Teoria e História

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Capítulo 1. Julgamentos de Valor

1. Julgamentos de Valor e Proposições Existenciais

 

PROPOSIÇÕES que afirmam a existência (proposições existenciais afirmativas) ou a não-existência (proposições existenciais negativas) são descritivas. Elas afirmam algo a respeito do estado de todo o universo ou de partes do universo. No que diz respeito a elas, questões de verdade e falsidade são significativas. Elas não devem ser confundidas com julgamentos de valor.

Julgamentos de valor são voluntaristas. Exprimem sentimentos, gostos ou preferências do indivíduo que os faz. No que diz respeito a eles, não pode existir qualquer questão de verdade e falsidade. São definitivos e não estão sujeitos a qualquer tipo de prova ou evidência.

Julgamentos de valor são atos mentais do indivíduo em questão. Como tal, devem ser amplamente diferenciados das frases através das quais um indivíduo tenta informar outras pessoas sobre o conteúdo de seus julgamentos de valor. Um homem pode ter algum motivo para mentir sobre suas avaliações. Podemos descrever esta situação da seguinte maneira: todo julgamento de valor é também, em si próprio, um fato do estado real do universo e, como tal, pode ser o tópico de proposições existenciais. A frase “eu prefiro Beethoven a Lehar” se refere a um julgamento de valor. Se a olharmos como uma proposição existencial, é verdade que eu de fato prefiro Beethoven e ajo de acordo com este fato, e falso se eu na realidade preferir Lehar e por algum motivo mentir sobre meus sentimentos, gostos ou preferências reais. De maneira análoga, a proposição existencial “Paulo prefere Beethoven a Lehar” pode ser verdadeira ou falsa. Ao declarar que, no que diz respeito a um julgamento ou valor, não pode haver qualquer questão de verdade ou falsidade, estamos nos referindo ao julgamento como tal, e não às frases que comunicam o conteúdo de tal julgamento de valor a outras pessoas.

 

2. Avaliação e Ação

 

Um julgamento de valor é puramente acadêmico se ele não compelir o homem que o faz a algum tipo de ação. Existem julgamentos que devem permanecer acadêmicos pois estão além do poder do indivíduo de tomar alguma atitude motivada por eles. Um homem pode preferir um céu estrelado a um céu sem estrelas, porém ele não pode tentar substituir o estado anterior, que ele prefere, pelo segundo, do qual ele gosta menos.

A importância dos julgamentos de valor consiste precisamente no fato de que são fontes da ação humana. Guiado por suas avaliações, o homem tenta substituir as condições que julga menos satisfatórias por condições que lhe agradem. Ele se utiliza de meios para atingir os fins que busca.

A história dos assuntos humanos, portanto, tem que lidar com os julgamentos de valor que compeliram os homens a agir e direcionaram a sua conduta. O que aconteceu na história não pode ser descoberto e narrado sem que se refira às diversas avaliações dos indivíduos que agiram. É função do historiador fazer julgamentos de valor sobre os indivíduos cuja conduta é o tema de seus estudos. Como um ramo do conhecimento, a história faz apenas proposições existenciais. Porém estas proposições existenciais muitas vezes se referem à presença ou à ausência de julgamentos de valor definitivos nas mentes dos agentes. É uma das tarefas da compreensão específica das ciências históricas estabelecer o que estava contido nos julgamentos de valor dos agentes.

É uma tarefa da história, por exemplo, investigar a origem do sistema de castas da Índia até chegar aos valores que motivaram a conduta das gerações que o desenvolveram, aperfeiçoaram e preservaram. É ainda sua tarefa descobrir quais foram as consequências deste sistema e como os seus efeitos influenciaram os julgamentos de valor das gerações futuras. Mas não cabe ao historiador fazer julgamentos de valor sobre o sistema como tal, louvá-lo ou condená-lo. Ele tem que lidar com a sua relevância para o decorrer dos fatos, compará-lo com os desígnios e intenções de seus autores e adeptos, e retratar seus efeitos e consequências. Ele tem que perguntar se os meios empregados foram ou não apropriados para obter os fins que os agentes tencionavam atingir. É um fato inegável que dificilmente qualquer historiador conseguiu evitar fazer qualquer julgamento de valor; porém estes julgamentos são quase sempre secundários às tarefas genuínas da história. Ao fazê-los o autor fala apenas como um indivíduo, julgando a partir do ponto de vista de suas avaliações pessoais, e não como um historiador.

 

3. A Subjetividade da Avaliação

 

Todos os julgamentos de valor são pessoais e subjetivos. Não existem julgamentos de valor além daqueles que afirmam que eu prefiro, eu gosto mais, eu desejo.

Ninguém pode negar que diferentes indivíduos discordam profundamente no que diz respeito a seus sentimentos, gostos e preferências, e que até os mesmos indivíduos, em diversas ocasiões de suas vidas, valorizam as mesmas coisas de diferentes maneiras. Tendo em vista este fato, é inútil falar sobre valores absolutos e eternos.

Isto não significa que cada indivíduo extraia suas avaliações de sua própria mente. As pessoas, em sua grande maioria, obtêm suas avaliações a partir do meio social em que nasceram e cresceram, onde moldaram sua personalidade e foram educadas. Poucos homens têm o poder de se desviar do conjunto tradicional de valores e estabelecer sua própria escala do que parece ser melhor e do que parece ser pior.

O que o teorema da subjetividade da avaliação significa é que não há um padrão disponível que nos permita rejeitar qualquer julgamento definitivo de valor como errado, falso ou errôneo, do mesmo modo em que podemos rejeitar uma proposição existencial como manifestadamente falsa. É vão argumentar sobre julgamentos definitivos de valor da mesma maneira que argumentamos sobre a verdade ou a falsidade de uma proposição existencial. Assim que começamos a refutar, através de argumentos, um julgamento definitivo de valor, olhamos para ele como um meio para atingirmos determinados fins. Porém o que fizemos, então, foi apenas mudar a discussão para outro plano; não mais enxergamos o princípio em questão como um valor definitivo, mas como um meio para atingirmos um valor definitivo, e novamente nos deparamos com o mesmo problema. Podemos, por exemplo, tentar mostrar a um budista que agir de acordo com os ensinamentos de seu credo resulta em efeitos que consideramos desastrosos. Porém seremos silenciados se ele responder que estes efeitos são, em sua opinião, males menores ou sequer são males, quando comparados ao que de fato resultaria com a não-observância de suas regras de conduta. Suas ideias a respeito do bem supremo, felicidade e bênção eterna são diferentes das nossas. Ele não dá importância para os valores com os quais se preocupam seus críticos, e procura satisfação em coisas diferentes deles.

 

4. A Estrutura Lógica e Sintática dos Julgamentos de Valor

 

Um julgamento de valor vê as coisas do ponto de vista do homem que o faz. Ele não afirma nada sobre as coisas tais como elas são. Manifesta uma resposta afetiva de um indivíduo a condições definidas do universo em comparação com outras condições definidas.

O valor não é intrínseco. Não está nas coisas e nas condições, mas no sujeito que as avalia. É impossível atribuir valor a apenas uma coisa ou a um estado de coisas. A avaliação invariavelmente compara uma coisa ou condição a outra coisa ou condição. Ela estabelece uma graduação entre diversos estados do mundo externo. Contrasta uma coisa ou estado, sejam eles reais ou imaginários, com outra coisa ou estado, sejam eles reais ou imaginários, e coloca-os numa escala daquilo que o autor daquele julgamento goste mais ou menos.

Pode ser que o indivíduo fazendo o julgamento considere ambas as coisas ou condições imaginadas como iguais. Ele não está preocupado se existe A ou B. Seu julgamento de valor, então, exprime indiferença. Nenhuma ação pode resultar de uma disposição neutra como esta.

Por vezes a expressão de um julgamento de valor é elíptica, e faz sentido apenas quando completada apropriadamente pelo ouvinte. “Eu não gosto de sarampo” significa “eu prefiro a ausência de sarampo à sua presença”. Esta incompletude é a marca característica de todas as referências à liberdade. Liberdade invariavelmente significa liberdade de (ausência de) algo a qual se refere expressa ou implicitamente. A forma gramática destes julgamentos pode ser qualificada como negativa. Porém é infrutífero deduzir a partir deste adorno idiomático de uma classe de julgamentos de valor qualquer afirmação acerca de seu conteúdo, e culpá-los por um suposto negativismo. Todo julgamento de valor permite uma formulação na qual a coisa ou estado que é mais valorizado seja expresso logicamente tanto de uma maneira positiva quanto negativa, embora por vezes a língua não tenha desenvolvido um termo apropriado. Liberdade de imprensa implica a rejeição ou negação da censura. Porém, quando afirmada explicitamente, significa um estado de coisas no qual somente o autor determina o conteúdo de sua publicação, em contraste com um estado no qual a polícia tem o direito de interferir naquele assunto.

Uma ação envolve necessariamente a renúncia de algo ao qual um valor inferior é atribuído, para que se atinja ou preserve algo ao qual um valor superior foi atribuído. Assim, por exemplo, renuncia-se a uma quantidade definida de lazer para que se possa colher os frutos de uma quantidade definida de trabalho. A renúncia ao prazer é o meio para se obter uma coisa ou estado a que se atribui mais valor. Existem homens cujos nervos são tão sensíveis que não conseguem suportar um relato desprovido de qualquer verniz acerca dos diversos fatos sobre a natureza psicológica do corpo humano e o caráter praxeológico das ações humanas. Estas pessoas se ofendem com a afirmação de que o homem tem que escolher entre as coisas mais sublimes, os ideais humanos mais elevados, por um lado, e os desejos de seu corpo, por outro. Eles acreditam que afirmações como esta diminuem a nobreza das coisas superiores. Eles se recusam a perceber o fato de que surgem situações na vida do homem nas quais ele é obrigado a escolher entre a fidelidade aos ideais elevados e a instintos animais, como a alimentação.

Sempre que o homem se deparar com a necessidade de escolher entre duas coisas ou dois estados, sua decisão será um julgamento de valor, seja ele articulado ou não na forma gramatical comumente utilizada na expressão destes julgamentos.

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.