A submissão ao estado totalitário em troca de ilusões

1
Tempo estimado de leitura: 4 minutos

“Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos demagogos podem satisfazê-las”. Com esta sentença o economista americano Thomas Sowell faz um alerta a todos os que acreditam que numa social democracia as benesses estatais são inesgotáveis e podem ser expandidas indefinidamente. O autor aponta para o fato de que, ao contrário do que pensa a grande maioria dos defensores de medidas populistas e eleitoreiras, políticas redistributivas não podem ser custeadas pelos mais ricos. Seria uma ingenuidade, diz o autor, esperar que os mais ricos sejam “todos tão idiotas, que não farão nada para evitar que seu dinheiro seja tributado”.

Falando mais especificamente a respeito do frágil sistema previdenciário conhecido como pacto de gerações, o qual é baseado numa mentira, o autor explica com clareza como os políticos normalmente utilizam o recurso da demagogia para enganar populações inteiras e prometer-lhes um paraíso terreno que lhes garanta (aos políticos) uma cadeira cativa no mundo dos privilégios. As consequências de longo prazo das decisões dos políticos, afinal, só serão sentidas pelas gerações futuras, quando outros políticos estarão no poder e serão responsabilizados pelas decisões tomadas por seus predecessores. Invariavelmente, quando imersas neste cenário, as pessoas pedirão por mais respostas e, também invariavelmente, estas respostas virão por meio de mais dirigismo e mais práticas eleitoreiras e populistas. Não fosse assim, como um político poderia se manter indefinidamente no poder?

Este raciocínio, aplicado no campo da economia, pode ser facilmente compreendido por qualquer indivíduo que, despido de toda amarra ideológica e de toda crença religiosa na clarividência estatal, tem acompanhado os efeitos da tirania que tomou conta do mundo nos últimos anos.

A pandemia do coronavírus fez brotar a face mais perversa do Estado. Fez tornar evidente que o objetivo de todo político sempre será expandir seu poder sobre uma população de vulneráveis. Tornou claro que sempre que possível o governo lançará seus tentáculos sobre cada aspecto da vida social. Expôs a verdade que há muito tempo é anunciada pelos libertários: de que o Estado é, como nos alerta Lew Rockwell, “uma máquina de extorsão, encarceramento e assassinato — tudo isso em larga escala”.

A explicação para a realidade do Estado e, pior, para o fato de que as pessoas tendem a pedir cada vez maiores e mais profundas intervenções estatais em suas vidas privadas pode ser facilmente compreendida por meio de uma análise histórica da instituição estatal. Na antiguidade, aponta Rockwell, o Estado assumiu o papel de defensor dos indivíduos que, frágeis, não poderiam se defender contra inimigos externos. Outra narrativa a favor do aparato estatal estava centrada na fé, no campo da religião. O Estado e seus burocratas haviam sido ordenados pelos deuses para governar sobre os reles mortais (para melhor entendimento a respeito da eternização do Estado, sugiro a leitura de A Anatomia do Estado de Murray Rothbard).

No capítulo em que discorre sobre as razões pelas quais o Estado se eterniza nas mentes e corações dos povos, Rothbard explica o papel dos intelectuais que, numa relação incestuosa com a burocracia que asfixia e mata, possuem como principal função a promoção da adoração, da veneração e do apoio irrestrito e incondicional dos povos aos homens que os governam.

A receita para a eternização do Estado e para o recrudescimento de sua tirania nunca ficou tão evidente como nos dias que ora vivemos. Se os inimigos externos não existem, é necessário criar algum. Neste caso, o medo. Com o suporte do Ministério da Verdade (leia-se mídia mainstream) e dos idiotas úteis que encontram no paternalismo estatal o conforto em momentos de desespero, governos ao redor do mundo (excetuando-se alguns raros e honrosos casos) paralisaram os cidadãos por meio da injeção diária de notícias apavorantes. Relatos de hospitalizações e mortes são, até hoje, dois anos após o início da tirania que tomou conta do mundo, anunciados com o intuito de terrificar, inocular o desespero e tornar as pessoas completamente inertes, incapazes de raciocinar e tomar decisões baseadas em suas próprias análises.

A fabricação de um inimigo invisível está moldando comportamentos no mundo todo. Os poucos cidadãos que se recusam a fazer parte do terrorismo perpetrado por burocratas do Estado estão sendo segregados. Como ovelhinhas ingênuas, as pessoas estão se submetendo às ordens de seus líderes políticos. Não apenas se submetem, mas querem, por meio do aparato de coerção e compulsão, submeter seus semelhantes a uma vida de privação. Querem obrigá-los a injetar em seus corpos uma vacina experimental que foi anunciada por políticos como a porta de saída para os sofrimentos que eles mesmos criaram quando impuseram aos cidadãos restrições à liberdade natural de ir e vir, de empreender e de transacionar livremente com quem desejassem.

Embora o contexto da frase citada no início deste artigo se refira ao campo econômico, a questões de desigualdade social e previdência social, ela cabe perfeitamente ao contexto de tirania que vivemos atualmente. Pessoas estão pedindo o impossível. Pessoas querem que o governo as livre de uma doença e, para isso, estão dispostas a abrir mão de suas individualidades, do direito natural que, como dissera Bastiat, foi recebido de Deus e é, portanto, inviolável (ou deveria ser). “Cada um de nós tem um direito natural, recebido de Deus, de defender sua pessoa, sua liberdade e sua propriedade, pois esses são os três elementos constitutivos e mantenedores da vida.” (Bastiat, Frédéric).