, do National Institutes for Health. Sua visão do futuro é positivamente chocante: inclui restrições sobre quem você pode receber em sua casa, o fim de todos os grandes eventos, o fim de viagens, talvez um ataque a animais de estimação e o desmantelamento efetivo de todas as cidades. Anthony Fauci explica:

“Viver em maior harmonia com a natureza exigirá mudanças no comportamento humano, bem como outras mudanças radicais que podem levar décadas para serem alcançadas: reconstruir as infraestruturas da existência humana, das cidades às casas, aos locais de trabalho, aos sistemas de água e esgoto, aos locais de lazer e de reunião. Em tal transformação, precisaremos priorizar mudanças nos comportamentos humanos que constituem riscos para o surgimento de doenças infecciosas. O principal deles é reduzir a aglomeração em casa, trabalho e em locais públicos, bem como minimizar perturbações ambientais, como desmatamento, urbanização intensa e pecuária intensiva.

Igualmente importante é acabar com a pobreza global, melhorar o saneamento e a higiene e reduzir a exposição insegura a animais, de modo que humanos e patógenos humanos em potencial tenham oportunidades limitadas de contato. É um “experimento mental” útil observar que, até décadas e séculos recentes, muitas doenças pandêmicas fatais não existiam ou não eram problemas significativos. O cólera, por exemplo, não era conhecido no Ocidente até o final de 1700 e se tornou uma pandemia apenas por causa da aglomeração humana e das viagens internacionais, o que permitiu um novo acesso da bactéria em ecossistemas regionais asiáticos aos sistemas insalubres de água e esgoto que caracterizavam as cidades em todo mundo ocidental.

Essa compreensão nos leva a suspeitar que algumas, e provavelmente muitas, das melhorias de vida alcançadas nos últimos séculos têm um alto custo que pagamos em emergências de doenças mortais. Visto que não podemos voltar aos tempos antigos, podemos pelo menos usar as lições daqueles tempos para colocar a modernidade em uma direção mais segura? Essas são perguntas a serem respondidas por todas as sociedades e seus líderes, filósofos, construtores e pensadores e aqueles envolvidos na avaliação e influência sobre os determinantes ambientais da saúde humana.”

Todo o estudo de Fauci parece uma tentativa de manifesto da quarentena, completo com os anseios totalmente esperados pelo estado de natureza e uma purificação imaginária da vida. Ler este plano utópico para uma sociedade sem patógenos ajuda a explicar uma das características mais estranhas do quarentenismo: seu puritanismo. Observe que a quarentena atacou especialmente qualquer coisa que se pareça com diversão: teatros, filmes, esportes, viagens, boliche, bares, restaurantes, hotéis, academias e clubes. Ainda agora existem toques de recolher para impedir as pessoas de ficarem fora de casa até tarde – sem nenhuma justificativa médica. Animais de estimação também estão na lista.

Se uma atividade é divertida, é um alvo.

Existe um elemento moral aqui. O pensamento é que quanto mais as pessoas se divertem, quanto mais escolhas são suas, mais doenças (pecados) se espalham. É uma versão medicalizada da ideologia religiosa de Savonarola que levou à Fogueira das Vaidades.

O que é notável é que Fauci sempre esteve em uma posição de influenciar a política por meio de sua proximidade com o poder, e ele de fato teve uma forte influência sobre a Casa Branca ao transformar uma política de liberdade em uma política de fechamento. Somente quando a Casa Branca entendeu sua verdadeira agenda ele foi removido do círculo interno.

O quarentenismo possui todos os elementos esperados. Tem um foco maníaco em uma preocupação da vida – a presença de patógenos – com exclusão de todas as outras preocupações. A menor das preocupações é a liberdade humana. A segunda menor preocupação é a liberdade de associação. A terceira menor preocupação são os direitos de propriedade. Tudo isso deve se curvar à disciplina tecnocrática dos mitigadores de doenças. As constituições e os limites do governo não importam. E observe também quão pouca terapêutica médica aparece aqui. Não se trata de fazer as pessoas melhorarem. É sobre como controlar toda a vida.

Observe também que não há a menor preocupação aqui com compensações ou consequências não intencionais. Nos confinamentos da Covid-19, os hospitais foram esvaziados devido a restrições a cirurgias eletivas e diagnósticos. O sofrimento com esta decisão desastrosa será sentido por muitos anos. O mesmo vale para as vacinações para outras doenças: elas despencaram durante os confinamentos. Em outras palavras, as quarentenas nem mesmo alcançam bons resultados de saúde; elas causam o oposto. As primeiras evidências apontam para overdoses de drogas, depressão e suicídio.

Isso é puro fanatismo, uma espécie de insanidade forjada por uma visão selvagem de um mundo unidimensional em que toda a vida é organizada em torno da prevenção de doenças. E há uma presunção adicional aqui de que nossos corpos (por meio do sistema imunológico) não evoluíram junto com os vírus por um milhão de anos. Nenhum reconhecimento dessa realidade. Em vez disso, o único objetivo é fazer do “distanciamento social” o credo nacional. Vamos falar mais claramente: o que isso realmente significa é a separação humana forçada. Significa o desmantelamento de mercados, cidades, eventos esportivos presenciais e o fim do seu direito de circular livremente.

Tudo isso está previsto no manifesto de Fauci. Todo o argumento se baseia em um erro simples: a crença de que mais contato humano espalha mais doenças e morte. Em contraste, o eminente epidemiologista de Oxford, Sunetra Gupta, argumenta que o globalismo e mais contato humano aumentou as imunidades e tornou a vida muito mais segura para todos.

Os adeptos do quarentenismo tiveram um sucesso surpreendente em convencer as pessoas de seus pontos de vista malucos. Você só precisa acreditar que evitar o vírus é o único objetivo de todos na sociedade e, a partir daí, descobrir as implicações. Antes que você perceba, você se juntou a um novo culto totalitário.

As quarentenas estão parecendo menos com um erro gigantesco e mais com o desdobramento de uma ideologia política fanática e um experimento político que ataca postulados centrais da civilização em sua raiz. É hora de levá-la a sério e combatê-la com o mesmo fervor com que um povo livre resistiu a todas as outras ideologias malignas que buscavam tirar a dignidade da humanidade e substituir a liberdade pelos sonhos aterrorizantes de intelectuais e seus fantoches do governo.

 

Artigo original aqui.

8 COMENTÁRIOS

  1. Aos libertários da área de direito.
    Existe alguma medida legal que seja possível de entrar contra um condominio que esteja extremamente rigoroso durante a fraudemia?
    A proibição ao uso das piscinas, academia e etc pode ser discutido em justiça? COmpensa entrar nessa briga?

  2. O artigo de combate mais eficiente já publicado aqui neste glorioso Instituto Rothbard. Que era uma gripizinha já estava bem claro antes de todo esse movimento pandeminion de quarentena. Mas o que pouco gente percebeu é que estamos vivendo em uma cópia do filme “Contágio”, cujos diretores são a OMS e seus lacaios, exatamente como na ficção.

  3. Queria pedir desculpas aos Chiocca. Por anos achei que era exagero e mimo a separação de vocês do Instituto Mises. Nunca tinha me convencido ou aceitado a tese do roubo do instituto e tudo mais.
    Mas tudo mudou ontem quando vi aquele falso se colocando a disposição do totalitarista Arthur do Val (aquele que denuncia aglomerações e pessoas sem máscara, que arda no inferno criatura tão vil).
    Isso vai contra tudo que o “Instituto” dizia defender, originalmente pelo que eu me lembre era cláusula do Instituto não apoiar, se envolver ou participar de qualquer movimento político partidário.
    É uma pena ver o endgame de tudo que o falso Helio fez. No final das contas, tudo era mera plataforma para ele tentar se lançar na política.
    Para ser bem sucedido na política é exigência básica que o individuo seja um sociopata. Começo a questionar-me se sociopatia não explica tudo que o Helio fez até aqui.
    O ataque socialista é infindável. Espero que um dia consigamos levantar o Instituto Rothbard ao tamanho do que o Instituto Mises já foi.

      • Obrigado Daniel.

        Se a equipe do IR me permitir sugestão. Uma das coisas que sempre curti na página do finado Mises era a interação nos comentários além dos artigos. Aquela parte de últimos comentários é sempre bacana de ler, bem como artigos mais “lidos” e “quentes”.

        Na realidade, foram vias debates nos comentários que acabei saindo de um keynesiano convecido para um austríaco inverterado (levando as devidas porradas ao longo de 2015 e 2016 claro hehe).

        Se conseguirmos criar experiência similar aqui seria engrandecedor.