12. Radicalismo intransigente como estratégia promissora

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Philipp Bagus

[Dr. Philipp Bagus ([email protected]) é professor assistente de economia na Universidade de Madrid.]

 

A primeira vez que me deparei com o trabalho do professor Hoppe foi quando, ainda no ensino médio, li sua introdução a uma reimpressão da edição alemã do Liberalismo de Mises. Fiquei fascinado tanto pelo livro de Mises quanto pelas declarações convincentes de Hoppe, e feliz por descobrir nele um importante estudioso vivo na tradição da economia austríaca, que eu estava então em processo de descoberta. Como ele era um compatriota alemão, superei minha timidez, localizei-o na Internet e enviei-lhe um e-mail pedindo conselhos para estudar economia austríaca na Alemanha.

Para minha surpresa e prazer, ele respondeu meu e-mail rapidamente. Para minha decepção, descobri que era impossível estudar economia austríaca em uma universidade alemã. Mas o Prof. Hoppe sugeriu que eu cursasse a Mises University em Auburn, Alabama, para obter uma introdução a essa escola de pensamento. Ele também generosamente ofereceu sua recomendação para conseguir uma bolsa de estudos para este evento. Mais tarde, ele me recomendaria para uma bolsa no Mises Institute; iria esboçar uma tabela epistemológica para minha aula de metodologia; iria me convidar para as Reuniões e Seminários Privados da Property and Freedom Society; e, de várias outras maneiras, viria a promover e moldar meu desenvolvimento profissional.

Como mentor, o Prof. Hoppe certamente pode servir de modelo. Por mais solidário que seja como professor, no entanto, como acadêmico, ele é conhecido por ser intransigente. As palavras que ele escreveu sobre Mises no texto mencionado descrevem muito bem sua própria atitude: “Afinal de contas, Mises era um homem de princípios, que se opunha categoricamente a concessões que eram contrárias a seus insights teóricos; e isso em uma época em que flexibilidade e oportunismo eram exigidos mais do que nunca nas Universidades republicanas”.[1] Ao adotar uma atitude tão intransigente, o Prof. Hoppe confundiu e hostilizou muitos colegas e leitores. Porém, é justamente essa atitude que também atrai a atenção e a admiração de quem valoriza os princípios, a consistência, o rigor e a verdade. A seguir, analisarei o radicalismo intransigente do Prof. Hoppe como uma estratégia para divulgar a teoria austro-libertária, e argumentarei que é uma excelente – e possivelmente a única adequada – estratégia para atingir esse fim.

O Prof. Hoppe nunca fez qualquer concessão na teoria econômica, embora isso pudesse ter trazido a ele mais influência na profissão. Ele é bem conhecido por sua forte postura metodológica contra as correntes dominantes do pensamento econômico, defendendo um racionalismo e apriorismo extremos.[2] Além disso, ele é um estudioso intransigente também na esfera política. Aqui ele dá um passo além de Mises, que permaneceu a favor de um estado mínimo e não chegou à conclusão lógica de sua própria declaração:

[o] programa do liberalismo. . . se condensado em uma única palavra, teria que ser: propriedade, isto é, propriedade privada dos meios de produção (pois no que diz respeito às mercadorias prontas para o consumo, a propriedade privada é uma coisa natural e não é contestada nem mesmo pelos socialistas e comunistas). Todas as outras demandas do liberalismo resultam dessa demanda fundamental.[3]

Enquanto Mises permaneceu ao longo de sua vida um defensor ferrenho de um estado mínimo, defendendo a violação dos direitos de propriedade pelo governo a fim de protegê-los, o Prof. Hoppe é mais consistente em sua teoria política e não hesita em seguir as implicações do liberalismo até sua conclusão lógica:

Para aqueles membros do movimento que ainda mantêm a noção clássica de direitos humanos universais e a ideia de que a autopropriedade e os direitos de propriedade privada precedem todo governo e legislação, a transição do liberalismo para o anarquismo da propriedade privada é apenas um pequeno passo intelectual, especialmente à luz do óbvio fracasso do governo democrático em fornecer o único serviço que pretendia fornecer (o de proteção). O anarquismo de propriedade privada é simplesmente liberalismo consistente; o liberalismo pensado até sua conclusão final, ou o liberalismo restaurado à sua intenção original.[4]

O radicalismo intelectual do Prof. Hoppe e sua estratégia em direção a uma sociedade livre, ou seja, a anarquia da propriedade privada, andam de mãos dadas. Seguindo Etienne de la Boétie, David Hume e Ludwig von Mises, ele enfatiza que o poder do governo está na opinião pública, e não na força bruta.[5] Sem amplo apoio e cooperação voluntária por parte de uma grande parcela da população, os governos não podem impor sua vontade. Consequentemente, os governos podem ser derrubados se uma grande parte da população simplesmente deixar de obedecer. Para conseguir isso, uma minoria deve convencer a maioria a retirar seu apoio aos governantes. O Prof. Hoppe gosta de chamar essa minoria enérgica de “intelectuais anti-intelectuais”, referindo-se ao fato de que a vasta maioria dos intelectuais funciona como uma barreira de defensa comprada pelos governantes. Os intelectuais anti-intelectuais, no entanto, só têm boas chances de sucesso se forem idealistas e fortemente comprometidos, além de inspirados pela visão de uma sociedade livre, pois enfrentarão dificuldades em um mundo governado pelo Estado. Portanto, eles devem ter energia e paciência para convencer as massas a retirar seu apoio aos governantes. É aqui que entra o radicalismo intelectual do Prof. Hoppe. Ele acertadamente garante que:

Na verdade, nunca deve haver a menor hesitação em nosso compromisso com o radicalismo ideológico intransigente (“extremismo”). Qualquer coisa menos seria contraproducente, mas, mais importante, apenas ideias radicais – de fato, radicalmente simples – podem despertar as emoções das massas estúpidas e indolentes. E nada é mais eficaz para persuadir as massas a cessarem sua cooperação com o governo do que a exposição constante e implacável, a de-santificação e a ridicularização do governo e seus representantes como fraudes e impostores morais e econômicos: como reis nus, sujeitos ao desprezo e a piadas.[6]

O radicalismo intelectual não é apenas adequado para convencer as massas do fracasso do governo, mas também para recrutar uma minoria dedicada, especialmente entre os jovens. Na verdade, Rothbard considerava a educação a chave para o sucesso no caminho para uma sociedade livre.[7] Na minha opinião, os esforços educacionais devem ser concentrados nos jovens. Como posso dizer por experiência própria, os jovens que ainda são idealistas podem ser inflamados pela empolgação e entusiasmo por uma teoria ou programa logicamente consistente. Além disso, os jovens podem ainda ser intelectualmente flexíveis, dispostos a mudar sua visão de mundo, e provavelmente ainda não investiram muito tempo cooperando com o Estado, ajudando-o, ou buscando sua aprovação pública ou privada. Eles não precisam olhar para o passado como um grande erro por terem cooperado com o Estado. Sem essa bagagem psicológica, eles se convencem mais facilmente das perspectivas de uma sociedade livre. Especificamente, eles podem ver seu próprio papel na mudança do estado das coisas em uma direção melhor – a direção de um ideal inspirador. Um ideal inspirador e intransigente já foi defendido por F.A. Hayek:

Devemos novamente tornar a construção de uma sociedade livre uma aventura intelectual, um ato de coragem. O que carecemos é de uma Utopia liberal, um programa que não pareça nem uma mera defesa das coisas como elas são, nem um tipo de socialismo diluído, mas um radicalismo verdadeiramente liberal que não poupe os pontos fracos dos poderosos (incluindo os sindicatos) . . ., que não seja tão rigorosamente prático e que não se limite ao que parece ser politicamente possível hoje. Precisamos de líderes intelectuais que estejam prontos para resistir as bajulações do poder e da influência, e que estejam dispostos a trabalhar por um ideal, não importa o quão improváveis sejam os prospectos de sua realização rápida. Eles precisam ser homens que estejam dispostos a se manter fieis a princípios e a lutar pela sua realização total, não importa o quão remota esteja . . . Livre comércio e liberdade de oportunidades são ideias que ainda podem estimular a imaginação de um grande número de pessoas, mas uma mera “liberdade razoável de comércio” ou uma mera “atenuação de controles” não são nem intelectualmente respeitáveis e nem propensos a inspirar qualquer entusiasmo. A principal lição que o verdadeiro liberal deve aprender com o sucesso dos socialistas é que foi a sua coragem de serem utópicos que lhes rendeu o apoio dos intelectuais e, portanto, uma influência na opinião pública que torna possível diariamente o que ainda recentemente parecia totalmente remoto. Aqueles que se preocuparam exclusivamente com o que parecia praticável no estado de opinião existente descobriram, constantemente, que mesmo isso se tornou rapidamente politicamente impossível, como resultado de mudanças na opinião pública que eles nada fizeram para orientar. A menos que possamos novamente tornar as fundações filosóficas de uma sociedade livre um assunto intelectual vibrante, e sua implementação uma tarefa que desafie a engenhosidade e a imaginação de nossas mais vigorosas mentes, os prospectos da liberdade serão de fato tenebrosos. Mas se pudermos recuperar a crença no poder das ideias, que era a marca do liberalismo em seu esplendor, a batalha não estará perdida.[8]

O Prof. Hoppe é um utópico no melhor sentido hayekiano. Ele, em certo sentido, atendeu ao chamado de Hayek, especialmente com seu best-seller Democracia – o deus que falhou. Com sua teoria da ética da argumentação e baseado na teoria da lei natural de Rothbard, ele mostrou que uma teoria ética objetiva e consistente é possível. Seu trabalho combina dois ramos, uma teoria econômica consistente com uma teoria política e ética consistente, em uma teoria consistente das ciências sociais – o Austro-Libertarianismo – que por sua consistência lógica, rigor, radicalismo, clareza e poder explicativo é capaz de inspirar a excitação e entusiasmo necessários para atingir seus fins sociais radicais.

Considero sua posição intransigente uma boa estratégia para ganhar influência a longo prazo. No processo de persuadir os outros a aceitar um determinado ponto de vista, uma teoria coerente deve prevalecer sobre uma estratégia oportunista. A ciência sempre deve dizer a verdade. Não se deve subverter princípios, deturpar a verdade, ou mentir apenas para persuadir os outros sobre um determinado ponto de vista. Tal estratégia não é ética, e irá destruir a consistência e minar a base argumentativa, de forma que no longo prazo ela se torna autodestrutiva. Fazer concessões teóricas acaba frustrando seus próprios objetivos como teórico.

Talvez fazer concessões ajude a publicar seus artigos em alguma das principais revistas acadêmicas. Talvez lidar com tópicos aplicados que estão em voga no mainstream possa ajudar a conseguir uma posição em uma universidade importante. O comportamento oportunista pode ajudar a garantir estabilidade, respeito e uma renda melhor. A tentação de ser aceito por revistas acadêmicas cada vez mais prestigiosas, por universidades cada vez melhores, e pelos grandes meios de comunicação pode levar alguns a fazer concessões cada vez mais substanciais. Mas, uma vez que alguém começa a fazer concessões, ele passa a estar em uma ladeira escorregadia. Claro, essa estratégia pode ajudar a obter mais impacto e influência, especialmente no curto prazo e entre certos intelectuais. Mas há o grande perigo de começarmos a nos assemelhar gradativamente a esses intelectuais para convencê-los. Na verdade, a escola de Chicago teve mais influência acadêmica e política do que a escola austríaca por fazer concessões e defender várias formas de intervenção estatal.

Porém, o importante para um economista ou uma escola econômica não é ter influência, mas falar a verdade. Fiat veritas, et pereat mundus, para mudar uma famosa frase latina. Haverá verdade mesmo que o mundo pereça. A frase e o lema originais do imperador Ferdinand dos Habsburgos (1503-1564) são: Fiat iustitia, et pereat mundus. Faça-se a justiça, mesmo que o mundo pereça. Felizmente, é da natureza do homem não termos que escolher entre a justiça e o florescimento da civilização. A justiça não se opõe à produção de riqueza, mas na verdade é necessária para ela. Como Rothbard afirma, “a base adequada para este objetivo [liberdade] é uma paixão moral pela justiça.”[9]

Apegar-se à verdade é a melhor estratégia para alcançar o florescimento da civilização e da liberdade. Em última análise, é a opinião pública que muda o curso do mundo. As pessoas devem ser convencidas dos benefícios da liberdade, e informadas sobre os males do governo. Portanto, a verdade sobre a liberdade deve ser declarada de forma inequívoca repetidas vezes. Nada é mais atraente em teoria do que uma posição coerente, consistente e rigorosa. O Prof. Hoppe demonstrou que a teoria consistente é bela e capaz de atrair um núcleo duro de alunos fortemente comprometidos com a causa da verdade. Ao se apegar à verdade, não será necessária uma retórica que faz concessões para transmitir uma posição, uma vez que os buscadores da verdade encontrarão a verdade. Nem será necessário aprovar as posições inconsistentes, comprometedoras e socialistas dos outros.

Em contraste, fazer concessões intelectuais acarreta uma desvantagem estratégica. Uma teoria inconsistente levará a conclusões falsas e atrairá aqueles com raciocínio superficial que facilmente abandonarão a causa da verdade. Mas ceder – inconsistência deliberada – causa danos ainda maiores. Não há fim lógico em continuar com concessões até que toda a teoria original seja abandonada e desmorone. Com o tempo, o estudioso que faz concessões perde o respeito por sua própria posição original. Ele termina em preguiça intelectual, debates estagnados, posicionamentos nebulosos e superficialidades enfadonhas – um potpourri repulsivo.

A teoria econômica e política do Prof. Hoppe evita essa armadilha. Uma teoria consistente, rigorosa e radical é proposta por um homem que não faz concessões em seu objetivo de alcançar uma sociedade livre. Ao fazer isso, ele inspira outros a segui-lo no caminho para essa meta. Eu, de minha parte, tentarei dar minha própria contribuição para esse fim seguindo o modelo do Prof. Hoppe. Gostaria de expressar minha mais profunda gratidão a ele por direcionar meu caminho desde o momento em que comecei a ler sua introdução ao Liberalismo de Mises, e desejar a ele tudo de bom no futuro.

 

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Notas

[1] Ludwig von Mises, Liberalismus (Jena: Gustav Fischer, 1927; reprint Sankt Augustin: Academia Verlag, 1993) p. 16.

[2] Hans-Hermann Hoppe, “Em Defesa do Racionalismo Extremo: Reflexões sobre a Retórica da Economia de Donald McCloskey,” Review of Austrian Economics 3 (1989): 179–214; idem, Economic Science and Austrian Method  (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1995).

 [3] Ludwig von Mises, In the Classical Tradition, Ralph Raico, trad. (Irvington-on-Hudson, N.Y.: Foundation for Economic Education, [1927] 1985), p. 19.

[4] Hans-Hermann Hoppe, Democracia:o deus que falhou (New Brunswick, N.J.: Transaction Publishers, 2001), p. 236.

[5] Ibid., p. 289.

[6] Ibid., p. 94.

[7] Murray N. Rothbard, Por uma nova liberdade: O Manifesto Libertário, Rev. Ed (San Francisco: Fox & Wilkes, 1996), p. 297.

[8] F.A. Hayek,“The Intellectuals and Socialism,” em Studies in Philosophy, Politics, and Economics (Chicago: University of Chicago Press, 1967), p. 194.

[9] Murray N. Rothbard, A Ética da Liberdade (New York: New York University Press., 1998), p. 264.