A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo

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Posfácio do editor americano

  1. Problema com a leitura de “extratos”

 

Poderia haver dúvidas quanto à validade de se publicarem extratos de obras técnicas e extensas.

Na introdução que Einstein e Infeld escreveram para um livro de que foram coautores, eles afirmam que as novas ideias de Einstein ali contidas, graças a um esforço de popularização na sua redação, deveriam ser compreensíveis a uma pessoa de inteligência média; contudo, acrescentam secamente uma observação importante: a de que as ideias do livro têm de ser lidas na ordem em que são apresentadas, a começar do começo.  Pelo visto, eles acreditavam que apenas passar os olhos pelo livro, ou começar pela sua metade, não contribuiria para sua compreensão.  Em suma, compreender um livro difícil e pioneiro implica que o leitor comece pelo começo e não pelo meio.

Ora, o leitor que ler este “livro” começará pela página 241 de uma obra extensa e revolucionária, de mais de mil e duzentas páginas.

Contudo, são poucas as pessoas com tempo, interesse ou perseverança para ler tudo o que é apresentado na obra de três volumes que constitui a fonte do presente extrato.  Por vários motivos, esperamos que este posfácio do editor auxilie o leitor.  Um destes motivos reside no fato de que o livro, embora mostre por que a exploração é uma resposta errada para a origem do juro, não dá uma resposta positiva correta.

O mais longo e famoso livro de Böhm-Bawerk chama-se Capital e juro.  O foco de atenção deveria ser a palavrajuro.  “Juro” aqui significa todo ganho imerecido, que é o juro de dinheiro, o aluguel de terra, o lucro num negócio.  Juro, nesse sentido amplo, será um ganho legítimo?  Uma sociedade que permite um ganho não merecido, além do ganho merecido (soldos, salários, ordenados, honorários), será uma sociedade justa?

O mundo se divide em dois campos: capitalismo versus socialismo-comunismo.  Não são dois sistemas antagônicos por acaso.  Trata-se de adversários naturais, com diferentes pontos de vista básicos.  Um capitalista sincero terá de rejeitar o socialismo-comunismo; o socialista-comunista sincero só poderá hostilizar o capitalismo.

Na lista de acusações do socialismo-comunismo ao capitalismo, a maior delas é a de que o capitalismo seria explorador, ou seja, os capitalistas — pessoas que ganham juros, renda ou lucro — obtiveram, graças à posse de bens de capital, um ganho ao qual não têm direito justo, na medida em que esse ganho se efetua as custas de outras pessoas — os empregados.  Essas são, presumidamente, exploradas (roubadas) na proporção do ganho dos capitalistas.  A distinção entre ganho merecido e imerecido é, pois, de importância crítica.

É fundamental que o leitor deste extrato tenha alguma compreensão da estruturação do raciocínio em Capital e juro,obra que, em edições modernas, abrange três volumes.

 

  1. Volume I: “História e critica das teorias de juro”

 

Esse volume (512 páginas) explica e avalia criticamente cerca de uma dúzia de teorias do juro.  Para cada uma delas Böhm-Bawerk primeiro apresenta a teoria — ou seja, apresenta a explicação do ganho imerecido do ponto de vista de socialistas comunistas, de capitalistas, e de outros economistas.  Depois, Böhm-Bawerk assume a tarefa de demonstrar que a teoria é uma explicação falsa do ganho imerecido.  Ele é tão devastador na sua crítica das teorias capitalistas que justificam o juro quanto na crítica das teorias socialistas.  O décimo segundo capítulo no Vol. I analisa a teoria da exploração do socialismo-comunismo.

Os temas tratados no Vol. I “História e crítica das teorias do juro” distribuem-se nos seguintes capítulos:

  1. O problema do juro.
  2. A oposição ao juro de empréstimo por parte dos antigos filósofos e canonistas.

III. Defesa do juro de empréstimo do século XVI até o século XVII.  A queda do cânone (Igreja Católica).  Doutrina do Juro.

  1. A teoria da frutificação, de Turgot.
  2. Adam Smith e a evolução do problema do juro.
  3. Teorias inócuas.

VII. Teorias da produtividade –[Principais teorias pró-capitalistas em defesa do juro]

VIII. Teorias do uso.

  1. A teoria da abstinência.
  2. As teorias da remuneração.
  3. John Rae.

XII. A teoria da exploração -[A mais importante teoria hostil ao juro]

XIII. Os ecléticos.

XIV. Duas tentativas mais recentes.

  1. Conclusões finais.

 

  1. Volume II: “Teoria positiva do capital”

 

Esse volume (480 páginas) apresenta a nova explicação original de Böhm-Bawerk sobre a interpretação correta do ganho imerecido.  Do nosso ponto de vista, é acadêmica, sólida e coerente.  É na conexão lógica dessa interpretação que Böhm-Bawerk explica a natureza exata do “capital” em relação aos fenômenos de juro (todo ganho imerecido).  Daí a importância do termo “capital” no título Capital e juro.  

Böhm-Bawerk abre novos caminhos no Vol. II: os conteúdos não são críticos, mas construtivos.  Ou, para usar a expressão do próprio Böhm-Bawerk, “positivos”.  As ideias de Smith, Ricardo e outros economistas são rejeitadas; os conceitos com que trabalhavam são considerados errôneos, em vez de úteis.  A famosa estrutura econômica clássica de Adam Smith e David Ricardo, como sistema, entra em colapso; brilhantes e esclarecedoras colocações de Smith e Ricardo permanecem, embora não consigam dar conta do fenômeno universal e necessário do “ganho imerecido”.

No Vol. II, um trecho brilhante e de grande interesse tem o título “Valor e preço”, mas os leitores, em geral, terão dificuldade em entender adequadamente seu significado revolucionário, se não adotarem o conselho que Einstein-Infeld deram em relação à leitura de “Valor e preço”, ou seja, que o livro deve ser lido inteiro, em sequência.  (Esse trecho é encontrado em extrato separado, cuja segunda edição revisada foi editada pela Libertarian Press, 1973, sob o título Value and Price, 272 pp.).

 

  1. Volume III: “Novos ensaios sobre capital e juro”

 

Esse volume (256 pp.) é um adendo ao Vol. II.  As ideias de Böhm-Bawerk eram muito mal compreendidas e fortemente atacadas.  O Vol. III apresenta as réplicas de Böhm-Bawerk a seus críticos.

A substância e conteúdo de Capital e juro consiste em que todas as formas de juro têm uma origem cosmológica e não ética (moral ou imoral).  O termo técnico é juro original.  

Basicamente, o juro original nasce da natureza e da organização do mundo, e da mortalidade humana.  Os homens agem conforme seus “valores”, e esses “valores” são sistematicamente afetados pelas perspectivas de mudanças de vida, bem como pela perspectiva da morte.

Consequentemente, as pessoas atribuem a um bem atualmente disponível, um valor maior do que o atribuído a outro bem idêntico, mas futuro.  O ganho imerecido, portanto, baseia-se nas ideias que as pessoas têm sobre valores e sobre quais valores são afetados (influenciados) pelo tempo no qual o bem ou serviço estará disponível.  O valor presente é diferente do valor futuro apenas por causa do tempo.

Este extrato, A teoria da exploração do socialismo-comunismo, tem uma qualidade intrigante: torna natural e tolerável o fenômeno do ganho imerecido; a crítica socialista-comunista do ganho imerecido evapora-se.  Böhm-Bawerk, no entanto, não está visando apenas os socialistas comunistas.  Mostra, por exemplo, que a teoria da produtividade dos capitalistas, que presumivelmente justifica o ganho imerecido, é um fracasso.

 

  1. Böhm-Bawerk e Rodbertus

 

Ao apresentar a teoria da exploração do socialismo-comunismo, Böhm-Bawerk, ao invés de considerar todos os escritores socialistas comunistas, opta pela análise de dois de seus representantes mais destacados, Karl Johann Rodbertus e Karl Marx.

Rodbertus (1805-1875) foi descrito como “verdadeiro fundador do moderno socialismo científico na Alemanha”.  É considerado por muitos economistas como melhor do que Karl Marx nessa matéria.  O Professor Adolph Wagner descreveu Rodbertus como “o mais notável teórico do aspecto puramente econômico do socialismo científico”.  Rodbertus foi amigo muito próximo de Wagner, assim como o foi de Lassalle.  Rodbertus tinha influência sobre Lassalle, que era um político socialista muito ativo, embora tivesse péssimo relacionamento com Marx.

Rodbertus era oriundo de uma família de classe alta do norte da Alemanha.  Seu pai era professor de Direito do poder judiciário da Pomerânia.  Inicialmente, Rodbertus foi advogado.  Aos vinte e sete anos, abandonou suas atividades jurídicas para dedicar-se à Economia Política.  Em suas viagens ficou profundamente impressionado pelas tensões sociais ligadas à industrialização.  Enquanto seu amigo Lassalle se interessava por política, Rodbertus insistia em que o movimento socialista deveria restringir-se à economia e deixar de lado os objetivos políticos.

Rodbertus era um representante precoce dos chamados Socialistas de Cátedra, escola do pensamento socialista que floresceu nos meios acadêmicos alemães, especialmente em Berlim, na última metade do século XIX.  Entre os nomes mais representativos dessa escola, estão Adolph Wagner, Gustav Schmoller, Lujo Brentano, Albert Schaffle e Werner Sombart.

Os Socialistas de Cátedra (ou, como eram conhecidos na Alemanha, Kathedersozialisten) tornaram-se influentes na política da Prússia e Alemanha por suas ideias, seu apoio ao imperialismo na Alemanha, e por sua influência sobre Bismarck, que aceitava idéias-chave dessa escola de pensamento econômico com a finalidade de:

1) Solapar teorias socialistas mais radicais.

2) Melhorar as condições para a luta de classes.

3) Fortalecer a dinastia Hohenzoller.  Os Socialistas de Cátedra eram também chamados, com certa ironia, de “corpo-da-guarda intelectual dos Hohenzoller”.  Os membros da escola austríaca neoclássica do pensamento econômico (à qual pertencia Böhm-Bawerk) eram agressivos em seus embates ideológicos com os Kathedersozialisten.  

As ideias dos Socialistas de Cátedra foram expressas da seguinte maneira por Schmoller numa reunião em Eisenach, em 1872 (Social Economic Movements, por Harry W. Laidler, p. 738. 1949. Thomas Y. Cromwell Company):

 

Não pregamos nem a revolução da ciência nem a reversão da ordem social existente, e protestamos contra todos os experimentos socialistas.  Mas não queremos, em nome do respeito a princípios abstratos, permitir que os mais gritantes abusos se tornem dia a dia piores, nem permitir que a pretensa liberdade de contrato termine numa verdadeira exploração do trabalhador. Exigimos não só que haja uma preocupação (por parte do estado), dentro de uma mentalidade inteiramente nova, com a instrução dele (o trabalhador) e com seu treinamento, mas também que se evite a possibilidade de o trabalho ser realizado sob condições que terão como efeito inevitável a degradação do trabalhador.

 

Os Socialistas de Cátedra estavam sinceramente preocupados com a ansiedade existente em torno da “verdadeira exploração do trabalhador” e temerosos de que, sem uma legislação especial para protegê-lo, fosse “inevitável” — num mercado de trabalho livre — a “degradação do trabalhador”.

Rodbertus analisa os efeitos econômicos e sociais da instituição da propriedade privada.  Onde existe propriedade privada, o trabalho degenera-se em mercadoria e a terra toma-se capital.  Elimine-se a propriedade privada, e todos os bens poderão ser considerados, economicamente, produtos apenas do trabalho; nesse caso, valores e preços dependeriam exclusivamente da quantidade de trabalho incorporado na produção.  E uma teoria de que valores e preços de mercadorias e serviços dependem de custos, e de que esses custos devem ser apenas custos de trabalho.  

Rodbertus achou que em sociedades primitivas os trabalhadores poderiam ser, de forma natural, privados de tudo, mas não da satisfação das necessidades mais prementes para a própria subsistência; os trabalhadores viveriam apenas no nível dessa subsistência, controlados pela “lei de ferro dos salários” (lei errada, mas naquele tempo amplamente aceita). Veja-se, a respeito, o artigo de Ludwig von Mises na p. 181.  Quando, porém, o crescimento e a produtividade se erguem acima de um alegado nível de subsistência — observa Rodbertus —; as classes mais pobres deveriam ter uma parcela maior do produto social.  Mercados livres e o laissez-faire não permitiriam que isso acontecesse para os trabalhadores; portanto, ele era a favor da intervenção governamental no sentido de aumentar a parcela do trabalhador.

Rodbertus tinha uma abordagem burocrática; e não revolucionária como a de seu amigo Lassale ou a de Marx.  Era um “homem da lei e da ordem”, propugnava por um programa evolutivo.  No futuro, esperava a “total eliminação da propriedade privada dos meios de produção e da terra”.  Politicamente, Rodbertus considerava toda revolução um desvio, na medida em que envolvia distúrbios da lei e da ordem; como teórico, ele defendia um sistema orientado de planejamento social (modernamente chamado intervencionismo estatal), em vez do laissez-faire.  

Rodbertus tinha ideias que se tornaram comuns mais tarde, no século XX.  Um dos ataques mais comuns ao capitalismo pode ser chamado “O ataque à poupança (privada)”.  É o título do Cap. XXIV no breve texto de Hazlitt,Economics in one lesson. *  Hazlitt comenta que um perdulário (chamado Alvin, um de dois irmãos) é um discípulo (para não retroceder mais ainda) de Rodbertus, que declarara, em meados do século XIX, que capitalistas “tem de gastar seu ganho até o último centavo em confortos e luxos”, porque se “decidissem economizar… [então os inventários de] bens se acumulariam, e parte dos trabalhadores não teriam trabalho [ficariam desempregados].  Do que se disse anteriormente, os leitores terão visto que Rodbertus defendia falácias que integram o keynesianismo atual (1975).  (Em seu capítulo, Hazlitt se referia a isso, destruindo a ideia de que poupanças particulares necessariamente seriam acompanhadas de desemprego.)

Na parte da descrição e crítica de Böhm-Bawerk sobre a teoria da exploração do socialismo-comunismo que põe em dúvida a versão de Rodbertus sobre a teoria da exploração do trabalhador (cf. pp. 30 ss), a análise feita é negativa e não positiva, ou seja, embora a teoria de Rodbertus seja desmascarada como errônea, não se apresenta a teoria correta; o leitor deve estar disposto a ler mais do que esse Extrato, se quiser conseguir a explicação “positiva” (correta) do fenômeno do ganho imerecido: mais precisamente, deve ler o Vol. II: “Teoria positiva do capital. ” Aí é que Böhm-Bawerk esboça a resposta correta à questão sobre a origem do ganho imerecido.

O que Böhm-Bawerk mostra nesse Extrato em conexão com sua descrição e crítica das ideias de Rodbertus, é que — se a justiça prevalecer — as valorizações serão diferentes quando entra em cena o fator tempo: valores presentes de bens presentes versus valores presentes dos mesmos bens futuros.  O autor afirma que há uma diferença entre o valor que uma pessoa confere a um bem presente, de consumo imediato, e o valor que ela confere ao mesmo bem consumível depois de um ou mais anos, isto é, no futuro.  Ele mostra como, para cinco trabalhadores, um bem presente sempre será preferido a um bem futuro.  Essa diferença na valorização de bens imediatamente consumíveis e de bens consumíveis só no futuro é a explicação — a única explicação final — do ganho imerecido.

Para chegar à compreensão desse fato, é preciso que o leitor coloque a questão em termos talvez absurdos: qual seria a diferença para menos que uma pessoa atribuiria ao valor de um milhão de dólares que só fossem estar disponíveis em 200 anos em relação à mesma quantia disponível agora?  Relativamente, ela desprezaria o bem futuro escolhendo avidamente o bem presente.  (Mas todo o raciocínio “positivo” necessário para apoiar isso não pôde ser apresentado por Böhm-Bawerk nesse contexto.).

Para tornar convincente o raciocínio negativo, Böhm-Bawerk coloca o problema em uma sociedade socialista-comunista totalmente pura, e imagina que sejam necessários cinco anos para construir uma máquina, com cinco homens trabalhando, cada um durante um ano.  Depois de cinco anos a máquina fica pronta.  Se a máquina custar 5.500 dólares, quando acabada, cada homem deveria ganhar 1.100?  A resposta é não.  O trabalhador do primeiro ano deveria ganhar mais, isto é, 1.200 dólares, o seguinte 1.150; o terceiro, 1.100; o quarto homem, 1.050 dólares, e o último 1.000. (Essas cifras dão um juro anual de 5%).

Böhm-Bawerk não pode, num breve exemplo, dar a resposta definitiva, mas sem dúvida tal exemplo alertará os leitores para o fato de que a teoria da exploração do socialismo-comunismo envolve uma falácia.  A introdução do fator tempo, por parte de Böhm-Bawerk, é a primeira intuição de que a diferença de valorização entre bens presentes e futuros é, na verdade, a explicação correta para o ganho imerecido.  O problema essencial está nas pp. 65 ss.

O leitor poderá perceber outro aspecto interessante e surpreendente da exposição de Böhm-Bawerk, quando ele afirma, claramente e sem restrições, que o trabalhador tem direito a receber todo o valor que produz.  Tal afirmação, embora pareça um paradoxo, não o é: no capitalismo como sistema, o dono do capital não tem direito a nada do que o trabalhador realmente produz.  Se o leitor entende isso, começará entender que está lendo um fragmento de um livro de notável importância.

A descrição e a crítica das ideias de Rodbertus eclipsam de várias maneiras a descrição e a crítica das ideias de Marx, que vêm logo a seguir, embora este último fosse mais famoso.

 

* Publicado em português, sob o título de Economia em uma única lição, pelo Instituto Liberal, em convenio com a José Olympio Editora, em abril de 1986.  (N. da E.).

 

 

  1. Böhm-Bawerk e Karl Marx

 

A história da vida e das ideias de Karl Marx é bem conhecida, e sua influência é tão monumental que não preciso apresentá-lo aqui em detalhes.  As características de sua vida são apresentadas mais adiante, no artigo de Erik von Kuhneldt-Leedihn.  Também se deu atenção a Marx e sua importância no mundo moderno.  Examinemos aqui o estudo de Böhm-Bawerk sobre Marx.  Essa análise aparece quase no fim do livro, e, para leitores que não puderam lê-lo todo, a conclusão de Böhm-Bawerk merece ênfase especial.  O que se segue é extraído da Parte VI deste livro, pp. 199 ss.

 

Dediquei um espaço excepcional à discussão da teoria da exploração, mas fiz isso deliberadamente.  Nenhuma outra doutrina influenciou tanto o pensamento e a emoção de gerações inteiras.

Em relação à velha teoria da exploração — que apresentei através de seus melhores defensores, Rodbertus e Marx -, não posso minimizar o severo julgamento manifestado já na primeira edição desta obra.  O que esses autores nos apresentam não é apenas uma teoria incorreta: constitui-se mesmo numa das piores teorias sobre juros existentes, se formos considerá-la em seu valor teórico.  Os erros de raciocínio de defensores de outras teorias, por mais graves que sejam, dificilmente serão tão graves e numerosos quanto os dos defensores dessa teoria: presunção, leviandade, pressa, dialética falseada, contradição interna e cegueira diante dos fatos reais.  Os socialistas, que são diligentes críticos, apresentam-se como dogmáticos muito fracos.  Há muito o mundo estaria certo disso se, por acaso, se trocassem as posições, e um Marx ou Lassalle atacassem as teorias socialistas com a mesma brilhante retórica e cáustica ironia dirigidas contra os ‘economistas burgueses’.

Na minha opinião, o fato de que, apesar de sua fragilidade interna, a teoria da exploração encontre tantos seguidores, deve-se à concorrência de dois fatores.  O primeiro deles reside no fato de a disputa se ter transplantado para um terreno onde fala não só a cabeça, mas também o coração.  Acreditamos com muita facilidade naquilo em que desejamos acreditar.  A situação das classes trabalhadoras é, em geral, de miséria: qualquer filantropo tem de desejar que ela melhore.  Muitos ganhos de capital brotam de fontes escusas: qualquer filantropo tem de desejar que sequem.  Uma teoria que pretende resultar em melhores condições de vida para os miseráveis, diminuindo os privilégios dos ricos, terá a defesa fervorosa das muitas pessoas com cujos ideais essa teoria coincide total ou parcialmente.  E tal defesa será feita sem a lucidez crítica habitual nestas mesmas pessoas quando elas analisam uma teoria em suas bases científicas.  É compreensível, pois, que tais doutrinas despertem a devoção das massas.  As massas não buscam a reflexão crítica: simplesmente, seguem suas próprias emoções.  Acreditam na teoria da exploração porque ela lhes agrada, não importando que seja falsa.  Acreditariam nela mesmo que sua fundamentação fosse ainda pior do que é.

Outra circunstância que favoreceu a teoria da exploração e sua difusão foi a precariedade dos pontos de vista de seus adversários.  Tal polemica, conduzida a partir de um ponto de vista frágil, com argumentos vulneráveis como aqueles das teorias da produtividade, da abstinência e do trabalho, apresentados por um Bastiat ou McCulloch, Roscher ou Strasburger, tinha de acabar favorecendo os socialistas.  Os adversários dos socialistas, ao assumirem posições mal escolhidas, não lhes atingiam os pontos fracos.  Faziam ataques fáceis de revidar, abrindo flancos em seu próprio terreno.  E os socialistas sabiam se valer disso com sorte e habilidade.  Assim, e praticamente só assim, o socialismo pôde sustentar sua teoria.  Se muitos escritores socialistas conseguiram uma posição duradoura na história da Economia, isso aconteceu exclusivamente graças à força e agilidade com que souberam destruir muitas antigas doutrinas errôneas, que estavam profundamente enraizadas.  O que os socialistas não conseguiram foi colocar a verdade em lugar do erro; quanto a isso, foram ainda mais desastrosos que seus adversários.

 

Até o momento, vimos dois famosos pensadores socialistas que elaboraram a teoria de que todo ganho imerecido resulta da exploração do empregador sobre seu empregado.  Vejamos agora o que ensina a escola de pensamento econômico à qual pertencia Böhm-Bawerk.

 

  1. Economia neoclássica austríaca

 

Uma pessoa que pretenda ser realista jamais afirmará que todo capitalismo individual é moral e justo.  Sistemas bons e maus estão sujeitos a abusos — por parte de indivíduos — cometidos intencional ou não intencionalmente.  O problema que precisa ser enfrentado é este: O sistema capitalista é injusto, enquanto o sistema socialista-comunista é justo?  A postura de Böhm-Bawerk é a de que a crítica do capitalismo feita pelo socialismo-comunismo, no que diz respeito àexploração, é incorreta e de que é o socialismo-comunismo, como sistema, que deve ser realmente injusto.

Aqueles que defendem o sistema capitalista têm perguntas apressadas e respostas não menos apressadas sobre o fato de o capitalismo ser mais produtivo.  Dizem que a economia baseada na acumulação de capital é uma abstinência meritória do consumo imediato.  A produtividade resultante do suprimento de ferramentas etc. e/ou a abstinência de consumo deveriam ser recompensadas, dizem eles; e é exatamente isso que o sistema capitalista faz.  Tais argumentos dos capitalistas em favor dos seus sistemas são aparentemente tão plausíveis quanto os argumentos baseados na teoria da exploração feitos pelos socialistas comunistas contra o capitalismo.  Em vários capítulos, contudo, Böhm-Bawerk destrói os costumeiros argumentos pró-capitalistas baseados na “produtividade do capital”, e na “recompensa pela abstinência”.  Isso, naturalmente, lhe impõe o eventual ônus de propor uma explicação correta do fenômeno dos “ganhos imerecidos”, o que ele faz no seu Vol. II, “A teoria positiva do capital”.  Todo este volume é dedicado ao que Böhm-Bawerk considera a única explicação e justificativa correta para o “ganho imerecido”.

É natural que as várias explicações incorretas para o ganho imerecido possam ser agrupadas dependendo de como as pessoas se dividem em diferentes categorias:

 

  1. As pessoas que já dispõem de capital defendem o ganho imerecido; essa classe é complementada por aqueles que confiam em suas próprias habilidades e autodisciplina (parcimônia), de modo que esperam tornar-se donos de capital (provavelmente essas últimas são as classes pró-capitalistas mais veementes; o sistema capitalista motiva-as fortemente).
  2. As pessoas que não possuem e não esperam jamais contar com grande capital, estas são naturalmente inclinadas a duvidar da validade — justiça e moralidade — do ganho imerecido.
  3. É possível bifurcar o problema, de modo a satisfazer um número mais abrangente de pessoas; há socialistas que propuseram isso com muito tato. Julgam que deveria haver propriedade pública de capital para produção (terra, fábricas e ferramentas) somente; mas que casas e outros “bens de consumo” podem (e devem) ser objeto de propriedade privada. (Isso é essencialmente um programa socialista-comunista, modificado para levar em conta a psicologia da gente de poucos meios e pouca ambição, que deseja possuir apenas coisas pessoais e casa própria.).

 

Os livros de Rodbertus e Marx (especialmente desse último) são de leitura monótona e tediosa.  Os resumos de suas ideias feitos por Böhm-Bawerk são de leitura mais agradável do que os originais.  Mas não se pode negar que a questão como um todo, historicamente obscura até o fim do século XIX, ainda não é de fácil compreensão.

Para colocar as ideias de Böhm-Bawerk numa perspectiva adequada, valeria a pena fazer uma caracterização geral do pensamento econômico austríaco neoclássico.  Böhm-Bawerk recebeu dos editores de The Annals da Academia Americana de Ciências Políticas e Sociais o pedido de descrever o pensamento econômico da escola austríaca neoclássica.  A tradução inglesa, feita por Henrietta Leonard, daquilo que Böhm-Bawerk escreveu, apareceu no exemplar de janeiro de 1891, sob o título “Os economistas austríacos” *.

A escola austríaca neoclássica de pensamento econômico era revolucionária.  Lendo o que se segue, o leitor deveria ter em mente que:

 

  1. Böhm-Bawerk e seus companheiros afirmavam haver refutado totalmente as ideias básicas de Adam Smith e David Ricardo.As ideias econômicas de Smith e Ricardo constituíam avanço importante em relação à economia mais antiga, mas ainda tinham defeitos fundamentais.
  2. Smith e Ricardo estavam completamente errados em sua explicação da determinação do valor e do preço. Alegavam que valor e preço eram determinados pelo custo. Os austríacos inverteram isso categoricamente; valores e preços não eram “efeito” dos custos.  Valores e preços, determinados pelos consumidores, eram a “causa” que determinava quais os custos toleráveis, e permitiam que o empresário continuasse com seu negócio.  Ou os economistas clássicos colocaram “a carroça diante dos bois”, ou os austríacos o fizeram.  (Marx declarava que só um fator nos custos — o fator trabalho — deveria determinar valores e preços.).

 

O trecho que vai da p. 234 à p. 267 esclarecerá melhor o leitor de Capital e juro e, inclusive, desse extrato “A teoria da exploração do socialismo-comunismo”.

Uma lista dos subtítulos nesse material descritivo dos economistas austríacos neoclássicos ajudará o leitor antes de começar sua leitura do texto propriamente:

 

As mais importantes doutrinas dos economistas clássicos são insustentáveis.  

Embora primariamente interessados na teoria, os austríacos foram obrigados a defender seus pontos de vista sobre o método.  

Características da teoria austríaca do valor — a utilidade final.  

O ponto vital: a utilidade final repousa na substituição dos bens.  

Primeira complicação: decorrente do comércio.  

Escapando ao “círculo vicioso” da expressão oferta e procura para explicar o preço.  

Segunda complicação: decorrente da “produção”.  

Como o que antecede leva à determinação do valor dos bens que podem ser produzidos sem limitações.  

O custo não é regulador do valor: é o valor do produto acabado que determina o valor dos fatores de produção utilizados.  

O princípio correto foi reconhecido há muito em casos específicos, mas o princípio geral não foi analisado.  

Não se justifica qualquer hesitação: ou o custo regula o valor, ou o valor regula o custo.  

O problema da valorização dos bens complementares.  

O velho mau hábito de cair num círculo vicioso quando se trata do valor dos bens complementares.  

O erro de tentar fugir ao problema geral.  

Contribuições austríacas às teorias da distribuição, capital, salários, lucros e rendas.  

A até aqui tão negligenciada doutrina dos bens econômicos.  

Atenção crescente para os problemas práticos.  

Objetivo dos austríacos: renascimento da teoria econômica: caráter desse renascimento.  

Dois problemas distintos: relações entre os homens e as coisas: relações dos homens entre si.  

Subvalorização, no passado, dos problemas das relações entre os homens e as coisas: o grave defeito da Economia Clássica. 

A necessidade de reconstruir a ciência da Economia não justifica o descontentamento: temos de argumentar melhor do que os pioneiros na Economia.  

A Escola Historicista alemã não contribuiu efetivamente para solucionar o problema do aperfeiçoamento da Economia.  

 

* Essa tradução é reimpressa da maneira como apareceu em Shorter Classics of Böhm-Bawerk, Libertarian Press, 1962, South Holland, Illinois, 60473.

 

 

  1. “Os economistas austríacos” por Eugen von Böhm-Bawerk

 

Os editores desta revista pediram-me um relato sobre o trabalho do grupo de economistas popularmente chamado Escola Austríaca.  Sendo eu mesmo membro do grupo, possivelmente não serei um relator imparcial.  Ainda assim, quero atender ao pedido da melhor maneira possível, e tentarei descrever o que nós, austríacos, estamos fazendo e procurando fazer.

 

As mais importantes doutrinas dos economistas clássicos são insustentáveis

A esfera de ação dos economistas austríacos é a teoria no sentido mais estrito da palavra.  Eles são de opinião de que a parte teórica da Economia Política precisa ser radicalmente transformada.  As mais importantes e famosas doutrinas dos economistas clássicos já não são sustentáveis, ou só se sustentariam se houvesse alterações e acréscimos essenciais.  Quanto à convicção de que a Economia Política clássica está inadequada, há acordo entre os economistas austríacos e os seguidores da Escola Histórica.  Mas quanto à causa final dessa inadequação, há uma diferença fundamental de opinião, diferença essa que levou a uma acirrada disputa sobre métodos.

A Escola Histórica acredita que a fonte última dos erros da Economia Clássica seja o método inadequado que a orientou — método quase inteiramente abstrato – dedutivo, quando a Economia Política deveria ser somente, ou principalmente, indutiva.  A fim de executar a necessária reforma da ciência, teremos de mudar o método de investigação; precisamos abandonar a abstração e passar a coletar material empírico, devotando-nos à História e à Estatística.

 

Embora primariamente interessados na teoria, os Austríacos foram obrigados a defender seus pontos de vista sobre o método

Os Austríacos, por sua vez, são de opinião de que os erros dos economistas clássicos foram, por assim dizer, apenas enfermidades infantis da ciência.  A Economia Política, mesmo agora, ainda é uma das ciências mais jovens, e o era ainda mais no tempo da Economia Clássica, que, apesar da denominação de “Clássica” — atribuída prematuramente, conforme mostraram os fatos — era apenas uma ciência embrionária e incipiente.  Em nenhum outro caso jamais aconteceu que a totalidade de uma ciência fosse desvendada na primeira tentativa, ainda que pelo maior dos gênios; por isso não é de surpreender que a totalidade da Economia Política não fosse desvendada nem mesmo pela Escola Clássica.  A maior falha dos estudiosos dessa escola foi a de serem precursores; nossa maior vantagem é termos vindo depois deles.  Nós, mais ricos que nossos predecessores, uma vez que nos podemos valer dos frutos de um século de pesquisa, não precisamos trabalhar com métodos diferentes, tivemos apenas de trabalhar melhor que eles.  A Escola Histórica está certa ao afirmar que nossas teorias deveriam ser amparadas pela maior quantidade possível de material empírico.  Mas está errada quando confere valor exagerado ao trabalho de coleta de dados, ao mesmo tempo em que dispensa inteiramente ou procura minimizar o uso da generalização abstrata.  Sem tal generalização, não há ciência.

Numerosos trabalhos dos economistas austríacos são dedicados a essa contenda quanto ao método [1].  Destacam-se, entre eles, os Untersuchungen über die Methode der Sozialwissenschaften, de C. Menger, pelo tratamento profundo e exaustivo dos problemas envolvidos.  Deve-se observar, a esse respeito, que o método “exato” ou, como prefiro dizer, “isolador”, recomendado por Menger, juntamente com o método “empírico-realista”, não é de modo algum meramente especulativo ou não empírico, mas, ao contrário, busca e sempre encontra seu fundamento na experiência, Contudo, embora a disputa metodológica tenha atraído — talvez mais que qualquer outra coisa — a atenção para os economistas austríacos, prefiro encará-la como um aspecto irrelevante de sua atividade.  Para eles, era e é importante a reforma da teoria positiva. Foi unicamente por terem sido perturbados no seu trabalho pacífico e fecundo pelos ataques da escola historicista — como o fazendeiro localizado na fronteira, que segura o arado numa mão e a espada noutra -, que eles foram obrigados, quase contra a vontade, a gastar parte de seu tempo e energia em polemicas, defensivas, bem como na solução dos problemas de método que lhes eram impostos.

 

Características da teoria austríaca do valor- a utilidade final

Quais são, pois, as características específicas que a escola austríaca apresenta no domínio da teoria positiva?

A teoria do valor constitui a base dos seus argumentos, cuja pedra fundamental é a bem conhecida teoria da utilidade final.  Essa teoria pode ser condensada em três proposições extremamente simples: (1) O valor de um bem se mede pela importância do desejo cuja satisfação depende da posse desse bem; (2) A determinação de que satisfação é a dependente pode ser feita de modo muito simples e infalível; indagando-se qual o desejo que ficaria insatisfeito no caso de ainda não se possuir o bem cujo valor deve ser determinado; (3) Mais uma vez é evidente que a satisfação dependente não é aquela satisfação em função da qual os bens são realmente usados, mas é a menos importante dentre todas as satisfações que podem ser obtidas pelas posses totais do indivíduo.  Por quê?  Porque de acordo com considerações prudentes, simples e inquestionavelmente estabelecidas da vida prática, sempre temos o cuidado de desviar para um ponto menos sensível o prejuízo do bem-estar advindo da perda de propriedade.  Se perdermos alguma coisa que possuímos que estivesse em função da satisfação de um desejo muito importante, não vamos sacrificar a satisfação desse desejo: simplesmente pegamos outra coisa que possuímos que esteja em função de uma satisfação menos importante, e a colocamos no lugar da que foi perdida.  Assim, a perda recai sobre a utilidade menor, ou — uma vez que é natural desistirmos da menos importante de todas as nossas satisfações — sobre a “utilidade final”.  Suponhamos um camponês com três sacos de cereal: o primeiro, a, destinado ao seu sustento; o segundo, b, para ser usado como semente; e o terceiro, c, destinado a engordar galinhas. Suponhamos que o saco a seja destruído pelo fogo.  O camponês vai morrer de fome?  Certamente não.  Ou deixará seu campo não semeado?  Novamente que não.  Ele apenas transferirá a perda para o ponto menos sensível.  Fará seu pão com o cereal do saco c, e consequentemente não engordará galinhas.  O que, na verdade, é dependente em relação a se queimar, ou não o saco a é apenas o uso da unidade menos importante que pode ser substituída, ou, como dizemos, apenas a utilidade final.

Como se sabe, o princípio fundamental dessa teoria da escola austríaca é partilhado por alguns outros economistas.  Gossen, economista alemão, enunciara tal princípio num livro que apareceu em 1854, sem ter naquele tempo despertado o menor interesse [2].  Um pouco mais tarde, o mesmo princípio foi descoberto quase simultaneamente em três países diferentes, por três economistas que se desconheciam mutuamente e que nada sabiam de Gossen: o inglês W. S. Jevons [3], C. Menger, fundador da Escola Austríaca [4], e o suíço Walras [5].  O professor J. B. Clarck, pesquisador americano, também chegou muito perto da mesma ideia [6].  Mas há um ponto em que, acredito, os austríacos superaram seus rivais: o uso que fizeram da ideia fundamental para a subsequente construção da teoria econômica.  A ideia da utilidade final é, para os especialistas, o “abre-te-sésamo”, através do qual eles deslindam o mais complicado fenômeno da vida econômica e resolvem os mais difíceis problemas da ciência.  Nessa arte da explicação parece-me residir a força peculiar e a característica significância da Escola Austríaca.

 

O ponto vital: a utilidade final repousa na substituição de bens

Aqui tudo gira em torno de um ponto: basta que nos demos ao trabalho de discernir a validade universal da lei da utilidade final no emaranhado das múltiplas complicações em que ela se vê envolvida, na economia altamente desenvolvida e diversificada das nações modernas.  Isso nos custará algum trabalho no começo, mas o esforço será bem recompensado.  A seguir, abordaremos ordenadamente todas as questões teóricas importantes; principalmente, devemos abordá-las pelo aspecto em que aparece de forma mais natural, pois nessa forma poderemos mais facilmente encontrar soluções.  Tentarei explicar isso no que se refere a alguns dos casos mais importantes, pelo menos na medida em que for possível fazê-lo sem entrar em detalhes da teoria.

A lei da utilidade final repousa, devido às sólidas considerações já vistas, numa substituição peculiar de bens.  Os bens mais facilmente dispensáveis devem estar sempre prontos para preencherem a lacuna que pode a qualquer momento surgir num ponto mais importante.  No caso do nosso camponês com seus sacos de cereal, a causa e consequência da substituição são muito fáceis de entender.  Mas, em relações econômicas altamente desenvolvidas, acontecem complicações importantes, pois a substituição de bens se estenderá em várias outras direções, além do suprimento de bens da mesma espécie.

 

Primeira complicação: decorrente do comércio

A primeira complicação deve-se ao comércio.  Se o único casaco de inverno que possuo for roubado, eu certamente não ficarei tremendo de frio e pondo em perigo minha saúde: simplesmente comprarei outro casaco de inverno, com os vinte dólares que de outro modo gastaria em outra coisa.  Consequentemente, terei vinte dólares a menos para gastar em outros bens; farei, então, uma redução nos bens que julgo mais dispensáveis, isto é, naqueles cuja utilidade, para mim, é menor, como no exemplo acima.  Numa palavra, dispensarei a utilidade final.  Portanto, satisfações dependentes do fato de eu perder ou não meu casaco de inverno são satisfações que dispenso mais facilmente, satisfações que eu teria obtido com vinte dólares a mais; e é para essas outras satisfações — que podem ser de natureza bem diferente — que, pelos efeitos da substituição pelo comércio, se transfere a perda, e com ela a utilidade final que dela depende [7].

 

Escapando ao “círculo vicioso” da expressão oferta e procura para explicar o preço

Se seguirmos com cuidado, até o final, essa complexa conceituação, depararemos com um dos mais importantes problemas teóricos, o da relação entre preço de mercado de certos bens e a estimativa subjetiva que vários indivíduos fazem desses bens, segundo seus diversos desejos e inclinações, por um lado, e suas posses e ganhos, por outro.  Desejo apenas comentar de passagem que a solução global desse problema requer grande sutileza de análise; tal análise foi primeiramente realizada pelos economistas austríacos, e passarei a mostrar agora os resultados que eles obtiveram.  Segundo suas conclusões, o preço ou “valor objetivo” dos bens é uma espécie de resultante das várias estimativas subjetivas dos bens, estimativas essas que os compradores e vendedores fazem conforme a lei da utilidade final; e, na verdade, o preço coincide bastante aproximadamente com a estimativa do “último comprador”.  É bem sabido que Jevons e Walras chegaram a uma lei similar de preço.  Sua constatação, porém, apresenta deficiências consideráveis.  Foram os austríacos os primeiros a tentarem remediá-las.  Walras descobriu a maneira correta de escapar ao círculo vicioso no qual se enredava a teoria mais antiga do preço, teoria essa que o considerava uma decorrência da oferta e procura, visto, por um lado, ser inegável que o preço que pode ser pedido no mercado sofre influência da estimativa que o comprador faz dos bens.  No entanto, por outro lado, é igualmente inegável que, em muitos casos, a estimativa do comprador sofre influência das condições de mercado (por exemplo, o fato de aquela utilidade final de meu casaco de inverno, se, no mercado, eu o puder substituir por dez dólares, ser materialmente menor, do que no caso de ela me custar, vinte dólares).  Os teóricos que julgaram necessária uma explicação psicológica mais exata para a lei da oferta e procura em geral [8], habitualmente se deixaram levar a um raciocínio circular.  Explicaram mais ou menos abertamente o preço através da estimativa dos indivíduos, e, tautologicamente, explicaram a estimativa dos indivíduos através do preço.  Naturalmente, tal solução não serve para fundamentar uma ciência que deseja merecer o nome de ciência.  Os economistas austríacos foram os primeiros a tentar chegar ao âmago desse assunto, através da análise sutil a que me referi acima [9].

 

A segunda complicação: decorrente da “produção”

Uma segunda complicação intrigante e difícil na substituição dos bens se liga à produção: havendo um tempo suficiente, os bens cuja substituição está sendo considerada poderiam ser substituídos pela produção.  Como no caso anterior, em que os bens foram substituídos pelo dinheiro, neste caso podem ser substituídos diretamente pela conversão de materiais de produção.  Mas, como naturalmente haverá menor quantidade desses materiais de produção para outros objetivos, da mesma forma que antes, uma inevitável diminuição de produção atingirá aquela classe de bens mais facilmente dispensáveis, considerados de menor valor.

Tomemos o exemplo de Wieser [10].  Se uma nação considera necessárias armas para defender sua honra ou sua existência, há de produzi-las com o mesmo ferro que, de outro modo, seria usado para outros utensílios, também necessários, mas mais dispensáveis.  Por isso, o que acontece com as pessoas em decorrência da necessidade de terem armas é que elas terão menor quantidade daqueles utensílios mais dispensáveis, que poderiam ter sido feitos com aquele feno.  Em outras palavras, a perda recai sobre a utilidade menor, ou a utilidade final, que teria sido feita com os materiais de produção necessários à manufatura das armas.

 

Como o que antecede leva à determinação do valor de bens que podem ser produzidos sem limitações

 Nesse ponto, o caminho leva mais uma vez a um dos mais importantes princípios teóricos, de certa forma familiar há muito tempo.  É o princípio de que o valor daqueles bens que podem ser reproduzidos à vontade, sem limitações, mostra uma tendência a coincidir com o custo da produção.  Esse princípio emerge como um caso especial da lei de utilidade final, e ocorre sob certas condições muito precisas.  O “custo de produção” nada mais é que a soma de todos os materiais de produção através dos quais os bens ou seus substitutos podem ser reproduzidos.  Conforme indicamos acima, o valor dos bens é determinado pela utilidade final de seus substitutos; consequentemente, na medida em que a substituição possa ser feita à vontade, o valor do produto tende a coincidir com a utilidade final e com o valor dos materiais de produção, ou, como se diz habitualmente, com os custos de produção.

 

O “custo” não é o regulador do valor: é o valor do produto acabado que determina o valor dos fatores de produção utilizados

Quanto à causa final dessa coincidência, os austríacos têm uma teoria bastante diferente.  A teoria anterior explicava a relação entre custo e valor em termos de causa e efeito, como se o custo fosse, na verdade a causa final, enquanto o valor do produto seria o seu efeito.  Essa teoria pressupunha que o problema científico da explicação do valor dos bens seria satisfatoriamente resolvido se se apelasse para o custo como “regulador último de valor”.  Os austríacos, pelo contrário, acreditam que isso constitui apenas metade da explicação, aliás, a metade mais simples.  O custo é idêntico ao valor dos materiais de produção necessários à manufatura dos bens.  O custo sobe quando e porque os materiais de produção (combustível, máquinas, aluguel, trabalho) sobem; e cai quando e porque cai o valor desses materiais.  Assim, é evidente que o valor dos materiais de produção tem de ser explicado primeiro.  E o interessante é que, quando a explicação é feita cuidadosamente, nós vemos que o valor do produto acabado é que é a causa.  Pois, sem dúvida, só fazemos uma estimativa alta dos materiais de produção quando e porque são capazes de fornecer produtos de valor.  A relação de causa e efeito é, pois, exatamente o reverso do que afirmava a teoria antiga.  Esta explicava o valor do produto como efeito, e o custo — isto é, o valor dos materiais de produção — como causa.  E não considerava necessária qualquer outra explicação.  Os economistas austríacos afirmam que: (1) primeiramente o valor dos materiais de produção precisa ser explicado e (2) depois dessa explicação, e depois de se deslindar uma trama de relações complexas, o valor dos materiais de produção será visto, afinal, como efeito, e o valor do produto como causa.

 

O princípio correto foi reconhecido há muito em casos específicos, mas o princípio geral não foi analisado

Sei muito bem que esta tese parecerá estranha, à primeira vista, a muitos leitores.  Não posso aqui tentar demonstrá-la ou mesmo resguardá-la de certas interpretações errôneas às quais está exposta.  Chamarei a atenção apenas para uma circunstância.  No caso dos materiais de produção, cuja relação causal verdadeira era fácil de perceber por determinadas razões, a teoria antiga reconhecia o princípio correto.  Assim, por exemplo, quanto ao valor do uso da terra expresso em aluguel, Adam Smith observou que o preço dos produtos do solo é alto ou baixo não porque o aluguel seja alto ou baixo; ao contrário, o aluguel é que é alto ou baixo conforme o preço do produto.  Fez ainda outra observação: ninguém supõe que o cobre seja

caro porque o valor de estoque de matéria-prima nas minas esteja alto.  Obviamente, o valor das minas e da matéria-prima só é alto quando e porque o cobre é caro.  Assim como a água de um rio não pode correr morro acima se a água do rio que lhe é paralelo corre morro abaixo, também no caso de diferentes espécies de materiais de produção as relações causais não poderiam fluir em direções opostas.  A lei é uma e a mesma para todos os materiais de produção.  A diferença está apenas em que, com certos materiais, a verdadeira relação de causa e efeito é muito fácil de se perceber, enquanto com outros, devido a várias complicações, é mais difícil de se observar.  O estabelecimento da lei, nos casos em que aparências enganadoras haviam levado à explicação oposta, é uma das contribuições mais importantes da Escola Austríaca.

Talvez esta seja até a mais importante de todas as suas contribuições.  Qualquer economista político conhece o importante papel que o custo de produção desempenha na teoria da Economia Política – tanto na teoria da produção como nas de distribuição, salários, renda, aluguel, ganho de capital, comércio internacional etc.  Pode-se afirmar com segurança que não há fenômeno importante na vida econômica para cuja explicação não sejamos levados, direta ou indiretamente, a apelar para o custo de produção.  E nesse ponto surge uma questão que, uma vez lançada, não pode mais ser ignorada.  Qual o lugar desse custo, tão mencionado, no sistema de fenômenos e de sua explicação?  Desempenharia por acaso o papel de centro em torno do qual, como eixo absoluto e fixo, giram todos os outros fenômenos do valor?  Ou o custo — o valor dos materiais de produção — será, apesar de todas as aparências em contrário, a parte variável, determinada pelo valor do produto?

 

Não se justifica qualquer hesitação: ou o custo regula o valor, ou o valor regula o custo

Essa questão é tão fundamental para a Economia Política quanto a questão entre os sistemas de Ptolomeu e de Copérnico para a Astronomia.  O sol e a terra giram, toda criança sabe, mas ninguém pode ser astrônomo hoje em dia sem saber se é a terra que gira em torno do sol, ou o sol em torno da terra.  Entre o valor de um produto e o valor dos materiais de produção existe uma relação não menos óbvia e indubitável.  E quem quer que deseje entender essa relação e os incontáveis fenômenos que dela dependem tem de saber se o valor dos materiais de produção deriva do valor do produto, ou se ocorre o inverso.  Desde o primeiro momento em que essa alternativa é focalizada numa discussão, todos os que pretendem ser economistas devem ter uma opinião bem definida sobre isso.  Uma hesitação eclética, como a que tem ocorrido geralmente até agora, não será mais possível.  Num sistema científico não podemos ter, alternadamente, ora a terra girando ao redor do sol, ora o sol girando ao redor da terra.  Portanto, a pessoa que atualmente quiser defender a ideia de que o custo da produção é “o regulador último de valor” pode continuar a fazê-lo; mas não achará sua tarefa tão fácil quanto era antes. Devemos, para fazer justiça, esperar que essa pessoa tente explicar a fundo, sem falhas ou contradições, de acordo com este princípio, o fenômeno do valor, especialmente o valor dos materiais de produção.  Se ela levar sua tarefa a sério, provavelmente terá dificuldades.  Se não as encontrar por si, deverá pelo menos levar em conta as dificuldades que outros encontraram quando andavam pelo mesmo caminho, e que, finalmente, os levaram a tentar explicar o fenômeno do valor segundo o princípio oposto.  De qualquer forma, essa parte da Economia Política será, no futuro, tratada com muito mais cuidado e profundidade científica do que o foi até agora, a não ser que nossa ciência queira merecer a acusação, tão frequente em outros tempos, e não menos frequente hoje em dia: a de ser um mero balbuciar sobre questões econômicas, e não uma ciência verdadeira e séria [11].

 

O problema da valorização dos bens complementares

A questão da relação entre custo e valor é, na verdade, apenas a formulação concreta de uma questão muito mais geral — a das relações regulares de valores, entre si, como os que, em interdependência causal, contribuem com a mesma utilidade para o nosso bem-estar.  Aparentemente, a utilidade de toda a gama de materiais com que se produz um casaco é idêntica à utilidade do casaco pronto.  Assim, é óbvio que aqueles bens ou grupos de bens, cuja importância para nosso bem-estar deriva de uma mesma utilidade, precisam manter uma relação fixa e regular com outra utilidade, no que diz respeito ao valor de ambos.  O problema dessa relação regular foi colocado de forma clara e abrangente pela primeira vez pelos economistas austríacos.  Ele só fora tratado antes, de maneira muito precária, sob o título “custo de produção”.  Há, porém, um corolário dessa proposição geral e importante, não menos importante nem menos interessante, que, no entanto jamais recebeu sequer aquele mínimo grau de atenção que a teoria econômica dedicou ao problema do custo.  É comum que vários bens se combinem simultaneamente para a produção de uma utilidade comum.  Por exemplo, papel, caneta, tinta, juntos servem para escrever; agulha e linha, para costurar; ferramentas, sementes, solo e trabalho, para produzir cereais.  Menger chamou de “bens complementares” os bens que mantêm essa relação entre si.  Aqui surge uma questão, tão natural quanto complicada.  Que grau de utilidade comum deve ser atribuído, nesses casos, a cada um dos fatores complementares que colaboram?  E que lei determina o valor e o preço proporcionais de cada um?

Essa questão tem palmilhado caminhos singulares.  A teoria antiga não a via como problema geral, embora tenha sido obrigada a resolver uma série de casos concretos que dependiam implicitamente dela.  Especialmente a questão da distribuição de bens motivou tais decisões.  Uma vez que vários fatores de produção — solo, capital, trabalho alugado e trabalho do empresário — colaboravam na produção de um bem comum, obviamente a parcela de valor a ser atribuída a cada um desses fatores, na forma de remuneração, é um caso especial dentro do problema geral.

 

O velho mau hábito de cair num círculo vicioso quando se trata do valor dos bens complementares

Vejamos como se decidiram os casos concretos.  Cada um foi resolvido independentemente, sem levar em conta os outros, e assim eventualmente acabaram formando um círculo completo.  O processo dava-se da seguinte forma: se era preciso explicar o aluguel de terras, decidia-se que era ao solo que pertencia o remanescente do produto depois de serem pagos os custos da produção, termo em que se incluía a remuneração de todos os outros fatores — capital, trabalho e lucro do empresário.  Considerava-se fixa e conhecida a função de todos os demais fatores, e o solo era taxado como um remanescente que variava segundo a quantidade do produto.  Se, então, fosse necessário, em outro momento, determinar os lucros do empresário, decidia-se que ele receberia o superávit que restasse depois de serem remunerados todos os outros fatores.  Nesse caso, a parcela do solo e o aluguel eram computados — assim como o trabalho, o capital etc. — como coisa fixa, e o lucro do empresário era tratado como variante, subindo ou descendo conforme a quantidade do produto.  Da mesma maneira se tratava, num terceiro capítulo, da parcela do capital.  O capitalista, diz Ricardo, recebe o que sobra do produto depois do pagamento dos salários.  Como que para satirizar todos esses dogmas clássicos, o Senhor F. A. Walker completou o círculo, afirmando que o trabalhador recebe as sobras de todos os demais fatores.

 

O erro de tentar fugir ao problema geral

É fácil ver não só que essas afirmativas correm em círculo, mas também por que isso acontece.  Os argumentadores simplesmente negligenciaram ao colocar o problema de uma forma geral.  Tinham várias quantidades desconhecidas a determinar, e, em vez de pegarem o touro pelos chifres e procurarem diretamente o princípio geral, segundo o qual um resultado econômico comum deveria ser dividido entre seus fatores componentes, tentaram evitar a questão fundamental — aquela do princípio geral.  Parcelaram a investigação, e nessa investigação parcial permitiram-se, a cada vez, tratar como desconhecida somente aquela, dentre as quantidades desconhecidas, que constituía objeto especial das investigações, abordando as outras, naquele momento, como se fossem conhecidas.  Assim fecham os olhos ao fato de que, poucas páginas antes ou depois, a operação surge invertida, e, a suposta quantidade conhecida é tratada como desconhecida, enquanto a desconhecida aparece como conhecida.

Depois da Escola Clássica veio a Escola Historicista.  Como acontece frequentemente, seus seguidores assumiram uma atitude de superioridade cética, declarando insolúvel o problema que eram incapazes de resolver.  Pensaram que era impossível dizer, por exemplo, qual seria a porcentagem de valor de uma estátua que seria devida ao escultor, e qual seria devida ao mármore.

Se o problema for corretamente colocado, isto é, se quisermos separar as parcelas econômicas e não as físicas, tudo pode ser resolvido.  Na verdade, esse problema é resolvido em todos os empreendimentos racionais, por qualquer agricultor ou fabricante.  E tudo o que a teoria tem a fazer é observar com cuidado e correção as coisas práticas, para descobrir as soluções teóricas.  A teoria da utilidade final auxilia de maneira bem simples nesse caminho.  É a velha história: basta observar acertadamente qual a utilidade final de cada fator complementar, ou qual a utilidade que a presença ou ausência de um fator complementar acrescentaria, ou subtrairia; caso se faça, com tranquilidade, uma boa pesquisa, será possível resolver um problema supostamente insolúvel.

Foi dos austríacos a primeira tentativa séria nesse campo.  Menger, juntamente com o autor destas linhas, abordaram a questão sob o título Theorie der komplementären Güter (Teoria dos bens complementares).  Wieser tratou do mesmo assunto sob o título Theorie der Zurechnung (Teoria da contribuição).  Especialmente este último autor revelou de forma admirável o modo adequado de se abordar o problema, mostrando que ele tem solução.  Segundo me parece, coube a Menger a melhor maneira de demonstrar qual o método para se chegar a essa solução [12].

Chamei a lei dos bens complementares de contraparte da lei do custo.  Da mesma forma que a primeira faz uma separação entre as relações de valor resultantes da justaposição temporal e causal e da cooperação simultânea de vários fatores para chegar a uma utilidade comum, assim também a lei do custo separa as relações de valor resultantes da sequência temporal e causal, da interdependência causal de fatores sucessivos.  “Através daquela, as malhas da intrincada rede das relações mútuas de valor dos fatores cooperantes são separadas, por assim dizer, em comprimento e largura; através desta, essas malhas se superam na sua profundidade; mas os dois processos ocorrem dentro da abrangente lei da utilidade final, da qual as duas leis são apenas aplicações especiais a problemas específicos.” [13].

 

Contribuições austríacas às teorias de distribuição, capital, salários, lucros e aluguel

Assim preparados, os austríacos finalmente se dedicaram aos problemas da distribuição, resolvendo-os numa série de aplicações específicas das leis teóricas gerais, cujo conhecimento fora obtido através de um trabalho preparatório monótono mas fecundo.  Terra, trabalho e capital são fatores complementares de produção.  Seu preço, ou — o que dá no mesmo — a porcentagem de aluguel, salário e juro, resulta simplesmente de uma combinação entre as leis que governam o valor dos materiais de produção, por um lado, e as leis dos bens complementares, por outro.  Os pontos de vista particulares dos austríacos sobre esses assuntos serão omitidos aqui.  Mesmo que os mencionasse, eu não poderia fazer neste trabalho nenhuma afirmação adequada sobre as conclusões deles — muito menos sua demonstração.  Por isso, devo contentar-me em dar uma rápida visão dos temas com os quais eles se ocupam e, quando for possível, do espírito com que trabalham. Apenas observarei, de passagem, que eles elaboraram uma nova e abrangente teoria do capital [14], para a qual criaram uma nova teoria de salários [15], além de abordarem reiteradas vezes os problemas dos lucros do empresário [16] e da renda [17].  À luz da teoria da utilidade final, especialmente esse último problema encontra solução simples e fácil, que confirma a teoria de Ricardo em seus resultados reais, e em muitos detalhes confirma o seu argumento.

Naturalmente, nem todas as aplicações possíveis da lei da utilidade final foram executadas.  É mais verdadeiro dizer-se que isso foi apenas iniciado.  Posso mencionar, de passagem, que alguns economistas austríacos tentaram uma aplicação mais ampla da lei no campo das finanças [18], e outros propuseram sua aplicação a certas difíceis e interessantes questões de jurisprudência [19].

 

A até aqui tão negligenciada doutrina dos bens econômicos

Finalmente, em relação aos esforços precedentes, muito se fez para melhorar as ferramentas que a ciência tem de utilizar a fim de esclarecer as concepções fundamentais mais importantes.  E, como acontece frequentemente, os economistas austríacos encontram muita coisa para ser melhorada e corrigida nessa área que até aqui pareceu tão plana e simples que a literatura de várias nações — a inglesa, por exemplo — quase nada encontrou a dizer sobre ela.  Refiro-me à doutrina dos bens econômicos.  Menger colocou nas mãos da ciência, com sua concepção da subordinação dos bens (Güterordnungen)[20], uma ferramenta lógica, tão simples quanto sugestiva, útil em qualquer investigação futura.  O autor deste trabalho empenhou-se particularmente em analisar uma concepção que parece ser a mais simples de todas, mas que na verdade é complicada e muito mal aplicada: a do uso dos bens (Gebrauch der Güter) [21].

 

Atenção crescente para os problemas práticos

As questões de Economia Política prática apenas começam a se tomar objetos de trabalho literário com os economistas austríacos [22].  Isso não significa, porém, que eles não tenham sensibilidade para as necessidades práticas da vida econômica, e, menos ainda, que não desejem ligar sua teoria abstrata com a prática.  É exatamente o contrário.  Ocorre que temos de construir a casa antes de a podermos arrumar, e, enquanto tivermos as mãos ocupadas com a estruturação da nossa teoria, haverá menor obrigação de dedicar às inúmeras questões práticas o grau de absorvente cuidado que seria necessário para sua elaboração literária.  Temos nossas opiniões sobre elas, ensinamo-las em nossas cátedras, mas nossas atividades literárias até aqui limitaram-se quase exclusivamente a problemas teóricos, não apenas por eles serem fundamentais, mas porque a sua prolongada negligência por parte da Escola Historicista tem de ser agora compensada.

 

Objetivo dos austríacos; renascimento da teoria econômica; caráter desse renascimento

Qual é, então, em síntese, o significado dessa longa história?  Qual o significado, para a ciência como um todo, desse grupo de homens que ensinam isso e aquilo a respeito de bens, valor, custo, capital e uma dezena de outros assuntos?  Tudo isso tem algum significado?  Sinto-me embaraçado ao responder a esta pergunta, por fazer parte do grupo de homens cuja atividade está sendo discutida.  Devo-me limitar à constatação daquilo que os economistas austríacos estão tentando realizar como grupo; outros poderão julgar se eles estão ou não sendo bem sucedidos.

O que os austríacos estão propugnando é uma espécie de renascimento da teoria econômica.  A velha teoria clássica, admirável que foi a seu tempo, tinha o caráter de uma coleção de aquisições fragmentárias, que não apresentavam relações ordenadas, nem entre si, nem com os princípios fundamentais da ciência humana.  Nosso conhecimento é, quando muito, uma colcha de retalhos, e terá de continuar assim.  Mas essa característica da teoria clássica era irrefutavelmente verdadeira. Com uma intuição genial ela descobriria uma massa de regularidades no redemoinho dos fenômenos econômicos, e com não menor genialidade, embora enredada nas dificuldades de todo começo, iniciou a interpretação dessas regularidades. Quase sempre obteve sucesso, quando seguia o fio das explicações a uma distância maior ou menor da superfície, em direção ao fundo.  Mas, depois de uma certa profundidade, sempre acabava perdendo a pista.  Os economistas clássicos, na verdade, sabiam até que ponto deviam levar todas as suas explicações: até o ponto do interesse da humanidade pelo seu próprio bem-estar; interesse que, quando não desviado por razões altruístas, é a força motriz de toda a ação econômica. Mas, graças a uma certa circunstância, o meio-termo da explanação — através do qual o verdadeiro comportamento dos homens no estabelecimento de preços de bens, salários, aluguel etc.  devia ter-se unido ao motivo fundamental da utilidade — estava sempre errado.  A circunstância a que me referi é a seguinte: um Robinson Crusoé lida unicamente com bens; enquanto nós, na vida moderna, lidamos com bens e com seres humanos dos quais obtemos os bens que usamos, através de troca, cooperação etc.  A economia de um Crusoé explica-se quando conseguimos mostrar a relação entre, de um lado, o nosso bem-estar e os produtos materiais, e, de outro, a postura que o cuidado pelo nosso bem-estar nos faz assumir frente a esses bens materiais.  Aparentemente, para explicar a ordem econômica moderna há necessidade de dois processos:

1) Como na economia de Crusoé, precisamos entender a relação entre nossos interesses e os bens exteriores.

2) Precisamos tentar entender as leis segundo as quais perseguimos nossos interesses quando eles estão enredados com os interesses de outros.

 

Dois problemas distintos: relações entre os homens e as coisas; relações dos homens entre si

Ninguém jamais se iludiu — nem mesmo os economistas clássicos — pensando que esse segundo processo não fosse difícil ou complicado.  Mas, por outro lado, esses economistas infalivelmente subestimaram as dificuldades do primeiro processo. Acreditaram que na relação entre os homens e os bens externos não havia nada a ser explicado, ou, para sermos mais exatos, não havia nada determinado.  Os homens precisam de bens para suprir seus desejos; os homens os desejam e atribuem a esses bens um valor de uso segundo sua utilidade.  Era isso que todos os economistas clássicos sabiam ou ensinavam quanto à relação entre os homens e os bens.  Enquanto o valor no comércio era discutido e explicado em extensos capítulos, desde os tempos de Adam Smith aos do Senhor Macvane, o valor no uso era comumente resolvido em duas linhas, muitas vezes com a simples constatação de que o valor de uso nada tinha a ver com o valor comercial.

 

Subvalorização, no passado, dos problemas das relações entre os homens e as coisas: o grave defeito da Economia Clássica

Contudo, a relação dos homens com os bens de modo algum é simples ou uniforme.  A teoria moderna da utilidade final, em sua aplicação ao custo da produção, dos bens complementares etc., mostra que a relação entre nosso bem-estar e os bens é passível de incontáveis gradações, todas elas exercendo influência sobre nossos esforços para obtermos bens no comércio com outras pessoas.  Aqui se abre a grande e fatal lacuna da teoria clássica: ela tenta mostrar como perseguimos nossos interesses em relação aos bens em oposição a outros homens, sem entender a fundo o interesse em si mesmo, o que torna incoerentes suas tentativas de explicação do fato.  Os dois processos de explicação precisam adaptar-se um ao outro como as duas rodas dentadas de uma engrenagem.  No entanto, como os economistas clássicos não tinham ideia de como deveriam ser a forma e os dentes da primeira roda, naturalmente não podiam dar à segunda roda uma constituição adequada.  Assim, a despeito de certa profundidade, todas as suas explicações degeneravam em alguns lugares-comuns e revelaram-se falsas em sua generalização.

É desse ponto que a teoria do renascimento precisa começar.  Graças aos esforços não só de Jevons e seus seguidores, como também dos membros da Escola Austríaca, já se começou a pensar assim.  Naquela parte mais geral e elementar da teoria econômica, através da qual eventualmente tem de passar toda a explicação econômica mais complicada, precisamos renunciar às posturas diletantes e fazer uma investigação realmente científica.  Não devemos fugir ao estudo do microcosmo se desejamos entender corretamente o macrocosmo de uma ordem econômica desenvolvida.  É esse o ponto crítico a que se chega de vez em quando em todas as ciências.  Começamos pelo universal, percebendo os fenômenos maiores e mais extraordinários, sem observar o universo dos pequenos fenômenos cotidianos.  Mas sempre chega um momento em que descobrimos, atônitos, que as complexidades e enigmas do macrocosmo ocorrem de modo ainda mais singular nos elementos menores, aparentemente mais simples — e então percebemos que precisamos procurar a chave da compreensão das coisas grandes no estudo das coisas pequenas.  Os físicos, que começaram com os movimentos e leis dos grandes corpos celestes, hoje não estudam nada com mais diligência do que a molécula e o átomo.  E é da minúcia da Química que devemos esperar as mais importantes descobertas para a eventual compreensão do todo.  No mundo orgânico, eram os organismos mais altamente desenvolvidos e poderosos que outrora despertavam um interesse maior.  Hoje, este interesse se volta para os micro-organismos mais simples.  Estudamos a estrutura das células e a das amebas, e procuramos bacilos por toda parte.  Estou convencido de que não será diferente na teoria econômica.  O significado da teoria da utilidade final não está no fato de ser uma teoria de valor mais correta do que uma dúzia de teorias mais antigas, mas no fato de que marca, para a ciência dos fenômenos econômicos, a aproximação daquela crise característica.  Mostra, de uma vez por todas, que num fenômeno aparentemente simples — a relação do homem com os bens exteriores — há espaço para intermináveis complicações; mostra também que, subjacentes a essas complicações, encontram-se leis fixas, cuja descoberta exige do pesquisador o máximo de sagacidade.  É na descoberta dessas leis que se deve realizar a maior parte da investigação do comportamento dos homens em sua relação econômica com outros homens.  A vela acesa dentro de casa espalha sua claridade lá fora.

 

A necessidade de reconstruir a ciência da Economia não justifica o descontentamento; temos de construir melhor do quê os pioneiros da Economia

Naturalmente, pode ser uma surpresa nada agradável para muitos que se intitulam economistas políticos descobrir que o campo que até agora araram com a ferramenta intelectual tem, anexo, outro campo, nada pequeno, e de cultivo particularmente trabalhoso.  Até agora foi muito conveniente explicar os fenômenos de preços que têm como base a lei de “oferta e procura” ou o lema do “custo”.  De repente, esses supostos pilares tremem, e somos forçados a colocar os alicerces muito mais fundo, à custa de grande e monótono trabalho.

Por mais inconveniente que seja, não há outro caminho senão fazermos o trabalho que as gerações passadas negligenciaram.  Os economistas clássicos podem ser desculpados por essa negligência.  No seu tempo, quando tudo ainda era novo e não descoberto, a investigação per saltum, a exploração científica por assim dizer, podia trazer bons resultados. Mas agora é diferente.  Em primeiro lugar, nós, dos tempos recentes, como não temos o mérito de sermos pioneiros na ciência, não deveríamos reivindicar privilégios de pioneiros; as exigências se tomaram maiores.  Se não desejarmos ficar atrasados em relação às outras ciências, temos de trazer também para dentro da nossa uma ordem estrita e a disciplina que estamos longe de possuir.  Não nos iludamos em uma vã autocomplacência.  Erros e omissões são naturalmente coisas que se devem esperar a qualquer hora em qualquer ciência.  Mas em nossos “sistemas” ainda pululam lugares-comuns, erros banais, cuja frequência é claro sinal do estado primitivo de uma ciência.  Nossas exposições viram fumaça antes de tocar em coisas essenciais; evaporam-se em frases vazias assim que começam a se tornar difíceis; os problemas mais importantes ainda não foram sequer detectados; raciocinamos no mais absoluto círculo vicioso, não só dentro do mesmo sistema: até num mesmo capítulo mantemos teorias contraditórias sobre um mesmo assunto; devido ao uso de uma terminologia ambígua e desordenada, somos levados aos mais palpáveis erros e confusões — e todos esses erros são tão frequentes em nossa ciência que quase parecem caracterizá-la.  Posso entender que os representantes de outras ciências, habituados a uma severa disciplina, encarem com certo desdém e piedade muitos trabalhos famosos sobre Economia, e neguem a essa última caráter de verdadeira ciência.

 

A Escola Historicista alemã não contribuiu efetivamente para solucionar o problema do aperfeiçoamento da economia

Esse estado de coisas tem de mudar.  A Escola Historicista, que deu o tom em toda a Alemanha nos últimos quarenta anos, infelizmente nada fez de positivo até aqui.  Ao contrário, em seu terror cego ao raciocínio “abstrato”, armada de um ceticismo barato, de acordo com o qual, em quase todos os pontos importantes declara que os problemas apresentados são “insolúveis”, e que as lutas para descobrir leis científicas são vãs, essa escola fez o que podia para desencorajar os parcos esforços aplicados em se obter sucesso.  Não ignoro que em outro terreno, o empírico, eles deram sua contribuição à ciência, trazendo-lhes grandes benefícios; mas o futuro mostrará com imparcialidade que, se eles tiveram uma atuação positiva nesse particular, prejudicaram a ciência em outros aspectos, com esse seu zelo tão unilateral.

A Escola Austríaca tenta analisar hoje em dia tudo aquilo que as duas outras escolas, a Clássica e a Historicista, negligenciaram.  Ela não está sozinha nessa luta.  Na Inglaterra, desde os dias de Jevons, iniciativas congêneres foram levadas adiante pelos colaboradores e discípulos dos maiores pensadores.  Instigados em parte por Jevons e em parte pela Escola Austríaca, significativo número de pesquisadores de todas as nações voltaram-se recentemente para as novas ideias. A literatura holandesa séria é quase totalmente dedicada a essas ideias.  Elas já foram introduzidas na França, Dinamarca e Suécia.  Na literatura italiana e americana são divulgadas quase diariamente, e até na Alemanha, baluarte da Escola Historicista — contra a qual é preciso lutar palmo a palmo — a nova tendência assumiu uma posição forte e influente.

É possível que uma tendência com tamanho poder de sedução seja constituída apenas de erros?  Na verdade, não brotaria ela de uma necessidade de nossa ciência no sentido de suprir uma carência que há muito vem sendo reprimida por métodos unilaterais, mas que precisa se fazer sentir — a necessidade de uma real profundidade científica?

 

  1. Como Böhm-Bawerk delimitou o campo da Ética

 

A Ética e a Economia são ciências próximas; veja-se o que Böhm-Bawerk escreveu e está citado nas pp. 260-263 acima.  É fundamental entender que a ciência da Economia (num sentido amplo, as relações dos homens com as coisas)antecede à Ética (relações dos homens com os homens), pela razão decisiva de que é das reivindicações dos homens por bens e serviços que nascem inveja, ciúme, violência, adultério, roubo e fraude, que aviltam a sociedade e constituem o objeto da Ética.

Em sua exposição, Böhm-Bawerk escreveu:

 

Para explicar a ordem econômica moderna parece haver necessidade de dois processos: assim como temos de entender, na isolada economia de Crusoé, o mecanismo do nosso interesse por bens exteriores (ou seja, Economia), também precisamos tentar compreender as leis segundo as quais perseguimos nossos interesses quando eles se misturam aos interesses de outros (ou seja, Ética).

 

Adam Smith, na Universidade de Glasgow, era originariamente professor de Filosofia Moral.  Desse campo éticopassou aos problemas do relacionamento dos homens com as coisas, isto é, à Economia.  Smith sempre supôs uma sociedade econômica que operaria com uma estrutura ética subjacente — sem violência, sem roubo, sem fraude, sem inveja — que envolvesse a estabilidade da família.  Outros grandes economistas pensaram em termos equivalentes; nenhum deles supôs uma sociedade violenta e coercitiva, ou a alienação dos bens de um homem por outro através de fraude ou roubo.

Contudo, com a reformulação do assunto efetuado por Rodbertus, Marx etc., o ganho imerecido tornou-se fonte de virulenta inveja, coerção, taxação punitiva e violência, por governos socialistas comunistas etc.

Böhm-Bawerk não procurava nem anular ou enfraquecer as leis éticas, nem alargar sua abrangência.  Mas reduziu o campo da Ética, ao mostrar que o ganho imerecido, em princípio, não era manifestação de algo certo ou errado.  O fenômeno do ganho imerecido repousa sobre a mortalidade humana, e é parte do cálculo de todo mundo, quer dizer, uma valorização do futuro, que é menos cotado do que o presente; por isso é que, para se ter um valor subjetivo unitário igual a 100 dólares presentes, são necessários 105 dólares (mais ou menos, dependendo da porcentagem original de juro, neste caso cinco por cento) ao cabo de um ano.

O modo de pensar habitual é de “somar” o juro, mas o verdadeiro raciocínio dos homens é o de descontar o futurocomparado ao presente, isto é, usa-se a fórmula 100/105 = 0.95238.  Note-se que isso é uma equação.  A equação revela um tato surpreendente, o de que realmente cada um dos futuros 105 dólares é “descontado”; cada um dos 105 dólares éindividualmente menos do que os dólares presentes individuais.  Com que desconto são avaliados os dólares dentro de um ano (presumindo um juro de cinco por cento)?  Se 0.95238 for subtraído de 1.00000, sobra 0.04762, que é o “desconto” de cada dólar no futuro conforme o presente (habitualmente expresso em 4.762% de juro).  Os presentes 100 dólares têm 100 dólares individuais valendo cada um 1 dólar; os dólares daqui a um ano valem 0.95238 cada um.  Multiplicando os 105 dólares futuros por 0.95238 cada um, confirma-se a equação (100 x $ l = 105 x 0.95238).

A fim de entender Böhm-Bawerk é preciso basicamente pensar sempre no desconto com que se avaliam bens futuros(por unidade) comparados com bens presentes.  A revolução na Economia austríaca neoclássica não será entendida por alguém que se recuse a compreender o que a precedeu.

Falamos do sol que “se levanta e se põe”, embora a expressão seja antiquada e confusa; da mesma forma, “somamos” a porcentagem de juro, quando também isso é antiquado e confuso.  É preciso que nosso pensamento, nos dois casos, seja mais realista do que nossas formulações.

A obtenção do ganho imerecido, portanto, não é um “pecado”, segundo a opinião de pessoas que compreendem bem a si mesmas e à sua situação.  Contudo, a definição de “pecado” no sistema socialista-comunista alarga de maneira absurda a definição mais restrita de “pecado” no capitalismo.

Qualquer proposição ética que declare que há um mal em receber ganho imerecido é um paralogismo — “uma falácia de raciocínio da qual o raciocinante não tem consciência”.

A Ética foi relativamente estéril durante mil anos, ou pelo menos durante alguns séculos.  O ganho imerecido advindo da posse de bens (isto é, bens que não foram obtidos por violência, roubo ou fraude), era erroneamente considerado um problema ético quando devia ter sido considerado apenas problema econômico baseado no valor que os homens dão a bens disponíveis em diferentes épocas, isto é, o presente versus várias datas no futuro.  Se os diferentes intervalos de tempo no futuro forem breves, o ganho imerecido será proporcionalmente pequeno; se os intervalos forem longos, o ganho imerecido será proporcionalmente maior.  O ganho imerecido é uma questão de tempo, não de exploração.

Se algum leitor desejar verificar os vários motivos por que uma pessoa prefere um bem presente a um bem futuro,dirija-se à Teoria positiva do capital, de Böhm-Bawerk, pp. 259-289 da ed. americana.

Avaliar um bem presente face a um bem similar futuro é uma comparação que o homem faz regularmente, por simesmo.  E, se ele emprega esse método de avaliação variável, baseado no tempo em que o bem estará disponível, quando está avaliando por si mesmo, não deveria haver objeção válida a que, quando alguém mais estiver envolvido, ele empregue o mesmo método de avaliação variável segundo o tempo da disponibilidade do bem.

Podem-se usar cifras absurdas para ilustrar a ideia de Böhm-Bawerk.  Vamos supor que o Senhor A pode receber um milhão de dólares em vinte anos ou agora mesmo.  O Senhor A preferirá o milhão de dólares em vinte anos?  É quase certo que dirá a si mesmo, “posso estar morto antes de passarem vinte anos; e então jamais teria o dinheiro.  Prefiro o milhão de dólares agora, imediatamente”.  Obviamente a avaliação que se faz para um bem de hoje é maior que a desse mesmo bem amanhã, e mais ainda: será muito maior que a do bem que só se terá daqui a um ano; e maior ainda, e maior e maior quanto mais forem adiados os bens futuros adentro.

Há cerca de três mil anos Moisés definiu o pecado social como violência (Sexto Mandamento do Decálogo), adultério(Sétimo Mandamento), roubo (Oitavo Mandamento), fraude (Nono Mandamento), e inveja (Décimo Mandamento).  E uma lista muito modesta, nada dogmática.  Mas avaliar um bem futuro com desconto em relação a um bem atual (isto é, um desconto que parece conter um ganho imerecido) não foi colocado na lista de pecados proibidos na promulgação do Decálogo.  Considerar o ganho imerecido como pecado é desvirtuar o campo moral.  Rodbertus, Marx e outros socialistas comunistas, assim como alguns líderes religiosos no mundo atual, cometeram o absurdo de dizer que avaliar um bem presente acima de um bem similar futuro é um mal, é um pecado, e merece a ira de Deus (se é que eles acreditam em Deus).  Essa ampliação da definição de pecado é uma fraude ética.

Böhm-Bawerk teve uma contribuição importante para “des-confundir” as ideias nesses últimos mil anos.  Ele reduziu grandemente a área do pecado.  Ao contrário, Rodbertus e Marx preferiram ampliá-la mais.  Como os grandes príncipes infernais de Milton, esses fervorosos moralistas “… não encontraram a saída, vagando perdidos no labirinto”.

Pessoas interessadas em Ética deviam ler The Foundations of Morality (Nash Publishing, Los Angeles, Califórnia), provavelmente o livro não religioso mais valioso jamais escrito sobre Ética.  Hazlitt, com arguta clareza de julgamento, indica que as novas ideias que apresenta no campo da Ética derivam parcialmente de um conhecimento econômico aperfeiçoado, resultante da revolução econômica dos austríacos neoclássicos (baseada primariamente no pensamento original de Böhm-Bawerk sobre ganho imerecido).  Hazlitt apresentou uma visão correta, não só por causa da solidez geral de seu julgamento, mas também graças a seu conhecimento suplementar da Economia austríaca neoclássica.

Como “fazedores de lei”, Agostinho, Aquino, Descartes, Coke, Blackstone, Kant, Hume, Hegel, Comte e Marx não superam nem Adam Smith nem Eugen von Böhm-Bawerk.  Smith impôs a verdade de que o exercício da responsabilidade e da liberdade dá resultados notavelmente benéficos.  Smith foi seguido por Eugen von Böhm-Bawerk, que removeu das considerações éticas o que era apenas um problema de tempo grotescamente mal compreendido e grosseiramente subestimado — um desconto na avaliação de bens futuros por homens cuja vida não é duradoura, e cuja morte é sem dúvida inevitável.  Tanto Smith, no que diz respeito à liberdade e responsabilidade, como Böhm-Bawerk, no que se refere ao ganho imerecido, estão entre os maiores mestres da Ética.  Escolas teológicas e departamentos de Filosofia deveriam examinar o raciocínio de Böhm-Bawerk na questão da origem do ganho imerecido, e concluir que na verdade ele não é um problema ético, e sim cosmológico (de tempo).

A nova teoria dos socialistas comunistas sobre o mal do ganho imerecido é uma fraude intelectual de tal magnitude que se torna a pior degeneração ética realizada neste mundo nos últimos séculos.

 

  1. Marx: seus traços mentais

 

Um dos mais breves ensaios de Böhm-Bawerk, publicado cm 1896, teve o título alemão “Zum Abschluss des Markschen Systems”.  A tradução inglesa de Alice Macdonald em 1898 teve o título “Karl Marx and the close of his system” (Karl Marx e o fim do seu sistema).  O título inglês não foi feliz; o que significa “fim”?  Teria sido melhor traduzir: “Karl Marx e a conclusão de seu sistema”.  Para expressar melhor a ideia original do artigo, o título devia basear-se nas seguintes considerações:

1) A inconsistência do sistema de pensamento de Marx tornou-se evidente bem mais cedo, quando ele publicou, em 1867, o Vol. I de seu Capital.

2) Marx assegurou a seus leitores que um dia provaria não haver inconsistência nem falácia em seus argumentos, mas, até morrer em 1883, não havia ainda cumprido sua promessa.  Postumamente, o amigo de Marx, Friedrich Engels, assumiu a organização de suas caóticas notas e quis desfazer-lhes a impressão de grave contradição interna.  Engels “redimiu” a promessa de Marx em 1894, vinte e sete anos depois de ela ter sido feita.

3) Quando Engels finalmente publicou o que foi apresentado como a solução de Marx, Böhm-Bawerk assumiu a tarefa de mostrar que Marx não solucionara (encerrara, completara ou resolvera) a contradição.

O título “Karl Marx e a [conclusão] de seu sistema” ainda não descreve os objetivos da crítica de Böhm-Bawerk.  Em 1962, em um livro em inglês de ensaios de Böhm-Bawerk, sob o título Shorter Classics of Böhm-Bawerk, este editor deu àquele texto o título “Contradição não resolvida no sistema econômico de Marx”, título esse que elucida o leitor sobre o assunto.  Esse ensaio de Böhm-Bawerk teve o mérito de, em forma breve e clara: (1) descrever o sistema marxista, (2) revelar sua inconsistência, e (3) mostrar que nada do que foi postumamente publicado por Engels, em lugar de Marx, “resolvia” o problema.  Noventa e três páginas de texto em “Contradição não resolvida no sistema econômico de Marx” (veja Shorter Classics pp. 208-301) darão ao leitor informação e esclarecimento maiores do que o texto correspondente ao assunto no extenso e tedioso Capital.  Note-se oque Böhm-Bawerk escreve (citado de Shorter Classics of Böhm-Bawerk,pp. 276-278):

E os seguidores socialistas da teoria da exploração tentam manter tal proposição, embora ela seja construída sobre areia! Não a empregam apenas incidentalmente, nem para apoiar algum ângulo inconsequente na estrutura da sua teoria.  Na verdade, fazem dela a pedra angular que sustenta a fachada de suas reivindicações mais vitais e concretas.  Defendem a lei de que o valor de todos os bens consiste no tempo de trabalho neles representado.  Depois, no momento seguinte, atacam qualquer criação de riqueza que entre em conflito com tal “lei”, como por exemplo, a diferença no valor de troca que recai para o capitalista como valor excedente.  Dizem que isso é “‘contrário à lei”, “injusto”, e recomendam sua abolição.  Quer dizer, primeiro ignoram a exceção para poderem proclamar a sua lei de valor dotada de validade universal.  E depois desse furtivo desvio da qualidade de validade universal, começam a recordar-se das exceções, para rotulá-las de violações da lei. Esse método de argumentação é tão mau quanto o de alguém que, observando que há muitos homens tolos, ignorasse que também há alguns homens sábios, deduzisse a “lei universalmente válida” de que “todos os homens são tolos”, e depois exigisse o extermínio dos homens sábios que existem “ilegalmente”. *

 

Quando as teorias de Marx e os fatos se harmonizam ele argumenta bem, mas fora disso é insincero

Com sua manobra de abstração Marx certamente obteve uma grande vantagem tática para sua própria versão do caso.  Ele, “por hipótese”, excluiu do seu sistema o perturbador mundo real, e, enquanto pôde manter essa exclusão, não entrou em conflito com esse mundo.  Ele pôde fazer isso no correr da maior parte do primeiro volume, de todo o segundo, e do primeiro quarto do terceiro.  Nessa parte central do sistema marxista, a evolução lógica e a coerência revelam uma densidade realmente impressionante, e uma consistência intrínseca.  Marx tem liberdade de usar uma boa lógica aqui porque, através da hipótese, ele antecipadamente adequou os fatos às suas ideias, de modo que pôde ser fiel a estas sem contrariar àqueles.  E quando Marx é livre para usar de lógica sólida, ele o faz de maneira realmente magistral.  Por mais errado que possa ser seu ponto de partida, essas partes intermediárias do sistema, por sua extraordinária consistência lógica, garantiram ao Autor uma reputação de intelectual de primeira linha.  Essa circunstância serviu para intensificar bastante a influência prática do sistema marxista que, nessa longa parte central de seu trabalho, é realmente perfeito quanto à consistência interna.  Os leitores que superaram bem as dificuldades do começo ganham tempo para se acostumarem ao universo do pensamento marxista, e confiar na coerência de suas ideias, que aqui fluem tão suavemente umas após as outras, formando um todo bem estruturado.  É àqueles leitores, cuja confiança assim conquistou, que Marx faz as severas exigências que por fim é obrigado a apresentar no terceiro volume.  Pois, embora Marx adiasse muito o momento de abrir os olhos para os fatos da vida real, teve de fazê-lo um dia.  Precisou confessar aos seus leitores que na vida real as mercadorias não se trocam regularmente e necessariamente em proporção ao tempo de trabalho nelas incorporado, mas que se trocam — em proporções maiores ou menores em relação ao tempo de trabalho — de acordo com a parcela maior ou menor do lucro médio que o capital investido exigiu.  Em suma, além do tempo de trabalho, também o investimento de capital é um dos fatores determinantes da relação de troca entre mercadorias.  Nesse ponto ele enfrentou duas tarefas difíceis.  Em primeiro lugar teve de justificar-se diante de seus leitores, por ter, em partes precedentes de seu trabalho, e por tanto tempo, ensinado que o trabalho era o único determinante das relações de troca; em segundo lugar — e talvez esta tenha sido uma tarefa ainda mais difícil — também tinha de dar aos leitores uma explicação teórica dos fatos que eram hostis à sua teoria, explicação que, por um lado, certamente não se adequaria à sua teoria do valor do trabalho sem deixar vestígios e que, por outro lado, não a deveria contradizer.

Pode-se compreender que agora ele já não pudesse usar uma boa lógica direta nessas demonstrações.  Testemunhamos, então, a contraparte do distorcido início do sistema.  Lá, Marx teve de violentar os fatos a fim de deduzir um teorema que, honestamente, não poderia ter sido deduzido.  Nessa barganha, teve de violentar ainda mais a lógica e cometer as mais inacreditáveis falácias, Agora, a situação se repete.  Mais uma vez as proposições que através de dois volumes tomaram conta do campo, imperturbadas, colidem com os fatos, com os quais naturalmente concordam tão pouco quanto antes. Mesmo assim, é preciso manter a harmonia do sistema, e ela só pode ser mantida com sacrifício da lógica.  Por isso, o sistema marxista nos apresenta um espetáculo estranho à primeira vista, mas, sob as circunstâncias acima descritas, bastante natural: a maior parte do sistema é uma obra-prima de lógica densa e convincente, digna do intelecto de seu autor; mas em dois lugares — hélas! exatamente os mais decisivos — insere-se nela uma argumentação incrivelmente fraca e descuidada. O primeiro momento é exatamente no começo, quando a teoria se afasta, pela primeira vez, dos fatos, e o segundo é depois do primeiro quarto do terceiro volume, quando outra vez os fatos reais são apresentados ao leitor.  Refiro-me mais especificamente ao décimo capítulo do terceiro volume (pp. 151-79).

Nessas linhas, Böhm-Bawerk presta homenagem às capacidades mentais de Marx, mas não tem muito a dizer quanto à sua integridade intelectual.

O último parágrafo na análise de Böhm-Bawerk sobre a importância do pensamento de Marx diz (Shorter Classics of Böhm-Bawerk, p. 301):

 

O sistema de Marx, como o de Hegel, é um castelo de cartas

“Porém Marx ocupará um lugar permanente na história das ciências, pelas mesmas razões, e com a mesma mescla de méritos positivos e negativos de seu modelo, Hegel.  Os dois foram gênios em Filosofia.  Os dois, cada um em seu campo, tiveram enorme influência sobre o pensamento e a emoção de gerações inteiras, quase se pode dizer sobre o espírito do século.  A obra teórica específica de cada um deles apresenta uma estrutura de concepção muito engenhosa, construída por uma prestidigitação que combinava várias histórias de pensamento, unidas por um maravilhoso domínio mental, mas… castelo de cartas.”

O leitor se beneficiará lendo a análise densa e breve do trabalho intelectual de Marx feita por Ludwig von Mises, nas pp. 295 – 282 deste livro, sob o título “A teoria marxista dos índices de salários”.

 

* Ibid. p. 302.

 

  1. Como podemos avaliar Marx pelas consequências praticas

 

A análise que Böhm-Bawerk faz da teoria da exploração do socialismo-comunismo, e do desempenho intelectual de Marx (muito hábil quando é realista, muito perigoso quando foge à realidade), é um tour de force intelectual.  Apesar disso, mostra um Marx bem melhor do que a História revela que ele foi.  Considerando as consequências históricas do socialismo-comunismo marxista, sob Lênin, Trotski, Stalin e outros, na Rússia, sob Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, e Mao na China, vemos que em parte alguma essa doutrina trouxe benefícios, quer para seus compatriotas quer para os estrangeiros. A falta de integridade intelectual de Marx, aparentemente deliberada, produziu uma colheita sangrenta e maldita em toda parte.  Nem paz nem prosperidade florescem sob as ideias socialistas comunistas, que negam o direito à propriedade privada e difamam as sociedades baseadas em contratos voluntários.

Como Walter Lippmann escreveu em The Good Society, fatalmente um sistema socialista-comunista trará um governo tirânico, belicoso e pobre; um sistema capitalista, ao contrário, invariavelmente produzirá uma sociedade livre, pacífica e próspera.  O que segue abaixo foi tirado das pp.  xi e xii da introdução de Lippmann ao The Good Society(Little, Brown & Company, associada a The Atlantic Monthly Press, Boston, Massachusetts, 1941).

“O plano da obra divide-se em duas partes.  A primeira, compreendendo os livros I e II, é uma analise da teoria e prática do movimento (socialismo-comunismo) que desde então — cerca de 1870 — tenta organizar uma ordem socialdirigida.  

Tentei examinar esse projeto de futuro não só em sua corporificação comunista mas também no gradual coletivismo dos estados democráticos, tentando determinar se uma sociedade planejada e dirigida pode saborear a abundância num estado de paz.  O problema não era se isso seria desejável, mas se seria possível.  Comecei pensando que, se era difícil encontrar planejadores e administradores sábios e desinteressados o bastante, o ideal poderia ser realizado através de uma classe dominante bem treinada.  Finalmente, entendi que tal ordem social não é concebível nem mesmo teoricamente; que, se cuidadosamente analisada, essa ordem ideal não é apenas difícil de administrar mas despojada de qualquer significação; que é uma ilusão tão completa quanto o moto-perpétuo.  Entendi por fim que uma sociedade dirigida (socialista-comunista) tem de ser belicosa e pobre.  Se não for pobre e belicosa, não poderá ser dirigida.  Entendi então que uma sociedadepróspera e pacífica tem de ser livre.  Se não for livre, não poderá ser próspera nem pacífica”.

 

  1. Marx — epistemologia regressiva

 

Uma pessoa pode estar errada: (1) Porque tem um motivo (tal como inveja) que distorce seu raciocínio; (2) Porque emprega um método precário; (3) Porque ela cometeu um erro ingênuo ao aplicar seu método a um problema particular, apesar de usar um método sólido.

Marx parece ter sido motivado significativamente por uma difusa inveja ou descontentamento social.  (Ele assumia a postura de defensor dos membros mais pobres e mais fracos da sociedade; na verdade, porém, as verdadeiras consequências das ideias de Marx, e de suas atividades, trouxeram e continuam trazendo prejuízos certos para o chamado trabalhador, o empregado que Marx afirmava estar sendo explorado. ) Marx parece ter-se maculado definitivamente com o erro n° 1.

Böhm-Bawerk concluiu que a coerência interna da argumentação de Marx indicava que ele não era culpado de alguma falácia inconsciente; o número 3 na lista precedente não dá conta do monstruoso erro de Marx quanto ao ganho imerecido; o erro de Marx não era uma asneira, e sim um raciocínio sofisticado, insincero e indefensável.

Mas Marx usou também de um método generalizadamente errado (erro n° 2) na abordagem da Economia e das Ciências Sociais em geral.  Ele seria, em termos medievais, um realista (não um nominalista).  Sua epistemologia era compreensivelmente inadequada.

Para muitos de nós, Epistemologia é um assunto abstruso.  Qualquer especialista, de qualquer área, em determinado momento se afasta de seu trabalho e diz a si mesmo: Como é que estou abordando meu problema?  Até onde meu método pode me levar?  Depois indaga: existe uma abordagem ou método melhor?

Numa expressão descritiva, a Epistemologia é a “ciência da ciência” (termo usado em conversa por Ludwig von Mises). No caso da Economia, o problema geral coloca todo economista competente diante de uma indagação que o faz refletir: meus métodos serão adequados para atingir conclusões corretas?  No caso de Marx, terá sido legítimo Böhm-Bawerk assumir uma visão crítica dos métodos ou da epistemologia desse autor?

Na Idade Média havia uma diferença entre os filósofos.  Alguns eram conhecidos como realistas; abordavam problemas “em grande escala”, em termos de “classes” e de “grandes ideias”, isto é, em termos coletivos, ou gerais, tais como “ricos” versus “pobres”.  De certa forma o termo moderno para realismo econômico seria “macroeconomia”.  Realismo no sentido medieval não é realismo no sentido de analisar casos específicos, tais como pobreza ou fortuna de indivíduos.  

Os nominalistas, ao contrário, evitam termos gerais tais como “os ricos” e “os pobres”; descem a casos específicos; lidam com o Senhor A e o Senhor B individualmente.  Tratam com suspeita e hostilidade o emprego de “termos gerais” em vez de termos e casos específicos.

No pensamento de Marx, na sua “epistemologia”, ele era um flagrante realista (medieval).  Apreciava conceitos grupais e usava termos gerais.  Seu método era (é) totalmente inadequado na Ciência Social e na Economia.  Böhm-Bawerk e seus companheiros eram nominalistas em sua epistemologia, imensuravelmente melhor que a de Marx.

Na disputa secular entre realistas e nominalistas (na Idade Média), os nominalistas finalmente venceram, e trouxeram espantoso progresso para a ciência e prosperidade para a Idade Moderna.  O franciscano que deu o coup de grâce no realismo foi Thomas of Ockham, que (polemicamente) se tornou chefe da Ordem Franciscana.  Ockham é famoso pela expressão entia non sunt multiplicando praeter necessitatem, que, traduzido lato sensu diz: “Os termos não se devem multiplicar desnecessariamente”, o que infelizmente significa pouco para a maior parte das pessoas.  Mas a ideia de Ockham pode se tornar real, para a pessoa comum, de dois modos: (1) Quando ela entende a regra de Ockham como prevenção contra o uso de um termo novo em lugar de um termo antigo; por exemplo, o termo novo e ambíguo de justiçaem lugar dos antigos termos específicos — não violência, adultério, roubo, fraude, inveja; (2) Quando ela entende a regra de Ockham como protesto contra o uso de um termo coletivo como os ricos em lugar de um rico específico chamado JohnJones.  O nominalista evita pensar em generalidades e usar termos gerais.

Nos termos de Ockham ocorreu uma ruptura na Epistemologia quando ele formulou explicitamente seu método e o aplicou. No tempo de Marx, quatro séculos depois, este adotou para sua Economia uma Epistemologia retrógrada: pensava e falava em termos de classes e generalidades; na Epistemologia da Economia ele tentou reverter a ideia básica de Ockham.  A Epistemologia de Marx era tragicamente retrógrada, como é o caso de toda a Epistemologia socialista-comunista.

Böhm-Bawerk comentou alhures (ao analisar o assunto Epistemologia) que o pensamento primitivo começou com o grande e o grandioso, com coisas óbvias como um “elefante”.  Mas acrescentou que o progresso por toda parte dependia de transferir o pensamento de grandes massas para os constituintes menores, de elefantes para átomos.  Desde os tempos de Böhm-Bawerk, a ciência fez progressos aproximando-se do que é cada vez menor em tamanho, mais específico até do que os átomos.

Quando o pensamento se transfere para classes, termos coletivos, médias, e “macroeconomia”, a Ciência Social entra num beco sem saída.  A essência da epistemologia da Economia Austríaca Neoclássica, escola de pensamento da qual Böhm-Bawerk foi um dos primeiros fundadores, é uma aplicação dos princípios do nominalismo no campo da Economia.  As descobertas da escola de Economia Austríaca Neoclássica foram aplicações brilhantes e específicas da famosa regra de Ockham.  Contrastando com isso, a Epistemologia de Marx foi o maior fator degenerativo intelectual de nossos tempos.

Muitos serão incapazes de raciocinar independentemente sobre o problema de o ganho imerecido ser ou não uma injustiça em si.  Pode-se, no entanto, começar essa análise com um preconceito pernicioso, relutando em defender a validade de qualquer coisa que seja imerecida: em outras palavras, a postura contra o ganho imerecido tem apenas uma plausibilidade fortuita.  A análise que Böhm-Bawerk faz da Teoria da Exploração socialista-comunista certamente deveria remover o complexo de inferioridade psicológico das mentes dos defensores do sistema capitalista, no que diz respeito aos ganhos “imerecidos”.  Em vez de ficarmos ofuscados com Rodbertus e Marx, deveríamos compreender que aqueles pensadores foram culpados de grande insensatez.  Deveríamos rejeitar inteiramente a conclusão dos líderes organizados do pensamento socialista-comunista, porque a teoria da exploração é, obviamente, uma formulação intelectual desprezível.

 

  1. N. 23 de junho de 1975.

NOTAS

 

[1] Menger, Untersuchungen über die Methode der Sozialwissenschaften, 1883.  (O texto alemão original foi republicado em Collected Works of Carl Menger, Vol. II, London School of Economics and Political Science, Univ. of London, 1933. Reimpressão nº 18).

Die Irrtümer des Historismus in der deutschen Nationalökonomie, 1884, (Republicado em “Kleinere Schriften zur Methode und Geschichte der Volkswirtschaftslehre”, Collected Works of Carl Menger, Vol. III, London School of Economics and Political Science, 1953, Reimpressão nº 19).

“Grundzüge einer Klassifikation der Wirtschafstwissenschaften”, in Jahrbuch für Nationalökonomie und Statistik, N. F., Vol. XIV, 1889 (Republicada em “Kleinere Schriften zur Methode und Geschichte der Volkswirtschaftslehre”, Collected Works of Carl Menger, Vol. III, London School of Economics and Political Science, 1935.  Reimpressão nº 19. Trad. inglesa por Louise Sommer, “Toward a systematic classification of the economic sciences”, Cap. I, in Essays in European Economic Thought, D. van Nostrand, Nova Jersey, 1960.)

Sax: Das Wesen und die Aufgabe der Nationalökonomie, 1884.

Philippovich: Über Aufgabe und Methode der politischen ökonomie, 1886.

Böhm-Bawerk: “Grundztige der Theorie des wirtschaftlichen Güterwerts”, in Jahrbuch de Conrad, Vol. XIII, 1886 (pp. 480 ss) (Republ. pela London School of Economics and Political Science, 1932. Reimpressão n° 1) Resenha da “Klassische Nationalökonomie” de Brentano, na GötingerGelehrten Anzeigen, 1 — 6, 1889.  Resenha da “Litteraturgeschichte”‘ de Schmoller, no Jahrbuch de Conrad, Vol. XX, 1890; trad. nos Annals da Academia Americana, Vol. I, nº 2, Outubro de 1890.

[2] Entwicklung der Gesetze des menschichen Verkehrs.

[3] Theory of Political Economy, 1871, 2º ed. 1879.  

[4] Grundsätze der Volkswirtschaftslehre, 1871. (Trad. ingl.: Principles of Economics, The Free Press, Glencoe, Illinois, 1950).

[5] Eléments d’économie politique pure, 1874.

[6] “Philosophy of Value”, in New Englander, julho de 1881.  O professor Clark me disse que naquele tempo não estava familiarizado com as obras de Jevons e Menger.

[7] Böhm-Bawerk, Grundzuge (pp. 38 e 49) (também, Positive Theory of Capital, pp. 151 ss.), Libertarian Press, South Holland.  Illinois, 1959); GO Wieser Der naturliche Wert, 1889 (pp. 46 ss.) (trad. ingl.: Natural Value, Kelley and Millman, Nova York, 1956).

[8] Como, por exemplo, na Alemanha, a mais alta autoridade em teoria do preço, Hermann; cf. Böhm-Bawerk, Grundzuge (pp. 516 e 527).

[9] Literatura austríaca sobre a questão do preço: Menger, Grundzüge der Volkswirtschafstlehre (pp. 142 ss.).  (Principles, 1950, pp. 164 ss.) Böhm-Bawerk, “Grandzüge der Theory des wirtschaflichen Güterwerts”, parte II, no Jahrbuch de Conrad, Vol. XII (pp. 477 ss.) e no ponto abordado no texto especialmente (p. 516); Wieser, Der naturliche Wert (pp. 37 ss.) (Natural Value, 1956); Sax, Grundlegung der theoretischen Staatswirtschaft, 1887 (pp. 276 ss.); Zucherhandl, Zur Theorie des Preises, 1889.  Não quero perder a oportunidade de me referir ao excelente relatório feito pelo Doutor James Bonar, há alguns anos, sobre os economistas austríacos e sua visão do valor, no Quarterly Journal of Economics,out. 1888.

[10] Der natürliche Wert (p. 170) Natural Value, 1956.

[11] Literatura austríaca sobre a relação custo e valor: Menger, Grundsätze (pp. 123 ss.), Principles, 1950 – pp. 149 ss.; Wieser, Uber den Ursprung und die Hauptgesetze des wirtschaftlichen Wertes, 1884 (pp. 139 ss.); Der natürliche Wert (pp. 164 ss.), Natural Value, 1956; Böhm-Bawerk, Grundzüge (pp. 61 ss. -pp. 534 ss.) Positive Theorie des Kapitals, 1889 (pp. 189 ss. – pp.  234 ss.).  Positive Theory, 1959 -pp. 121-256.

[12] Menger, Grundsätze (pp. 138 ss.), Principles, 1950 – p. 162 ss; Böhm-Bawerk, Grundzüge, Parte I (pp. 56 ss.); Positive Theorie (pp. 178 ss.); Positive Theory, 1959 — (pp. 161 -168); GO Wieser, Der natürliche Wert (pp. 67 ss.) (Natural Value, 1956).

[13] Böhm-Bawerk, Positive Theorie (p. 201) (Positive Theory, 1959 — pp. 121-256, especialmente pp.  151-156, 161-168, 177, 248-256).

[14] Böhm-Bawerk, Kapital und Kapitalzins: I. Geschichte und Kritik der Kapitalzinstheorien, 1884; II, Positive Theorie des Kapitals, 1889(Capital and interest; 1959, Libertarian Press, South Holland, Illinois: I. History and Critique of Interest Theories; II. Positive Theory of Capital;III, Further Essays on Capital and Interest); diferindo do antigo ensinamento dos Grundsätze de Menger (pp. 143 ss.) (Principles, 1950 — pp. 165 ss).

[15] Böhm-Bawerk, Positive Theorie (passim and pp. 450-452) (Positive Theorv, 1959 — pp. 308-312).

[16] Mataja, Der Unternehmergewinn, 1884; Gross, Die Lehre vom Unternehmergewinn, 1884.

[17] Menger, Grundsätze (pp. 133 ss.) (Principles, 1950 — pp. 157 ss.); Wieser, Der natürliche Wert (p. 112 ss.) (Natural Value; 1956); Böhm-Bawerk, Positive Theorie (pp. 380 ss.) (Positive Theory, pp. 334-337).

[18] Robert Meyer, Die Principien der gerechten Besteuerung.  1884; Sax, Grundlegung, 1887; Wieser, Der natürliche Wert (pp. 209 ss.) (Natural Value, 1956).

[19] Mataja, Das Recht des Schadenersatzes, 1888; Seidler, “Die Geldstrafe vom volkswirtschaftlichen un sozialpolitischen Gesichtspunkt” noJahrbuch de Conrad, Vol. XX, 1890.

[20] Menger, Grundsätze (pp. 8 ss.) (Principles, 1950- pp. 55ss.).

[21] Böhm-Bawerk, Rechte und Verhaltnisse vom Standspunkt der volkswirtschaftlichen Güterlehre, 1881 (pp. 57 ss.) (Trad. ingl.: Whether Legal Rights and Relationships are Economic Goods, p. 70); Positive Theorie (pp. 361 ss.) (Positive Theory, 1959, p. 325 ss.)

[22] Por Sax, por exemplo, Die Verkehrsmittel in Volks und Staatswirtschaft, 1878-79; Phillipovich, Die Bank von England, 1885; Der badische Staatshaushalt, 1889.

 

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Eugen von Böhm-Bawerk foi um economista austríaco da Universidade de Viena e ministro das finanças. Desvendou a moderna teoria intertemporal das taxas de juros em sua obra Capital and Interest. Em seu segundo livro, The Positive Theory of Capital, ele continuou seus estudos sobre a acumulação e a influência do capital, argumentando que há um período médio de produção em todos os processos produtivos. Sua ênfase na importância de se pensar claramente sobre taxas de juros e sua natureza intertemporal alterou para sempre a teoria econômica. Böhm-Bawerk tornou-se famoso por ser o primeiro economista a refutar de forma completa e sistemática a teoria da mais-valia e da exploração capitalista.