Os três grandes liberais autocontraditórios: Smith, Hayek e Rand

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Grandes pensadores com algumas conclusões não tão boas

Em 1759, Adam Smith publicou A Teoria dos Sentimentos Morais, argumentando que a empatia natural une as sociedades. Dezessete anos depois, em A Riqueza das Nações (1776), ele propôs que o egoísmo individual — guiado por uma “mão invisível” — gera prosperidade geral. A (aparente) contradição nunca foi resolvida em suas ideias de governo. Dois séculos depois, Friedrich Hayek defendeu a evolução espontânea das instituições como base da liberdade, mas recusou-se a aplicar essa mesma lógica evolutiva à moralidade ocidental, preferindo uma ordem “racional” moderna/pós-moderna. E Ayn Rand, apóstola da razão objetiva, construiu um sistema filosófico que seu discípulo Roy Childs Jr. demoliu em uma carta de 1969, demonstrando que o anarcocapitalismo ou algum sistema competitivo de governo/juiz era a conclusão lógica de suas premissas — uma conclusão que Rand rejeitou com fúria emocional.

Tese central:

Adam Smith, Friedrich Hayek e Ayn Rand são três pilares intelectuais do liberalismo moderno. Suas ideias inspiraram revoluções econômicas, desmontaram ortodoxias estatistas e defenderam a liberdade com uma eloquência quase sem igual. Mas os três cometeram o mesmo “crime” intelectual: não seguiram seus próprios sistemas até as consequências finais, introduzindo exceções arbitrárias que enfraquecem a coerência de suas filosofias. Smith não seguiu a mão invisível do laissez-faire radical; Hayek não seguiu a evolução até aceitar a moralidade natural; Rand não seguiu a razão até o anarcocapitalismo.

Relevância atual: Esses três pensadores têm devotos acríticos que os tratam como santos infalíveis. Compreender suas contradições internas não é “atacá-los”, mas honrar seus legados com mínima honestidade intelectual: pegar o melhor de suas ideias e completar o que deixaram inacabado.

1. Adam Smith: a mão invisível que parou no meio-caminho

A. A genialidade de Smith: ordem econômica espontânea

Adam Smith fez parte de uma corrente que revolucionou a economia com uma ideia radical: os mercados “se autorregulam” melhor do que os planejadores. Em A Riqueza das Nações (Livro IV, Capítulo II), ele escreveu:

        “Ao preferir fomentar a atividade do país e não de outros países ele tem em vista apenas sua própria segurança; e orientando sua atividade de tal maneira que sua produção possa ser de maior valor, visa apenas a seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como que por mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções.”

Implicação lógica: Se os mercados funcionarem melhor sem intervenção estatal, qualquer monopólio, subsídio, tarifa ou regulação é ineficiente. A conclusão de Smith deveria ter sido um laissez-faire radical: Estado mínimo ou inexistente na economia.

B. As contradições de Smith: exceções Ad Hoc

Mas Smith introduziu exceções arbitrárias que contradizem sua própria lógica:

  1. Defesa dos monopólios estatais

Em A Riqueza das Nações (Livro V, Capítulo I, Parte III), Smith justifica a administração do estado:

  • Correios: Smith argumenta, em essência (paráfrase), que “O correio é o único comércio mercantil gerenciado com sucesso por todos os tipos de governos.”
  • Obras públicas: Pontes, estradas, canais.
  • Educação básica: Smith sustenta essencialmente que “O estado deve forçar a população a adquirir educação elementar.”

Contradição: Se a mão invisível otimiza a padaria, por que não o correio? Smith nunca explicou por que esses setores são exceções.

Refutação histórica:

  • Correspondência Privada: No século XIX, empresas como Wells Fargo e American Express demonstraram eficiência superior à correspondência do estado dos EUA (Adie, The Mail Must Go Through, 1960).
  • Educação privada: Antes da educação pública obrigatória (1870 na Inglaterra), as taxas de alfabetização eram de 70% nas áreas urbanas graças às escolas particulares e religiosas (West, Education and the State, 1965).
  1. Tarifas “estratégicas”

Smith defendeu tarifas em casos de “indústrias vitais para a defesa nacional” (Riqueza, Livro IV, Cap. II):

          “Se alguma indústria específica for necessária para a defesa do país, não é prudente depender de nossos vizinhos para seu suprimento.”

Contradição: Quem define qual indústria é “vital”? Smith abre a porta para o protecionismo discricionário que ele mesmo criticou no sistema mercantilista.

Exemplo moderno: os EUA justificaram tarifas sobre o aço em 2002 como “segurança nacional”. Resultado: Perda de 200.000 empregos em indústrias que consomem aço (François & Baughman, Trade Partnership Study, 2003), exatamente o que Smith previu sobre os custos do protecionismo… exceto quando ele abria exceções.

  1. Regulação dos juros bancários

Smith apoiou limites legais para as taxas de juros (Riqueza, Livro II, Cap. IV):

          “Em países onde a taxa legal de juros é muito maior que a taxa de mercado, grande parte do dinheiro emprestado será gasto em projetos desesperados.”

Contradição: Se os preços (incluindo o “preço do dinheiro”, ou, para falar a verdade, o aluguel das poupanças de outras pessoas) devem ser livres, por que não os juros? Smith temia a “especulação excessiva”, mas essa é justamente a justificativa que os mercantilistas usavam para controlar os preços do trigo ou da lã.

Evidências posteriores: Os controles de taxas de juros (leis de usura) causaram o racionamento de crédito na Inglaterra até sua liberalização na década de 1850, assim como previsto pela teoria do equilíbrio de mercado que Smith co-inspirou a construir (Temin & Voth, Prometheus Shackled, 2013).

C. A contradição fundamental: Teoria dos sentimentos morais vs. Egoísmo racional

Em Teoria dos Sentimentos Morais (1759), Smith argumenta que a simpatia natural (empatia) é a base da moralidade:

         “Por mais egoísta que um homem possa ser suposto, há evidentemente em sua natureza alguns princípios que o tornam interessado na sorte dos outros.”

Mas em A Riqueza das Nações (1776):

       “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse.”

O homem é naturalmente empático ou egoísta? Smith nunca reconciliou as duas visões. Seus defensores argumentam que elas não são contraditórias (empatia privada + egoísmo comercial coexistem), mas Smith não explicou por que o estado deveria intervir para “cultivar simpatia” (por meio da educação pública) se o egoísmo já produz bem-estar social.

Implicação: Se aceitarmos que o egoísmo gera ordem, não precisamos de um estado paternalista. Se aceitarmos que precisamos “cultivar a virtude”, então a mão invisível é insuficiente (ou simplesmente existe uma mão invisível também para virtudes que criam bens públicos e mantêm os espaços comuns). Smith nunca resolveu a tensão.

2. Friedrich Hayek: O evolucionista que rejeitou a evolução ocidental

A. A genialidade de Hayek: Ordem institucional espontânea

Friedrich Hayek estendeu a “mão invisível” de Smith além da economia. Em The Fatal Arrogance (1988) e Law, Legislation, and Liberty (1973–79), ele argumentou que instituições como lei, linguagem, moeda e normas morais evoluem espontaneamente, sem design consciente, por meio de um processo de seleção cultural análogo à seleção natural darwiniana.

Hayek formula uma ideia que podemos resumir da seguinte forma: As instituições que permitiram a expansão da ordem espontânea—propriedade, contrato, família—não foram criadas por ninguém, mas surgiram porque os grupos que as adotaram prosperaram mais do que aqueles que não as adotaram.

Implicação lógica: Se as instituições evoluem por meio da seleção em grupo (grupos com melhores regras prosperam, outros desaparecem), então as instituições existentes no Ocidente (propriedade privada, mercados, estado de direito) são superiores porque sobreviveram à competição evolutiva.

B. A contradição de Hayek: Rejeitando a moralidade evoluída

Hayek aplicou sua lógica evolutiva à economia (mercados espontâneos), ao direito (common law superior a lei escrita), à linguagem (ninguém “projetou” o inglês)… Mas não para a moralidade.

  1. A armadilha da “ordem abstrata”

Hayek defendeu uma ordem “abstrata” e “universal” baseada em regras gerais, rejeitando normas comunitárias ou religiosas como “tribalismo primitivo” que podemos resumir da seguinte forma: a moralidade de mercado e a moralidade tribal são incompatíveis. A sobrevivência da civilização depende de abandonar os instintos tribais, mesmo que eles incluam solidariedade, redistribuição e justiça social.

Para ser justo, Hayek também sugeriu que vivemos em duas ordens ao mesmo tempo, uma mais íntima e outra social prolongada, e ele advertiu brilhantemente contra o uso das regras de uma na outra.

Contradição: Se a evolução cultural favoreceu o Ocidente, por que o Ocidente é cristão, comunitarista e fundado na lei natural aristotélico-tomista? Muitas das instituições que Hayek admira (propriedade, contrato, família) evoluíram dentro de estruturas morais religiosas ou pelo menos continuaram sua evolução bem-sucedida, e não como “regras abstratas” desprovidas de conteúdo moral substantivo.

Evidências Históricas:

  • Inglaterra (berço da common law que Hayek admirava e usava como exemplo): O direito anglo-saxão estava saturado de cristianismo. Blackstone, em Commentaries on the Laws of England (1765–69), definiu direito como “uma regra de ação ditada por um ser superior” (Deus).
  • Propriedade privada: Locke (a fundação filosófica de Hayek) justificava a propriedade por meio da teologia cristã (Segundo Tratado, Cap. 5: “Deus deu a terra à humanidade em comum, mas…”).

Se Hayek fosse aplicar sua própria lógica evolutiva, teria que concluir: “O Ocidente prosperou porque sua moralidade cristã (lei natural, família, caridade organizada) é evolutivamente superior.” Mas ele rejeitou essa conclusão porque estava parcialmente descontente com o “conteúdo” dessa moralidade (especialmente seus elementos comunitaristas e redistributivos).

  1. A rejeição arbitrária da lei natural

Hayek criticou explicitamente o direito natural como “racionalismo construtivista” (Direito, Legislação e Liberdade). Ele formula uma ideia que podemos resumir em “A crença em uma ordem natural moral é uma superstição que confunde o que é com o que deveria ser.”

Contradição: Mas a lei natural tomista não é racionalismo construtivista! Santo Tomás de Aquino argumentou que a lei natural emerge da natureza humana observada, e não de deduções racionalistas a priori. Ou seja, é uma ordem moral espontânea, exatamente o que Hayek defendia para a economia.

Comparação:

  • Hayek sobre mercados: “Ninguém projetou o mercado; ele surgiu de interações descentralizadas.”
  • Tomás de Aquino, sobre moralidade, disse, em essência, que ninguém criou a lei natural; ela emerge da natureza racional do homem e de sua busca pelo bem (em sua Summa Theologica).

Hayek rejeitou a segunda sem explicar por que o mesmo mecanismo (evolução/emergência) funciona na economia, mas não na ética.

  1. A consequência não aceita: Relativismo moral

Se rejeitamos a moralidade evoluída (lei natural) e aceitamos apenas “regras abstratas de conduta”, de onde vêm essas regras?

Hayek nunca respondeu isso satisfatoriamente. Sua única resposta foi: “Da tradição.” Mas isso é circular: que tradição? A tradição ocidental é cristã e de direito natural.

Resultado: Hayek está preso em um relativismo cultural leve:

  • Ele não pode dizer que o Ocidente é objetivamente superior (seria “racionalismo”).
  • Ele só pode dizer que “historicamente funcionou melhor”… mas esse é precisamente o argumento da lei natural evolutiva que ele rejeita.

C. A ironia final: Hayek vs. Ciência Evolutiva Moderna

Hayek baseou sua teoria na seleção cultural de grupos, uma ideia controversa na biologia evolutiva (muitos biólogos a rejeitam em favor da seleção individual ou genética).

Mas Hayek rejeitou a sociobiologia quando ela tentou explicar a moralidade por meio da evolução biológica (E.O. Wilson, Sociobiology, 1975). Ele argumentava que a cultura substituiu a biologia (a realidade sobre “natureza vs. criação”: elas têm uma relação bastante dialética, influenciam-se mutuamente e co-determinam o que chamamos de “cultura”).

Contradição:

  • Se a cultura pode produzir uma moralidade superior (mercados, propriedade), por que não aceitar que a cultura codifica verdades morais objetivas para os seres humanos como seres humanos (lei natural)?
  • Se rejeitamos uma moralidade objetiva, por que defender a “liberdade” como um valor universal? Isso não é também uma imposição cultural se a evolução de uma certa cultura não chegou — e por si só — a esse ponto?

Hayek nunca saiu do dilema: ele queria um universalismo liberal sem fundamento metafísico, evolução cultural sem conteúdo moral, tradição sem tradições espirituais ou religiosas. Tipo… Ayn Rand diria: ela queria o melhor dos dois mundos.

3. Ayn Rand: A racionalista que rejeitou a conclusão racional

A. A genialidade de Rand: Ética dos direitos individuais absolutos

Ayn Rand construiu em The Virtue of Selfishness (1964) e Atlas Shrugged (1957) um sistema filosófico coerente:

Cenários:

  1. Metafísica: A realidade objetiva existe (A = A).
  2. Epistemologia: A razão é o único meio válido de conhecimento.
  3. Ética: A vida do homem como padrão de valor (sobrevivência racional).
  4. Política: Direitos individuais são absolutos; a força é legítima apenas em legítima defesa.

Conclusão explícita de Rand:

          “Um governo é o meio de colocar o uso retaliatório da força física sob controle objetivo… O único propósito adequado de um governo é proteger os direitos do homem” (A Virtude do Egoísmo, “A Natureza do Governo”).

Implicação lógica: O estado deve ser limitado à defesa (exército), polícia e tribunais. Estado ou governo mínimo (minarquismo).

B. A carta de Roy Childs Jr.: A refutação interna

Em 1969, Roy Childs Jr. (então com 19 anos) escreveu uma carta aberta a Ayn Rand publicada no The Rational Individualist. Seu argumento:

Se aceitarmos as premissas de Rand:

  1. Qualquer iniciação da força é imoral.
  2. Monopólios coercitivos são ineficientes e injustos.
  3. A razão mostra que os mercados livres resolvem problemas melhor do que a tributação.

Portanto, o estado mínimo (minarquismo) é contraditório porque:

  • O estado é um monopólio coercitivo da força em um território.
  • Ele financia seus serviços por meio de impostos obrigatórios (iniciação da força).
  • Ela proíbe a concorrência na defesa/justiça (violação da liberdade).

Conclusão de Childs: Anarcocapitalismo (competição privada em todos os serviços, incluindo defesa) é a única posição consistente com as premissas de Rand.

Citação chave da carta:

“Se o governo é um monopólio coercitivo que obtém suas receitas por meio de expropriação (impostos), então é uma instituição que inicia o uso da força… Sra. Rand, você deve ser anarquista.

C. A resposta de Rand: fúria emocional, nenhum argumento

Rand nunca refutou Childs intelectualmente. Em vez disso:

  1. Ataques ad hominem

Em uma carta particular (1971), Rand chamou anarcocapitalistas de “hippies de direita” (Branden, The Passion of Ayn Rand, 1986).

Nenhum argumento específico contra Childs, apenas desqualificações.

  1. Argumentos circulares

A única tentativa de refutação apareceu em A Virtude do Egoísmo (“A Natureza do Governo”):

      “O uso da força física, mesmo em legítima defesa, não pode ser deixado a critério dos cidadãos individuais. Deve ser definido objetivamente por lei.”

Contradição: Por quê? Childs e os anarcocapitalistas (Rothbard, Friedman, embora sejam tão diferentes entre si) argumentam que agências privadas, seguradoras, centros de mediação e juízes comunitários de paz podem criar leis objetivas por meio da arbitragem competitiva, assim como a common law surgiu sem um estado central e assim como o muito admirado direito romano surgiu mundialmente (juízes privados e competitivos). A concorrência obviamente produz mais objetividade do que o monopólio que transforma os juízes em burocratas.

Rand respondeu: “Mas isso causaria guerras interagências.” Childs: “Estados causam guerras. As empresas negociam porque a guerra é cara.” Rand: “Você precisa de um árbitro final.” Childs: “Quem arbitra entre os estados? Ninguém, e ainda assim o sistema internacional funciona parcialmente bem, ou mesmo bem segundo os estatistas.”

Rand nunca respondeu a essa tréplica. Ela simplesmente decretou que um governo mínimo era necessário, violando seu próprio princípio de não aceitar nada sem demonstração racional.

Na realidade, a maioria das pessoas prefere paz, comércio e investimento de longo prazo pensando na família. Geralmente são os estados que criam “zonas de guerra”, e o que as comunidades pacíficas precisam é de boa defesa (e com os avanços tecnológicos, isso está se tornando cada vez mais acessível).

Além disso, há múltiplos casos reais de sociedades que duraram centenas de anos — sendo a mais curta a República de Cospaia — sem políticos e com um sistema de governo de juízes (kritarquia) ou sistemas puramente privados de resolução de conflitos (ver “Justiça sem Estado” do professor Bruce Benson). Mesmo que não tenham durado séculos, com apenas algumas décadas de alívio por não ter políticos comandando suas vidas, isso tornou esses experimentos reais de liberdade valiosos (sem falar na criação de produtos para a posteridade e ainda admirados hoje, como a Lex Mercatoria).

Mesmo a inexistência de um governo central já está bem próxima disso, e é por isso que a Grécia, quando era formada por 1.500 cidades/reinos separados sem um governo central, produziu “mais gênios em 200 anos do que a Europa nos 2.000 seguintes”.

  1. A exceção ad hoc: impostos “voluntários”

Em The Virtue of Selfishness, Rand sugeriu que o governo poderia ser financiado por “tributação voluntária” ou taxas por serviços jurídicos (registro de contratos, etc.).

Problema: Se forem voluntários, não são impostos (são preços de mercado). Se conseguirem financiar o governo, então um esquema sem políticos (empresa de segurança competitiva) também pode funcionar. Rand nunca explicou a diferença.

Comparação com Hayek: Ambos introduziram uma exceção arbitrária justamente quando seus argumentos os levaram a conclusões radicais. Hayek rejeitou a lei natural sem justificativa; Rand rejeitou o anarcocapitalismo ou a acracia (mundo sem políticos) sem refutação.

  1. A ironia: Rothbard seguia Rand mais do que a própria Rand

Murray Rothbard, ex-aluno de Rand por um tempo, apresenta uma posição que, para fins analíticos, pode ser expressa dessa forma:

       Se o estado é o problema, a solução não é torná-lo menor, mas eliminá-lo. Qualquer função estatal pode ser privatizada: defesa (seguro de proteção), justiça (arbitragem), direito (common law emergente). (A ética da liberdade, 1982)

Rand o expulsou de seu círculo em 1958 por “heresia” (Rothbard, “A sociologia do culto a Ayn Rand, 1968). A ironia: Rothbard era mais fiel aos princípios de Rand do que ela.

Evidências de contradição:

  • Rand resume que todos os monopólios são imorais e um privilégio concedido por políticos (Capitalismo: O Ideal Desconhecido, “A Minoria Perseguida da América: Grandes Empresas”).
  • Rand diz: “O governo é o meio de colocar o uso retaliatório da força física sob controle objetivo — isto é, sob leis objetivamente definidas.” (A Virtude do Egoísmo, “A Natureza do Governo”).

Como pode haver um único monopólio coercitivo moral se todos os monopólios coercitivos são imorais? O que há de “objetivo” em um sistema monopolista em vez de um policêntrico baseado em juízes não burocráticos? Rand nunca explicou.

Possíveis objeções e respostas necessárias

Objeção 1: “Essas contradições não importam; suas ideias ainda são valiosas”

Resposta: Absolutamente verdade. Smith, Hayek e Rand fizeram contribuições monumentais. Mas:

  1. A honestidade intelectual exige reconhecer os limites deles. Tratá-los como infalíveis (como muitos seguidores fazem) é trair o espírito crítico deles; é traí-los.
  2. As contradições deles não são triviais:
  • Se Smith aceita monopólios estatais, por que não aceitar uma regulação mais “excepcional”? (Porta para o socialismo gradual).
  • Se Hayek rejeita a moralidade evoluída, como o Ocidente pode ser defendido contra o relativismo cultural?
  • Se Rand aceita um monopólio estatal, por que não aceitar outros “monopólios necessários”? (Saúde, educação, etc.).

Essas inconsistências foram exploradas por seus adversários para expandir o estado ou eles também faziam “pick and choose” em várias questões.

Objeção 2: “Smith/Hayek/Rand eram pragmáticos, não ideólogos”

Refutação:

  • Smith: Seu próprio método (dedução de princípios gerais) exigia consistência. Se a mão invisível funciona, funciona sempre ou nunca.
  • Hayek: Ele se definia como defensor dos princípios versus o pragmatismo (O Caminho da Servidão, Cap. 2). Ele rejeitou as “meias-medidas”.
  • Rand: Ela era a menos pragmática dos três. Ela rejeitou explicitamente as concessões (Atlas Shrugged: “Em toda transação em que o irracional é renunciado e o racional é aceito, apenas o irracional pode se beneficiar”).

Se eles rejeitaram o pragmatismo, não podemos usá-lo para justificar as contradições deles.

Objeção 3: “Completar seus sistemas levaria a extremos perigosos”

Resposta: Talvez. Mas esse é um debate diferente. Se argumentarmos que:

  • O laissez-faire total causa monopólios abusivos (contra o que Smith diz).
  • A lei natural é supersticiosa (contra Hayek).
  • O anarcocapitalismo causa caos (contra Rand).

Portanto, devemos admitir que rejeitamos seus princípios fundamentais, não que somos “smithianos/hayekianos/randianos consistentes.”

Exemplo: Um marxista pode dizer: “Marx estava errado em sua teoria do valor-trabalho, mas está certo na alienação.” Isso é honesto. O desonesto é dizer “Sou marxista, mas o valor-trabalho não importa”.

Da mesma forma: podemos dizer “Smith estava radicalmente errado, mas suas intuições sobre comércio são valiosas.” O desonesto é dizer “Eu sou smithiano, mas monopólios estatais são necessários”.

Lições para o presente

  1. Questionar ídolos intelectuais é honrá-los

Os três pensadores foram revolucionários críticos em sua época:

  • Smith vs. mercantilismo.
  • Hayek vs. socialismo.
  • Rand vs. Altruísmo Coletivista.

Traímos o legado deles se os transformarmos em dogmas. Hayek formula uma ideia próxima disso em O Caminho da Servidão e faz isso sabiamente: nenhum líder intelectual deve ser seguido cegamente. Esse é o princípio do totalitarismo.

Aplicação: Podemos admirar Smith sem defender o correio estatal. Admirar Hayek sem rejeitar a lei natural. Admirar Rand sem rejeitar ideias mais profundas para limitar ou colocar sistemas de governança em competição. Tire o melhor deles, melhore o que é fraco.

  1. A coerência lógica tem valor prático

Exemplo de Smith: Suas exceções (monopólios estatais) foram usadas por keynesianos e socialistas para justificar a expansão estatal:

  • “Se Smith aceita o correio estatal, por que não ferrovias?” (argumento a favor da nacionalização no Reino Unido, década de 1940).
  • “Se Smith aceita a educação pública, por que não a saúde pública?” (Beveridge Report, 1942).

Lição: Inconsistências “puramente teóricas ” tornam-se portas práticas para o estatismo que políticos e burocracias sabem aproveitar muito bem.

  1. Sistemas incompletos convidam à conclusão (por outros)
  • Smith deixou o laissez-faire inacabado. Bastiat e Mises o completaram.
  • Hayek deixou a evolução moral incompleta. Scruton e MacIntyre (conservadores tradicionalistas) tentaram preenchê-la com direito natural.
  • Rand deixou o minarquismo inacabado. Rothbard e David Friedman completaram com o anarcocapitalismo.

Quem está certo? Esse é outro debate. Mas todos seguiam a lógica interna dos professores mais fielmente do que os próprios professores.

  1. Evitar a idolatria cega de “grandes nomes”

Uma abordagem melhor: estudar Smith, Hayek e Rand criticamente, aproveitar seus melhores insights, reconhecer suas falhas e construir sobre elas em vez de repeti-las.

Conclusões breves

Adam Smith, Friedrich Hayek e Ayn Rand são gigantes intelectuais do liberalismo. Suas ideias transformaram economias e os três defenderam a liberdade humana com uma eloquência quase incomparável.

Mas os três eram, antes de tudo, humanos, não deuses. E cometeram o mesmo erro: introduziram exceções arbitrárias justamente quando seus sistemas os levavam a conclusões radicais.

  • Smith defendeu a mão invisível… exceto para correio, educação e tarifas estratégicas.
  • Hayek defendeu a evolução cultural… exceto pela moralidade desenvolvida no Ocidente (lei natural ou algumas derivações cristãs).
  • Rand defendia a não agressão absoluta… exceto pelo monopólio estatal da força (impostos).

Essas contradições não invalidam suas contribuições, mas enfraquecem a coerência de seus sistemas. E o que é pior, elas convidam inimigos do liberalismo a explorá-las:

  • Se Smith aceita monopólios excepcionais, por que não mais?
  • Se Hayek rejeita a moralidade objetiva, como pode defender o Ocidente?
  • Se Rand aceita um monopólio coercitivo, por que não outros?

A lição final: Respeitar os professores não significa obedecê-los cegamente. Significa pegar o melhor das ideias deles, completar o que deixaram inacabado e reconhecer honestamente onde erraram.

Esse espírito crítico do “que é herdado cegamente” é o verdadeiro legado desses três grandes pensadores.

Teremos coragem de aplicar isso até mesmo às obras e obras deles?

 

 

 

 

Artigo original aqui

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