O verdadeiro desfecho da obra-prima de Tolkien está cheio de mensagens libertárias.

No terceiro e último livro da saga d’”O Senhor Dos Anéis”, do magistral escritor inglês John Ronald Reuel Tolkien, o anel é finalmente destruído, praticamente por uma providência divina, e Sauron, enfim, cai. Frodo e Sam são resgatados e honrados por seus heróicos feitos. Aragorn é coroado como o rei Elessar Telcontar, assumindo o trono de Gondor. Ele se casa com Arwen, simbolizando a união entre os homens e os elfos, bem como o início de uma nova era. Bom, se Tolkien fosse um escritor normal, o livro se encerraria assim. Aquele final feliz que os leitores tanto aguardaram. Porém, Tolkien não era um escritor normal. Depois de toda a grandiosidade da Guerra do Anel e da coroação de Aragorn, o autor retorna para um cenário menor e local: o Condado. E ele faz isso no penúltimo capítulo da obra, “O Expurgo Do Condado”.
Esse capítulo funciona como a verdadeira conclusão filosófica da obra. Curiosamente, é um capítulo que costuma ser freqüentemente incompreendido ou até ignorado, a despeito de toda a sua importância. Tanto é assim que Peter Jackson o retirou completamente de seu filme, pois seria, nas palavras dele, “desnecessário e anticlimácico”. Mesmo com toda a lixarada das séries e filmes novos baseados na obra de Tolkien, nunca se cogitou a adaptação desse capítulo. Mas, afinal, o que “O Expurgo Do Condado” nos conta? Pois bem, após a derrota de Sauron, que era a personificação máxima do poder central absoluto, o autor desloca o eixo da narrativa para um tipo de dominação muito mais sutil e perigosa: a perda gradual da liberdade local. E ele faz isso, voltando ao Condado, aquele bucólico lugar da Terra Média habitado por hobbits.
Assim, “O Expurgo Do Condado” narra o retorno de Frodo, Sam, Merry e Pippin ao lar, após a Guerra do Anel. Contudo, em vez da paz esperada, os quatro hobbits encontram um Condado totalmente descaracterizado, submetido a regras arbitrárias, vigilância permanente e pobreza generalizada. Os chamados “valentões” controlam as vilas e estradas, confiscam propriedades, restringem o comércio e governam em nome de um chefe misterioso chamado Charcão. O caos se instalou. Árvores foram derrubadas, casas foram destruídas e a vida cotidiana perdeu a sua simplicidade tradicional. Os amigos, agora transformados pela jornada do Anel, percebem que não podem simplesmente retomar as suas rotinas. O mal não ficou distante: ele se instalou em casa. A vitória contra Sauron não garantiu a liberdade local.
O choque dos quatro hobbits não é apenas material, mas também moral. Eles percebem que essa submissão do Condado não ocorreu por conquista militar externa, mas por acomodação, medo e aceitação gradual de regras injustas. Muitos hobbits obedeceram, porque acreditaram que “era a nova ordem”, ou porque esperavam evitar problemas. Esse detalhe é crucial: Tolkien mostra que a tirania freqüentemente se estabelece não pela força absoluta, mas sim pela lenta erosão da responsabilidade individual. Merry e Pippin, em especial, reconhecem que as suas experiências fora do Condado os tornaram mais aptos a liderar uma revolta contra a situação. Eles aprenderam que a autoridade legítima não nasce de decretos, mas do reconhecimento, do consentimento e da defesa ativa da comunidade contra abusos.
O regime imposto por Charcão e seus sicários é essencialmente um micro-estado, com taxas e impostos, regras estapafúrdias, punições injustas, confisco de bens e restrição de atividades pacíficas. Em outras palavras, socialismo. Nada disso, claro, melhora a vida dos hobbits. Muito pelo contrário: gera escassez, medo e decadência ambiental. Tolkien deixa claro que a suposta autoridade dos “valentões” não tem base moral, apenas coercitiva. O Condado sob Charcão nos mostra que basta um grupo se arrogar o direito de mandar, legislar e punir para que se chegue à opressão. Além disso, o autor também deixa bem claro que essa opressão só persiste, porque a grande maioria dos hobbits aceita passivamente as ordens absurdas. Assim, Tolkien enfatiza que um dos pilares mais sólidos da dominação política é justamente a obediência cega.
Em certo momento do capítulo, é revelado que Charcão é ninguém mais, ninguém menos do que Saruman, o grande sábio seduzido pelo poder do Um Anel e derrotado por Gandalf. Essa revelação de Charcão como Saruman é simbólica. Antes um grandioso mago, ele termina como um tirano mesquinho, administrando regulamentos, galpões e listas de proibições. Seu poder não vem mais da grandeza intelectual ou da força, mas do controle burocrático. Não cria nada, apenas redistribui, proíbe e destrói. Em outras palavras, Saruman se torna um político. Já não tem mais nenhum propósito elevado e passa a existir apenas para exercer o poder. Incapaz de produzir, governa por ressentimento e coerção, reduzindo todos aqueles ao seu redor para se sentir relevante. E, de novo, tudo isso só é possível graças à passividade dos hobbits.
A reação ao domínio de Charcão não parte de uma autoridade central alternativa, mas sim da mobilização espontânea dos próprios hobbits. Merry e Pippin organizam a resistência com base em laços comunitários, conhecimento local e disposição voluntária para agir. Não há um “estado do Condado” se reerguendo; há vizinhos defendendo vizinhos. O clímax da resistência é a “Batalha de Beirágua”. Ela não é uma guerra tradicional; é a expulsão de parasitas políticos – com o perdão do pleonasmo – que nada produzem e apenas impõem regras arbitrárias. Sob a ótica libertária, esse momento ilustra a idéia de autodefesa e ordem emergente: quando elas decidim agir, as pessoas comuns conseguem restaurar a paz sem a necessidade de alguém lhes impondo o que fazer, isto é, sem coerção, sem burocracia e sem planejamento central.
Quando Charcão, isto é, Saruman, é derrotado, a maioria dos hobbits quer a sua execução. É uma postura vingativa e compreensível. Contudo, Frodo a rejeita e impede a execução sumária de Saruman. Não por ingenuidade, mas sim por uma compreensão profunda do custo moral da violência. Ele sabe que a vitória obtida pela destruição total de um inimigo já derrotado deixa marcas irreparáveis em quem a pratica. Frodo reconhece que matar Saruman daquela forma não restauraria o Condado, nem tampouco curaria suas feridas. Porém, Tolkien não romantiza essa escolha. Ele ressalta que seu preço é alto. Frodo está destroçado mentalmente. Ele ajudou a salvar o Condado, mas não consegue mais viver plenamente nele. A misericórdia, aqui, não é barata nem confortável. Junto com Gandalf e Bilbo, Frodo acaba partindo da Terra Média.
Além de Saruman, outro personagem que aparece nesse capítulo é Grima Língua-de-Cobra. Ele fora membro da corte do rei Théoden. Oficialmente, era o conselheiro real, mas, na prática, era um agente de Saruman, envenenando o rei com meias-verdades e medo. Após sua queda, Grima segue Saruman e acaba reduzido a um estado de humilhação e servidão. Em “O Expurgo Do Condado”, Grima é a personificação do servo do poder. Não governa, mas viabiliza a tirania, obedecendo ordens em troca de proteção mínima. É Grima que mata Saruman, enfatizando a instabilidade inerente às relações baseadas em coerção. Logo depois, ele próprio é morto. Esse final trágico de ambos mostra que as estruturas de poder coercitivo se autodestroem, pois não criam lealdade genuína, apenas submissão temporária.
Após o expurgo, o Condado é reconstruído sem decretos, burocracia ou planos qüinqüenais. Cada hobbit contribui conforme suas habilidades e recursos. Sam, com o presente de Galadriel, ajuda a restaurar a fertilidade da terra, mas o processo é descentralizado e orgânico. Tudo isso reforça a posição libertária de que a prosperidade nasce de ações voluntárias e de cooperação livre, não de políticas impostas de cima para baixo. Tolkien, que, por sinal, era um libertário, sugere que a ordem natural das coisas retorna, quando a coerção é removida. Não é por acaso que a recuperação do Condado é rápida. Todos aqueles obstáculos artificiais – controle, regras, confiscos… – foram removidos. O planejamento central desaparece. Os incentivos corretos se alinham. E os recursos são alocados ética e racionalmente.
No início e no final da saga, o Condado funciona como uma sociedade quase libertária: sem governo central, com normas sociais informais, respeito à propriedade e interferência externa mínima. O capítulo discutido mostra o contraste entre tal ordem espontânea e a distorção que é causada pela autoridade imposta. Tolkien não idealiza a ausência total de conflito, mas deixa claro que os problemas do Condado aparecem quando alguém tenta “organizar” a vida alheia. A lição libertária é evidente: as comunidades funcionam melhor quando as pessoas são livres para viver, produzir e trocar em paz. Enfim, ”O Expurgo do Condado” é uma conclusão moral poderosa para a saga. A luta pela liberdade não termina com a derrota de um grande inimigo. A luta contra a tirania continua em casa, sem concessões e sem obediência cega.









