A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo

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APÊNDICE Eugen von Böhm-Bawerk e o Leitor Crítico por Ludwig von Mises.

(Comentário de Ludwig von Mises [1] sobre Capital e juro [2])

 

A publicação de uma nova tradução em língua inglesa da monumental obra de Böhm-Bawerk, Capital e juro, leva a uma questão importante.  Não há dúvida de que o livro de Böhm-Bawerk é a mais eminente contribuição para a moderna teoria econômica.  Todo economista precisa estuda-la com cuidado e examinar com muita atenção seu conteúdo.  Uma pessoa que não estiver bem familiarizada com todas as ideias apresentadas nesses três volumes não poderá ser considerada como economista.  Por outro lado, para o leitor comum — para o homem que não planeja especializar-se em economia porque seu exaustivo envolvimento com negócios e profissão não lhe deixa tempo de mergulhar em análises econômicas mais detalhadas — que poderá significar esse livro?

Para responder a essa pergunta temos de levar em conta o papel que os problemas econômicos desempenham em nossa política atual.  Todos os conflitos e antagonismos políticos em nossa era são, no fundo, assuntos econômicos.

Nem sempre foi assim.  Nos séculos XVI e XVII, as controvérsias que dividiam os povos de civilização ocidental em partidos que se hostilizavam entre si eram religiosas.  O protestantismo combatia o catolicismo, e mesmo dentro dos meios protestantes várias interpretações dos Evangelhos entravam em desacordo.  No século XVIII, e numa boa parte do século XIX, conflitos constitucionais prevaleciam na política.  Os princípios do absolutismo realista e o governo oligárquico sofriam resistência por parte do liberalismo (no sentido europeu clássico do termo), que defendia um governo representativo.  Naqueles dias, a pessoa que quisesse tomar parte ativa nos grandes problemas de seu tempo tinha de estudar seriamente o tema dessas controvérsias.  Os sermões e livros dos teólogos da época da Reforma não atingiram apenas os círculos esotéricos de especialistas: eram avidamente consumidos por todo o público.  Mais tarde, também os escritos dos maiores defensores da liberdade eram lidos por todos os que não estavam inteiramente envolvidos com esses temas em sua rotina cotidiana.  Só as pessoas ignorantes deixavam de se informar sobre os grandes problemas que agitavam as mentes de seus contemporâneos.

Em nossa era, o conflito entre a liberdade econômica — representada pela economia de mercado — e a onipotência do governo totalitarista do socialismo constitui-se no conflito fundamental.  Todas as controvérsias políticas se fundamentam nesses problemas econômicos.  Somente o estudo da Economia pode dizer a um homem o que significam todos esses conflitos.  Nada se pode conhecer sobre assuntos como inflação, crise econômica, desemprego, sindicalismo, protecionismo, taxação, controle econômico, sem que esse conhecimento envolva e pressuponha uma análise econômica. Todos os argumentos referentes à economia de mercado, bem como aqueles usados pelos que se opõem a esse tipo de economia — os intervencionistas ou os socialistas (comunistas) — são de caráter econômico.  Alguém que fale nesses problemas sem estar a par das ideias fundamentais da teoria econômica há de se assemelhar a uma criança, que repete feito papagaio o que eventualmente captou de seus companheiros, não mais bem informados do que ela própria.  Um cidadão que dá seu voto em uma eleição sem ter estudado, da melhor forma possível, tudo o que estiver a seu alcance sobre Economia, falhou em seu dever cívico.  Ele não está usando de maneira adequada o poder que sua cidadania lhe deu ao conferir-lhe o direito de votar.

Não há melhor método de apresentar a alguém os problemas econômicos do que dar-lhe livros dos grandes economistas, entre os quais, certamente, está Böhm-Bawerk.  Seu volumoso tratado é a verdadeira estrada para a compreensão dos assuntos políticos fundamentais de nossa era.

O leitor comum deveria começar pelo segundo volume, no qual Böhm analisa não a essência da poupança e da acumulação de capital, como também o papel que os bens de capital desempenham no processo de produção. Especialmente importante é o terceiro livro do segundo volume: lida com a determinação do valor e dos preços [3].  Somente depois da leitura desses dois volumes o leitor deveria voltar-se para o primeiro, que apresenta uma história crítica de todas as doutrinas elaboradas sobre a fonte do juro e do lucro, escritas por autores que o precederam.  Nessa revisão histórica, a parte mais importante é o capítulo que analisa as chamadas doutrinas da exploração, em primeiro lugar a de Karl Marx na obra “O capital” — o Alcorão de todos os marxistas.  A refutação da teoria marxista do valor do trabalho talvez seja o capítulo mais interessante da contribuição de Böhm.  É, sem dúvida, o mais atual do ponto de vista político.  

O terceiro volume consiste em quatorze brilhantes ensaios nos quais Böhm-Bawerk examina várias objeções levantadas contra a validade de sua teoria.

A nova tradução foi feita pelo Professor Hanz Sennholz, chefe do departamento de Economia em Grove City College, e por Mister George D. Huncke.  Mister Frederick Nymeyer tornou toda a obra de Böhm-Bawerk acessível ao público de língua inglesa.  A única tradução anterior a ela é obsoleta, por ter sido feita sobre uma primeira edição do tratado, que se compunha de apenas dois volumes.  A nova tradução nos dá o texto inteiro da terceira edição — revisada e consideravelmente aumentada — que Böhm-Bawerk completou poucas semanas antes de sua prematura morte em 1914.

Um livro das dimensões e profundidade de Capital e juro não é de fácil leitura.  Mas o esforço compensa.  O leitor se sentirá estimulado a encarar os problemas políticos não apenas do ponto de vista dos slogans superficiais das campanhas eleitorais, e sim com a plena consciência de seu significado e as consequências para a sobrevivência de nossa civilização.

A grande obra de Böhm-Bawerk, embora seja “mera teoria” — não abordando, por isso, qualquer aplicação prática -, é a mais poderosa arma intelectual que se tem para a grande batalha da vida ocidental contra o princípio destrutivo do barbarismo soviético.

LUDWIGVONMISES

(in The Freeman, Foundation for Economic Education. Inc.  Irvington-on-Hudson. Nova York.  agosto de 1959)

 

NOTAS

 

[1] A Escola Austríaca de Economia no final do século XIX mostrou que a teoria do custo ou teoria do valor do trabalho é insustentável, e expôs em seu lugar a teoria do mercado livre — ou teoria subjetiva ou teoria do uso marginal.  Consumidores determinam preços segundo a avaliação que fazem de um artigo comparando-o com outros bens, e a subsequente decisão de comprá-lo ou de usar um substituto.  Nisso consiste a liberdade individual em seu aspecto econômico, e ela é a pedra fundamental de uma sociedade livre.  Ludwig von Mises, professor visitante de Economia na Universidade de Nova York é, por consenso geral, o expoente máximo da Escola Austríaca — mestre em sua especialidade, destacado entre os maiores nomes da disciplina.  (Capital e juro foi publicado em 1959 quando o Doutor Mises escreveu a presente avaliação, que conserva, hoje, 1975, sua atualidade.  Doutor Mises nasceu em 29 de setembro de 1881 e morreu aos 92 anos, em 10 de outubro de 1973).

[2] Em três volumes: Vol. I “História e crítica das teorias do juro”, (512 pp.); GO Vol. II.  “Teoria positiva do capital”, (480 pp.); Vol. III, “Novos Ensaios sobre Capital e Juro”, (256 pp.).  Libertarian Press, South Holland, Illinois 60473.  U.S.A.

[3] Cf. extrato Valore preço, segunda edição revista e publicada em 1973 pela Libertarian Press, South Holland, Illinois 60473 (272 pp.).

 

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Eugen von Böhm-Bawerk foi um economista austríaco da Universidade de Viena e ministro das finanças. Desvendou a moderna teoria intertemporal das taxas de juros em sua obra Capital and Interest. Em seu segundo livro, The Positive Theory of Capital, ele continuou seus estudos sobre a acumulação e a influência do capital, argumentando que há um período médio de produção em todos os processos produtivos. Sua ênfase na importância de se pensar claramente sobre taxas de juros e sua natureza intertemporal alterou para sempre a teoria econômica. Böhm-Bawerk tornou-se famoso por ser o primeiro economista a refutar de forma completa e sistemática a teoria da mais-valia e da exploração capitalista.