3 razões pelas quais a esquerda continua vencendo

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Mesmo se Trump de alguma forma conseguisse ter vencido em novembro, a esquerda (ou seja, “progressistas” e social-democratas) poderia ficar tranquila sabendo que a influência dela sobre as instituições do país e visões ideológicas só aumentou nos últimos anos.

Naturalmente, a esquerda se retratou como uma vítima de alguma forma, declarando-se “a resistência” e fazendo inúmeras previsões apocalípticas nas quais os oponentes da esquerda ganhariam controle irrestrito sobre a população. Nessa visão, a nação está sempre a poucos dias de suportar uma mistura de darwinismo social e teocracia imposta por libertários e conservadores, respectivamente.

Depois de quatro anos com o governo Trump no poder, é claro, a nação nem mesmo está caminhando nessa direção. O controle do governo sobre a saúde não vai desaparecer. A maioria dos estados só expandiu o Medicaid. As leis de controle de armas tornaram-se mais rigorosas, não menos. Os gastos do governo aumentaram a níveis sem precedentes e quase nenhum candidato político no nível federal argumentaria seriamente a favor de quaisquer cortes substanciais. A retórica anticristã está mais na moda do que nunca, de modo que agora qualquer cristão que realmente pratique sua religião – ou seja, Amy Coney Barrett – é retratado na mídia como um fanático religioso. Mesmo pequenos desvios da ortodoxia exigida – como a falta de entusiasmo do ator Chris Pratt por Joe Biden – geram campanhas de ódio dos guardiões da opinião pública aceitável.

Essas tendências só se aceleraram nos últimos anos. A esquerda consolidou e aumentou seu controle sobre o mundo acadêmico, a mídia, empresas de mídia social, Hollywood, a indústria fonográfica e o mundo corporativo. Em outras palavras, fora de algumas instituições legislativas e legais – e um punhado cada vez menor de instituições religiosas – o controle da esquerda sobre as instituições educacionais, culturais, artísticas e de mídia da nação está bem garantido.

Se o sucesso eleitoral desfrutado por Donald Trump e seus apoiadores ofereceu qualquer oposição significativa a isso, é apenas o fato de que o partido Trump atrasou de alguma forma essas tendências. Mas em nenhuma medida a tendência à esquerda foi interrompida ou revertida.

Mas por que a esquerda teve tanto sucesso nisso?

As razões para isso são muitas, mas há três que se destacam: a esquerda reconhece a importância da educação na formação da ideologia das pessoas. A esquerda tem uma visão de longo prazo. A esquerda aceita vitórias parciais.

Um: A Esquerda entende a importância das ideias e ideologias

A esquerda há muito tempo dominou a arte do ativismo intelectual. O que é ativismo intelectual? O acadêmico jurídico David Yamada oferece uma definição útil: “o ativismo intelectual envolve a condução e publicação de pesquisas e análises originais e, em seguida, a aplicação desse trabalho às tarefas de reforma e melhoria da lei, dos sistemas jurídicos e da profissão jurídica”.

Yamada se refere ao ativismo intelectual no campo do direito. Mas, é claro, pode ser aplicado a qualquer número de campos. Na economia, os ativistas intelectuais conduzem pesquisas, fornecem análises e, em seguida, aplicam esse trabalho à reforma de instituições políticas e econômicas. Os historiadores costumam fazer trabalhos semelhantes em seus próprios campos.

Nas últimas décadas, o domínio da esquerda sobre o ativismo intelectual cresceu a ponto de dominar a maioria dos campos. Historiadores, sociólogos, antropólogos, juristas e economistas de esquerda (isto é, anticapitalistas) publicam rotineiramente estudos que ilustram seus pontos de vista. Mas o ativismo não para por aí. Jornalistas, especialistas e artistas então citam esses estudos, reformulam-nos, popularizam-nos e reempacotam-nos para consumo público.

Essas opiniões são então transmitidas à próxima geração de acadêmicos, absorvidas por professores em treinamento e papagueadas por políticos eleitos. Essas visões são filtradas para o público votante, o telespectador em casa e os alunos na sala de aula.

Certamente, existem outros ativistas intelectuais que oferecem pontos de vista diferentes. Ainda existem estudiosos corajosos que tentam fazer o trabalho de lutar contra o domínio da esquerda por meio de pesquisas que divergem do zeitgeist usual.

Se esses intrépidos estudiosos não existissem, o sucesso da esquerda seria ainda mais completo. Pontos de vista dissidentes seriam ainda mais marginalizados e ainda mais em minoria. Como Lew Rockwell observou:

    Uma nova pesquisa da BBC [relatada em novembro de 2009] descobriu que apenas 11% das pessoas questionadas em todo o mundo – e 29.000 pessoas foram questionadas sobre suas opiniões – pensam que o capitalismo de livre mercado é uma coisa boa. O resto acredita em mais regulamentação governamental….

Quanto aos que se desesperariam com esta pesquisa, considerem que poderia ter sido muito pior não fosse pelos esforços de um punhado de intelectuais que lutaram contra a teoria socialista por mais de um século. Poderia ter sido 99% de apoio à tirania socialista. Portanto, não faz sentido dizer que esses esforços intelectuais são desperdiçados.

E ainda, há muitos na direita que querem abandonar completamente o campo e deixa-lo para a esquerda. Para aqueles de nós envolvidos no trabalho de ativismo intelectual, já ouvimos algo assim muitas vezes: “Não temos tempo para ler livros ou divulgar ideias! Precisamos vencer as eleições agora! Todo esse material sobre espalhar ideias e mudar a ideologia nunca vai funcionar!”

Claro, o que essas pessoas também podem estar dizendo é “pare de usar os métodos que a esquerda tem empregado com tanto sucesso por décadas! Claro, depois de doze anos de ensino público, quatro anos de educação universitária e uma vida inteira assistindo a noticiários na TV e filmes de Hollywood, a maioria das pessoas está totalmente imersa na ideologia de esquerda. Mas eu tenho um plano inovador que desfará magicamente todos aqueles anos de condicionamento ideológico bem a tempo para a próxima eleição!”

Desnecessário dizer que esta não é exatamente uma receita para o sucesso.

A esquerda vence porque os esquerdistas entendem que se o objetivo é “ganhar as eleições agora!” deve-se primeiro estabelecer as bases que tornam o público receptivo a sua agenda ideológica. Às vezes, esse trabalho leva décadas. Sem fazer esse trabalho necessário e demorado de antemão, no entanto, o fracasso de longo prazo está garantido.

É por isso que os esquerdistas gastam tanto tempo escrevendo livros, dando aulas, obtendo diplomas, tornando-se jornalistas e editando jornais. Eles sabem que as ideias são importantes e que os objetivos de longo prazo de qualquer movimento ideológico dependem da divulgação de ideias por meio de estudos, mídia e arte.

Em outras palavras, a esquerda há muito entendeu que “a política é posterior a cultura“. Se quisermos mudar as instituições políticas, devemos primeiro mudar as instituições culturais, educacionais e intelectuais. Assim que as ideias do público forem mudadas, a mudança política se seguirá.

Dois: A esquerda tem uma visão de longo prazo

Muitos conservadores e libertários gostam de declarar derrota na primeira oportunidade. Muitas vezes somos lembrados desse derrotismo quando ouvimos frases como “Oh, nunca vamos ter essas liberdades de volta. O governo nunca desistirá desses poderes!”

Mas “nunca” é muito tempo. Considere as duas declarações a seguir:

  • “A União Soviética nunca desistirá de seu domínio sobre a Rússia e todas as outras repúblicas da URSS.”
  • “O Império Romano nunca permitirá que os cristãos adorem legalmente e em paz.”

É verdade que o prazo para quebrar o domínio soviético foi de setenta anos. Os cristãos levaram três séculos para obter um édito de tolerância do imperador. Mas é uma coisa boa que os guerreiros pela liberdade na antiga URSS e no Império Romano não tivessem conservadores e libertários modernos por perto para assegurar-lhes que suas tentativas de ganhar mais liberdade eram fúteis e impraticáveis.

Sim entendo. Em muitos casos, essas pessoas que insistem que coisas boas nunca acontecerão reconhecem que as coisas são diferentes no longo prazo. Mas se essa é a crença, por que não enfatizá-la? Os esquerdistas, ao contrário, costumam enfatizar rapidamente sua crença de que terão a vitória a longo prazo com frases como estas: “É só uma questão de tempo até que ganhemos! Estamos do lado certo da história! Quando assumirmos, vamos metralhar todos de quem não gostamos!”

Enquanto isso, muitos conservadores e libertários passam o tempo debatendo se devem ou não desistir e se retirar para um abrigo em uma montanha isolada agora ou talvez esperar até depois da próxima eleição.

Três: A esquerda busca vitórias parciais

E como exatamente os esquerdistas executam sua estratégia de longo prazo? Eles aceitam vitórias parciais.

Aqui está algo que nunca ouvimos da esquerda: “Bem, nós conseguimos passar a legislação que queríamos. É hora de declarar vitória e descansar sobre os louros.”

Esta é a realidade: a esquerda pressionou e pressionou pelo Obamacare. E então, quando foi aprovado, não se passaram mais de cinco minutos antes que a esquerda começasse a defender o Medicare para Todos.

Imagine se a esquerda conseguisse aprovar um mandato federal por um salário mínimo de US$ 15. Alguém acredita seriamente que as demandas parariam por aí? Nunca pararíamos de ouvir sobre a necessidade de um salário de US$ 17 por hora. E então um de US$ 20.

Em outras palavras, os esquerdistas estão dispostos a obter vitórias parciais, um passo de cada vez. O que não ouvimos os esquerdistas dizerem é “Se eu pedir um salário mínimo de US$ 15, isso significa que não acho que um salário de US$ 20 por hora seja necessário. Portanto, vou me opor a qualquer exigência salarial abaixo de US$ 20 por hora!”

No entanto, um contingente considerável e barulhento de conservadores e libertários usa esta linha o tempo todo: “Por que, se eu apoiar a proibição do aborto tardio, isso implica que acho que o aborto é bom!” Ou, “se eu apoiar um corte para o imposto de renda, isso implica que eu acho que o imposto de renda é bom!”

Aqui está um exemplo do mundo real: em 2015, os ativistas pró-armas do Colorado tinham quase tudo o que precisavam para aumentar os limites das munições para trinta pentes, desfazendo quase totalmente um projeto de lei aprovado pelos democratas de 2013 reduzindo os limites das munições para quinze pentes. Claramente, esta teria sido uma vitória significativa para a liberdade de armas. Mas então os proprietários de armas da Rocky Mountain intervieram para impedir a aprovação do projeto de lei, ameaçando políticos eleitos se eles votassem a favor da mudança. “Se você permitir que eles limitem as munições a trinta pentes, isso significa que aceitamos limites de qualquer tipo”, bufaram os ativistas “pró-armas”. Então, eles anularam o projeto. Até hoje, o limite de munições é de quinze pentes em vez de trinta.

Essa estratégia míope e estúpida pode ser contrastada com a estratégia dos abolicionistas – a estratégia recomendada por Murray Rothbard.

Rothbard entendeu que é importante sempre “manter elevado” o objetivo final, que é a evisceração do poder do Estado. Mas, como com os abolicionistas, é importante aceitar também vitórias parciais, desde que essas vitórias parciais nos aproximem do objetivo.

A esquerda entende isso. Muitos libertários e conservadores, por outro lado, aparentemente ainda não perceberam.

 

Artigo original aqui.

2 COMENTÁRIOS

  1. eu consigo entender o ponto do autor, mas ser moralmente consistente é tão ou mais importante do que ser pragmático. 30 pentes é melhor do que 15, pouco aborto é melhor de muito, mas melhor ainda é ter quantos pentes vc quiser e não ter aborto nenhum. aceitar essas imposições estatais demonstram que sua moral e suas convicções são de certa forma maleáveis e não objetivas. até porque, não importa o quanto vc mantenha elevado o objetivo final, não há nehuma garantia de que os estatistas vão permitir que essas vitórias parciais continuem acontecendo e ultimamente evoluam até chegarmos no objetivo final. não tô dizendo que ele tá errado, só que talvez os conservadores e libertários não sejam míopes e estúpidos, talvez eles só sejam pessoas melhores e mais consistentes.

  2. No Brasil, quando se soltou o boato do fim do SUS. Toda esquerda não parou de militar, convencendo a massa que aquilo era o fim do acesso a saúde no país, colocando medo nas pessoas leigas e doutrinadas. Claro que, um libertário não iria deixar se dar por convencido por esse papo furado da esquerda. Mas, o ponto é, quando tivemos a volta da cobrança do DPVAT, a volta dos radares móveis nas rodovias federais, não tivemos essas ações, esse barulho, o medo do estado ir cobrar os ~ 100 anuais ou mesmo uma surpresa de uma multa. Vamos manter elevado!