Teoria e História

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Capítulo 15. Interpretações Filosóficas da História

1. Filosofias da História e Interpretações Filosóficas da História

 

AS TENTATIVAS de produzir uma interpretação filosófica da história não devem ser confundidas com qualquer um dos diversos esquemas de filosofia da história. Eles não têm como meta a descoberta do fim para o qual tende o processo da história humana; tentam enfatizar fatores que desempenham um papel relevante na determinação do curso dos eventos históricos. Eles lidam com os fins que indivíduos e grupos de indivíduos têm como meta, porém se abstêm de dar qualquer opinião sobre o fim e o significado do processo histórico como um todo, ou sobre um destino predeterminado da humanidade. Eles não se baseiam na intuição, mas em um estudo da história. Tentam demonstrar a correção de sua interpretação referindo-se a fatos históricos. Neste sentido, podem ser chamados de discursivos e científicos.

É inútil entrar numa discussão sobre os méritos e deméritos de um tipo específico de filosofia da história. Uma filosofia da história tem que ser aceita como um todo, ou rejeitada como um todo. Nenhum argumento lógico e nenhuma referência aos fatos podem ser feitos a favor ou contra uma filosofia da história. Não é uma questão de se raciocinar a respeito disso; o que importa é apenas acreditar ou não. É possível que, daqui a alguns anos, toda a Terra esteja dominada pelo socialismo. Se isto ocorrer, não significará a confirmação da variante marxista da filosofia da história. O socialismo não será o resultado de uma lei funcionando “independentemente da vontade dos homens” com “a inexorabilidade de uma lei da natureza”. Ele será justamente o resultado das ideias que entraram nas cabeças dos homens, da convicção partilhada pela maioria de que o socialismo lhes será mais benéfico que o capitalismo.

Uma interpretação filosófica da história pode ser mal-utilizada para fins de propaganda política. No entanto, é fácil separar o núcleo científico da doutrina de sua adaptação e modificação política.

 

2. Ambientalismo

 

O ambientalismo é a doutrina que explica as mudanças históricas como produtos do ambiente em que vivem as pessoas. Existem duas variantes desta doutrina: a doutrina do ambientalismo físico ou geográfico, e a doutrina do ambientalismo social ou cultural.

A primeira doutrina afirma que as características essenciais da civilização de um povo são produzidas por fatores geográficos. As condições físicas, geológicas e climáticas e a flora e a fauna de uma região determinam os pensamentos e ações de seus habitantes. Na formulação mais radical de sua tese, os autores antropogeográficos estão ávidos para identificar as origens de todas as diferenças entre raças, nações e civilizações na ação do ambiente natural do homem.

O erro inerente a esta interpretação é que ela enxerga a geografia como um fator ativo e a ação humana como um fator passivo. O ambiente geográfico, no entanto, é apenas um dos componentes da situação na qual o homem é colocado por seu nascimento, que faz com que ele se sinta incômodo e o impele a empregar sua razão e suas forças corpóreas para se livrar deste incômodo da melhor maneira que conseguir. A geografia (natureza) proporciona, por um lado, um estímulo a agir e, por outro, tanto os meios que podem ser utilizados para que ele aja quanto os limites intransponíveis impostos à busca humana pelo melhoramento. Ela proporciona um estímulo, mas não uma resposta. A geografia impõe uma tarefa, mas o homem tem que realizá-la. O homem vive num ambiente geográfico definido, e é forçado a ajustar suas ações às condições deste ambiente; no entanto, a maneira como ele se ajusta, os métodos de sua adaptação social, tecnológica e moral, não são determinados por fatores físicos externos. O continente norte-americano não foi responsável por produzir nem a civilização dos índios aborígenes nem a dos americanos de origem europeia.

A ação humana é uma reação consciente ao estímulo oferecido pelas condições sob as quais o homem vive. Como alguns dos componentes desta situação sob a qual ele vive e é instigado a agir variam em diferentes partes do globo terrestre, também existem diferenças geográficas na civilização. Os sapatos de madeira dos pescadores holandeses não seriam úteis aos montanheses da Suíça. Casacos de pele são práticos no Canadá, mas não o são no Taiti.

A doutrina do ambientalismo social e cultural apenas enfatiza o fato de que existe — necessariamente — uma continuidade na civilização humana. A nova geração não cria uma nova civilização a partir do zero; ela ingressa no meio social e cultural criado pelas gerações anteriores. O indivíduo nasce numa data específica da história dentro de uma situação específica, determinada pela geografia, história, instituições sociais, costumes e ideologias. Ele tem que se deparar diariamente com a alteração feita por seus contemporâneos na estrutura deste ambiente tradicional. Ele não vive simplesmente no mundo; vive num local específico, e é auxiliado e prejudicado em suas ações por tudo que é peculiar a esse local. Mas ele não é determinado por ele.

A verdade contida no ambientalismo é a cognição de que todo indivíduo vive numa época específica, num espaço geográfico específico, e age sob as condições determinadas por esse ambiente. O ambiente determina a situação, mas não a resposta. Diferentes modos de se reagir à mesma situação podem ser concebidos e realizados. Qual será escolhido por quem está agindo depende de sua individualidade.

 

3. A Interpretação Igualitária da História

 

A maioria dos biólogos defende que existe apenas uma espécie de homem. O fato de que todas as pessoas podem cruzar entre si e produzir descendentes férteis é tido como prova da unidade zoológica da humanidade. No entanto, dentro da espécie Homo sapiens existem inúmeras variações, que tornam imperativa a distinção entre subespécies ou raças.

Existem diferenças corporais consideráveis entre os membros das diversas raças; existem também diferenças notáveis, embora menos significativas, entre membros da mesma raça, sub-raça, tribo ou família, e até entre irmãos e irmãs, e mesmo entre gêmeos não-idênticos. Cada indivíduo, ao nascer, já é diferente de outros espécimes no que diz respeito ao seu corpo; caracteriza-se por traços individuais próprios. Não importa, no entanto, quão grandes possam ser essas diferenças, elas não afetam a estrutura lógica da mente humana. Não existe a menor evidência que corrobore a tese, desenvolvida por diversas escolas de pensamento, que a lógica e a maneira de pensar das diferentes raças sejam categoricamente diferentes.

O tratamento científico das diferenças congênitas entre indivíduos e de sua herança biológica e fisiológica foi terrivelmente confundida e distorcida por preconceitos políticos. A psicologia behaviorista sustenta que todas as diferenças nas características mentais entre os homens são causadas por fatores ambientais. Ela nega qualquer influência da estrutura corpórea sobre as atividades mentais, e acredita que a equalização das condições externas da educação e da vida humana pode eliminar todas as diferenças culturais entre os indivíduos. A observação contradiz essas afirmações; ela mostra que existe um grau de correlação entre a estrutura corporal e as características mentais. Um indivíduo herda de seus pais e, indiretamente, dos ancestrais de seus pais, não só as características biológicas específicas de seu corpo, mas também um conjunto de capacidades mentais que define os limites de suas realizações mentais e sua personalidade. Algumas pessoas são dotadas de uma capacidade inata para determinados tipos de atividades, enquanto outras não têm esse dom, ou o tem com menor intensidade.

A doutrina behaviorista foi utilizada para apoiar o programa socialista do tipo igualitário. O socialismo igualitário ataca o princípio liberal clássico da igualdade perante a lei. Na sua opinião, as desigualdades de renda e de riqueza que existem na economia de mercado estão na sua origem, e a sua importância social não é diferente daquela que existe numa sociedade estratificada. São resultado de usurpações, expropriações e da consequente exploração das massas produzida pela violência arbitrária. Os beneficiários dessa violência formam uma classe dominante cujo instrumento, o estado, mantém os explorados subjugados à força. O que distingue o “capitalista” do “homem comum” é o fato de que ele se juntou à gangue dos exploradores inescrupulosos. A única qualidade que um empresário deve ter é a vilania. Sua ocupação, segundo Lenin, é a contabilidade e o controle da produção e da distribuição, e estas coisas foram “simplificadas ao extremo pelo capitalismo, que as reduziu a formalidades de fiscalização e de inscrição, a operações de aritmética e à entrega de recibos, que são, todas, coisas acessíveis a quem quer que saiba ler e escrever.”[1] Assim, os “privilégios de propriedade” dos “capitalistas” não são menos supérfluos e, por consequência, parasíticos, do que eram os privilégios de classe dos proprietários de terra aristocráticos às vésperas da Revolução Industrial. Ao estabelecer uma igualdade espúria perante a lei e preservar o mais iníquo de todos os privilégios, a propriedade privada, a burguesia enganou as pessoas ingênuas e roubou-lhes os frutos da revolução.

Esta doutrina, já vagamente presente nos escritos de alguns autores antigos, e popularizada por Jean-Jacques Rousseau e Babeuf, foi transformada, na doutrina marxista da luta de classes, numa interpretação de todo o processo da história humana a partir do ponto de vista da usurpação. No contexto da filosofia da história marxista, o surgimento das diferenças de status e classe foi um resultado necessário e historicamente inevitável da evolução das forças materiais produtivas. Os membros das castas e classes dominantes não eram individualmente responsáveis pelos agentes de opressão e exploração. Não eram moralmente inferiores àqueles que  mantinham em subserviência. Eram simplesmente os homens que o destino inescrutável havia escolhido para desempenhar uma tarefa social, econômica e historicamente necessária. Como o estado das forças materiais produtivas determinava o papel de cada indivíduo na consumação do processo histórico, era o seu papel executar tudo o que haviam logrado.

No entanto, uma descrição bem diferente da marcha dos assuntos humanos é apresentada nos escritos em que Marx e Engels lidam com problemas históricos ou com as questões políticas de sua própria época. Neles, eles apoiam a doutrina popular da corrupção moral inerente aos “exploradores”. A história humana aparece como um processo de progressiva corrupção moral, que se iniciou quando as venturosas condições das comunidades que habitavam as aldeias primevas foram perturbadas pela cobiça de indivíduos egoístas. A propriedade privada da terra é o pecado original, que, passo a passo, trouxe consigo todos os desastres que assolaram a humanidade. O que eleva o “explorador” acima do patamar dos outros homens é unicamente a vilania. Nos três volumes do Capital a falta de escrúpulos é a única qualidade mencionada como sendo necessária a um “explorador”. A melhoria da tecnologia e o acúmulo de capital que Marx considerava um pré-requisito para a realização do socialismo foram descritos como resultado da evolução espontânea das míticas forças materiais produtivas. Os “capitalistas” não recebem nenhum crédito por estas conquistas. Tudo o que estes vilões fazem é expropriar aqueles que deveriam ter o direito de colher os frutos da operação das forças materiais produtivas. Eles apropriam para si a “mais-valia”. São meros parasitas, e a humanidade pode muito bem viver sem eles.

Esta interpretação da história a partir do ponto de vista igualitário é a filosofia oficial de nossos tempos. Ela pressupõe que um processo automático de evolução histórica tende a melhorar os métodos tecnológicos de produção, acumular riquezas, e fornecer os meios para melhorar o padrão de vida das massas. Examinando o desenvolvimento das condições no Ocidente capitalista nos últimos dois séculos, os estatísticos veem uma tendência do aumento de produtividade e conjecturam alegremente que esta tendência continuará, qualquer que seja a organização econômica da sociedade. Em seu ponto de vista, uma tendência de evolução histórica é algo que está acima do nível das ações dos homens, um fato confirmado “cientificamente” que não pode ser afetado pelos homens e pelo sistema social; logo, nenhum dano poderá resultar das instituições — como a legislação tributária contemporânea — que têm como meta varrer do mapa as desigualdades de renda e riqueza.

A doutrina igualitária é manifestamente contrária a todos os fatos estabelecidos pela biologia e pela história. Somente partidários fanáticos desta teoria podem afirmar que o que distingue o gênio do tolo é unicamente o efeito das influências pós-natais. A suposição de que a civilização, o progresso e as melhorias emanam da operação de algum fator mítico — na filosofia marxista, as forças materiais produtivas — que molda as mentes dos homens de tal maneira que determinadas ideias são sucessivamente produzidas ao mesmo tempo neles, é uma fantasia absurda.

Já se falou muita bobagem a respeito da inexistência de diferenças entre os homens. Mas nunca houve uma tentativa de se organizar a sociedade de acordo com o princípio igualitário. O autor de um tratado igualitário e o líder de um partido igualitário, através de suas próprias atividades, contradizem o princípio que alegam, de maneira hipócrita, defender. O papel histórico desempenhado pelo credo igualitário foi disfarçar as formas mais abjetas de opressão despótica. Na Rússia soviética o igualitarismo é proclamado como um dos principais dogmas do credo oficial. Mas Lenin foi endeusado após a sua morte, e Stalin foi venerado durante sua vida como nenhum governante havia sido desde os tempos da decadência do Império Romano.

As fábulas igualitárias não explicam o curso da história passada, são inapropriadas para uma análise dos problemas econômicos, e inúteis para o planejamento de ações políticas futuras.

 

4. A Interpretação Racial da História

 

É um fato histórico que as civilizações desenvolvidas pelas diversas raças são diferentes entre si. Em épocas antigas era possível estabelecer essa verdade sem tentar distinguir entre civilizações superiores e inferiores. Toda raça, podia-se afirmar, desenvolve uma cultura que se adapta aos seus desejos, necessidades e ideais. O caráter de uma raça encontra sua expressão adequada em suas realizações. Uma raça pode imitar conquistas e instituições de outras raças, porém ela não anseia por abandonar totalmente seu próprio padrão cultural e substituí-lo por um sistema estrangeiro. Se, por volta de dois mil anos atrás, os greco-romanos e os chineses tivessem conhecido a civilização uns dos outros, nenhuma raça admitiria a superioridade da outra civilização.

O mesmo não ocorre em nossa época. Os não-caucasianos afirmam odiar e desprezar o homem branco, podem planejar a sua destruição e obtêm prazer ao louvar extravagantemente suas próprias civilizações. No entanto, eles anseiam pelas conquistas tangíveis do Ocidente, por sua ciência, tecnologia, terapêutica, seus métodos governamentais e de administração industrial. Muitos de seus porta-vozes declaram que querem apenas imitar a cultura material do Ocidente, e fazê-lo de tal modo que ela não entre em conflito com suas ideologias nativas ou ponha em risco suas crenças e observâncias religiosas. Eles não conseguem enxergar que a adoção daquilo que chamam depreciativamente de meras conquistas materiais do Ocidente é incompatível com a preservação de seus tabus e ritos tradicionais, bem como os costumes de seu estilo de vida. Eles cedem à ilusão de que as pessoas podem tomar emprestada a tecnologia do Ocidente e atingir um padrão de vida material superior sem que antes tenham que, através de uma Kulturkampf, despir-se da visão de mundo e dos costumes legados por seus ancestrais. Seu erro é corroborado pela doutrina socialista, que também deixa de reconhecer que as conquistas tecnológicas do Ocidente foram produzidas pelas filosofias do racionalismo, individualismo e utilitarismo, e estão fadadas a desaparecer se os princípios coletivistas e totalitaristas substituírem o capitalismo pelo socialismo.

O que quer que as pessoas possam dizer sobre a civilização ocidental, o fato é que todos os povos têm inveja de suas conquistas, querem reproduzi-los, e, por consequência, admitir de maneira implícita a sua superioridade. Foi esta situação que gerou a doutrina moderna das diferenças raciais e sua consequência política, o racismo.

A doutrina das diferenças raciais sustenta que algumas raças foram mais bem-sucedidas que outras na busca daquelas metas que são comuns a todos os homens. Todos os homens querem resistir à operação dos fatores que são prejudiciais à preservação de suas vidas, sua saúde e seu bem-estar. Não se pode negar que o capitalismo ocidental moderno foi o sistema que obteve melhores resultados nestes esforços. Ele aumentou a longevidade média e aumentou o padrão médio de vida de uma maneira nunca vista. Tornou acessível ao homem comum aquelas conquistas humanas superiores — a filosofia, a ciência, a arte — que, no passado, estavam em todos os lugares, e hoje em dia ainda são, fora dos países do capitalismo ocidental, acessíveis a apenas uma pequena minoria. Resmungões podem criticar a civilização ocidental por seu materialismo, e afirmar que ela não beneficia ninguém além de uma pequena classe de exploradores toscos. Seus lamentos, no entanto, não podem eliminar os fatos. Milhões de mães ficaram mais felizes com a queda nas taxas de mortalidade infantil. A fome desapareceu e as epidemias foram controladas. O homem médio vive em condições mais satisfatórias do que seus ancestrais ou os seus semelhantes que vivem em países não-capitalistas. E não se pode repudiar como materialista uma civilização que torna possível para quase todos apreciar uma sinfonia de Beethoven executada por uma orquestra regida por um maestro eminente.

A tese de que algumas raças tiveram mais sucesso que outras em seus esforços para desenvolver uma civilização, enquanto afirmação sobre a experiência histórica, é inatacável. Para se resumir o que aconteceu no passado, é bem correto afirmar que a civilização moderna é uma conquista do homem branco. No entanto, a constatação deste fato não justifica nem a presunção racial do homem branco nem as doutrinas políticas do racismo.

Muitas pessoas se orgulham do fato de que seus ancestrais ou parentes realizaram grandes feitos. Saber que pertencem a uma família, clã, nação ou raça que se destacou no passado dá a muitos homens uma satisfação especial. Esta vaidade inócua, no entanto, se transforma facilmente em desprezo por aqueles que não pertencem ao mesmo grupo distinto, e em tentativas de humilhá-los e insultá-los. Os diplomatas, soldados, burocratas, comerciantes e empresários das nações ocidentais que, em seus contatos com outras raças exibiram uma insolência arrogante não têm qualquer direito de reivindicar para si os feitos da civilização ocidental. Não foram eles quem fizeram essa cultura, que estão colocando em risco através do seu comportamento. Sua insolência, que encontrou sua expressão máxima em placas como “entrada proibida para cães e nativos” envenenou as relações entre as raças por muitas gerações. Mas não é necessário que lidemos com estes tristes fatos numa análise das doutrinas raciais.

A experiência histórica justifica a afirmação de que, no passado, os esforços de algumas subdivisões da raça caucasiana para desenvolver uma civilização ofuscaram os mesmos esforços dos membros de outras raças. Ela não justifica, no entanto, qualquer afirmação sobre o futuro; não nos permite pressupor que esta superioridade da raça branca continuará a existir no futuro. Nada pode ser previsto a partir da experiência histórica com um grau de probabilidade que possa ser comparado com a probabilidade das previsões estabelecidas em experimentos de laboratório. Em 1760 um historiador teria razão ao afirmar que a civilização ocidental era, acima de tudo, uma conquista dos latinos e dos britânicos, e que os alemães haviam contribuído pouco para ela. Era possível, na época, afirmar que a ciência, a arte, a literatura, a filosofia e a tecnologia germânica eram insignificantes quando comparados aos feitos dos membros de outras nações. Podia-se afirmar com justiça que os alemães que haviam se destacado nestes campos — entre eles, principalmente, os astrônomos Copérnico[2] e Kepler, e o filósofo Leibniz — só foram bem-sucedidos porque haviam conseguido absorver integralmente a contribuição dos não-germânicos, que intelectualmente eles não pertenciam à Alemanha, que por muito tempo eles não tiveram seguidores alemães, e que aqueles que primeiro deram valor às suas doutrinas foram, predominantemente, não-germânicos. Mas, se alguém tivesse deduzido a partir desses fatos que os alemães são inferiores, culturalmente, e estariam no futuro numa posição inferior aos franceses e britânicos, sua conclusão acabaria por ser desmentida pelo curso da história futura.

Uma previsão sobre o comportamento futuro daquelas raças que hoje em dia são consideradas atrasadas, culturalmente, só pode ser feita através da ciência biológica. Se a biologia descobrisse alguma característica anatômica nos membros das raças não-caucasianas que representasse necessariamente um obstáculo às suas faculdades mentais, tal previsão poderia ser feita. Mas até agora a biologia não descobriu qualquer característica do tipo.

Não é a função deste ensaio lidar com as questões biológicas da doutrina racial; ele deve, portanto, se abster de analisar os problemas controversos de pureza racial e miscigenação. Tampouco nos cabe investigarmos os méritos do programa político do racismo. Isto é uma tarefa para a praxeologia e para a economia.

Tudo o que se pode dizer sobre questões raciais com base na experiência história acaba se resumindo a duas afirmações. Primeiro, as diferenças que predominam entre as diversas ramificações biológicas dos homens se refletem nas conquistas civilizatórias dos membros destes grupos. Segundo, em nossos tempos, as principais conquistas civilizatórias de algumas subdivisões da raça branca caucasiana são vistas pela imensa maioria de todas as outras raças como mais desejáveis do que as características mais marcantes da civilização produzida pelos membros de suas respectivas raças.

 

5. O Secularismo da Civilização Ocidental

 

Uma interpretação quase universalmente aceita da civilização moderna faz uma distinção entre os seus aspectos espirituais e materiais. A distinção é suspeita, na medida em que ela não se origina de uma observação imparcial dos fatos, mas do ressentimento. Toda raça, nação ou grupo linguístico se gaba das conquistas de seus membros em questões espirituais, mesmo que admita seu atraso nas questões materiais. Presume-se que haja pouca ligação entre os dois aspectos da civilização, que o espiritual seja mais sublime, merecedor e digno de louvor do que o “mero” material, e que a preocupação com melhorias materiais impede que um povo dedique suficiente atenção às questões espirituais.

No século XIX, este era o pensamento dos líderes dos povos orientais que ansiavam por reproduzir, em seus próprios países, as conquistas do Ocidente. O estudo da civilização ocidental fez com que eles desprezassem inconscientemente as instituições e ideologias de seus países nativos, e deixou-lhes com um sentimento de inferioridade. Eles restabeleceram seu equilíbrio mental através da doutrina que depreciava a civilização ocidental como sendo meramente materialista. Os romenos ou turcos que desejavam ardentemente ferrovias e fábricas construídas pelo capital ocidental se consolavam com a exaltação da cultura espiritual de suas próprias nações. Os hindus e chineses pisavam, obviamente, em solo mais firme quando se referiam à literatura e à arte de seus ancestrais. Mas parece que não lhes ocorreu que centenas de anos separavam-nos das gerações que haviam se destacado na filosofia e na poesia, e que na época daqueles célebres ancestrais suas nações estavam, se não à frente, seguramente no mesmo patamar, em termos de civilização material, de qualquer outro de seus contemporâneos.

Nas últimas décadas a doutrina que deprecia a civilização moderna ocidental como meramente materialista tem recebido o apoio quase universal das nações que produziram esta civilização. Comparar a prosperidade dos Estados Unidos com as condições atuais de seus próprios países traz conforto aos europeus. Para os socialistas americanos, serve como um dos principais argumentos em seus esforços para retratar o capitalismo americano como uma maldição para a humanidade. Forçados relutantemente a admitir que o capitalismo derrama sobre as pessoas uma cornucópia de abundância e que a previsão marxista do empobrecimento progressivo das massas foi desmentida de maneira espetacular pelos fatos, eles tentam salvar sua depreciação do capitalismo descrevendo a civilização contemporânea como meramente materialista e falsa.

Ataques amargos contra a civilização moderna têm sido feitos por autores que acreditam estar defendendo a causa da religião. Eles repreendem os nossos tempos por seu secularismo. Lamentam o fim de um modo de vida no qual, eles querem que acreditemos, as pessoas não estavam preocupadas com a busca por ambições terrenas mas, antes de tudo, com a observância rígida de suas obrigações religiosas. Eles atribuem todos os males à propagação do ceticismo e do agnosticismo, e advogam apaixonadamente um retorno à ortodoxia daqueles tempos passados.

É difícil encontrar uma doutrina que distorça mais radicalmente a história do que este antissecularismo. Sempre existiram homens devotos, de coração puro, dedicados a uma vida pia. Mas a religiosidade destes crentes sinceros nada tem em comum com o sistema estabelecido de devoção. É um mito que as instituições políticas e sociais das eras que antecederam a filosofia individualista e o capitalismo modernos eram imbuídas de um espírito cristão genuíno. Os ensinamentos dos Evangelhos não determinavam a atitude oficial dos governos em relação à religião. O que se deu foi o contrário; as preocupações mundanas dos governantes seculares — reis absolutistas e oligarquias aristocráticas, mas ocasionalmente também camponeses revoltosos e turbas urbanas — é que transformaram a religião num instrumento de ambições políticas profanas.

Nada poderia ser menos compatível com a verdadeira religião que a perseguição impiedosa de dissidentes e os horrores das cruzadas e guerras religiosas. Historiador algum já negou que havia muito pouco do espírito de Cristo nas igrejas do século XVI, criticadas pelos teólogos da Reforma, e nas do século XVIII, que os filósofos do Iluminismo atacaram.

A ideologia do individualismo e do utilitarismo, que deu início ao capitalismo moderno, também trouxe liberdade aos anseios religiosos do homem. Ela destruiu a pretensão daqueles que ocupam o poder de impor seu próprio credo sobre aqueles que são governados por eles. A religião não é mais uma observância cega a princípios imposta por guardas e carrascos. É aquilo que um homem, guiado por sua consciência, adota espontaneamente como sua própria fé. A civilização ocidental moderna é laica; mas foi precisamente o seu secularismo, sua indiferença religiosa, que deu carta branca para o renascimento de um sentimento religioso genuíno. Aqueles que praticam sua religião hoje em dia num país livre não são motivados pelo braço secular, mas por sua consciência. Ao obedecer aos preceitos de sua crença, eles não têm a intenção de evitar a punição das autoridades terrenas, mas de obter a salvação e a paz de espírito.

 

6. A Rejeição do Capitalismo pelo Antissecularismo

 

A hostilidade demonstrada pelos defensores do antissecularismo aos modos de vida modernos se manifesta na condenação do capitalismo como um sistema injusto.

Na opinião dos socialistas, bem como na dos intervencionistas, a economia de mercado impede a utilização plena das conquistas tecnológicas e, assim, obstrui a evolução da produção e restringe a quantidade de bens produzidos e disponíveis para o consumo. Antigamente, estes críticos do capitalismo não negavam que uma distribuição igualitária do produto social entre todos dificilmente produziria uma melhoria perceptível nas condições materiais da imensa maioria das pessoas; em seus planos, a distribuição igualitária desempenhava um papel secundário. A prosperidade e a abundância para todos que eles prometiam deveria, em seu ponto de vista, ser esperada a partir da libertação das forças produtivas dos grilhões que supostamente lhes haviam sido impostos pelo egoísmo dos capitalistas. O propósito das reformas que eles sugeriam era substituir o capitalismo por um sistema mais eficiente de produção e, assim, inaugurar uma era de riquezas para todos.

Agora que a análise econômica expôs as ilusões e falácias contidas na condenação do capitalismo feita pelos socialistas e intervencionistas, eles tentam salvar seus programas recorrendo a outro método. Os marxistas desenvolveram a doutrina da inevitabilidade do socialismo, e os intervencionistas, trilhando o mesmo caminho, falam da irreversibilidade da tendência rumo a uma interferência governamental cada vez maior nos assuntos econômicos. É óbvio que estes expedientes foram projetados apenas para encobrir a sua derrota intelectual e desviar a atenção do público das consequências desastrosas das políticas socialistas e intervencionistas.

Motivos semelhantes estão incitando aqueles que pregam o socialismo e o intervencionismo por motivos morais e religiosos. Eles consideram desnecessário examinar os problemas econômicos em questão, e tentam desviar o foco da discussão dos prós e contras da economia de mercado do campo da análise econômica para o que eles chamam de uma esfera superior. Rejeitam o capitalismo por alegar que ele é um sistema injusto e pregam ou o socialismo ou o intervencionismo porque eles estariam de acordo com seus princípios morais ou religiosos. É perverso, segundo eles, examinar os assuntos humanos a partir do ponto de vista da produtividade, lucros e uma preocupação materialista com a riqueza e uma oferta abundante de bens materiais. O homem deveria buscar a justiça, não a riqueza.

Esta forma de argumentação seria consistente se ela fosse abertamente a favor de atribuir um valor moral inerente à pobreza e condenasse integralmente qualquer esforço de se elevar o padrão de vida acima do nível da mera subsistência. A ciência não tem como fazer objeções a um julgamento de valor como esse, uma vez que julgamentos de valor são escolhas últimas por parte do indivíduo que os faz.

No entanto, aqueles que rejeitam o capitalismo de um ponto de vista moral e religioso não preferem a penúria ao bem-estar. Pelo contrário, eles contam a seus rebanhos que querem melhorar o bem-estar material do homem. Afirmam que a principal fraqueza do capitalismo é que ele não proporciona às massas aquele grau de bem-estar que, como eles acreditam, o socialismo ou o intervencionismo proporcionaria. Sua condenação do capitalismo e sua recomendação para reformas sociais trazem implícitas a tese de que o socialismo ou o intervencionismo elevará, e não reduzirá, o padrão de vida do homem comum. Assim, estes críticos do capitalismo endossam os ensinamentos dos socialistas e intervencionistas sem se preocupar em escrutinar o que os economistas apresentaram para desacreditá-los. O único defeito que eles vêem nos princípios dos socialistas marxistas e nos partidos seculares do intervencionismo é o seu compromisso com o ateísmo ou o secularismo.

É óbvio que a pergunta de qual dos sistemas melhor beneficia o bem-estar material, o socialismo, o capitalismo, ou o intervencionismo, só pode ser respondida através de uma análise cuidadosa do funcionamento de cada um destes sistemas. É isto que a economia está fazendo. É inútil lidar com estas questões sem levar integralmente em conta tudo o que a economia tem a dizer sobre elas.

É justificável que a ética e a religião digam as pessoas que elas devem utilizar melhor o bem-estar que o capitalismo lhes proporciona; que tentem induzir os fiéis a substituir hábitos questionáveis como festas, bebidas e jogos de azar por melhores maneiras de gastar seu dinheiro; que eles condenem a mentira e a trapaça e louvem os valores morais implícitos na pureza das relações familiares e a caridade para com aqueles que estão passando necessidades. Mas é irresponsável condenar um sistema social e recomendar sua substituição por outro sistema sem ter investigado plenamente as consequências econômicas de cada um.

Não há nada em qualquer doutrina ética ou nos ensinamentos de qualquer um dos credos que têm como base dos Dez Mandamentos que possa justificar a condenação de um sistema econômico que multiplicou a população e proporcionou às massas que vivem nos países capitalistas o maior padrão de vida já alcançado na história. Do ponto de vista religioso, também, a diminuição da mortalidade infantil, a prolongação da duração média da vida, o sucesso no combate às pragas e doenças, o desaparecimento de epidemias de fome, do analfabetismo e da superstição falam a favor do capitalismo. As igrejas têm razão em lamentar a destituição das massas nos países atrasados economicamente. Mas estão redondamente enganadas quando presumem que qualquer coisa além da ação incondicional do sistema das grandes empresas que visam o lucro, isto é, a produção em massa para a satisfação das necessidades dos muitos, pode eliminar a pobreza destes pobres indivíduos.

Um religioso ou um moralista consciencioso não cogitariam se envolver em controvérsias a respeito de métodos tecnológicos ou terapêuticos sem estarem suficientemente familiarizados com todos os problemas físicos, químicos e fisiológicos envolvidos. No entanto, muitos deles acreditam que a ignorância da economia não seja um empecilho para a abordagem de questões econômicas. Eles até mesmo se orgulham de sua ignorância. Sustentam que os problemas da organização econômica da sociedade devem ser considerados unicamente do ponto de vista de uma ideia preconcebida de justiça, e sem levar em conta o que eles chamam de uma preocupação materialista esfarrapada com uma vida confortável. Recomendam algumas políticas, rejeitam outras, e não se preocupam com os efeitos que possam resultar a partir da adoção de suas sugestões.

Esta falta de preocupação com os efeitos das políticas, tanto as que são rejeitadas quanto as que são recomendadas, é absurdo; pois os moralistas e os proponentes cristãos do anticapitalismo não se preocupam com a organização econômica da sociedade por puro capricho. Eles estão atrás de reformas das condições existentes porque querem produzir efeitos específicos. O que eles chamam de injustiça do capitalismo é o suposto fato de que ele causa destituição e pobreza generalizada. Advogam reformas que, esperam, eliminará essa pobreza e destituição. Portanto, do ponto de vista de suas próprias avaliações e dos fins que eles próprios estão procurando avidamente atingir, são inconsistentes ao se referir apenas a algo que chamam de padrão superior de justiça e moral e ignorar a análise econômica tanto das políticas capitalistas quanto das anticapitalistas. Sua descrição do capitalismo como injusto e das medidas anticapitalistas como justas é um tanto arbitrária, uma vez que não tem relação com o efeito de cada um destes conjuntos de políticas econômicas.

A verdade é que aqueles que combatem o capitalismo alegando que ele é um sistema contrário aos princípios da moral e da religião adotaram de maneira acrítica e leviana todos os ensinamentos econômicos dos socialistas e comunistas. Como os marxistas, eles atribuem todos os males — crises econômicas, desemprego, pobreza, crime, e muitos outros problemas — ao funcionamento do capitalismo, e tudo o que é satisfatório — o padrão mais elevado de vida nos países capitalistas, o progresso da tecnologia, a queda nas taxas de mortalidade, e assim por diante — ao funcionamento do governo e dos sindicatos trabalhistas. Eles adotaram inconscientemente todos os princípios do marxismo, com exceção do seu ateísmo — meramente incidental. Esta entrega da ética filosófica e da religião aos ensinamentos anticapitalistas é o maior triunfo da propaganda socialista e intervencionista. Ela está fadada a reduzir a ética filosófica e a religião a meras tropas auxiliares nos exércitos que buscam a destruição da civilização ocidental. Ao chamar o capitalismo de injusto e declarar que a sua abolição estabelecerá a justiça, os moralistas e religiosos prestam um serviço inestimável à causa dos socialistas e intervencionistas, e livram-nos de seu maior constrangimento, a impossibilidade de refutar a crítica feita pelos economistas aos seus planos através do raciocínio discursivo.

Deve-se reiterar que nenhum raciocínio fundamentado nos princípios da ética filosófica ou do credo cristão pode rejeitar como sendo fundamentalmente injusto um sistema econômico que consegue melhorar as condições materiais de todas as pessoas, e atribuir o epíteto de “justo” a um sistema que tende a propagar a pobreza e a fome. A avaliação de qualquer sistema econômico deve ser feita a partir de uma análise cuidadosa de seus efeitos sobre o bem-estar das pessoas, não por meio de um apelo a um conceito arbitrário de justiça que deixa de levar em conta estes efeitos.


[1] Lenin, O Estado e a Revolução.

[2] Não precisamos entrar na questão de se Copérnico era um alemão ou um polonês. Ver Mises, Omnipotent Government, p. 15.

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.