A mídia corporativa mainstream engana você o tempo inteiro

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O trabalho da mídia corporativa de massa não é o de informar, mas sim de enganar e manipular as massas o tempo inteiro, para incutir no maior número possível de pessoas crenças, opiniões e hábitos que estejam perfeitamente alinhados aos interesses das oligarquias dominantes e dos poderes estabelecidos. Uma famosa citação de Noam Chomsky resume muito bem qual é a real função da televisão e da imprensa contemporânea:

“O propósito da mídia não é informar o que acontece, mas sim moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder corporativo dominante.”

Agora mesmo eu poderia pensar em uma quantidade relevante de opiniões que são consideradas verdades incontestáveis pelo inconsciente coletivo, mas que em uma primeira e mais profunda análise mostram ser resultado de eficientes manipulações midiáticas. Neste artigo, vou expor alguns casos muito interessantes, que mostram que — nessas questões — você foi enganado pela mídia a vida inteira. Tão importante quanto, é fundamental fazer o leitor compreender determinadas perspectivas que, nas limitações formais e padronizadas da mídia corporativa mainstream, jamais lhe serão apresentadas.

Vou apresentar neste artigo três casos que mostram quão manipuladora e parcial é a mídia corporativa de massa. E como, em qualquer circunstância, a mídia mostra ao seu público uma restrita e pequena perspectiva, de panoramas, situações e problemas que são na verdade muito mais complexos — e que a mídia nunca aborda, expõe ou analisa de forma completa, abrangente, sincera e honesta. Na verdade, ela manipula situações, ocorrências e acontecimentos de forma calculada, de maneira a apresentar narrativas alegóricas que ficam circunscritas a uma versão seletiva da realidade.

Leia este artigo com atenção. Tenho certeza de que ele é capaz de mostrar a você que a mídia mainstream é, na verdade, uma eficiente e capciosa ferramenta de manipulação da realidade.

Os ditadores de Uganda

Muitas pessoas já ouviram falar de Idi Amin, o terrível ditador de Uganda, que controlou o país de forma extremamente autoritária, entre 1971 e 1979. Frequentemente classificado como um dos piores ditadores africanos, Idi Amin se tornou símbolo de tirania e opressão, sendo frequentemente retratado até mesmo como um ícone de malevolência e perversidade.

Dois filmes de muito sucesso foram produzidos à respeito do ditador: Idi Amin – Ascensão e Queda, de 1981, e O Último Rei da Escócia, de 2006 (baseado em livro homônimo). Assisti os dois filmes e achei ambos razoavelmente decentes, embora nenhum dos dois tenha grande compromisso com a realidade histórica dos fatos. Na produção cinematográfica de 2006, o megalomaníaco ditador de Uganda foi interpretado pelo famoso ator americano Forest Whitaker, que ganhou diversos prêmios por sua formidável (mas exagerada) atuação como Idi Amin.

Quem assiste o filme de 2006 tem a vaga impressão de que, antes de Idi Amin, Uganda era um país próspero, civilizado e avançado, e que tudo ruiu quando o déspota militar subiu ao poder. E que — para Uganda voltar a ser o maravilhoso paraíso que costumava ser —, era fundamental derrubar o perverso ditador.

Mas a realidade passa muito longe dessa falsa impressão.

Idi Amin não foi uma anomalia, tampouco uma manifestação política atípica na história de Uganda. Muito pelo contrário. Ele foi a consequência natural de uma atmosfera política totalmente propícia para a imposição de regimes autoritários (e isso de forma alguma se restringe à Uganda, mas se aplica perfeitamente ao continente africano de forma geral).

Existem outros dois ditadores na história de Uganda, que a mídia nunca ousou vilipendiar, criticar ou difamar. E se eles não foram tão opressivos, genocidas, maléficos e implacáveis quanto Idi Amin, não apenas chegaram muito perto, como certamente deveriam ser retratados como déspotas extremamente cruéis, egocêntricos e ostensivamente obcecados pelo poder. Esses homens são Milton Obote e Yoweri Museveni.

Ao contrário de Idi Amin, Milton Obote foi um político profissional. Ele foi Primeiro Ministro de Uganda de 1962 a 1966, e presidente de Uganda em dois mandatos: primeiro de 1966 a 1971, e depois de 1980 a 1985. Ele foi o presidente deposto por Idi Amin, quando Idi Amin decidiu tomar o poder em Uganda através de um golpe militar, em 1971. E ele retornou à presidência de Uganda, depois que Idi Amin foi deposto, em 1979.

Yoweri Museveni é o ditador que governa Uganda, de 1986 até hoje. Em janeiro de 2026, ele completou 40 anos no poder. É o terceiro líder governamental (sem vínculo com uma dinastia ou casa real) com mandato político mais longevo da história contemporânea — só fica atrás de Teodoro Mbasogo, da Guiné Equatorial, e Paul Biya, do Camarões (todos africanos).

Quando falamos da mídia corporativa mainstream, não é exagero algum reconhecer o quanto ela tem capacidade de construir ou destruir reputações, e que muito do que ela difunde não está baseado em fatos ou acontecimentos reais, mas em impressões subjetivas, fabricações deliberadas, delírios grandiloquentes e percepções limitadas da realidade, que frequentemente ampliam acontecimentos restritos a um contexto bem específico, criando uma projeção de elucubrações distorcidas que não representam de forma fidedigna os acontecimentos concretos.

Quando estudamos profundamente os três ditadores de Uganda, percebemos que tanto a imagem que o inconsciente coletivo cultiva sobre Idi Amin, como a ignorância generalizada das massas sobre Milton Obote e Yoweri Museveni, é resultado de intensa manipulação da mídia internacional sobre a história de Uganda (especialmente desde a segunda metade do século XX). Neste caso específico, a mídia escolheu deliberadamente um ditador para demonizar e hostilizar de forma ostensiva e recorrente, enquanto deixou os outros dois de fora.

Isso de forma alguma é uma reparação sobre Idi Amin, seu regime sanguinário ou sobre o seu caráter e personalidade — longe disso. O ponto fundamental aqui é, antes de tudo, destacar a importância de analisar a superexposição deste ditador específico na mídia e a percepção popular baseada nessa superexposição, tanto quanto é imprescindível analisar a omissão generalizada da mídia internacional com relação aos outros dois ditadores.

Embora Idi Amin nunca tenha sido retratado de forma realista pela mídia (há muito tempo, exageram de forma excessiva o seu grau de maldade, da mesma forma que o adoravam e o enalteciam indevidamente no princípio da década de 1970), a escolha deliberada de omitir os dois mandatos opressivos de Milton Obote e a autocracia despótica de quatro décadas de Yoweri Museveni expõe um modus operandi que a mídia corporativa mainstream nunca se furtou em cultivar: ela seleciona meticulosamente aquilo que lhe interessa, retrata os temas selecionados da forma que lhe convém, e tudo aquilo que não interessa a ela expor para o grande público, ela deliberadamente omite e descarta, sem a menor consideração pela realidade ou pela relevância do tema.

Casos assim são necessários de estudar, porque eles expõem uma verdade fundamental: a mídia mainstream não tem absolutamente nenhum compromisso com os fatos ou com a realidade. Não é sem motivo que ela é frequentemente descrita como o quarto poder (o executivo, o legislativo e o judiciário são os três primeiros). O poder da mídia mainstream é tão grande, que consegue moldar a percepção de mundo das pessoas, e manipular a realidade de forma tão ostensiva, que às vezes o grande público acredita em situações e ocorrências que não passam de fabricações deliberadas — ou de percepções drasticamente distorcidas —, sem qualquer base concreta na realidade.

Durante a sua ditadura, Idi Amin se tornou um queridinho da mídia internacional, em função de sua aproximação com os britânicos. Acreditando que ele iria renovar a política ugandense, a imprensa se iludiu com o carisma e as habilidades de showman do então “presidente” de Uganda, que sabia se portar muito bem diante das câmeras e dar verdadeiros espetáculos de manipulação social.

Idi Amin era festivo, carismático, eloquente e, com 1,93m de altura, tinha uma presença física impossível de ser ignorada. Ele era também um anfitrião exuberante — grandiloquente, hiperbólico e verborrágico, ele personificava um estilo exótico e pungente de homem de estado, que fascinava os jornalistas e era perfeito para as reportagens sensacionalistas dos telejornais da época.

Quando perceberam que foram enganados, e que estavam diante de um psicopata ensandecido, cruel, violento e totalmente desprovido de limites e restrições morais, tanto as autoridades quanto a imprensa britânica relutaram em reconhecer que haviam cometido um terrível engano em apoiá-lo e promovê-lo assiduamente através da mídia.

Certamente, Idi Amin foi um ditador opressivo, que era extremamente truculento com seus opositores. Paranoico, autoritário e megalomaníaco ao extremo, ele era do tipo que acreditava que a todo momento estavam sendo tramadas conspirações contra ele, e muitas vezes mandava executar pessoas próximas, por acreditar que elas estavam envolvidas em tramas para assassiná-lo. Na verdade, a maioria dessas pessoas não tinha envolvimento com qualquer tipo de conspiração contra Idi Amin — o único erro delas era fazer parte do círculo íntimo de confidentes e assessores do ditador.

Estima-se que durante a sua ditadura de oito anos, entre 300 mil e 700 mil ugandenses tenham sido assassinados. No segundo mandato de Milton Obote, no entanto, que durou cinco anos (de 1980 a 1985), estima-se que entre 100 mil e 500 mil ugandenses tenham sido mortos. Mas é só sobre Idi Amin que você ouvirá lamentos, reprimendas, críticas e duras condenações.

Curiosamente, da mesma forma que Idi Amin, Milton Obote também era um psicopata extremamente truculento, autoritário e calculista, que perseguia opositores políticos com inflexível brutalidade e não tolerava dissidentes. Depois que Idi Amin foi deposto e fugiu para a Líbia, Milton Obote retornou à Uganda. Em 1980, ele se tornou presidente de Uganda fraudando as eleições. Consequentemente, inúmeros movimentos de resistência ao seu governo foram deflagrados.

Extremamente implacável na repressão, em 1983 Milton Obote deu início a uma operação militar (que ficou conhecida como Operação Bonanza) que não apenas dizimou milhares de ugandenses inocentes, como obrigou outras centenas de milhares a abandonarem os seus lares e a se deslocarem para outras áreas do país.

As violações contra os direitos humanos, as execuções em larga escala e as chacinas em massa executadas pelo governo de Milton Obote chegaram a ser posteriormente investigadas pela Anistia Internacional, mas tiveram pouca cobertura da mídia.

Assim como em 1971 Milton Obote foi deposto por um golpe militar, comandado por Idi Amin, em 1985 a história se repetiu. Naquele ano, um golpe militar dado pelo general Tito Okello e pelo brigadeiro Bazilio Olara-Okello acabou com o segundo regime ditadorial de Milton Obote. A segunda deposição de Milton Obote em um golpe militar deve ter parecido um estranho Déjà vu.

Seja como for, ser deposto duas vezes por golpes militares é sinal tanto de um governo marcado por volátil e extrema instabilidade política, quanto de um precário nível de popularidade. Inclusive, é fundamental salientar algo que não é mostrado nos filmes: quando Milton Obote foi deposto por Idi Amin, em 1971, o país inteiro celebrou o golpe de estado e comemorou com muita exaltação a possiblidade de um novo governo, liderado por uma junta militar. À época, uma expressiva parcela da população ugandense viu o general Amin como um grande libertador nacional. Mal sabiam que foram libertados de um ditador extremamente cruel e opressivo, para cair nas garras de outro.

Os militares que depuseram Milton Obote em 1985, no entanto, não permaneceram muito tempo no poder, pois — em questão de alguns meses — milícias leais a um guerrilheiro conhecido como Yoweri Museveni tomaram a capital do país, Campala.

Em janeiro de 1986, Yoweri Museveni se tornou oficialmente o presidente de Uganda — posto que ele ocupa até hoje.

No decorrer das suas quatro décadas de autocracia, o regime de Museveni conseguiu transformar Uganda em uma nação mais estável e próspera. As intensas turbulências políticas que foram tão recorrentes durante os regimes de seus predecessores foram mitigadas, com considerável grau de sucesso, embora ainda existam certas tensões entre os vários grupos étnicos que compõem o país. Mas é bem verdade que hoje, Uganda é um país mais estável e menos conturbado, se comparado com o que foi no passado. No entanto, o país ainda sofre com um nível considerável de repressão política e restrições severas às liberdades individuais.

Uma das políticas mais marcantes de Yoweri Museveni é a sua luta constante contra o homossexualismo e contra a agenda LGBT. E embora eu me oponha veementemente ao progressismo e a militância LGBT, sou bastante reticente a qualquer envolvimento governamental na vida pessoal dos cidadãos. Afinal, é necessário reconhecer que é extremamente invasivo e indevido ter o governo se metendo na vida pessoal de quem quer que seja.

No passado recente, houveram tentativas até mesmo de instituir a pena de morte para pessoas acusadas de praticar o homossexualismo. Curiosamente, tanto a mídia corporativa mainstream quanto a militância progressista ocidental permanecem extremamente omissas, com relação à situação dos homossexuais em Uganda. Que ao que tudo indica — dada a ojeriza extrema que Yoweri Museveni cultiva com relação à agenda LGBT —, pode piorar muito, enquanto ele continuar no poder.

Ainda que Yoweri Museveni não possa ser considerado tão genocida e assassino quanto Idi Amin e Milton Obote, seu governo de quarenta anos não é nenhum oásis de liberdade e respeito aos direitos individuais — ainda que seja muito superior ao de seus predecessores, pelo simples fato de não ser tão opressivo e sanguinolento (o que ele certamente seria, caso fosse necessário para se manter no poder).

Infelizmente, as liberdades individuais enfrentam grandes desafios em Uganda. A liberdade de expressão existe na teoria, mas na prática é bastante restrita. Da mesma forma, a liberdade política que aparentemente existe é uma ilusão. Museveni controla as oligarquias que sustentam o establishment político, e os partidos que fazem com que ele se perpetue indefinidamente no poder há décadas. Ele já foi escolhido para ser o principal candidato na disputa presidencial de 2026. Nenhuma surpresa.

Desde a década de 1960, Uganda foi governada em sequência por três ditadores, dois dos quais foram extremamente genocidas e sanguinários, e o atual é um pouco mais moderado e civilizado. Mas pense no quão interessante é esse fato: você só ouviu falar de um deles — Idi Amin — aquele que foi selecionado sem qualquer razão específica para ser ostensivamente demonizado e hostilizado, como se os outros dois nunca tivessem existido. Idi Amin gerou filmes e documentários. Os outros dois ditadores, não.

Reflita sobre isso: Uganda é um país que, nos últimos 60 anos, foi governado em sequência por três ditadores extremamente brutais e opressivos, que castigaram de forma ostensivamente traumática a população. O último deles está no poder há quatro décadas, e é um dos líderes políticos em atividade com mandato mais longevo da história contemporânea. Mas você só ouviu falar de um deles. Apenas um deles ganhou enorme notoriedade, em função de superexposição na mídia, e foi ostensivamente retratado como um psicopata maléfico, cruel e infame, na televisão e no cinema. Os outros dois, não. Por que?

Se esse caso não é um excelente exemplo de manipulação seletiva da percepção coletiva — efeito colateral da terrível doença que é a mídia mainstream —, o que seria, então?

Coreia do Norte não é a pior e nem a mais isolada das ditaduras

Outro caso muito curioso com relação à manipulação midiática da percepção da realidade está na Coreia do Norte. Frequentemente ouvimos a grande mídia falar que se trata do país mais fechado e isolado do mundo. A Coreia do Norte até mesmo recebeu um apelido bastante sugestivo: reino eremita.

Mas e se eu lhe dissesse que existem outras ditaduras ainda mais opressivas, isoladas e cercadas de mistério do que a Coreia do Norte? Sim, elas existem. O Turcomenistão, o Uzbequistão, o Tajiquistão e o Cazaquistão certamente merecem destaque, como ditaduras ainda mais opressivas e muito mais isoladas do que a ditadura norte-coreana. A diferença entre essas ditaduras e a Coreia do Norte está no nível de publicidade. Ao passo que a Coreia do Norte está sempre nos telejornais, nos canais do Youtube e é frequentemente debatida em artigos e reportagens da mídia mainstream, as quatro ditaduras da Ásia Central citadas acima são ostensivamente ignoradas, como se nem mesmo existissem.

Evidentemente, o fato destas ditaduras serem excepcionalmente fechadas, isoladas e altamente repressivas torna nebulosa e difícil qualquer comparação concreta e objetiva com a Coreia do Norte. Isso se deve justamente ao fato de que há uma significativa escassez de material sobre essas ditaduras, ao passo que há uma vasta abundância de informações sobre a Coreia do Norte.

Para efeitos de comparação, se você for no Youtube agora mesmo, vai achar tantas reportagens completas e documentários extensos sobre a Coreia do Norte, que você vai precisar de vários meses para conseguir assistir a todos eles (e constantemente há upload de novos documentários). Estou muito perto de completar esta tarefa. Alguns documentários sobre a Coreia do Norte achei tão interessantes, que assisti duas vezes. Mas sobre as quatro ditaduras da Ásia Central citadas acima, existe tão pouco material disponível, que você consegue assistir tudo em menos de um dia. Na verdade, algumas poucas horas bastam para você ver tudo o que existe disponível em inglês.

Isso se deve a um fato muito simples. A Coreia do Norte chama muito a atenção da mídia mainstream internacional. As quatro ditaduras da Ásia Central, não. Como as quatro ditaduras são isoladas demais, não tem qualquer destaque no cenário internacional e carecem de relevância geopolítica, a maioria das agências de notícias não desperdiça tempo ou recursos em investigá-las. E são pouquíssimos os jornalistas independentes que decidem se arriscar, pois além da extrema restrição que essas ditaduras fazem para estrangeiros, jornalistas precisam sempre ser extremamente cautelosos, reservados e discretos em regimes autoritários. Investigar e expor qualquer ditadura sempre envolve riscos enormes, que precisam ser previamente calculados, com toda a precisão possível.

Mas por que a Coreia do Norte chama tanto a atenção da mídia e as outras ditaduras, não?

É fundamental entender que a Coreia do Norte não é especial, e não se diferencia muito de outras ditaduras e regimes autoritários que existem pelo mundo. O que a torna relevante são os seus vizinhos. A Coreia do Norte está na zona de confluência de dois mundos geopolíticos distintos. É isso o que faz ela ser “especial”.

Ao norte da ditadura de Kim Jong Un, o grande dragão asiático, a China, se insinua como um mundo à parte, uma superpotência emergente, cujo poder e influência o mundo não pode ignorar. Ao sul, a ditadura norte-coreana faz fronteira com a Coreia do Sul, um mundo influenciado pela cultura e pelo capitalismo liberal americano, que tem nos Estados Unidos o seu mais importante aliado.

É importante enfatizar que até hoje existe uma forte presença militar americana na Coreia do Sul, especialmente na chamada “Zona Desmilitarizada” — que é, paradoxalmente, uma das regiões mais militarizadas do mundo, e está localizada na fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Tecnicamente, os dois países ainda estão em guerra, visto que o armistício que foi estabelecido depois da Guerra da Coreia de 1950-1953 propunha apenas e tão simplesmente um cessar-fogo, e não um acordo de paz definitivo entre as duas nações.

De fato, foi a localização estratégica da Coreia do Norte que acabou conferindo relevância geopolítica a ela, visto que não existe absolutamente nada na Coreia do Norte que mereça real destaque, a não ser o fato de que ela é uma das ditaduras mais cruéis e opressivas do mundo. Mas ela está muito longe de ser o único país a se encaixar em tal categoria. De fato, existem ditaduras piores. Ditaduras que nunca estão na mídia, e nunca são alvo de reportagens ou documentários especiais.

Por ser uma relíquia da Guerra Fria e um fóssil do marxismo político, a Coreia do Norte representa a consolidação ideológica da estagnação de uma sociedade que, em grande parte, parou no tempo. Na maior parte da Coreia do Norte — especialmente nas regiões rurais — ainda é 1950. Ela também é frequentemente exaltada como a preservação pura das paixões utópicas e das aspirações ideológicas dos militantes socialistas de internet. De certo modo, a Coreia do Norte não deixa de ser única nesse sentido.

Mas as quatro ditaduras da Ásia Central — Turcomenistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Cazaquistão — preservam muitos dos elementos soviéticos que caracterizaram seu passado como estados satélites da URSS. Embora nenhuma dessas quatro ditaduras possa ser classificada como um regime comunista (no sentido clássico), visto que são, efetivamente, ditaduras sem ideologia, todas elas preservam elementos e características políticas herdadas do passado soviético. Na arquitetura brutalista, no planejamento central de estado, na forte repressão política e no estilo autocrático de liderança, todas elas são muito similares. Tanto que é realmente muito difícil saber qual dessas ditaduras é a mais implacável.

Evidentemente, a exposição demasiada da Coreia do Norte na mídia mainstream também a transformou em um destino turístico exótico, uma espécie de aventura para estrangeiros entediados, que desejam visitar o “reino eremita” e depois passar nas redes sociais as suas próprias impressões sobre a ditadura da dinastia Kim. Mas isso é simplesmente uma consequência inevitável da grande visibilidade que a Coreia do Norte usufrui na mídia mainstream. A verdade é que o “reino eremita” não é tão eremita assim.

Sob certo aspecto, a Coreia do Norte não deixa de ser um estado satélite da China, uma espécie de estado-tampão conveniente, usado para potencializar ou mitigar as tensões geopolíticas em momentos estratégicos. A verdade é que, em linhas gerais, a Coreia do Norte é extremamente insignificante, em qualquer aspecto possível, e a relevância que este diminuto país conquistou se deve quase que totalmente ao seu vizinho chinês — que usa a Coreia do Norte como um estado fantoche estrategicamente posicionado no tabuleiro de xadrez geopolítico, com seus humores inflamados ou apaziguados, dependendo das circunstâncias.

Mas vamos falar brevemente sobre as quatro ditaduras da Ásia Central, para deixar o leitor decidir se elas merecem ser classificadas como tão cruéis quanto a ditadura norte-coreana — se é que não são muito piores. E se é justificável ou não a omissão da mídia mainstream sobre cada uma delas.

Evidentemente, é importante entendermos que os quatro países citados se tornaram nações independentes quando a União Soviética se desintegrou. Todas essas nações são, portanto, relativamente novas, e nenhuma delas tinha existido enquanto nação independente até a dissolução do imperialismo soviético.

Em todos estes países, o islamismo é a religião oficial. No entanto, essas quatro nações são governadas por regimes seculares. O islamismo é enfatizado muito mais sob um aspecto cultural do que propriamente religioso. O islamismo radical é proibido e o governo regula até mesmo o tamanho das barbas. É estritamente proibido para os homens usarem barbas longas.

Cazaquistão

O Cazaquistão é o maior desses países. Com uma área de aproximadamente 2.724.900 km², o país conta com uma população de pouco mais de 20 milhões de habitantes. Nursultan Nazarbayev foi o “presidente” (ditador) do país, de 1991 até 2019. Extremamente autoritário, cruel e inflexível, seu governo de 28 anos foi caracterizado por repressiva brutalidade e violações sistemáticas dos direitos humanos. Nazarbayev sempre reprimiu manifestações populares e protestos legítimos contra o seu governo com extrema violência, o que acabou por caracterizar o Cazaquistão como uma autocracia vertical extremamente rígida e autoritária.

Em 2019, depois de uma terrível crise política que deflagrou protestos por todo o país, Nursultan Nazarbayev se viu pressionado por seus correligionários no poder a renunciar, para que os protestos e as manifestações públicas que estavam eclodindo em várias cidades não se transformassem em uma grande conflagração nacional, impossível de controlar. Diante da pressão exacerbada — tanto por parte da insatisfação popular das ruas, quanto pelas admoestações de seus associados políticos —, Nursultan Nazarbayev acabou renunciando.

Pouco tempo depois, Kassym-Jomart Tokayev assumiu a presidência do país, e tem governado o Cazaquistão desde então. Embora seu governo tenha sido, até o presente momento, bem menos tirânico que o de seu predecessor, o Cazaquistão está longe de ser um país liberal, com uma população livre para se expressar, viver e exercer as suas liberdades individuais, sem medo de sofrer quaisquer represálias.

Tajiquistão

O Tajiquistão é o menor destes países, com uma área estimada em 143.100 km², e conta com uma população de aproximadamente 10 milhões de habitantes. Governado desde novembro de 1994 pelo “presidente” Emomali Rahmon — apesar de pouco conhecido no cenário geopolítico internacional —, ele é certamente um dos ditadores mais cruéis, implacáveis e opressivos da atualidade.

No Tajiquistão, nenhuma manifestação política é tolerada. Dissidentes são presos e frequentemente torturados até a morte. Aqueles que são simplesmente jogados em uma cela e deixados para morrer sem sofrer qualquer agressão física podem ser considerados indivíduos de sorte. Muitos dissidentes simplesmente “desaparecem” sem deixar rastros, deixando famílias inteiras em aflição e desespero. A corrupção e o nepotismo são práticas habituais e recorrentes. O ditador e sua família têm um controle quase absoluto sobre todas as atividades econômicas, e possuem o monopólio de várias indústrias. O acesso a internet é restrito e a violação dos direitos humanos é sistemática.

Turcomenistão

O Turcomenistão é provavelmente a ditadura mais interessante, curiosa e exótica de todas que já estudei. Saparmurat Niyazov foi o “presidente” que governou o país, de 1985 até a sua morte, em 2006. Excepcionalmente egocêntrico e delirante, o autocrata era demasiadamente obcecado em exaltar-se como um grande líder nacional, pois considerava-se uma majestosa figura paterna para todos os turcomenos. Durante a sua ditadura, ele conferiu a si próprio o título de Türkmenbaşy — que significa algo como “Líder dos Turcomenos”. Por esse motivo, o ditador ocupou-se em difundir um excessivo e grandiloquente culto à personalidade, que o exaltava em demasia.

Consequentemente, Niyazov mandou construir monumentos e estátuas de ouro em sua própria homenagem pelo país inteiro — especialmente na capital, Asgabade. Uma dessas estátuas de ouro foi posicionada sobre um eixo rotatório, que acompanhava o movimento do sol ao longo do dia. Seu livro em dois volumes, intitulado Rukhnama, foi parte integral do currículo escolar do Turcomenistão, durante o seu governo. Estudiosos de ditaduras e regimes autoritários frequentemente classificam Saparmurat Niyazov como um dos mais despóticos, insanos e egocêntricos ditadores da história contemporânea. Seu sucessor, no entanto, infelizmente provaria ser ainda mais louco, delirante e megalomaníaco do que ele — para a infelicidade do povo turcomeno.

Quando morreu, em 2006, Saparmurat Niyazov foi sucedido por Gurbanguly Berdimuhamedow — um dentista de profissão, que galgou posições no governo de Niyazov, ao se tornar ministro da saúde. Ainda que não tenha instituído em culto à personalidade de forma oficial, o caráter excepcionalmente megalomaníaco e egocêntrico de Berdimuhamedow fez com que ele invariavelmente se tornasse o centro das atenções, em praticamente todas as atividades do país. Uma de suas primeiras medidas como “presidente” do Turcomenistão foi reduzir substancialmente os rituais cotidianos de culto à personalidade que celebravam e reverenciavam seu predecessor, Saparmurat Niyazov (o que foi uma clara tentativa de eliminar a concorrência).

Infelizmente, além de ser um governante autoritário e medíocre, Gurbanguly Berdimuhamedow é metido a ser cantor, pop star, filósofo, autor de livros, halterofilista, disc jóquei, esportista, piloto de stock car e assim por diante. É claro que ele não tem talento algum para qualquer uma destas atividades (sequer tem talento para a política). Infelizmente, ele realmente acredita ser uma criatura iluminada, dotada de múltiplas habilidades. Habitantes da capital que são convidados para os seus shows de música são praticamente obrigados a comparecer, e todos cantam com extremo “entusiasmo” (certamente, com o único objetivo de não serem presos).

Abaixo, você pode ver um clipe de Gurbanguly Berdimuhamedow, cantando juntamente com o seu neto um rap nacionalista de exaltação ao Turcomenistão (Não, isso não é uma piada).

Uma das excentricidades mais marcantes de Gurbanguly Berdimuhamedow é a sua obsessão pela cor branca. Desde 2018, apenas veículos brancos são permitidos na capital, Asgabade. Carros da cor prata são tolerados, mas veículos de qualquer outra cor são expressamente proibidos. Quando essa lei entrou em vigor, todos os veículos com “cores proibidas” foram confiscados, e seus proprietários tiveram que pagar multas para reavê-los, com a condição de pintá-los de branco (preferencialmente) ou de prata (se não fosse possível pintar de branco). A capital do Turcomenistão, Asgabade, está no livro dos recordes, por ser a cidade com a maior concentração de palácios e edifícios brancos de mármore.

O Turcomenistão é, certamente, uma das ditaduras mais implacáveis e opressivas do mundo. Coisas como liberdade de expressão ou respeito aos direitos individuais não passam de sonhos distantes para o cidadão turcomeno comum. Opositores do regime são perseguidos até mesmo fora do país por agentes do estado, e qualquer divergência política é suprimida com enorme violência.

Em 2022, Gurbanguly Berdimuhamedow foi sucedido na presidência por seu filho, Serdar Berdimuhamedow. Isso, no entanto, não passou de uma astuciosa manobra política do ditador para se manter no poder, sob uma aparência de renovação política. Gurbanguly Berdimuhamedow permanece sendo o verdadeiro poder político no governo. Seu filho é meramente uma presença governamental de fachada.

Depois de muito pesquisar sobre Gurbanguly Berdimuhamedow, passei a gostar de Kim Jong Un. Por mais despótico e opressivo que seja o ditador norte-coreano, ao menos ele não tenta ser cantor, filósofo, intelectual, halterofilista, esportista, piloto de corrida e assim por diante. Kim Jong Un sabe o seu lugar. Algo que, aparentemente, nem todo ditador tem capacidade de perceber.

Uzbequistão

Com um território estimado em 448.978 km², o Uzbequistão tem aproximadamente 36 milhões de habitantes — o que faz deste o país mais populoso da Ásia Central. Exatamente como os países vizinhos, o Uzbequistão é um território oprimido por uma autocracia extremamente despótica e autoritária. Islam Karimov foi o “presidente” do país, de 1991 até a sua morte, em 2016. Durante os seus vinte e cinco anos de governo, Islam Karimov se tornou conhecido por seu estilo extremamente brutal e implacável de liderança.

Islam Karimov não tolerava manifestações políticas ou protestos populares de qualquer natureza. A desobediência ao regime era punida com a morte. Extremamente autoritário e implacável, seu governo ficou marcado por tragédias como o massacre de Andijã, que ocorreu em 13 de maio de 2005. Nesta data, aproximadamente quinhentos manifestantes se congregaram em uma das principais avenidas da cidade, para realizar um protesto contra o governo. Em questão de pouco tempo, as forças policiais do país foram mobilizadas para lidar com a situação.

Eventualmente, os manifestantes acabaram sendo encurralados por tropas especiais da polícia em uma rua sem saída, onde acabaram sendo massacrados. Centenas de pessoas foram mortas de forma excepcionalmente brutal pelas forças de segurança do regime. Investigações posteriores apontaram o fato de que foi o próprio presidente, Islam Karimov, que ordenou à polícia que atirassem nos manifestantes para matar. De acordo com rumores que não foram confirmados, o número de mortos foi muito maior do que o inicialmente registrado, sendo contabilizado em mil e quinhentas vítimas no total — que foram, em sua grande maioria, enterradas em sepulturas coletivas.

Posteriormente, o governo tentou justificar o massacre, alegando que ele havia sido orquestrado por uma organização muçulmana radical (Hizb ut-Tahrir), com o objetivo de desestabilizar o regime e criar o caos social. Invariavelmente, um ataque dessa natureza contra o governo exigiria uma resposta à altura. Mas essa narrativa foi fabricada unicamente como uma prerrogativa do governo para justificar a mortandade.

O massacre de Andijã — embora tenha sido o mais letal na história recente do Uzbequistão — foi uma perfeita demonstração do estilo de governo tirânico, cruel e inescrupuloso de Islam Karimov, que nunca hesitou em empregar os meios mais sanguinários possíveis, para reprimir qualquer manifestação contra o seu regime.

Islam Karimov morreu aos 78 anos, em setembro de 2016, e foi sucedido por Shavkat Mirziyoyev — que governa o país até hoje. Embora o atual “presidente” não seja tão despótico e tirânico quanto o seu predecessor, a situação atual do Uzbequistão não é muito promissora quando o assunto é o progresso da liberdade. Como qualquer ditadura, o país ocupa os últimos lugares no que diz respeito à liberdade de imprensa e respeito aos direitos individuais.

Quirguistão Uma exceção surpreendente

Além destas quatro ditaduras, existe também na Ásia Central um pequeno país chamado Quirguistão (anteriormente conhecido como Quirguízia). Esse país, no entanto, não é uma ditadura tirânica e opressiva, como os seus vizinhos. Tentou ser por duas vezes, mas o povo quirguiz não deixou a tirania se estabelecer.

Felizmente, o Quirguistão se destaca de forma positiva dos demais países citados, por possuir uma democracia relativamente funcional (para os padrões da Ásia Central), o que o torna uma rara exceção na região. Ainda que seja um país com terríveis problemas internos, presidentes que tentaram se perpetuar no poder e instituir ditaduras (como Askar Akayev e Kurmanbek Bakiyev) foram depostos em maciças conflagrações populares e tiveram que fugir do país.

Mesmo que em determinados períodos isso ocorra de forma precária, exigindo às vezes revolta e enorme pressão popular, há considerável rotatividade de políticos na presidência do Quirguistão. Desde que se tornou independente da União Soviética, em 1991, o Quirguistão já teve seis presidentes, e é o único país da região que já teve uma mulher na presidência (Roza Otunbayeva). Estas características certamente fazem o Quirguistão ser uma exceção consideravelmente peculiar entre todos os países da Ásia Central, destacando-o de forma surpreendente de todos os países vizinhos. Consequentemente, o Quirguistão não pode ser classificado como um estado totalitário, nem pode ser inserido politicamente na mesma categoria de autocracia, onde estão os países vizinhos.

Depois de ler sobre as quatro ditaduras da Ásia Central, será que ainda é possível classificar a Coreia do Norte como a mais opressiva e a mais isolada ditadura que existe hoje no mundo? Ou tal impressão não passa de uma fabricação da mídia corporativa mainstream, sempre simplória e reducionista em sua avaliação da realidade?

Sem dúvida, é possível verificar que existem inúmeros fatores e ocorrências que as agências de notícias não levam em consideração; a verdade é que, ao publicarem matérias e reportagens que excluem importantes critérios de avaliação, o que sobra para o espectador que consome material produzido pela mídia mainstream é uma leitura distorcida e demasiadamente restrita da realidade.

O socialismo de estado da mídia corporativa nacional

Se tem uma coisa que chama a atenção da mídia mainstream convencional brasileira, é o fato dela ser radicalmente socialista e progressista — sem o parecer, explicitamente.

Para espectadores incautos e desavisados, canais como a Rede Globo podem parecer imparciais e inofensivos. Pessoas da terceira idade, e idosos de maneira geral, ainda assistem televisão e se informam pelos canais convencionais de notícias. Que nunca veiculam qualquer informação verdadeiramente correta, consistente ou relevante — os canais de televisão são, na verdade, grandes veículos de lavagem cerebral institucionalizada.

Pense no seguinte: a mídia corporativa mainstream — se fosse minimamente decente e honesta — poderia dizer que a intervenção governamental na economia prejudica enormemente a sociedade, em sua busca por prosperidade material e financeira. Se os jornalistas dos conglomerados de mídia fossem minimamente comprometidos com a verdade, eles poderiam mostrar com inúmeros exemplos que apenas a liberdade econômica consegue estabelecer uma ordem natural de prosperidade.

Mas não é isso o que a televisão faz. Se você prestar atenção a todas as notícias veiculadas na mídia mainstream, vai ver uma repetição constante das mesmas lamúrias: reportagens que se manifestam contra cortes de gastos do governo, contra a redução da carga tributária e contra qualquer redução da intervenção governamental na vida dos cidadãos.

Praticamente todas as reportagens que a mídia corporativa de massa produz relacionadas ao governo podem ser resumidas em uma litania constante de louvor e adoração ao estado onipotente. As reportagens se transformam em um patético festival de lamúrias incessantes quando o assunto em questão é reduzir os poderes, a intervenção ou os gastos governamentais. A mídia corporativa mainstream é totalmente contra todas essas coisas.

Suas reportagens diárias mostram que ela possui uma ojeriza natural à liberdade e ao indivíduo. As correntes invisíveis da escravidão governamental devem estar totalmente agrilhoadas a todos os cidadãos, e elas devem ser apertadas de forma cada vez mais intensa. O controle deve ser pleno e absoluto. Não pode haver nenhuma folga, para o cidadão não se acostumar com a liberdade. Algo que — da perspectiva da mídia corporativa mainstream — é terrivelmente maléfico, imerecido e que o cidadão não saberia gerenciar, pois só o governo onipotente é sábio e capaz o suficiente de fazer todas as coisas, para todas as pessoas.

Para a mídia mainstream, o governo é deus. De maneira que afrontar, questionar ou contestar o governo chega a ser uma espécie de blasfêmia. Questionar o governo ou qualquer uma de suas instituições é algo análogo a um sacrilégio.

Para os canais de televisão, a receita federal é uma espécie de divindade e a sonegação de impostos é basicamente um crime capital. Mesmo que critique pontualmente alguns políticos ocasionalmente, a enfadonha narrativa de apologia incondicional ao governo e aos poderes estabelecidos nunca sofre alterações. É previsível, repetitiva e redundante. É o mesmo ritual de imbecilidade midiática, diariamente.

A televisão existe, basicamente, para fazer uma espetacularização diária da política e para expor os “desafios” e exaltar as “conquistas” do estado onipotente. Os “desafios”, é claro, consistem sempre em resistir à qualquer redução da intervenção governamental na vida dos cidadãos, e as “conquistas” consistem em resistir à qualquer redução dos pacotes de gastos orçamentários, bem como a barrar qualquer forma de responsabilidade fiscal. Para a televisão, é um verdadeiro ato de heroísmo o governo gastar bilhões para manter um inútil, arcaico e obsoleto empreendimento monumental, como os Correios — que faz algo que a iniciativa privada faz com muito mais qualidade, e por valores mais competitivos.

Se o Brasil fosse um país minimamente preocupado com o progresso e com o desenvolvimento, um fóssil arcaico como a “Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos” já teria sido superada há muito tempo (seja por privatização ou pela competição natural de mercado). Mas no Brasil, as coisas obsoletas do passado são as prerrogativas orçamentárias do presente.

A mídia mainstream convencional me lembra muito os televangelistas, com seus programas dominicais para celebrar a Cristo e o Evangelho. A diferença é que a mídia mainstream celebra o estado e difunde um culto abominável de adoração e louvor ao governo.

Infelizmente, a narrativa da mídia mainstream não muda jamais quando o assunto em questão é a apologia desmesurada e incondicional ao governo. Um episódio digno de lembrança é o dos hilariantes “memes do Taxad”. Quando, em 2024, a internet brasileira foi inundada por memes que ridicularizavam o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, exaltando com humor a sua obsessão em asfixiar os cidadãos brasileiros em um vasto e infinito oceano de impostos terrivelmente absurdos e extorsivos, além de denunciar de forma criativa o regime de terrorismo tributário que existe no Brasil, um comentarista da GloboNews ficou histérico com o ocorrido, e afirmou em um programa da emissora que Hadad estava sendo vítima de “ataques”.

Um jornalista ficou histérico e escandalizado por conta de memes na internet —  certamente, ele não foi o único — e classificou o ocorrido como “ataques”. Mas a verdade é que Haddad não foi atacado. É praticamente impossível atacar alguém com memes. Haddad não foi atacado, e passa muito bem. Os memes foram uma consequência muito bem-humorada, sarcástica, criativa e inusitada, para uma situação fiscal insustentável. Mas tudo o que os jornalistas da mídia mainstream convencional souberam fazer, diante daquela situação, foi choramingar em ridículas e incessantes litanias de lamento e sofreguidão, ao descobrirem a existência de brasileiros que criticam o governo, e que não aceitam as pérfidas e extorsivas imposições tributárias do estado onipotente.

Quando o assunto é governo, a televisão mostra diariamente que serve aos interesses dos poderes estabelecidos. A incessante, medíocre e redundante parafernália de reportagens, notícias e informações veiculadas formam, coletivamente, uma gigantesca montanha de lixo, que serve mais para deformar do que para informar os cidadãos. Definitivamente, a melhor coisa que uma pessoa pode fazer em um país como o Brasil é não ver televisão.

A televisão, definitivamente, não possui interesse algum na verdade, na realidade ou na veracidade de informações construtivas, edificantes e relevantes. Muito pelo contrário: a televisão e a mídia corporativa mainstream, de uma forma geral, veiculam incessantemente uma vasta profusão de lixo sensacionalista, que não tem nenhuma outra função, a não ser amedrontar, escravizar, doutrinar e vilipendiar os indivíduos. O objetivo máximo da televisão é reduzir os horizontes intelectuais das massas, de maneira a induzi-las a jamais pensar, contestar ou questionar fora dos horizontes estabelecidos, levando-as a adotar opiniões, perspectivas e visões de mundo totalmente moldadas pelos conglomerados de mídia.

Conclusão

Para entendermos a mídia corporativa mainstream, é fundamental compreender que muito mais importante do aquilo que ela explora, expõe e exibe de forma recorrente, é aquilo que ela decide deliberadamente omitir. Isso revela muito sobre suas reais intenções e a sua agenda corporativa, porque expõe um modus operandi pernicioso, extremamente ideológico e saturado de manipulações. Acima de tudo, mostra que a mídia mainstream não tem absolutamente nenhum compromisso com os fatos ou com a verdade.

A mídia corporativa mainstream, na melhor e mais promissora das hipóteses, transmite sempre uma perspectiva restrita, um determinado ângulo de uma situação, que frequentemente se contamina com vícios ideológicos ou delírios sentimentais, mas nunca se compromete em retratar de forma fidedigna e abrangente qualquer acontecimento — seja ele qual for, onde for.

A verdade é que a mídia mainstream seleciona os assuntos que interessam a ela, mostra cada um deles da forma que lhe interessa, da perspectiva que lhe interessa, e não se importa nem um pouco em ignorar deliberadamente tudo aquilo que não lhe interessa.

Uma pessoa prudente deve duvidar de absolutamente tudo o que ela vê na televisão. Na televisão, você não está vendo o conjunto das coisas, mas está sendo apresentado apenas e tão somente a uma pequena perspectiva. Perspectiva essa, que geralmente é destituída de objetividade e inundada de sentimentalismo. Mesmo quando a televisão transmite algo que realmente aconteceu, ela apresenta isso de forma a encaixar o evento em uma narrativa saturada de prerrogativas convenientes.

De fato, não há verdade alguma na televisão ou na mídia mainstream em geral. Qualquer informação relevante deve ser verificada em outras fontes. Seja o jornalismo independente, a leitura de artigos relevantes ou a opinião de especialistas (os verdadeiros, aqueles que a mídia corporativa jamais consulta), devemos ter várias fontes de pesquisa para os acontecimentos de nosso interesse.

As únicas coisas que a mídia mainstream é capaz de produzir são manipulações em larga escala e mentiras virulentas em doses maciças. Mentiras que deformam intelectos, criam legiões de desinformados que só sabem repetir o que viram na televisão, e influenciam milhares de pessoas a tomarem decisões equivocadas.

Não tenho dúvida nenhuma de que, se a mídia mainstream desaparecesse, o mundo se tornaria imediatamente um lugar muito melhor. Estaríamos livres de ocorrências como pandemias, as pessoas comeriam alimentos mais saudáveis e guerras seriam eventos raros e isolados. Então, seja um livre pensador. Não permita que a mídia corporativa mainstream controle a sua vida e tenha poder sobre você. Questione todas as coisas que ela apresenta como verdades absolutas e irrefutáveis.

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