Teoria e História

0
Tempo estimado de leitura: 19 minutos

Capítulo 12. Psicologia e Timologia

1. Timologia e Psicologia Naturalista

 

DIVERSOS AUTORES acreditam que a psicologia seja fundamental para as ciências sociais, e até mesmo que ela possa abranger todas elas.

Na medida em que a psicologia dá sequência aos métodos experimentais da fisiologia, estas alegações são evidentemente injustificadas. Os problemas estudados nos laboratórios das diversas escolas de psicologia experimental não estão mais relacionados aos problemas das ciências da ação humana do que os de qualquer outra disciplina científica. A maioria deles não tem qualquer serventia para a praxeologia, a economia e todos os ramos da história. Na realidade, ninguém jamais tentou mostrar como as descobertas da psicologia naturalista poderiam ser utilizadas para qualquer uma destas ciências.

O termo “psicologia”, no entanto, é utilizado em outro sentido. Ele se refere à cognição das emoções humanas, motivações, ideias, julgamentos de valor e volições, uma faculdade indispensável para todos na conduta de seus assuntos cotidianos, e que não é menos indispensável para os autores de poemas, romances e peças, assim como historiadores. A epistemologia moderna chama esse processo mental dos historiadores de compreensão específica das ciências históricas da ação humana. Sua função é dupla: por um lado ela estabelece o fato de que as pessoas, motivadas por julgamentos de valor específicos, realizam ações específicas e utilizam-se de meios específicos para atingir os fins que buscam. Por outro lado, ela tenta avaliar os efeitos e a intensidade dos efeitos de uma ação, bem como sua relação com o curso posterior dos acontecimentos.

A compreensão específica das disciplinas históricas não é um processo mental ao qual apenas os historiadores recorrem. Ela é utilizada por todos em suas interações diárias com os seus semelhantes. É uma técnica empregada em todas as relações inter-humanas. É praticada por crianças nas creches e jardins de infância, por empresários no comércio, por políticos e estadistas nos assuntos de estado. Todos estão ávidos por obter informações acerca das avaliações e planos de outras pessoas e avaliá-los corretamente. Via de regra, as pessoas chamam de psicologia esta compreensão das mentes dos outros homens. Assim, dizem que um vendedor deve ser um bom psicólogo, e que um líder político deve ser um especialista em psicologia de massa. Este uso popular do termo “psicologia” não deve ser confundido com a psicologia de qualquer uma das escolas naturalistas. Quando Dilthey e outros epistemologistas declararam que a história deveria se basear na psicologia, o que tinham em mente era esse significado prático ou popular do termo.

Para se evitar erros resultantes da confusão destes dois ramos totalmente diferentes do conhecimento, é apropriado reservar o termo “psicologia” para a psicologia naturalista, e chamar o conhecimento das volições e avaliações humanas de “timologia”.[1]

A timologia é uma ramificação da introspecção, por um lado, e um sedimento da experiência histórica, por outro. É o que todos aprendem da interação com os seus semelhantes. É o que um homem sabe sobre a maneira através da qual as pessoas avaliam diferentes condições, sobre suas vontades e desejos e seus planos para realizar estas vontades e desejos. É o conhecimento do meio social no qual um homem vive e age ou, no caso dos historiadores, um meio estranho sobre o qual ele aprendeu estudando fontes especiais. Se um epistemologista afirma que a história tem que se basear num conhecimento como a timologia, está apenas afirmando um truísmo.

Enquanto a psicologia naturalista não aborda de maneira alguma o conteúdo dos pensamentos, julgamentos, desejos e ações humanas, o campo da timologia é exatamente o estudo destes fenômenos.

A melhor maneira de ilustrar a distinção entre a psicologia naturalista e a fisiologia, por um lado, e a timologia, por outro, é através de referências aos métodos psiquiátricos. A neuropatologia e a psicopatologia tradicional lidam com os aspectos fisiológicos das doenças dos nervos e do cérebro. A psicanálise lida com os seus aspectos timológicos. O objeto de suas investigações são as ideias e a busca consciente por determinados fins que entram em conflito com os impulsos fisiológicos. As ideias fazem com que os indivíduos reprimam certos impulsos naturais, especialmente o impulso sexual. No entanto, as tentativas de reprimi-los nem sempre são bem-sucedidas. Os impulsos não são erradicados, apenas relegados a um lugar escondido, e acabam por se vingar; das profundezas do lugar para onde foram deslocados eles exercem uma influência perturbadora na vida consciente e na conduta do indivíduo. A terapia psicanalítica tenta remover estes distúrbios neuróticos trazendo este conflito para a plena consciência do paciente. Ela cura com ideias, não com medicamentos ou intervenções cirúrgicas.

Costuma-se afirmar que a psicanálise lida com os fatores irracionais que influenciam a conduta humana. Esta afirmação precisa de uma interpretação para evitar confusão. Todos os fins últimos que os homens têm como meta estão além da crítica da razão. Os julgamentos de valor não podem nem ser justificados nem refutados pela razão. Os termos “razão” e “racionalidade” sempre se referem exclusivamente à propriedade dos meios escolhidos para a obtenção de fins últimos. Neste sentido, a escolha dos fins últimos é sempre irracional.

O impulso sexual e o ímpeto de preservar as próprias forças vitais são inerentes à natureza animal do homem. Se o homem fosse apenas um animal, e não uma pessoa que atribui valores, ele sempre cederia ao impulso que fosse mais poderoso num determinado instante. A eminência do homem consiste no fato de que ele tem ideias e, guiado por elas, escolhe entre fins incompatíveis. Também escolhe entre a vida e a morte, entre comer e passar fome, entre o coito e a abstinência sexual.

Antigamente as pessoas estavam dispostas a aceitar que não havia qualquer sentido no comportamento excepcional dos neuróticos. Freud demonstrou que os atos aparentemente sem sentido dos neuróticos são projetados para obter fins específicos. Os fins que o neurótico deseja atingir podem ser diferentes daqueles que as pessoas normais buscam, e — com muita frequência — os meios aos quais o neurótico recorre não são apropriados para a sua obtenção. Mas o fato de os meios escolhidos não serem adequados para obter os fins desejados não serve para qualificar uma ação como sendo irracional.

Cometer erros na busca dos fins é uma fraqueza humana amplamente difundida. Alguns os cometem com menos frequência que outros, mas nenhum homem mortal é onisciente e infalível. Erros, ineficiência e fracasso não devem ser confundidos com irracionalidade. Quem atira quer, invariavelmente, atingir o alvo; se ele o erra, ele não é “irracional”, ele só é um mau atirador. O médico que escolhe o método errado para tratar de um paciente não é irracional; ele pode ser um médico incompetente. O fazendeiro que, antigamente, tentava aumentar sua colheita recorrendo a rituais mágicos não agia de maneira menos racional do que o fazendeiro moderno que utiliza mais fertilizante. Ele fazia o que, de acordo com sua opinião — errônea — era apropriado ao seu propósito. O que caracteriza o neurótico como tal, não é o fato de que ele recorre a meios inadequados, mas que ele não consegue lidar com os conflitos que o homem civilizado enfrenta. A vida em sociedade exige que o indivíduo reprima impulsos instintivos que estão presentes em todos os animais. Podemos deixar em aberto se o impulso da agressão é um desses impulsos inatos. Não há dúvida que a vida em sociedade seja incompatível com a indulgência em relação aos hábitos animalescos de satisfação dos apetites sexuais. Talvez existam métodos mais eficazes de se regular as relações sexuais do que aqueles aos quais se recorre na sociedade atual. No entanto, quaisquer que eles sejam, o fato é que os métodos adotados até o presente momento impõem sobre a mente de determinados indivíduos um fardo muito pesado. Estes homens e mulheres não têm ideia de como resolver problemas que pessoas mais afortunadas lidam com facilidade. Seu dilema e seu constrangimento os tornam neuróticos.

Diversas objeções espúrias foram apresentadas contra a filosofia do racionalismo. Muitas escolas de pensamento do século XIX interpretaram de maneira totalmente equivocada a essência da doutrina racionalista. Contra estas interpretações errôneas é importante perceber que o único defeito do racionalismo clássico do século XVIII se encontrava em seu tratamento de determinadas questões secundárias, e meramente incidentais, e que estas deficiências menores podiam desnortear facilmente os críticos menos perspicazes.

A tese fundamental do racionalismo é inatacável. O homem é um ser racional, isto é, suas ações são guiadas pela razão. A proposição “o homem age” é equivalente à proposição “o homem anseia por substituir uma situação que lhe satisfaz menos por outra que o satisfaça mais”. Para conseguir isto, ele deve utilizar-se de meios apropriados. É a sua razão que lhe permite descobrir quais são os meios apropriados para obter os fins que ele escolheu, e quais não o são.

Ademais, o racionalismo estava certo ao enfatizar que existe uma ampla unanimidade entre as pessoas no que diz respeito à escolha de fins últimos. Com pouquíssimas exceções, todas as pessoas querem preservar suas vidas e sua saúde, e melhorar as condições materiais de sua existência. É este fato que determina tanto a cooperação quanto a competição entre os homens. No entanto, ao lidar com este ponto, os filósofos racionalistas cometeram graves deslizes.

Em primeiro lugar, partiram do pressuposto de que todos os homens são dotados do mesmo poder de raciocínio, ignorando a diferença entre pessoas inteligentes e estúpidas, e até mesmo entre o gênio pioneiro e as grandes massas de meros autômatos que, na melhor das hipóteses, são capazes de seguir as doutrinas desenvolvidas pelos grandes pensadores mas, na maior parte do tempo, são incapazes de compreendê-las. Do ponto de vista dos racionalistas, todo adulto são é suficientemente inteligente para compreender o significado da teoria mais complexa. Se ele não conseguir fazê-lo, a culpa não está em seu intelecto, mas sim em sua educação. Quando todas as pessoas tiverem acesso a uma educação perfeita, todos serão tão sábios e sensatos quanto o mais eminente dos sábios.

O segundo defeito do racionalismo foi a falta de atenção que ele deu ao problema do pensamento errôneo. A maioria dos filósofos racionalistas não conseguiu ver que até mesmo os homens honestos, sinceramente dedicados à busca pela verdade, podem errar. Este preconceito impediu que eles fizessem justiça às ideologias e às doutrinas metafísicas do passado. Uma doutrina que eles desaprovassem só poderia ter sido motivada, em sua opinião, pela má fé. Muitos deles repudiaram todas as religiões como fruto da fraude intencional de impostores perversos.

Estes defeitos do racionalismo clássico, no entanto, não servem para justificar qualquer um dos ataques apaixonados feitos pelo irracionalismo moderno.

2. Timologia e Praxeologia

 

A timologia não tem qualquer relação especial com a praxeologia e a economia. A crença popular de que a economia subjetiva moderna, a escola da utilidade marginal, se baseou na “psicologia” ou tem uma ligação íntima como ela, é equivocada.

O próprio ato de avaliar é um fenômeno timológico. A praxeologia e a economia, no entanto, não lidam com os aspectos timológicos da avaliação. Seu objeto é a ação, de acordo com as escolhas feitas por quem está agindo. A escolha concreta é uma consequência da avaliação. A praxeologia, no entanto, não está preocupada com os eventos que produzem, a partir do interior da alma, da mente ou do cérebro de um homem, uma decisão específica entre A ou B. Ela parte do pressuposto que a natureza do universo impõe ao homem a escolha entre fins incompatíveis. Seu tema de estudo não é o conteúdo destes atos de escolha, mas sim o que resulta deles: a ação. Ela não se preocupa com o que um homem escolhe, mas com o fato de que ele escolhe e age de acordo com uma escolha que foi feita. Sua posição a respeito dos fatores que determinam a escolha é neutra, e ela não se arroga a competência de examinar, revisar ou corrigir julgamentos de valor. Ela é wertfrei.

O porquê de um homem escolher água e outro homem escolher vinho é uma questão timológica (ou, na terminologia tradicional, psicológica). Mas não é do interesse da praxeologia e da economia.

O assunto de interesse da praxeologia e daquela sua parte que é, de longe, a mais desenvolvida — a economia — é a ação como tal, e não os motivos que impelem um homem a ter como meta fins específicos.

 

3. Timologia como Disciplina Histórica

 

A psicologia, no sentido que o termo é utilizado hoje em dia pela disciplina chamada de psicologia, é uma ciência natural. Não cabe a um tratado epistemológico que está lidando com as ciências da ação humana questionar sobre o que distingue este ramo das ciências naturais da fisiologia geral.

A psicologia, no sentido de timologia, é um ramo da história. Ela deriva seu conhecimento a partir da experiência histórica. Lidaremos numa seção posterior com a introspecção. Neste ponto, basta enfatizar o fato de que a observação timológica, tanto das escolhas de outras pessoas quanto do observador, refere-se sempre, necessariamente, ao passado, da mesma maneira que a experiência histórica o faz. Não existe método disponível que consiga produzir, neste campo, algo análogo ao que as ciências naturais consideram um fato comprovado experimentalmente. Tudo o que a timologia pode nos dizer é que, no passado, homens específicos ou grupos de homens estavam avaliando e agindo de uma maneira específica. Se, no futuro, eles avaliarão ou agirão da mesma maneira continua a ser algo incerto. Tudo o que pode ser afirmado sobre sua conduta futura é uma antecipação especulativa do futuro, com base na compreensão específica dos ramos históricos da ciência da ação humana.

Não há diferença, neste ponto, entre a timologia de indivíduos e a de grupos. Aquela que é chamada deVölkerpsychologie e a psicologia de massas também são disciplinas históricas. O que se chama de “caráter” de uma nação é, na melhor das hipóteses, os traços apresentados por membros daquela nação no passado. Ainda é incerto se os mesmos traços continuarão se manifestando no futuro ou não.

Todos os animais são dotados do impulso da autopreservação. Eles resistem às forças que são prejudiciais à sua sobrevivência. Quando atacados, se defendem, contra-atacam ou procuram a segurança através da fuga. A biologia está numa posição que lhe permite prever, com base na observação do comportamento das diferentes espécies animais, como um indivíduo saudável de cada uma dessas espécies responderá ao ataque. Não é possível fazer previsões apodíticas como estas a respeito da conduta do homem. É verdade que a imensa maioria dos homens seja motivada pelo impulso animal da autopreservação. Mas existem exceções. Há homens que são motivados por ideias específicas que optam pela não-resistência. Já outros são induzidos pelo desespero a se abster de qualquer tentativa de resistir ou fugir. Antes do evento, é impossível se saber com certeza como um indivíduo reagirá.

Em retrospecto, a análise histórica nos tenta mostrar que o resultado não poderia ter sido diferente do que ele realmente foi. É claro que o efeito é sempre o resultado necessário dos fatores que estão operando; mas é impossível se deduzir com certeza, a partir da experiência timológica, a conduta futura dos homens, indivíduos ou grupos de indivíduos. Todos os prognósticos baseados no conhecimento timológico constituem uma compreensão específica do futuro, com base nas ações praticadas diariamente por todos e, especialmente, por estadistas, políticos e homens de negócios.

O que a timologia consegue é elaborar um catálogo de características humanas. Além disso, ela pode estabelecer o fato de que, em geral, determinadas características surgiram no passado em associação com outras determinadas características. Mas ela jamais pode fazer previsões da mesma maneira que as ciências sociais o fazem. Ela jamais saberá antecipadamente com que peso os diversos fatores influenciarão um evento futuro específico.

 

4. História e Ficção

 

A história tenta descrever os eventos passados tais como eles de fato aconteceram. Ela tem como meta uma representação fiel. Seu conceito de verdade é a correspondência com o que costumava ser realidade.

A ficção épica e dramática retrata o que se considera ser verdade do ponto de vista do enfoque timológico, sem importar se a história narrada realmente ocorreu ou não. Não nos cabe lidar com os efeitos que o autor quer gerar com sua obra e com o seu conteúdo metafísico, estético e moral. Muitos escritores querem apenas entreter seu público. Outros são mais ambiciosos; ao contar uma história, procuram sugerir uma visão geral do destino do homem, da vida e da morte, do esforço e do sofrimento humano, do sucesso e da frustração. Sua mensagem é radicalmente diferente da mensagem da ciência e da filosofia. A ciência, ao descrever e interpretar o universo, se apoia totalmente na razão e na experiência. Ela despreza proposições que não possam ser demonstradas através da lógica (no sentido mais amplo do termo, que inclui a matemática e a praxeologia); analisa partes do universo sem fazer quaisquer afirmações a respeito da totalidade das coisas. A filosofia tenta construir sobre as fundações deixadas pela ciência uma visão de mundo abrangente. Ao buscar este fim, ela não se sente obrigada a contradizer nenhuma das teses fundamentadas da ciência contemporânea. Logo, seu caminho também é restrito pela razão e pela experiência.

Poetas e artistas abordam assuntos e problemas com outro espírito. Ao lidar com um único aspecto do universo, estão sempre lidando com o todo. A narrativa e a descrição, a representação de assuntos individuais e de eventos específicos, é, para eles, apenas um meio. A característica essencial de sua obra está além de palavras, desenhos e cores. Está nas ideias e sentimentos inefáveis que inspiraram o criador e comovem o leitor e espectador. Quando Konrad Ferdinand Meyer descreveu uma fonte romana, e Rainer Maria Rilke uma pantera enjaulada, eles não estavam apenas retratando a realidade; haviam capturado um vislumbre do universo. No romance de Flaubert não é a história triste de Madame Bovary que detém a preocupação central do autor; é algo que vai muito além do destino daquela pobre mulher. Há uma diferença fundamental entre a fotografia mais fiel e um retrato pintado por um artista. O que caracteriza uma obra literária e artística como tal não é a maneira como ela relata os fatos, mas a maneira com que revela um aspecto do universo e a atitude do homem em relação a ele. O que constitui um artista não é a experiência e o conhecimento como tais, mas a sua relação particular com os problemas do destino e da existência humana. É a Erlebnis, uma reação puramente pessoal à realidade de seu meio e sua experiência.

Poetas e artistas têm uma mensagem para entregar. Esta mensagem, no entanto, se refere a ideias e sentimentos inefáveis. Não pode ser expressa sem ambiguidade exatamente por que é inefável. Jamais podemos saber se a experiência — erleben — que se obtém ao se apreciar sua obra é a que eles experimentaram ao criá-la; pois sua obra não é apenas uma comunicação. Além daquilo que comunica, ela instiga no leitor e espectador sentimentos e ideias que podem ser diferentes daqueles experimentados pelo autor. É uma tarefa inútil interpretar uma sinfonia, uma pintura ou um romance. O intérprete, na melhor das hipóteses, pode tentar nos dizer algo a respeito de sua reação à obra. Ele não pode nos dizer com certeza qual era a intenção do criador, ou o que outras pessoas podem enxergar nela. Até mesmo se o próprio criador fornecer um comentário sobre sua obra, como no caso da programme music, esta incerteza permanecerá. Não existem palavras para descrever o inefável.

O que a história e a ficção têm em comum é o fato de que ambas se baseiam no conhecimento a respeito da mente humana. Elas funcionam com base na experiência timológica. Seu método de abordagem é a compreensão específica das avaliações humanas, da forma como as pessoas reagem ao desafio de seu meio natural e social. Mas é aí que seus caminhos se separam. O que o historiador tem que narrar é expresso de maneira integral em sua obra. Ele comunica ao leitor tudo que ele encontrou; sua mensagem é exotérica. Não há nada no conteúdo de seu livro que não seja inteligível para leitores competentes.

Pode ocorrer que o estudo da história, ou até mesmo o estudo das ciências naturais, suscite na mente de um homem aqueles pensamentos inefáveis e maneiras de enxergar o universo como um todo que caracterizam a compreensão empática da realidade. Isto, no entanto, não altera a natureza e o caráter da obra do historiador. A história é, incondicionalmente, a procura pelos fatos e eventos que realmente aconteceram.

A ficção tem a liberdade de retratar eventos que nunca ocorreram. O escritor cria, como as pessoas dizem, uma história imaginária. Ele é livre para se afastar da realidade. Os critérios de verdade que se aplicam à obra do historiador não se aplicam à sua. No entanto, sua liberdade é limitada; ele não é livre para desafiar os ensinamentos da experiência timológica. Não é necessário que aquilo que é relatado em romances e peças teatrais tenha de fato acontecido. Não é sequer necessário que esses eventos possam vir a acontecer;  podem ser apresentados ídolos pagãos, fadas, animais que agem como se fossem humanos, fantasmas e outras entidades sobrenaturais. Mas todos os personagens de uma peça ou romance devem agir de uma maneira timologicamente inteligível. Os conceitos de verdadeiro ou falso, tais como são aplicados em obras épicas e dramáticas, referem-se à plausibilidade timológica. O autor tem liberdade de criar tramas e pessoas fictícias, mas ele não deve tentar inventar uma timologia/psicologia diferente da que é derivada da observação da conduta humana.

A ficção, como a história, não lida com o homem médio, ou o homem no sentido abstrato, ou ainda o homem geral — homme général[2] – mas com homens individuais e eventos individuais. Entretanto, até mesmo aqui há uma diferença conspícua entre a história e a ficção.

Os indivíduos com os quais a história lida podem ser – e muitas vezes são — grupos de indivíduos, e os eventos individuais com os quais ela lida são eventos que afetaram estes grupos de indivíduos. O indivíduo único é um tema que interessa ao historiador primordialmente do ponto de vista da influência que as suas ações exerceram sobre uma multidão de pessoas ou um típico espécime que representa grupos inteiros de indivíduos. O historiador não se preocupa com outras pessoas. Mas, para o escritor de ficção, é sempre o indivíduo como tal que importa, a despeito de sua influência sobre outras pessoas ou se ele pode ou não ser considerado típico.

Isto foi totalmente mal interpretado em algumas doutrinas sobre a literatura desenvolvidas na segunda parte do século XIX. Os autores dessas doutrinas foram iludidos pelas mudanças, ocorridas em seu tempo, no tratamento da história. Enquanto os historiadores antigos escreviam principalmente sobre grandes homens e assuntos de estado, os historiadores modernos passaram a abordar a história das ideias, instituições e condições sociais. Numa época em que o prestígio da ciência ultrapassou em muito o da literatura, e zelotes positivistas desdenhavam a ficção como um passatempo inútil, os escritores tentavam justificar sua atividade representando-a como um ramo da investigação científica. Na opinião de Émile Zola, o romance era uma espécie de psicologia social e economia descritiva, que deveria se basear na exploração meticulosa de instituições e condições específicas. Outros autores foram além, e afirmaram que apenas o destino de classes, nações e raças, e não o de indivíduos, deveria ser abordado em peças e romances. Eles destruíram a distinção entre um relatório estatístico e uma peça ou romance “social”.

Os livros e peças escritos de acordo com os preceitos desta estética naturalista acabaram sendo obras de má qualidade. Qualquer escritor de destaque que endossou esses princípios o fez da boca pra fora. O próprio Zola foi muito comedido na aplicação de sua doutrina.

O tema de romances e peças é o homem individual, como ele vive, sente e age, e não entidades coletivas anônimas. Seu meio é o cenário do retrato que o autor pinta; é o estado da situação externa à qual os personagens respondem, através de movimentos e ações. Não existe um romance ou peça cujo herói seja um conceito abstrato, como uma raça, uma nação, uma casta ou um partido político. Somente o homem é o tema perene da literatura, o homem real e individual, e como ele vive e age.

As teorias das ciências apriorísticas — a lógica, a matemática e a praxeologia — e os fatos experimentais estabelecidos pelas ciências naturais podem ser vistos sem que se faça referência à personalidade de seus autores. Ao lidarmos com os problemas da geometria euclidiana não nos preocupamos com o homem Euclides, e podemos até mesmo nos esquecer de que ele já viveu. A obra do historiador é necessariamente colorida pela compreensão específica do historiador acerca dos problemas em questão, mas ainda é possível discutir as diversas questões implícitas sem que se faça referência ao fato histórico de que elas se originaram de um autor específico. Esta objetividade não é possível quando se trata de obras de ficção. Um romance ou uma peça sempre tem um herói a mais do que a sua trama indica. É também uma confissão do autor, e fala tanto sobre ele quanto sobre as personagens da história; revela o mais íntimo de sua alma.

Já se afirmou que há mais verdade na ficção que na história. Na medida em que o romance ou a peça são vistos como uma revelação da mente do autor, esta afirmação certamente está correta. O poeta sempre escreve sobre ele próprio, sempre analisa sua própria alma.

 

5. Racionalização

 

A análise timológica do homem é essencial para o estudo da história. Ela transmite tudo o que podemos saber sobre os fins últimos e os julgamentos de valor. Mas, como foi indicado anteriormente, ela é inútil para a praxeologia e tem pouca utilidade quando se está lidando com os meios utilizados para se obter os fins buscados.

No que diz respeito à escolha de meios, tudo o que importa é a sua adequação à obtenção dos fins buscados. Não há qualquer outro padrão para se avaliar os meios. Existem meios apropriados e meios inapropriados. Do ponto de vista de quem realiza a ação, a escolha de meios inapropriados é sempre errônea, uma falha imperdoável.

A história precisa explicar a origem destes erros recorrendo à timologia e à compreensão específica. Como o homem é falível, e a busca por meios apropriados é muito difícil, o curso da história humana é, no geral, uma série de erros e frustrações. Ao olharmos para trás, a partir do estado atual de nosso conhecimento, somos tentados por vezes a depreciar as eras passadas e nos vangloriar da eficiência dos nossos tempos. No entanto, até mesmo os especialistas da “era atômica” não estão imunes ao erro.

Deficiências na escolha dos meios e na forma de agir nem sempre são provocadas por ineficiência e pensamentos errôneos. Frequentemente a frustração é resultado da irresolução no que diz respeito à escolha dos fins. Ao hesitar entre diversas metas incompatíveis, o homem que age vacila no modo como conduz a situação. A indecisão impede que ele avance diretamente rumo a uma meta; ele se move de um lado para outro. Primeiro vai para a esquerda, depois para a direita. Desta maneira, ele não consegue obter nada. A história política, diplomática e militar lidou extensivamente com esse tipo de ação irresoluta na conduta dos assuntos de estado. Freud mostrou o papel que os impulsos reprimidos pelo inconsciente desempenham na vida cotidiana do indivíduo, na forma de esquecimentos, erros, deslizes orais ou escritos e acidentes.

Um homem que é obrigado a justificar a maneira como lidou com um determinado assunto aos olhos de outras pessoas muitas vezes recorre a um pretexto. Ele atribui, como motivo para o seu desvio da maneira adequada de proceder, uma razão diferente do que a que de fato estava por trás de seus atos. Ele não ousa admitir sua motivação real, porque sabe que seus críticos não a aceitariam como uma justificativa suficiente. A racionalização é o nome dado pela psicanálise para a construção de um pretexto que visa justificar a conduta na própria mente de quem age. Ou este indivíduo está relutante em admitir o motivo verdadeiro para si mesmo, ou ele não tem consciência dos impulsos reprimidos que estão por trás de seus atos. Ele disfarça o impulso inconsciente atribuindo razões aceitáveis para o seu superego às suas ações. Ele não está trapaceando e mentindo conscientemente; ele próprio é uma vítima de suas ilusões e crenças. Falta-lhe a coragem para encarar diretamente a realidade. Como ele conjetura, de maneira vaga, que a cognição do estado verdadeiro da situação lhe seria desagradável, minaria sua auto-estima e enfraqueceria sua resolução, ele evita analisar os problemas além de um determinado ponto. É claro que esta é uma atitude um tanto perigosa, uma fuga de uma realidade indesejável para um mundo imaginário de fantasia que lhe parece mais agradável. Alguns poucos passos adiante na mesma direção poderiam levá-lo à insanidade.

No entanto, nas vidas dos indivíduos existem mecanismos de controle que evitam que estas racionalizações se tornem generalizadas e causem danos. E exatamente porque a racionalização é um tipo de comportamento comum a tantos, as pessoas têm um cuidado excessivo, e muitas vezes suspeitam dele onde ele nem mesmo existe. Algumas pessoas estão sempre prontas para desmascarar as tentativas ardilosas de seus vizinhos de fortalecer sua própria auto-estima. As lendas racionalizadoras mais habilmente construídas não podem, no longo prazo, suportar os ataques insistentes daqueles que desejam desmascará-las.

Algo totalmente diferente ocorre com a racionalização desenvolvida para beneficiar os grupos sociais. Esta pode florescer abundantemente, porque não encontra qualquer crítica da parte dos membros do grupo, e porque a crítica de quem está fora do grupo é desprezada como sendo obviamente preconceituosa. Uma das principais tarefas da análise histórica é estudar as diversas manifestações da racionalização em todos os campos das ideologias políticas.

 

6. Introspecção

 

A disputa apaixonada entre os introspeccionistas e os anti-introspeccionistas se refere aos problemas da psicologia naturalista, e não afeta a timologia. Nenhum dos métodos e procedimentos recomendados pelas escolas anti-introspeccionistas pode transmitir qualquer informação e conhecimento acerca dos fenômenos explorados pela timologia.

Sendo ele próprio um ego que avalia e age, cada homem conhece o significado de avaliar e agir. Ele tem consciência de que não é neutro em relação aos diversos estados de seu meio, que ele prefere certos estados a outros, e que ele tenta de maneira consciente, uma vez que estejam presentes as condições para uma interferência de sua parte, substituir um estado que ele gosta menos por outro que ele goste mais. É impossível imaginar um ser humano são que não tenha este discernimento. Não é menos importante conceber como um ser que não tenha este discernimento possa vir a adquiri-lo através de alguma experiência ou instrução. As categorias de valor e ação são elementos primários e apriorísticos, presentes em todas as mentes humanas. Nenhuma ciência deveria ou poderia atacar os problemas envolvidos sem um conhecimento prévio destas categorias.

Somente porque temos consciência destas categorias é que sabemos o que um significado significa, e temos a chave para interpretar as atividades de outras pessoas. Esta consciência faz com que façamos a distinção, no mundo externo, de duas esferas separadas, a dos assuntos humanos e a das coisas não-humanas, ou a das causas finais e a da causalidade. Não nos cabe lidarmos aqui com a causalidade; porém devemos enfatizar que o conceito de causas finais não se origina da experiência ou da observação de algo externo; ela está presente na mente de todos os seres humanos.

É necessário enfatizar repetidamente que nenhuma afirmação ou proposição que diz respeito à ação humana pode ser feita sem que implique uma referência aos fins que estão sendo buscados. O próprio conceito de ação é finalístico, e desprovido de qualquer sentido e significado se não estiver se referindo à busca consciente de fins escolhidos. Não há experiência no campo da ação humana que possa ser experimentada sem que se recorra à categoria de meios e fins. Se o observador não estiver familiarizado com a ideologia, a tecnologia e a terapêutica dos homens cujo comportamento ele estiver observando, ele não poderá deduzir nada a partir dele. Ele vê pessoas correndo de um lado para o outro e movendo suas mãos, porém só passa a entender do que se trata quando descobre o que elas desejam obter.

Se, ao empregar o termo “introspecção”, o positivista estiver se referindo a declarações como aquelas expressas nas últimas quatro palavras da frase “Paul corre para pegar o trem”, então podemos afirmar que nenhum ser humano são pode abrir mão de recorrer à introspecção em todos os seus pensamentos.



[1] Alguns autores, como, por exemplo, Santayana, utilizaram o termo “psicologia literária”; ver o seu livroCeticismo e a Fé Animal, cap. 24. No entanto, o uso deste termo parece ser desaconselhável, não só porque ele foi utilizado de maneira pejorativa por Santayana, assim como por muitos representantes da psicologia naturalista, mas porque é impossível formar um adjetivo correspondente. “Timologia” deriva do grego ??µ??, que Homero e outros autores se referiram como sendo o centro das emoções e a faculdade mental do corpo vivo, através do qual seriam conduzidos o pensamento, a vontade  e o sentimento. Ver Wilhelm von Volkmann, Lehrbuch der Psychologie (Cothen, 1884), I, 57-9; Erwin Rohde, Psyche, trad. de W. B. Hillis (Londres, 1925), p. 50; Richard B. Onians, The Origins of European Thought about the Body, the Mind, the Soul, the World, Time, and Fate (Cambridge, 1951), p. 49-56. Recentemente o professor Hermann Friedmann utilizou o termo Thymologie com uma conotação um tanto diferente; ver o seu livro Das Gemut, Gedanken zu einer Thymologie (Munique, C. H. Beck, 1956), p. 2-16.

[2] P. Lacombe, De l’histoire considérée comme science (2ª ed., Paris, 1930), p. 35-41.

 

Artigo anteriorTeoria e História
Próximo artigoTeoria e História
Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.