Que diabos aconteceu em 1971?

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Em meados de agosto, o fundador e CEO do Twitter, Jack Dorsey, twittou uma hashtag estranha: #WTFHappenedin1971 (Que po… aconteceu em 1971).

Algumas semanas depois, Edward Snowden, o subcontratado da CIA que se tornou um denunciante que revelou o programa ilegal de vigilância em massa da NSA, compartilhou um twitti semelhante.

Não está claro se Dorsey e Snowden têm visões ideológicas semelhantes, mas está claro que os dois homens estão buscando respostas para a mesma pergunta (ou levando os outros a procurarem por si mesmos): o que aconteceu no mundo em 1971?

Que po… aconteceu em 1971?

Para quem não sabe, existe um site inteiro dedicado a essa questão: wtfhappenedin1971.com.

A primeira coisa que fica clara é que algo aconteceu em 1971. Esse fato é evidenciado por uma série de gráficos, todos baseados em dados do governo, que mostram várias tendências econômicas estranhas iniciadas naquele ano.

A desigualdade de renda, por exemplo, começou a piorar muito.

Os salários, que vinham acompanhando de perto a produtividade e o crescimento do PIB por décadas, começaram a ficar atrás da produtividade e do crescimento econômico (muito atrás).

A inflação disparou, crescendo a uma taxa mais rápida do que em qualquer período do século anterior.

A diferença de renda entre americanos negros e brancos, que vinha diminuindo rapidamente desde 1950, praticamente parou de diminuir.

Estes são apenas alguns dos gráficos econômicos que você encontrará em wtfhappenedin1971.com. Portanto, a questão permanece: o que diabos aconteceu?

FDR, Nixon e o padrão ouro

Durante anos, sempre morria de tédio quando ouvia discussões sobre o padrão ouro. A política monetária não era apenas enfadonha, mas também confusa. Algumas pessoas culparam Nixon por tirar os EUA do padrão ouro; outros diriam: “Não, não. Foi FDR.”

Então quem foi? E o que é “o padrão ouro”, afinal?

O padrão ouro é simplesmente um sistema monetário que vincula o valor do papel-moeda ao ouro. O sistema, implementado nos Estados Unidos em 1834, fixou o preço do ouro em US$ 20,67 a onça, onde permaneceu até o início dos anos 1930. Na década de 1870, outros países seguiram o exemplo, inaugurando a Era de Ouro do ouro (com o perdão do trocadilho) e um período de grande prosperidade.

“O período de 1880 a 1914 é conhecido como o padrão ouro clássico. Durante esse tempo, a maioria dos países aderiu (em vários graus) ao ouro”, escreve Michael D. Bordo, da EconLib. “Foi também um período de crescimento econômico sem precedentes, com comércio de bens, trabalho e capital relativamente livre.”

O fim do período – 1914 – veio com o início da Primeira Guerra Mundial, quando muitas nações se voltaram para o financiamento inflacionário para pagar pela guerra mais sangrenta da história humana (na época). De 1925 a 1931, uma nova era do ouro começou com o Gold Exchange Standard, mas não durou muito.

“Essa versão quebrou em 1931 após a saída da Grã-Bretanha do ouro em face do enorme êxodo de ouro e capital”, explica Bordo. “Em 1933, o presidente Franklin D. Roosevelt nacionalizou o ouro em propriedade de cidadãos privados e revogou os contratos em que o pagamento era especificado em ouro.”

A ordem de FDR – Ordem Executiva 6102 – proibia “o entesouramento de moedas de ouro, barras de ouro e certificados de ouro no território continental dos Estados Unidos.” Não apenas os indivíduos não seriam capazes de resgatar suas notas de papel em ouro sob a ordem, mas a propriedade privada de moedas de ouro e barras de ouro tornaram-se ilegais. (Esta lei impopular foi revogada em 1974.)

E quanto a Nixon?

Então foi FDR que tirou os EUA do padrão ouro? Não exatamente.

De 1946 a 1971, as nações operaram sob um novo sistema monetário: o Acordo de Bretton Woods.

“O sistema de Bretton Woods foi desenhado pelas nações aliadas, lideradas pelos Estados Unidos, perto do fim da Segunda Guerra Mundial como uma ordem monetária internacional do pós-guerra”, explica o economista Jonathan Newman. “O dólar americano se tornaria a moeda de reserva mundial, que governos estrangeiros poderiam trocar por ouro, embora os cidadãos americanos não pudessem.”

Você entendeu a última parte? Embora os cidadãos não pudessem trocar papel-moeda por ouro, os governos estrangeiros podiam. Portanto, o dólar dos EUA ainda estava atado ao ouro, que os EUA prometeram resgatar a uma taxa de câmbio de $35 a onça. Isso significava que os EUA não podiam inflar a oferta de dinheiro sem esgotar suas reservas de ouro.

Infelizmente, no entanto, os EUA inflaram sua moeda, em grande parte para financiar os custos crescentes da Guerra do Vietnã e do programa Grande Sociedade do presidente LBJ. Esta é uma das razões, explica Newman, que os EUA esgotaram cerca de 55% de seu estoque de ouro entre os anos 1950 e 1971.

Naquele ano – 1971 – diante de reservas de ouro esgotadas e um dólar diante de uma pressão inflacionária crescente das despesas do governo, Nixon tomou uma decisão crítica: ele pausou “temporariamente” o resgate do ouro.

No entanto, a mudança de Nixon não foi temporária.

Isso foi o que aconteceu em 1971

Portanto, agora você sabe o que aconteceu em 1971. Os Estados Unidos se transformaram no que é conhecido como sistema de moeda fiduciária, no qual o papel tem curso legal lastreado não em ouro, prata ou alguma outra mercadoria, mas em um decreto do governo.

O economista Thorsten Polleit descreveu três coisas que todos os dinheiros fiduciários têm em comum:

  1. O governo (ou seu banco central) tem o monopólio da produção.
  2. É criado por meio da expansão do crédito bancário (ou seja, do nada).
  3. Não tem valor inerente, é simplesmente papel colorido (ou bytes digitais) que pode ser produzido sempre que os detentores do poder o considerarem politicamente conveniente.

É por isso que aqueles que estão no controle gostam de um sistema de moeda fiduciária. Isso permite que eles financiem todos os programas e agendas que, de outra forma, não poderiam pagar, desde a Guerra no Afeganistão até programas sociais e gastos com armas realmente caros.

Infelizmente, todos esses gastos têm um custo. Claro, a dívida federal disparou de $398 bilhões em 1971 ($2,7 trilhões de dólares em 2021) para $28,8 trilhões hoje. Mas, como mostram os gráficos acima, esses dificilmente são os únicos custos. Não é por acaso que o 1% mais rico detém uma porcentagem recorde de toda a riqueza dos Estados Unidos. O sistema de moeda fiduciária permitiu que aqueles no poder corrompessem a moeda para enriquecer às custas dos outros (a inflação é um imposto) – tudo em nome do altruísmo.

O economista Murray Rothbard gostava de usar um experimento mental para demonstrar como ela funcionava. Imagine se o “Anjo Gabriel” aparecesse e multiplicasse por dez a quantidade de dinheiro que todos tinham. Alguém ficaria mais rico? Nem um pouco. Mas agora imagine que a oferta de dinheiro é aumentada, mas não distribuída uniformemente. O anjo Gabriel aumenta o suprimento de dinheiro para alguns – começando com banqueiros privilegiados que decidem como ele é distribuído – mas não para outros. Quem se beneficia então? Você adivinhou: as pessoas que recebem primeiro.

Edward Snowden e Jack Dorsey estão fazendo a pergunta certa: que diabos aconteceu em 1971? Sabemos o que aconteceu, a questão é: o que faremos a respeito?

A política monetária pode ser confusa e alguns podem considerá-la entediante – embora eu não ache mais. Mas uma coisa é certa: ela é extremamente importante.

 

Artigo original aqui