O Expurgo Do Condado

6

O verdadeiro desfecho da obra-prima de Tolkien está cheio de mensagens libertárias.

No terceiro e último livro da saga d’”O Senhor Dos Anéis”, do magistral escritor inglês John Ronald Reuel Tolkien, o anel é finalmente destruído, praticamente por uma providência divina, e Sauron, enfim, cai. Frodo e Sam são resgatados e honrados por seus heróicos feitos. Aragorn é coroado como o rei Elessar Telcontar, assumindo o trono de Gondor. Ele se casa com Arwen, simbolizando a união entre os homens e os elfos, bem como o início de uma nova era. Bom, se Tolkien fosse um escritor normal, o livro se encerraria assim. Aquele final feliz que os leitores tanto aguardaram. Porém, Tolkien não era um escritor normal. Depois de toda a grandiosidade da Guerra do Anel e da coroação de Aragorn, o autor retorna para um cenário menor e local: o Condado. E ele faz isso no penúltimo capítulo da obra, “O Expurgo Do Condado”.

Esse capítulo funciona como a verdadeira conclusão filosófica da obra. Curiosamente, é um capítulo que costuma ser freqüentemente incompreendido ou até ignorado, a despeito de toda a sua importância. Tanto é assim que Peter Jackson o retirou completamente de seu filme, pois seria, nas palavras dele, “desnecessário e anticlimácico”. Mesmo com toda a lixarada das séries e filmes novos baseados na obra de Tolkien, nunca se cogitou a adaptação desse capítulo. Mas, afinal, o que “O Expurgo Do Condado” nos conta? Pois bem, após a derrota de Sauron, que era a personificação máxima do poder central absoluto, o autor desloca o eixo da narrativa para um tipo de dominação muito mais sutil e perigosa: a perda gradual da liberdade local. E ele faz isso, voltando ao Condado, aquele bucólico lugar da Terra Média habitado por hobbits.

Assim, “O Expurgo Do Condado” narra o retorno de Frodo, Sam, Merry e Pippin ao lar, após a Guerra do Anel. Contudo, em vez da paz esperada, os quatro hobbits encontram um Condado totalmente descaracterizado, submetido a regras arbitrárias, vigilância permanente e pobreza generalizada. Os chamados “valentões” controlam as vilas e estradas, confiscam propriedades, restringem o comércio e governam em nome de um chefe misterioso chamado Charcão. O caos se instalou. Árvores foram derrubadas, casas foram destruídas e a vida cotidiana perdeu a sua simplicidade tradicional. Os amigos, agora transformados pela jornada do Anel, percebem que não podem simplesmente retomar as suas rotinas. O mal não ficou distante: ele se instalou em casa. A vitória contra Sauron não garantiu a liberdade local.

O choque dos quatro hobbits não é apenas material, mas também moral. Eles percebem que essa submissão do Condado não ocorreu por conquista militar externa, mas por acomodação, medo e aceitação gradual de regras injustas. Muitos hobbits obedeceram, porque acreditaram que “era a nova ordem”, ou porque esperavam evitar problemas. Esse detalhe é crucial: Tolkien mostra que a tirania freqüentemente se estabelece não pela força absoluta, mas sim pela lenta erosão da responsabilidade individual. Merry e Pippin, em especial, reconhecem que as suas experiências fora do Condado os tornaram mais aptos a liderar uma revolta contra a situação. Eles aprenderam que a autoridade legítima não nasce de decretos, mas do reconhecimento, do consentimento e da defesa ativa da comunidade contra abusos.

O regime imposto por Charcão e seus sicários é essencialmente um micro-estado, com taxas e impostos, regras estapafúrdias, punições injustas, confisco de bens e restrição de atividades pacíficas. Em outras palavras, socialismo. Nada disso, claro, melhora a vida dos hobbits. Muito pelo contrário: gera escassez, medo e decadência ambiental. Tolkien deixa claro que a suposta autoridade dos “valentões” não tem base moral, apenas coercitiva. O Condado sob Charcão nos mostra que basta um grupo se arrogar o direito de mandar, legislar e punir para que se chegue à opressão. Além disso, o autor também deixa bem claro que essa opressão só persiste, porque a grande maioria dos hobbits aceita passivamente as ordens absurdas. Assim, Tolkien enfatiza que um dos pilares mais sólidos da dominação política é justamente a obediência cega.

Em certo momento do capítulo, é revelado que Charcão é ninguém mais, ninguém menos do que Saruman, o grande sábio seduzido pelo poder do Um Anel e derrotado por Gandalf. Essa revelação de Charcão como Saruman é simbólica. Antes um grandioso mago, ele termina como um tirano mesquinho, administrando regulamentos, galpões e listas de proibições. Seu poder não vem mais da grandeza intelectual ou da força, mas do controle burocrático. Não cria nada, apenas redistribui, proíbe e destrói. Em outras palavras, Saruman se torna um político. Já não tem mais nenhum propósito elevado e passa a existir apenas para exercer o poder. Incapaz de produzir, governa por ressentimento e coerção, reduzindo todos aqueles ao seu redor para se sentir relevante. E, de novo, tudo isso só é possível graças à passividade dos hobbits.

A reação ao domínio de Charcão não parte de uma autoridade central alternativa, mas sim da mobilização espontânea dos próprios hobbits. Merry e Pippin organizam a resistência com base em laços comunitários, conhecimento local e disposição voluntária para agir. Não há um “estado do Condado” se reerguendo; há vizinhos defendendo vizinhos. O clímax da resistência é a “Batalha de Beirágua”. Ela não é uma guerra tradicional; é a expulsão de parasitas políticos – com o perdão do pleonasmo – que nada produzem e apenas impõem regras arbitrárias. Sob a ótica libertária, esse momento ilustra a idéia de autodefesa e ordem emergente: quando elas decidim agir, as pessoas comuns conseguem restaurar a paz sem a necessidade de alguém lhes impondo o que fazer, isto é, sem coerção, sem burocracia e sem planejamento central.

Quando Charcão, isto é, Saruman, é derrotado, a maioria dos hobbits quer a sua execução. É uma postura vingativa e compreensível. Contudo, Frodo a rejeita e impede a execução sumária de Saruman. Não por ingenuidade, mas sim por uma compreensão profunda do custo moral da violência. Ele sabe que a vitória obtida pela destruição total de um inimigo já derrotado deixa marcas irreparáveis em quem a pratica. Frodo reconhece que matar Saruman daquela forma não restauraria o Condado, nem tampouco curaria suas feridas. Porém, Tolkien não romantiza essa escolha. Ele ressalta que seu preço é alto. Frodo está destroçado mentalmente. Ele ajudou a salvar o Condado, mas não consegue mais viver plenamente nele. A misericórdia, aqui, não é barata nem confortável. Junto com Gandalf e Bilbo, Frodo acaba partindo da Terra Média.

Além de Saruman, outro personagem que aparece nesse capítulo é Grima Língua-de-Cobra. Ele fora membro da corte do rei Théoden. Oficialmente, era o conselheiro real, mas, na prática, era um agente de Saruman, envenenando o rei com meias-verdades e medo. Após sua queda, Grima segue Saruman e acaba reduzido a um estado de humilhação e servidão. Em “O Expurgo Do Condado”, Grima é a personificação do servo do poder. Não governa, mas viabiliza a tirania, obedecendo ordens em troca de proteção mínima. É Grima que mata Saruman, enfatizando a instabilidade inerente às relações baseadas em coerção. Logo depois, ele próprio é morto. Esse final trágico de ambos mostra que as estruturas de poder coercitivo se autodestroem, pois não criam lealdade genuína, apenas submissão temporária.

Após o expurgo, o Condado é reconstruído sem decretos, burocracia ou planos qüinqüenais. Cada hobbit contribui conforme suas habilidades e recursos. Sam, com o presente de Galadriel, ajuda a restaurar a fertilidade da terra, mas o processo é descentralizado e orgânico. Tudo isso reforça a posição libertária de que a prosperidade nasce de ações voluntárias e de cooperação livre, não de políticas impostas de cima para baixo. Tolkien, que, por sinal, era um libertário, sugere que a ordem natural das coisas retorna, quando a coerção é removida. Não é por acaso que a recuperação do Condado é rápida. Todos aqueles obstáculos artificiais – controle, regras, confiscos… – foram removidos. O planejamento central desaparece. Os incentivos corretos se alinham. E os recursos são alocados ética e racionalmente.

No início e no final da saga, o Condado funciona como uma sociedade quase libertária: sem governo central, com normas sociais informais, respeito à propriedade e interferência externa mínima. O capítulo discutido mostra o contraste entre tal ordem espontânea e a distorção que é causada pela autoridade imposta. Tolkien não idealiza a ausência total de conflito, mas deixa claro que os problemas do Condado aparecem quando alguém tenta “organizar” a vida alheia. A lição libertária é evidente: as comunidades funcionam melhor quando as pessoas são livres para viver, produzir e trocar em paz. Enfim, ”O Expurgo do Condado” é uma conclusão moral poderosa para a saga. A luta pela liberdade não termina com a derrota de um grande inimigo. A luta contra a tirania continua em casa, sem concessões e sem obediência cega.

6 COMMENTS

  1. “sem governo central, com normas sociais informais, respeito à propriedade e interferência externa mínima.”

    A questão é que o governo existe e, por assim, é necessário. E neste sentido, é um bem, não um “mal necessário”. Ainda que isso não tenha nada a ver com o estado moderno. O estado (governança), é o poder militar da Igreja Católica. Assim como o sionismo é o braço armado do talmudismo ou o estado moderno é o braço armado da maçonaria. O estado moderno não é uma teoria, doutrina ou qualquer coisa do tipo, mas uma sucessão de fatos, sendo a ideologia uma justificativa pos facto.

    O libertarianismo é de fato, uma espécie de liberalismo radical, pois em síntese, é a constatação de que o estado moderno é ruim para os negócios, ou seja, uma ameaça ao padrão de vida material das elites violentas que derrubaram a Igreja Católica. Somente assim é possível compreender porque os comunistas, estatistas e a esquerda em geral colocam os libertários e liberais no mesmo saco, sendo que a filosofia política e moral é infinitamente mais refinada que o liberalismo. Ainda que o libertarianismo esteja correto, ontologicamente é liberal.

    O ancapistão é a cristandade medieval ou não passa de nonsense.

    • Esse posto mostra infelizmente que o elogio de autores como Hoppe ao descentralismo político na idade média está inundando o libertarianismo com fundamentalistas católicos de todo o tipo. Os caras querem uma volta da imposição religiosa, cultural e moral desta instituição política/religiosa que impunha a sua estrutura socio-economica a todos, mesmo que não fossem católicos, igual a regimes teocráticos que ainda vemos por aí como do Iran. O discurso deste post é o mesmo de malucos como o Kogos que deixou de ser libertário a muito tempo, mas ainda assim ficam usando o rótulo libertário.

      De fato o libertarianismo é uma doutrina com origens no liberalismo radical europeu, como esses católicos tradicionais dizem, contra imposição de governos, normas sociais e econômicos via coação, mas que no meio libertário brasileiro isso tem se perdido. Rothbard tinha bem isso em mente, no primeiro capítulo do manifesto libertário, ao se posicionar a favor dos radicais do Laissez-Faire que eram contra a casta de nobres e clérigos do ancien regime, que queriam manter seus privilégios injustificados, defendido por conservadores de toda ordem (religiosos ou seculares).

      O que estou percebendo é que ou os libertarios no Brasil estão abandonando o libertarianismo por conta de uma adesão a esse catolicismo medieval fundamentalista, ou estão se mantendo libertário no nome e corrompendo o movimento enfiando todo o tipo de doutrina que viola direitos de propriedade para justificar um suposto direito divino numa instituição que mistura religião com controle centralizado da sociedade, como a igreja católica medieval. Os primeiros pelo menos eu respeito por assumirem que sua ideologia não tem nada a ver com libertarianismo (como aquele maluco do Mateus Larsan), mas os segundos como o Kogos, vão causar uma confusão ao inserir catolicismo fundamentalista no meio da doutrina libertaria e se dizer que se trata de libertarianismo ainda.

      • Não sou contra a pessoa ter alguma fé religiosa, porém o que esse católicos fundamentalistas defendem é que a igreja católica volte a ter o poder de “estado” que tinha e possa proibir comportamentos, relações e contratos voluntários e que nao agrida os outros. Por exemplo, que possa proibir de contratos de empréstimos sob juros (usura), proíba certos discursos que defenda outras doutrinas religiosas, ou que ataque a igreja ou tire sarro dela (como o Index de Livros proibidos da idade média), incluindo poder de perseguição aberto como no caso da inquisição, proíba divorcio, relação de trabalho “exploratória” (em que não se pague o “devido” dependendo do quando a pessoa precise por suas necessidade, como país de familia, etc…), controle do ensino, venda de certas substâncias e certos serviços como prostituição e jogos de azar, etc… A lista é longa, e isso em nada tem a ver com a doutrina normativa libertaria, que impede uma instituição não consentida imponha estas regras.

        • Concordo com você.
          Espero que esses anarcocatólicos nunca tenham a oportunidade de criar o Estado(sic) deles.

          • Imagina que o mineirinho anônimo não concordaria com o noivo.
            Parabéns ao casal.

  2. Definitivamente está provado que a visão de Hoppe sobre a cristandade medieval está correta. Está tão certa que Herr Hoppe tentou convencer seu mestre Murray fucking Rothbard a ser mais tolerante com a cristandade. O que funcionou em parte, já que Rothbard era tomista e decorou que se fosse obrigado a escolher, seria católico. Mas aqui estamos falando de dois gênios, não dos alucinados de Internet, que estão inundando o libertarianismo com fundamentalistas ateus de todo o tipo.

    Um ateu, por definição, é burro. No máximo um burro ilustrado, pois não são capazes de compreender a revelação cristã e o que se deriva disso. A burrice do ateu é imaginar que a propaganda anti-católica que ele aprendeu com o professor de história maconheiro é a realidade. Assim, o ateu materialista vai dizer que a Igreja Católica “impõe” sua doutrina a todo mundo, indistintamente, sendo que a imposição religiosa para adultos é proibida pela Igreja. Ou seja, o ateu putanheiro dos comunistas é contra a família, já que não é imposição dos pais escolher a religião do filho – inclusive as falsas religiões, mas sim ao vizinho.

    De modo que não existe nem existiu uma ditadura católica ou coisa do tipo. Isso é eco na cabeça dos ateus. Se é possível afirmar que a cristandade medieval era uma teocracia católica, isso é no máximo uma inferência. A Igreja Católica nasceu antes dos estados medievais que surgiram após o colapso do Império Romano, ou seja, a Igreja era independente e pela graça, a gangue estatal de ladrões e assassinos em larga escala se converteu ao catolicismo. Ninguém obrigou.

    Estas réplicas ao meu comentário são de comunistas disfarçados de libertários, pois é impossível atacar a Igreja Católica sem ser comunista ou estatista, considerando a relação tolerante que Mises, Rothbard e Herr Hoppe tem com os católicos. Esse pessoal alucinado utiliza o rótulo de libertário, mas por analogia. São os liberteens do Paulo Kogos. Até mesmo o Murray quis se afastar dessa gangue, se definindo como paleolibertario.

    A questão é bem simples. O libertarianismo é ontologicamente uma derivação do liberalismo radical que matou e roubou em larga escala a Igreja Católica, ou seja, é uma ideologia estatista. E aqui é estatismo no sentido de ser contra o descentralismo da cristandade medieval, que dificultava a vida dos materialistas ateus. Se Mises, Rothbard e Herr Hoppe ainda são relevantes, é porque eles demonstraram que o estado é ruim por si mesmo, é ineficiente por derivação. Mas a moral libertário acaba não sendo muito diferente da moral liberal. Ou seja, libertarianismo é imoral, pois não provou que uma sucessão de fatos comerciais é capaz de fornecer justiça e moral válidas de maneira universal. Os liberaloides ao menos adotam a moral estatal.

    É verdade que Rothbard não era católico e via o sistema feudal como uma série de privilégios. Mas, se ele estava certo, é por uma questão sociológica, não porque ontologicamente o catolicismo precisa de governos ou nobres para existir. A nobreza corrupta é um elemento acidental. E provavelmente Herr Hoppe pediu tolerância para a cristandade medieval porque ele viu que as portas do inferno foram abertas, ou seja, ainda que imperfeita, a cristandade medieval mantinha uma certa ordem. Hoje em dia é fácil identificar o estado moderno como uma instituição genocida, já que essa gente joga bombas atômicas e convencionais sobre civis desarmados e inocentes como se fosse confetes.

    O que estou percebendo é que ou os libertarios no Brasil estão abandonando o libertarianismo por conta de uma adesão a esse catolicismo medieval fundamentalista,

    O anarcoateu se tornou um fundamentalista dos mercados, ou seja, é um randiano, ainda que não admita. Ou seja, mantém o rótulo de libertários, pois por algum motivo que eu não sei, não querem ser adeptos da seita randiana, cujo Deus é um empresário egoísta. Caso de exorcismo ou psiquiatra.

    O anarcoateu não entende nada de catolicismo, senão agradeceria o Paulo Kogos e este que vos fala por afirmar que o libertarianismo pode ser relevante se adotar a moral católica, ainda que deixe de ser aquele suposto libertarianismo puro, que ninguém nunca viu. A questão é que os católicos que tentam salvar o libertarianismo do gueto são pouco. Todo o sistema considera o libertarianismo coisa de terraplanista, essa que é a verdade.

    O problema do anarcoateu é imaginar que a Igreja Católica é o templo protestante dentro da garagem e com cadeiras de plástico. Esses sim são os verdadeiros fundamentalistas fanáticos. Até por que tem que ser assim, já que são mentirosos a serviço de Satanás. Com a sua ignorância os anarcoateus irão que a Igreja Católica quer ter poder de estado “que tinha”… que poder? A lista de espantalhos é longa.

    A questão deveria se estender, mas aí os anarcoateus teriam que ler a história da Igreja, sua doutrina, a Sagrada Escritura…mas os anarcoateus não sabem interpretar nem uma lista de compras de supermercado, o que dirá algo mais difícil que física nuclear, que é a revelação cristã?

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here