A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo

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VI Conclusão

Dediquei um espaço excepcional a discussão da teoria da exploração, mas fiz isso deliberadamente.  Nenhuma outra doutrina influenciou tanto o pensamento e a emoção de gerações inteiras.  E foi exatamente a nossa geração que presenciou seu auge, que, penso, começa a declinar,* embora devamos esperar novas obstinadas defesas dela, ou tentativas de revivê-la, ainda que modificada.  Por isso, para servir à causa, penso não dever contentar-me com uma crítica puramente retrospectiva das fases já encerradas dessa doutrina: mas é preciso olhar para a frente e tentar criticar o cenário intelectual no qual, segundo indicações seguras [p. 320], seus seguidores pretendem acirrar mais uma vez a luta ideológica.

Em relação à velha teoria da exploração — que apresentei através de seus melhores defensores, Rodbertus e Marx — não posso minimizar o severo julgamento manifestado já na primeira edição desta obra.  O que esses autores nos apresentam não é apenas uma teoria incorreta: constitui-se mesmo numa das piores teorias sobre juros existentes, se formos considerá-la em seu valor teórico.  Os erros de raciocínio de defensores de outras teorias, por mais graves que sejam, dificilmente serão tão graves e numerosos quanto os dos defensores dessa teoria: presunção, leviandade, pressa, dialética falseada, contradição interna e cegueira diante dos fatos reais.  Os socialistas, que são críticos diligentes, apresentam-se como dogmáticos muito fracos.  Há muito o mundo estaria certo disso se, por acaso, se trocassem as posições, e um Marx ou Lassalle atacassem as teorias socialistas com a mesma brilhante retórica e cáustica ironia dirigidas contra os “economistas burgueses'”.

Na minha opinião, o fato de que, apesar de sua fragilidade interna, a teoria da exploração encontre tantos seguidores, deve-se à concorrência de dois fatores.  O primeiro deles reside no fato de a disputa se ter transplantado para um terreno onde fala não só a cabeça, mas também o coração.  Acreditamos com muita facilidade naquilo em que desejamos acreditar.  A situação das classes trabalhadoras é, em geral, de miséria: qualquer filantropo tem de desejar que ela melhore.  Muitos ganhos de capital brotam de fontes escusas: qualquer filantropo tem de desejar que sequem.  Uma teoria que pretende resultar em melhores condições de vida para os miseráveis, diminuindo os privilégios dos ricos, terá a defesa fervorosa das muitas pessoas com cujos ideais essa teoria coincide total ou parcialmente.  E tal defesa será feita sem a lucidez crítica habitual nestas mesmas pessoas quando elas analisam uma teoria em suas bases científicas.  É compreensível, pois, que tais doutrinas despertem a devoção das massas.  As massas não buscam a reflexão crítica: simplesmente, seguem suas próprias emoções.  Acreditam na teoria da exploração porque ela lhes agrada, não importando que seja falsa.  Acreditariam nela mesmo que sua fundamentação fosse ainda pior do que é.

Outra circunstância que favoreceu a teoria da exploração e sua difusão foi a precariedade dos pontos de vista de seus adversários.  Tal polêmica, conduzida a partir de um ponto de vista frágil, com argumentos vulneráveis como aqueles das teorias da produtividade, da abstinência e do trabalho, apresentados por um Bastiat ou McCulloch, Roscher ou Strasburger, tinha de acabar favorecendo os socialistas.  Os adversários dos socialistas, [p. 321] ao assumirem posições mal escolhidas, não lhes atingiam os pontos fracos.  Faziam ataques fáceis de revidar, abrindo flancos em seu próprio terreno.  E os socialistas sabiam valer-se disso com sorte e habilidade.  Assim, e praticamente só assim, o socialismo pôde sustentar sua teoria.  Se muitos escritores socialistas conseguiram uma posição duradoura na história da Economia, isso aconteceu exclusivamente graças à força e agilidade com que souberam destruir muitas antigas doutrinas errôneas, que estavam profundamente enraizadas.  O que os socialistas não conseguiram foi colocar a verdade em lugar do erro: quanto a isso, foram ainda mais desastrosos que seus adversários.  **

 

* Böhm-Bawerk foi excessivamente otimista ao escrevei isso (N. do E. americano)

** Os leitores devem estar informados sobre a ideia de que todas as teorias que explicam o juro, inclusive as teorias populares capitalistas, são igualmente desacreditadas em History and Critique of Interest Theories de Böhm-Bawerk, Volume I de seu Capital and interest.  Para se obter uma boa perspectiva das ideias, é necessário ler o Volume II, Positive Theory of Capital, e o Volume III, Further Essays on Capital and Interest (N. do E. americano).  

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Eugen von Böhm-Bawerk foi um economista austríaco da Universidade de Viena e ministro das finanças. Desvendou a moderna teoria intertemporal das taxas de juros em sua obra Capital and Interest. Em seu segundo livro, The Positive Theory of Capital, ele continuou seus estudos sobre a acumulação e a influência do capital, argumentando que há um período médio de produção em todos os processos produtivos. Sua ênfase na importância de se pensar claramente sobre taxas de juros e sua natureza intertemporal alterou para sempre a teoria econômica. Böhm-Bawerk tornou-se famoso por ser o primeiro economista a refutar de forma completa e sistemática a teoria da mais-valia e da exploração capitalista.