Rothbard e as escolhas imorais

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Em uma seção de Poder & mercado chamada “O problema das escolhas imorais”, Murray Rothbard considera uma importante objeção ao livre mercado, e eu gostaria na coluna desta semana de considerar alguns dos pontos que ele levanta.

Para entender de onde ele está “vindo”, temos que situar sua discussão dentro do livro. Rothbard visa no livro uma ciência da economia livre juízo de valores. Ele não fará nenhum apelo a julgamentos de valor, não porque pense que todos esses julgamentos são puramente subjetivos – muito pelo contrário – mas porque eles não têm lugar na ciência. O que ele está tentando fazer, então, é algo que à primeira vista pode parecer impossível. Ele quer considerar o argumento de que o livre mercado pode ser criticado porque permite que as pessoas façam escolhas imorais. No livre mercado, as pessoas são livres para se envolver em atividades que são imorais, ou pelo menos são consideradas imorais por algumas pessoas, desde que essas atividades não violem os direitos de outras pessoas. Rothbard quer mostrar que esse argumento falha do ponto de vista da ciência objetiva.

Se Rothbard usasse seu próprio sistema ético, seria fácil responder à objeção. Ele apelaria para a distinção entre vícios e crimes. Somente o que viola os direitos dos outros pode ser proibido. Você não pode usar a força contra os outros, mesmo que eles tenham um comportamento que seja objetivamente imoral. Mas Rothbard não quer seguir esse caminho aqui. Como ele pode mostrar que a objeção está errada sem apelar para um sistema ético?

Antes de apresentar sua solução, ele critica uma abordagem alternativa popular. De acordo com essa visão, não há juízos de valor objetivamente verdadeiros. Assim, atacar o livre mercado porque ele permite escolhas imorais é apenas dizer que o mercado é ruim porque permite coisas que você não gosta. É errado você tentar impor suas preferências subjetivas aos outros. Rothbard declara a objeção desta forma:

      A postura utilitarista – de que a ordem governamental é má porque não existe uma ética racional e, por isso, ninguém tem o direito de impor os próprios valores arbitrários a outrem – é, cremos, inadequada. Primeiramente, ela não convencerá os que acreditam em uma ética racional, os que acreditam que há uma base científica para os julgamentos morais e que estes não são puro capricho. e , ademais, essa postura contém um pressuposto moral oculto –  e que a não tem direito de impor quaisquer valores arbitrários a B. Mas se fins são arbitrários, não é a finalidade um daqueles “caprichos arbitrários que não devem ser impostos por coerção” igualmente arbitrária? e suponhamos, ainda, que na escala valorativa de a esteja, numa posição elevada, o capricho arbitrário de impor outros valores a B. Então, os utilitaristas não podem objetar e devem abandonar a tentativa de defender a liberdade individual segundo a ausência de valores. De fato, os utilitaristas são impotentes diante de quem quer impor os próprios valores por coerção e que persiste em fazê-lo mesmo depois de serem indicadas várias consequências econômicas.

Em seu comentário, Rothbard está usando “utilitarista” de uma maneira não padronizada, para significar a visão de que todos os julgamentos éticos são subjetivos. No uso filosófico padrão, o utilitarismo é um tipo de ética objetiva, em uma de suas variantes dizendo, grosso modo, que é objetivamente bom satisfazer as preferências subjetivas das pessoas, mas contanto que você observe o uso de Rothbard, seu argumento é claro o suficiente.

Agora estamos em condições de ver a dificuldade que Rothbard colocou a si mesmo. Se alguém diz que o mercado é ruim porque permite escolhas imorais, e você não quer apelar nem para a ética objetiva nem para o subjetivismo ético, como proceder a crítica a esse argumento? Como o argumento pode ser refutado sem trazer nenhum juízo de valor?

A resposta de Rothbard é que é autocontraditório restringir as escolhas das pessoas alegando que elas são imorais. Para que algo seja uma escolha moral, você deve ser livre para fazê-lo ou abster-se dele. Mas se o governo exige que você faça algo, está tirando sua liberdade de escolha, e sua escolha não conta como moral ou imoral. Rothbard diz,

   O aspirante a ditador pode ser logicamente refutado de um modo todo diferente, mesmo enquanto permanece nos limites da wertfrei [ausência de valoração, neutro] praxeológica. Pois, qual é o motivo de queixa do pretenso ditador com relação aos indivíduos livres? Os vários modos imorais de agir. O propósito do ditador, por conseguinte, é fomentar a moralidade e combater a imoralidade. Admitamos que, para efeitos de argumentação, possamos chegar a uma moralidade objetiva. A questão que deve ser enfrentada, então, é a seguinte: Será que a força pode promover a moralidade? Suponhamos que tenhamos chegado a uma conclusão demonstrável de que as ações A, B e C sejam imorais, e as ações X, Y e Z sejam morais. E suponhamos ainda que descubramos que o senhor Jones apresenta a desafortunada tendência a valorizar imensamente A, B e C e adotar repetidamente tais cursos de ação. Interessa-nos transformar o imoral senhor Jones em uma pessoa moral. Como faremos tal transição? Os estatistas responderiam: pela força. Devemos proibir, sob a mira de arma, o senhor Jones de fazer A, B e C. Então, por fim, ele se tornará uma pessoa moral. Mas será mesmo? Será que Jones é moral porque escolheu X ao ser forçosamente privado da oportunidade de escolher A? Quando Smith é trancafiado numa prisão, ele é moral porque não passa o tempo se embebedando em bares?

Qualquer conceito de moralidade não faz sentido, independente da ação moral que defenda, se o homem não é livre para agir imoral ou moralmente. Se um homem não é livre para escolher, e é compelido pela força a fazer o que é moral, então, ao contrário, está sendo destituído da oportunidade de ser moral. Não lhe foi permitido ponderar as alternativas, chegar as próprias conclusões e firmar uma posição. Caso seja privado de livre escolha, age segundo a vontade do ditador em vez de agir segundo a própria vontade. (É claro que o sujeito poderia escolher ser morto, mas dificilmente esta é uma concepção clara da livre escolha de alternativas. De fato, há somente uma livre escolha: a hegemônica – ser morto ou obedecer, em tudo, ao ditador).

Este é um argumento caracteristicamente engenhoso, e gostaria de concluir considerando uma objeção de um defensor da visão de que o mercado é ruim por permitir escolhas imorais que possam oferecer a ele. Ele pode dizer que, mesmo que Rothbard esteja certo de que você não pode obrigar as pessoas a serem morais, as pessoas, no entanto, fazem escolhas imorais. Este é um estado de coisas insatisfatório, mesmo que você não possa usar a força para aliviá-lo. Mas essa objeção não funciona. Significa apenas dizer que os seres humanos são imperfeitos, e isso não é novidade.

 

 

Artigo original aqui

1 COMENTÁRIO

  1. Interessante. Neste sentido, quando um indivíduo chega à conclusão que um ato de força estatal é moral, a sua própria moralidade torna-se discutível e precária, pois aceitar o ato do estado “tomo zykon b” de maneira voluntária” , é uma simetria de valores aleatória.

    Um indivíduo não se torna moral por aceitar uma picada no braço – ou no rabo dos estatistas, de maneira que consequentemente aquele que se recusa não é imoral. E segundo Murray fucking Rothbard, a cadeia não torna a pessoa intrinsicamente moral.