Racismo e Censura Mental

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Na edição de 14 de setembro de 1996 do Estadinho, suplemento infantil de O Estado de S. Paulo, Eduardo Martins, autor do Manual de redação e estilo desse jornal, toma a iniciativa de doutrinar as crianças contra o uso de expressões como “a situação está preta”, “negra infelicidade”, “destino negro”, etc., que a seu ver são racistas.

O uso de crianças como “agentes de transformação social” é um expediente desonesto do Estado modernizador e dos intelectuais ativistas para fazer que as novas crenças que desejam inocular na sociedade, transportadas por pequenos inocentes úteis, possam penetrar no senso comum (no sentido gramsciano do termo) sem passarem pelo filtro da discussão consciente. Esse expediente, inventado pelos Estados totalitários, foi depois imitado pelas democracias e hoje se tornou prática corriqueira, que já nem escandaliza mais uma opinião pública extenuada pelos estupros repetidos.

No caso, porém, esse ardil se torna ainda mais perverso porque é empregado para disseminar um hábito lesivo à inteligência: para reprimir, sob pretextos políticos de ocasião, o uso de metáforas naturais que remontam às origens da espécie humana e que se tornaram, ao longo dos milênios, fundamentos indispensáveis da nossa percepção do mundo. O simbolismo do claro e do escuro vem do tempo das cavernas, das sensações primevas de terror e deslumbramento. O negro do destino negro não é o marrom da pele dos nossos irmãos, mas a escuridão da noite. É a pura e simples ausência de luz. O sentido natural dessa experiência é vivenciado de maneira perfeitamente idêntica por pessoas de raça negra e branca, como se vê pelo simbolismo das cores na tradição Yoruba: nosso improvisado professor de moralidade das cores pode conferi-lo, por exemplo, no estudo Yoruba Traditional Religion do filólogo nigeriano Dr. Wande Abimbola (Tehran, Imperial Academy of Philosophy, 1977). Só a mentalidade torpe do moderno intelectual ativista pode procurar associar esse nobre simbolismo arcaico a motivações racistas e bani-lo do vocabulário humano como “politicamente incorreto”. Reprimir o uso de expressões que refletem uma experiência primordial e universal é impedir o ser humano de pensar, é introduzir entre a percepção e a fala um bloqueio paralisante, é perverter todo o sentido das comunicações entre sensação e pensamento, é neurotizar e desestruturar a mente infantil. E tudo isso para quê? Para atender às exigências de uma suscetibilidade mórbida e antinatural que os mesmos intelectuais ativistas, por outro lado, buscam cultivar nas pessoas de raça negra, com a finalidade de torná-las perpetuamente imaturas e sempre manipuláveis por slogans demagógicos.

Se proibidas de associar a cor negra ao perigo e ao sofrimento da ausência de luz, as crianças submetidas a essa lavagem cerebral serão forçadas, pelo superego politicamente correto, a negar a realidade de sua experiência sensível mais direta e a substituí-la por um sistema de artificiosos rodeios verbais desnecessários e sem sentido. Com isso, aprenderão a duvidar do que sentem e a crer, em vez disto, no que ouvem dizer, tornando-se cada vez mais incapazes de julgamento independente e mais necessitadas de ser guiadas por intelectuais prestativos como o Sr. Eduardo Martins. Para apressar este resultado, o Sr. Martins, além de empregar na educação das crianças o método pavloviano de criar reflexos irracionais de repulsa ante certas palavras, ainda reforça seu procedimento mediante o recurso francamente blasfematório a uma falsa retórica teológica, afirmando que o uso dessas palavras, além de crime, “é pecado”. Pecado, digo eu, é desprezar a advertência de Cristo: “O mal que fizerdes ao menor destes pequeninos, a mim o fizestes”.

Conforme bem viu Christopher Lasch, a nova classe dominante de burocratas e de intelectuais ativistas, que velozmente vai tomando o lugar da burguesia no império do mundo, não governa pela posse jurídica dos meios de produção, mas pelo jogo da informação; mais ambiciosa que sua antecessora, ela não se contenta em ter poder sobre a força de trabalho das pessoas, mas quer moldar sua mente, seus valores, sua vida e o sentido da sua vida; não quer só possuir o mundo, mas reinventá-lo à sua imagem e semelhança.

Infinitamente confiante no seu próprio poder de moldar a realidade, a nova classe não tem satisfações a prestar à lógica, à história ou à biologia: se para alcançar seus objetivos for preciso remexer todo o mapa do cérebro humano, desmontar a tapas a complexa rede de símbolos e sentimentos que constitui o legado cognitivo de uma evolução milenar e provocar um curto-circuito generalizado na inteligência de milhões de crianças, ela o fará sem o menor constrangimento. É uma classe destituída de toda autoconsciência moral e firmemente imbuída da convicção de que a ética consiste em cultivar nas pessoas um senso neuroticamente ampliado de suas próprias necessidades e frustrações, para mantê-las perpetuamente indignadas umas contra as outras. No fundo, trata-se do velho divide ut regnes, praticado sob falsos pretextos moralizantes que não enganam a ninguém. Exceto às crianças, naturalmente.

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Escritor, jornalista e filósofo, nasceu em 1947 em Campinas, São Paulo. Mais conhecido por seus posicionamentos políticos, possui uma bibliografia ampla, com livros que vão desde astrologia à reinterpretações de conceitos filosóficos e análises da sociedade brasileira. Recebeu, em 1996, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Alguns de seus títulos mais conhecidos são O Jardim das Aflições, O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras e O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.