Uma lição sobre Democracia, Gastos Públicos e Imperialismo. Por quê os EUA vão à guerra?

3
Tempo estimado de leitura: 11 minutos

Nem carros, nem filmes, nem calças jeans, o principal produto de exportação dos EUA, desde o início de seu apogeu tem sido a “democracia liberal”, aquela que é intrinsecamente boa e cujos discordantes devem ser convencidos por métodos bélicos.

Tratados pela esquerda revolucionária como a fonte de todo o mal e pela direita liberal como o a resistência da liberdade perante as forças “decivilizatórias”, os EUA têm se valido com sucesso da estratégia de derrubar ditadores para a manutenção de sua PAX, cordão de sustentação do império norte-americano desde o fim da segunda Grande Guerra. Neste artigo, traremos uma abordagem econômica aos empreendimentos militares dos EUA na segunda metade do século XX e discutiremos o papel fundamental da chamada ortodoxia econômica na sustentação dos conflitos nos quais os EUA se envolvem de forma direta ou indireta.

Gastos, gastos por toda parte

Repare a imagem a seguir, ela representa a dívida pública do governo federal dos EUA, desde 1790 até os dias atuais. O primeiro movimento de crescimento que se vê, representa o período da Guerra Civil Americana. Repare que a dívida rapidamente acumulada no período da guerra levou mais de 60 anos para ser amortizada, contudo, quase teve seu valor zerado ao fim da primeira década do século XX.

O processo de montagem do império norte-americano foi financiado por dívida. Logo após a quase total amortização da dívida pública na segunda década do século XX, os EUA se envolveram na primeira Grande Guerra, sendo os grandes financiadores do conflito. Paralelamente, pela primeira vez na história, um banco central possuía poder suficiente para implementar políticas expansionistas em larga escala e em dimensões globais. Assim, os anos de 1920 foram caracterizados pela impressão descontrolada de dólares e expansão artificial do crédito através da manipulação das taxas de juros. Vale ressaltar que os juros nominais dos EUA eram de 6%a.a. em 1920 e 3,5% a.a em 1927 (queda de 42% em sete anos sem nenhum lastro em aumento da poupança privada).

Como resultado, a crise de 1929 deu início ao período conhecido como a grande depressão. Ao invés de promover cortes e permitir que a recessão ajustasse os fatores de produção, o governo dos EUA se engajou numa política de elevação de gastos públicos para tentar gerar estímulos econômicos. O new deal foi o abraço caloroso do governo Roosevelt aos conselhos insanos de J.M. Keynes, conselhos que elevaram pela primeira vez, a dívida americana aos 100% do PIB. Logo em seguida, a segunda Grande Guerra foi a oportunidade que faltava aos EUA para consolidarem seu império global. O suprimento, a participação e finalmente, a reconstrução da Europa foram praticamente todos financiados por endividamento americano.

A capacidade de emissão de dívidas está diretamente ligada à possibilidade de pagamento percebida pelos potenciais credores. Como se tornaram a maior economia e a principal potência militar do mundo, os EUA passaram a representar, obviamente, a melhor opção entre as dívidas soberanas disponíveis. Contudo, a capacidade de rolar a dívida também está ligada à capacidade de taxação dos indivíduos no interior da economia. Assim, o governo dos EUA, que taxava cerca de 2,5% do PIB em 1900, terminou a segunda Grande Guerra próximo aos 20%, sem nunca mais sair de tal patamar.

Taxando pesadamente sua economia e ainda assim elevando seu endividamento, os EUA passaram a ver sua moeda sendo desvalorizada, o que poderia comprometer sua capacidade de continuar elevando seus gastos -especialmente nas áreas militares- e por consequência, ameaçar seu poder hegemônico, haja vista que o governo estava incorrendo nos custos da Guerra Fria travada contra os -ainda mais insanos- soviéticos.

A desconfiança sobre o dólar fez com que alguns governos (especialmente o suíço) chamassem a cláusula do acordo de Breton Woods que previa a conversibilidade do dólar para o ouro para continuar comprando títulos americanos. Foi então que Richard Nixon rompeu com o acordo de Breton Woods e suspendeu a conversibilidade do dólar ao ouro, interrompendo a série de queda do metal frente ao dólar que havia se iniciado logo após a vitória na segunda Grande Guerra, já que até então, todos os credores dos EUA acreditavam que poderiam converter seus dólares em ouro. O gráfico a seguir exibe a cotação do ouro em dólares, o fundo do vale foi atingido em 1971, exatamente quando os EUA saíram do acordo e suspenderam a conversibilidade do dólar.

A figura a seguir mostra a cotação do Franco Suíço (moeda forte) em dólares, de 1971 até os dias de hoje. Veja que logo antes da saída dos EUA do acordo, cada dólar comprava 4,3 francos. Desde então, a cotação caiu progressivamente até atingir os 0,97 francos dos dias atuais.

Tal queda repetiu-se frente a todas as moedas fortes do mundo à época da ocorrência, o que ameaçava fortemente a hegemonia americana, bem como a capacidade do governo de continuar com seus gastos, cada vez mais elevados. Em função da impossibilidade de elevar ainda mais a taxação, o governo passou a praticar desde então, déficits cada vez maiores, conforme mostra a figura abaixo. Veja que a partir dos anos 1970, a situação fiscal americana torna-se incontrolável e os déficits alongam-se cada vez mais, ano a ano.

Como o governo dos EUA ainda consegue emitir dívida e também manter a força do dólar?

Ninguém em sã consciência compraria títulos de dívida de um governo que há 50 anos, gasta mais do que arrecada e infla sua moeda continuamente. Contudo, os títulos do governo americano seguem sendo uns dos ativos considerados de menor risco da economia pelas agências de rating e o dólar, por incrível que pareça, é moeda de fuga quando instabilidades são vivenciadas em quase todos os países do mundo. Por quê? A resposta começa a ser apresentada no gráfico abaixo.

O governo dos EUA é uma máquina de gastança, com subsídios por toda parte, seguro social e principalmente, orçamento militar. Os já absurdos 82 bilhões de dólares gastos com as forças armadas americanas em 1970 não fazem cócegas aos 678 bilhões gastos em 2019. Se o mundo não quis usar dólares, nem comprar dívida americana por meios pacíficos, o governo decidiu usar a força. É aqui que começa a relação americana com as guerras no oriente médio.

Nem Xiita nem Sunita, money is what matters

Os EUA sempre se posicionaram claramente a favor do Estado de Israel, sempre foram os defensores de Israel no oriente médio e tem o pequeno país como seu principal aliado na região. Tal fato pode estar diretamente relacionado ao elevado número de judeus em posições de poder nos EUA, tanto dentro do aparato estatal quanto no âmbito privado. Mesmo assim, o principal parceiro econômico e aliado político americano no oriente médio é a Arábia Saudita, a monarquia sunita que pune violentamente qualquer um que se opuser à sua teocracia islâmica. Os sauditas nunca esconderam seu desejo de destruir Israel e todos os judeus que ali habitam, mesmo assim, comportam-se bem na presença dos EUA, que também não veem problemas em manter relações, no mínimo estranhas, com um governo que gostaria de dizimar seu principal protegido. Rivalizando com os sauditas, está o Irã, governado por uma teocracia xiita desde a revolução de 1979. Desde que a revolução tomou o poder, os xiitas que controlam o Irã antagonizam os EUA e fazem ameaças de revanches contra os intentos bélicos que os americanos realizam no oriente médio direta ou indiretamente, desde a turbulenta década de 1970. Além de também ameaçar Israel constantemente, o regime iraniano (xiita) disputa contra os sauditas (sunitas) o controle da região, são rivais históricos por razões religiosas.

Algo que precisa ser dito é que do ponto de vista religioso, não faz a menor diferença para os EUA o apoio à Arábia Saudita ou ao Irã, afinal de contas, o protegido dos americanos (Israel) é odiado por ambos os lados da luta árabe. O apoio estratégico dos EUA à família real saudita está ligado à influência que a mesma exercia na OPEP à época do acordo e tudo isso está diretamente relacionado à expansão dos gastos do governo americano.

Enfraquecimento econômico e a estratégia dos petrodólares

Amplamente abordados em praticamente todos os cursos de história econômica, os petrodólares representam o movimento de uso da moeda americana para a compra de petróleo no mercado internacional. Os EUA precisavam de alguma estratégia que pudesse manter o dólar como moeda internacional padrão, bem como precisavam garantir que seus títulos de dívida continuariam a ser comprados, já que, como demonstrado anteriormente, a capacidade tributária do governo não comportava os seus gastos e ano após ano o déficit acumulado só fazia crescer. O dólar não poderia ser ainda mais enfraquecido, a carga tributária não poderia ser ainda mais elevada e os juros básicos também não poderiam sofrer incrementos, qualquer uma dessa medidas poderia desencadear uma crise sem precedentes na economia americana e ameaçar o seu poder de líder global. Uma engenhosa solução foi então pensada pela equipe econômica do governo Nixon: e se uma mercadoria altamente demandada por absolutamente todos os países fosse utilizada para subsidiar a expansão do gasto público dos EUA? E assim se procedeu.

No ano de 1974, William Simon, secretário de tesouro do governo Nixon conseguiu costurar um acordo com os sauditas para que o processo fosse iniciado. Obs: o mesmo tipo de acordo poderia ter sido feito com o Irã ao invés dos sauditas, mas as condições políticas, a produção petrolífera e a influência na OPEP favoreciam o acordo com os sauditas. A mecânica do esquema é bastante simples:

1 – A Arábia Saudita venderá petróleo (e forçará toda a OPEP a fazê-lo) apenas em moeda americana;

2 – A necessidade de compra de petróleo em dólares forçará a demanda externa por moeda americana e permitirá que o FED continue a expansão monetária sem estourar uma crise inflacionária interna;

3 – A Arábia Saudita, agora em posse dos dólares, utilizará a moeda para comprar títulos do tesouro dos EUA, bem como ativos financeiros diversos nos Estados Unidos;

4 – Em troca, os EUA fornecerão apoio militar aos sauditas para protege-los dos xiitas e auxiliarão no processo de consolidação de sua influência na região.

Inicialmente, o acordo seria extremamente vantajoso para as duas partes, pois os EUA possuíam a máquina de guerra que os sauditas precisavam e os sauditas possuíam o petróleo e a influência necessários para manter a demanda por dólar e dívida em patamares elevados. Contudo foi ignorado um detalhe, o ciclo vicioso que tal política inauguraria. Ao forçar a demanda por dólar por meios militares, os EUA faziam com que a necessidade de uso da força fosse cada vez maior, primeiro porque as guerras religiosas se auto alimentam, de forma que o custo de se proteger os sauditas (e seus aliados) e Israel tornou-se cada vez maior, forçando os americanos a se envolverem em cada vez mais conflitos. Segundo porque para garantir que o sistema funcionasse, os EUA precisariam intervir em todo e qualquer país que ameaçasse o padrão dólar para a compra de petróleo.

O pesquisador Mathew Hatfield publicou recentemente um artigo na Harvard Political Review no qual detalha o processo de intervenção militar americana em países que ameaçaram o padrão dólar para a venda de petróleo. Como exemplo ele cita os casos de Iraque e Líbia:

“…Em 2000, Saddam Hussein, então presidente do Iraque, anunciou que iniciaria um processo de venda de petróleo em euros ao invés de dólares. Logo após o 11 de setembro, mesmo sem ligação comprovada com os ataques, os EUA invadiram o Iraque e reconverteram a venda de petróleo de volta ao dólar.

O exato mesmo padrão foi aplicado novamente quando Muammar Gaddafi propôs a criação de uma moeda unificada africana, lastreada nas reservas de ouro da Líbia, a moeda seria utilizada para a venda de petróleo africano. Pouco depois deste anúncio, rebeldes armados pelo governo dos EUA depuseram o ditador e seu regime, a ideia de uma moeda única africana para vender petróleo nunca mais foi cogitada.

Outros regimes também estão intentando em mover as vendas de petróleo para fora do dólar, como Venezuela e Irã. Não surpreendentemente, os EUA estão se movendo no sentido de promover a queda de ambos os regimes…”

É interessante pensar que existem diversos regimes ditatoriais mundo afora, especialmente na África e na Ásia, mas o governo dos EUA só se importa em “exportar” democracia para locais cujo regime dominante represente algum tipo de ameaça à hegemonia do petrodólar.

Armadilha Econômica e Militar

Hoje, a manutenção das operações militares no oriente médio não são mais, tão rentáveis aos EUA como foram anteriormente. Ao contrário do que o seu professor de história provavelmente disse, o objetivo das incursões nunca foi “roubar petróleo”, até porque atualmente os EUA são autossuficientes em óleo e suas petroleiras possuem operações instaladas ao redor de todo o mundo. O objetivo sempre foi o de garantir que o padrão petrodólar não pudesse ser quebrado, mas isso hoje está ficando cada vez mais inviável.

As tecnologias de exploração off-shore, fracking e xisto, fizeram com que a OPEP perdesse força no mercado mundial de petróleo. À época do acordo, a OPEP era responsável por 50% do petróleo produzido no mundo e hoje são -ainda expressivos- 30%. Mas não é só isso, o papel que o petróleo desempenha na economia global ainda é relevante, mas nem de perto representa o que era há 40, 50 anos. A utilização de outras fontes de energia (inclusive as agora na moda, renováveis) tem feito com que o mundo caminhe num sentido de redução do papel do petróleo na economia a longo prazo.

Se os EUA não querem roubar petróleo e se a OPEP possui cada vez menos poder, por que então as operações militares continuam? E mais, por que o orçamento militar dos EUA cresce desenfreadamente? Ora, forçar o mundo inteiro a adotar seu padrão monetário ao mesmo tempo em que se intromete em conflitos de xiitas, sunitas e judeus, não é uma coisa que se possa fazer e simplesmente tirar o corpo fora de forma instantânea. As tensões no oriente médio só fazem crescer, os EUA estão endividados em proporções inimagináveis (e junto com eles, quase todos os governos do ocidente), as taxas de juros estão negativas e a economia global está à beira de um colapso diante da maior bolha de crédito jamais criada (fabricada pelo FED e seus colegas). Tudo o que os EUA não podem ter agora é o fim do padrão petrodólar, ainda que isso custe cada vez mais caro. Em 2019, o orçamento militar dos EUA equivaleu praticamente ao PIB da Suíça (20º do mundo) e não há previsão de decréscimos, já que junto ao orçamento militar da ativa, há bilhões de dólares a serem pagos anualmente em pensões e aposentadorias a reformados, veteranos e suas famílias por várias décadas a frente.

Além do mais, agora as operações americanas no Oriente Médio realmente possuem um caráter de defesa, já que ao se envolverem nos conflitos locais, os EUA se tornaram inimigos do Islam e de quebra, ajudaram os sunitas a financiarem grupos terroristas que pretendem conquistar e islamizar o ocidente. Se os EUA simplesmente forem embora e pararem com as guerras, estarão deixando os bárbaros livres para agir.

Lições

A primeira lição a ser tomada a partir dos fatos descritos é a de que políticas keynesianas sempre, invariavelmente, levarão a crises fiscais e desarranjos econômicos. Crises financeiras podem ser postergadas através do estimulo à demanda agregada. Postergadas, mas nunca evitadas. Em algum momento, os retornos se ajustarão aos riscos através de uma recessão, a recessão será tanto maior quanto forem as estratégias usadas para evita-la. Ciclos econômicos.

A segunda lição a ser tomada é a da impossibilidade de um governo limitado, especialmente nos moldes republicano-democráticos. Os EUA são citados pela esquerda -por má fé ou por desconhecimento- como o exemplo de capitalismo laissez-faire, ledo engano. Quando a União derrotou os Confederados na guerra civil do século XVIII, o laissez-faire já havia morrido na américa há muito tempo. O Estado americano é o exemplo perfeito de expansão ilimitada de um governo, o qual após esgotar a possibilidade de expansão tributária, passou a se expandir fiscal e monetariamente para além de suas fronteiras. Do Egito Antigo às monarquias absolutistas, todos os governos e impérios ruíram quando suas economias se esfacelaram internamente, os EUA são um caso inédito de exportação de dívida, moeda fraca e insolvência fiscal.

Por fim, o que se deve ter em mente sempre que se vê imagens de caças F-35, navios e submarinos atômicos, drones MQ e coisas do tipo, além dos milhares de jovens que são enviados todos os anos para atirar em árabes pensando que estão defendendo a democracia e a liberdade de seus compatriotas é que tudo isso é apenas o resultado de expansionismo governamental inconsequente, cuja raiz está na própria natureza da democracia. A beligerância como estratégia de sobrevida às finanças do Estado não é uma peculiaridade dos EUA, é apenas o resultado de uma série de variáveis que tornaram esse cenário possível. Caso possuísse sua própria máquina de guerra, é quase certo que qualquer governo moderno procederia da exata mesma maneira. O que falta é oportunidade.

Fontes

3 COMENTÁRIOS