Ação Humana – Um Tratado de Economia

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Capitulo XXII. Os fatores de produção originais de natureza não humana

 

1 — Observações gerais relativas à teoria da renda

O conceito de renda formulado por Ricardo em sua teoria econômica já procurava resolver os problemas que a economia moderna aborda por meio da teoria da utilidade marginal.[1] A teoria de Ricardo, à luz de nossos conhecimentos atuais, resulta bastante insatisfatória; não há a menor dúvida de que a teoria do valor subjetivo é muito superior. Não obstante, o renome da teoria da renda é bem merecido; o cuidado com que foi formulada e aperfeiçoada produziu resultados notáveis. Não há razão para que a história do pensamento econômico sinta vergonha da teoria da renda.[2]

O fato de que terras de diferentes qualidade e fertilidade, isto é, terras que produzem rendas diferentes por unidade de aporte, tenham valores diferentes, não representa, para a teoria econômica moderna, um caso especial. A teoria de Ricardo, no que se refere à gradação da valoração e avaliação de terras, está integralmente compreendida na teoria moderna dos preços dos fatores de produção. Não é o conteúdo da teoria da renda que é objetável, e sim o fato de ela ter sido considerada como uma exceção no sistema econômico. Rendas diferenciais são um fenômeno geral e não se limitam apenas à formação do preço da terra. A falsa distinção entre “renda” e “quase renda” é insustentável. A terra e os serviços por ela prestados devem ser tratados da mesma maneira que qualquer outro fator de produção e seus respectivos serviços. O aumento de rendimento obtido com o uso de uma ferramenta melhor pode ser considerado como uma “renda” adicional em relação ao rendimento obtido com ferramentas menos adequadas que são usadas justamente por não se dispor de outras mais adequadas. Da mesma forma, o aumento de salário obtido por um trabalhador mais hábil e mais zeloso pode ser considerado como uma “renda” adicional em relação aos salários obtidos por outros trabalhadores menos talentosos e menos esforçados.

Os problemas que o conceito de renda pretendia resolver foram, na sua maior parte, provocados pelo emprego de uma terminologia inadequada. As noções gerais embutidas na linguagem comum e no pensamento não científico formaram-se sem que se levasse em consideração as exigências da investigação praxeológica e econômica. Os primeiros economistas cometeram o erro de adotá-las sem maior exame e sem hesitação. Quem se apegar ingenuamente a termos gerais como terra e trabalho pode sentir dificuldade em explicar por que uma determinada terra ou um determinado trabalho são mais valorados do que outros. Quem não se deixa iludir por simples palavras e avalia a relevância de um fator pela sua capacidade de atender a necessidades humanas considera evidente em si mesmo o fato de que serviços diferentes tenham valor e preço diferentes.

A teoria moderna do valor e dos preços não se baseia na classificação dos fatores de produção em terra, capital e trabalho. A distinção fundamental que faz é entre bens de uma ordem mais elevada e bens de uma ordem menos elevada, entre bens de produção e bens de consumo. Ao distinguir, entre os fatores de produção, os fatores originais (fornecidos pela natureza) dos fatores de produção produzidos (os produtos intermediários) e, por sua vez, entre os fatores originais, os fatores não humanos (externos) dos fatores humanos (trabalho), a ciência econômica moderna não fragmenta a uniformidade com que considera a determinação dos preços dos fatores de produção. A lei que rege a determinação dos preços dos fatores de produção é a mesma, qualquer que seja a sua classe ou tipo. O fato de que os diferentes serviços prestados por tais fatores sejam valorados, avaliados e tratados de maneira diferente só pode surpreender as pessoas que não chegam a perceber essas diferenças na sua capacidade de prestar serviços. Quem não é capaz de perceber o mérito de uma pintura pode achar estranho que um colecionador pague mais por um quadro de Velásquez do que por um quadro de um artista menos bem-dotado; para um conhecedor, isso é evidente em si mesmo. O agricultor não se surpreende com os maiores preços ou aluguéis que um comprador ou um arrendatário pagam por uma terra mais fértil. Os antigos economistas embaraçaram-se diante deste fato, única e exclusivamente porque raciocinavam com um termo geral, terra, negligenciando as diferenças de produtividade.

O maior mérito da teoria ricardiana da renda é o de ter constatado que a terra marginal não produz renda. A partir dessa constatação, bastaria mais um passo para descobrir o princípio da subjetividade do valor. Entretanto, iludidos pela noção de custo real, nem os economistas clássicos nem os seus epígonos lograram dar esse passo decisivo.

Enquanto o conceito de renda diferencial pode ser adotado, de um modo geral, pela teoria do valor subjetivo, o conceito de renda decorrente da teoria ricardiana, ou seja, o conceito de renda residual, deve ser rejeitado por inteiro. Tal conceito residual baseia-se na noção de custo real ou físico, que não faz nenhum sentido no contexto da explicação moderna dos preços dos fatores de produção. A razão pela qual o vinho da Borgonha custa mais caro do que o Chianti não está no maior preço dos vinhedos da Borgonha em comparação com os da Toscana. A causalidade é no sentido inverso. Por estarem as pessoas dispostas a pagar preços maiores pelo Borgonha do que pelo Chianti, os viticultores estão dispostos a pagar preços maiores pelos vinhedos da Borgonha do que pelos da Toscana.

Aos olhos do contador, os lucros parecem ser a parcela que restou depois de terem sido pagos todos os custos de produção. Numa economia uniformemente circular, não poderia surgir tal excedente do preço dos produtos em relação aos custos. Numa economia real as diferenças entre os preços dos produtos e a soma dos preços que o empresário pagou pelos fatores complementares de produção mais o juro sobre o capital investido podem ser positivas ou negativas, isto é, podem representar lucro ou prejuízo. Essas diferenças são causadas por mudanças ocorridas nos preços dos produtos no período de produção. Quem for mais bem-sucedido ao prever as mudanças a tempo, e agir consequentemente, recolhe lucros. Quem não consegue ajustar suas iniciativas empresariais à situação futura do mercado é penalizado com prejuízos.

A principal deficiência da teoria econômica ricardiana foi a de ter sido uma teoria da distribuição do produto global resultante do esforço conjunto de uma nação. Ricardo, assim como outros defensores da economia clássica, não conseguiu se libertar da concepção mercantilista de uma economia nacional (Volkswirtschaft). No seu entendimento, o problema da determinação dos preços estava subordinado ao da distribuição da riqueza. Caracterizar, como costuma ser feito, a filosofia econômica ricardiana como “típica da classe média inglesa do seu tempo”[3] é passar ao largo da realidade. Os empresários ingleses do início do século XIX não estavam interessados na produção global da indústria, nem em sua distribuição; estavam preocupados em realizar lucros e evitar prejuízos.

A economia clássica errou ao atribuir à terra uma posição especial no seu esquema teórico. A terra, do ponto de vista econômico, é um fator de produção, e as leis que determinam a formação dos preços da terra são as mesmas que determinam a formação dos preços dos demais fatores de produção. Todas as peculiaridades da teoria econômica em relação à terra referem-se, invariavelmente, a alguma peculiaridade dos dados correspondentes ao caso analisado.

2. O fator tempo na utilização da terra

A ciência econômica, ao analisar o conceito terra, começa por uma distinção entre duas classes de fatores originários de produção: os humanos e os não humanos. Como os fatores não humanos estão geralmente ligados à utilização de certa parte do solo terrestre, empregamos o termo terra para designá-los.[4]

Ao se lidar com os problemas econômicos relativos à terra, isto é, com os fatores originários de produção não humanos, é necessário separar cuidadosamente o ponto de vista praxeológico do ponto de vista cosmológico. É compreensível que a cosmologia, no seu estudo dos eventos cósmicos, proclame a invariabilidade e a conservação da massa e da energia. Se compararmos os efeitos que a ação humana pode provocar sobre as condições ambientais da vida humana com os efeitos das forças da natureza, é admissível que se considere a natureza como permanente e indestrutível, ou — mais exatamente — imune à capacidade destrutiva do homem. A erosão do solo (no sentido mais abrangente do termo) que pode ser efetuada pela interferência humana é insignificante quando considerada em relação aos grandes períodos de tempo a que se refere a cosmologia. Ninguém pode saber hoje se, daqui a milhões de anos, as forças cósmicas transformarão desertos e solos áridos em terras que sejam consideradas extremamente férteis; ou se transformarão luxuriantes florestas tropicais em terra estéril. Precisamente por não ser possível antecipar tais mudanças, nem influir sobre os eventos cósmicos, que possivelmente poderão provocá-las, é inútil especular sobre as mesmas ao se lidar com os problemas da ação humana.[5]

As ciências naturais podem asseverar que as características do solo que o tornam utilizável para florestamento, criação de gado, agricultura e utilização hídrica se regeneram periodicamente. Pode ser verdade que, se os homens tentassem deliberadamente devastar a capacidade produtiva da crosta terrestre, só o conseguiriam de forma imperfeita e em alguns locais. Mas não são esses fatos que realmente importam para a ação humana. A regeneração periódica da capacidade produtiva do solo não é um dado rígido que coloque o homem diante de uma situação imperativa e invariável. É possível usar o solo de tal maneira que sua regeneração seja retardada e adiada, ou que se esgote por certo período de tempo e só possa ser restabelecida por meio de um considerável aporte de capital e trabalho. Ao lidar com o solo, o homem tem de escolher entre métodos que diferem entre si quanto aos seus efeitos sobre a futura capacidade produtiva do solo. Tanto quanto em relação a qualquer outro setor de produção, o fator tempo também é levado em consideração na caça, na pesca, na pastagem, na criação de gado, no cultivo de vegetais, na exploração florestal e na utilização de recursos hídricos. Também nesse caso o homem tem de escolher entre satisfazer seus desejos mais cedo ou mais tarde; também nesse caso o fenômeno do juro originário, implícito em toda ação humana, exerce sua influência primordial.

Existem circunstâncias institucionais que fazem com que as pessoas prefiram a satisfação no futuro próximo e desprezem inteiramente, ou quase inteiramente, a satisfação no futuro mais distante. Se, por um lado, a terra não pertence a proprietários individuais e, por outro lado, todas as pessoas, ou apenas um grupo favorecido por privilégios especiais ou por uma situação de fato, podem usá-la temporariamente em seu próprio benefício, a futura capacidade produtiva da terra não é motivo de preocupação. O mesmo caso ocorre quando o proprietário acredita que será expropriado num futuro não muito distante. Em ambos os casos os atores estão preocupados, exclusivamente, em extrair o máximo possível do solo, no período que lhes resta. Não estão preocupados com as consequências mais remotas, decorrentes do método de exploração que adotaram. O amanhã, para eles, não importa. A história registra inúmeros casos de destruição de florestas, de pesqueiros, de reservas de caça; muitos outros exemplos também podem ser apontados em outros tipos de utilização do solo.

Do ponto de vista das ciências naturais, a manutenção dos bens de capital e a preservação da capacidade produtiva do solo pertencem a duas categorias completamente diferentes. Os fatores de produção fabricados se desgastam, mais cedo ou mais tarde, no curso do processo de produção, e são pouco a pouco transformados em bens de consumo que, finalmente, são consumidos. Se não desejarmos que desapareçam os benefícios decorrentes da poupança e do capital anteriormente acumulados, além de produzirmos bens de consumo teremos também de produzir os bens de capital necessários à reposição dos que se desgastaram pelo uso. Se negligenciarmos esse fato, acabaremos, por assim dizer, consumindo os bens de capital. Estaríamos sacrificando o futuro ao presente; viveríamos na opulência hoje e passaríamos necessidade amanhã.

Mas costuma-se dizer que com a terra as coisas são diferentes; a terra não pode ser consumida. No entanto, tal afirmativa só tem sentido do ponto de vista da geologia. Mas, do ponto de vista geológico, também se poderia, ou se deveria, negar que uma fábrica ou uma estrada de ferro possam ser “comidas”. O lastro de pedra de uma linha férrea, assim como o aço dos trilhos, das pontes, dos carros, dos motores, não desaparecem fisicamente. Somente do ponto de vista praxeológico se pode dizer que uma ferramenta, um trilho ou um forno metalúrgico foi consumido; que o capital foi “comido”. É nesse mesmo sentido econômico que nos referimos ao consumo da capacidade produtiva do solo. Na exploração florestal, na agricultura e na utilização dos recursos hídricos, essa capacidade produtiva é considerada da mesma maneira que qualquer outro fator de produção; os atores escolhem entre processos que permitem uma produção imediata mais elevada, às custas de uma menor produtividade posterior, e processos de menor produção imediata que não prejudicam a produtividade física futura. É possível forçar a produção atual a tal ponto, que no futuro o retorno (por unidade de capital e trabalho investido) se torne muito pequeno ou praticamente nulo.

Sem dúvida, a capacidade devastadora do homem tem limites (esses limites são atingidos mais rapidamente no caso de exploração florestal, caça e pesca do que na exploração agrícola). Isto representa apenas uma diferença quantitativa e não qualitativa entre consumo de capital e erosão do solo.

Ricardo atribui ao solo poderes “originais e indestrutíveis”[6]. Todavia, a economia moderna não pode deixar de enfatizar que o homem, ao atribuir um valor e um preço, não distingue entre fator de produção originário ou produzido; e que a indestrutibilidade cosmológica da massa e da energia — qualquer que seja o significado disso — não confere à utilização do solo um caráter essencialmente diferente dos demais fatores de produção.

3. A terra submarginal

Os serviços que determinado pedaço de terra pode render durante determinado período de tempo são limitados. Se fossem ilimitados, os homens não considerariam a terra como um fator de produção e um bem econômico. Entretanto, a quantidade de solo disponível é tão vasta, a natureza é tão pródiga, que a terra ainda é abundante. Por isso, só as terras mais produtivas são utilizadas. Existem terras que as pessoas consideram — seja por sua produtividade, seja por sua localização — como demasiado pobres para serem cultivadas.

Consequentemente, a terra marginal, isto é, o mais pobre dos solos cultivados, não produz renda no sentido ricardiano.[7] A terra submarginal seria considerada inteiramente sem valor, não fosse a possibilidade de vir a ter um aproveitamento no futuro.[8] O fato de que a economia de mercado não tenha à sua disposição uma quantidade maior de produtos agrícolas se deve à escassez de capital e trabalho, e não à escassez de terra cultivável. Um aumento da superfície cultivável disponível — inalteradas as demais circunstâncias — só aumentaria a produção agropecuária se a fertilidade da terra adicional fosse maior do que a da terra marginal já cultivada. Por outro lado, se houvesse um aumento na quantidade de trabalho e capital disponíveis, a produção de produtos agrícolas aumentaria, desde que os consumidores não considerassem que outro emprego dessas quantidades adicionais de capital e trabalho pudessem atender melhor às suas necessidades mais urgentes.[9]

As substâncias minerais úteis contidas no solo são limitadas em quantidade. Embora algumas delas sejam o resultado de processos naturais, ainda em curso, que continuam aumentando os depósitos existentes, dadas a lentidão e a duração desses processos, esses aumentos são insignificantes para a ação humana. O homem tem de levar em conta que os depósitos minerais disponíveis são limitados. Cada mina e cada poço de petróleo é esgotável; muitos deles já se esgotaram. Podemos imaginar que novas jazidas serão descobertas e que novas técnicas serão inventadas, de modo a tornarem possível a exploração de depósitos que hoje não podem ser explorados ou só o podem a custos proibitivos. Podemos também presumir que o avanço tecnológico capacitará as gerações futuras a usarem substâncias que hoje não têm aproveitamento. Mas nada disso importa para as atuais atividades mineradoras e de prospecção de petróleo. Os depósitos de substâncias minerais e sua exploração não têm uma característica especial que faça com que o homem lhes dê um tratamento diferente. Para a cataláxia, a distinção entre solo usado para agricultura e para extração mineral é meramente uma diferença nos dados correspondentes a cada caso.

Embora as quantidades disponíveis dessas substâncias minerais sejam limitadas, e embora possamos inquietar-nos, de um ponto de vista acadêmico, com a possibilidade de que um dia estejam completamente esgotadas, os agentes homens não levam essa possibilidade em consideração. Sabem, e isso sim levam em consideração, que existem minas e poços que se esgotarão, mas não prestam a menor atenção ao fato de que em dia futuro todas as jazidas de um determinado mineral poderão estar esgotadas. Isso porque as disponibilidades dessas substâncias parecem ser tão abundantes que o homem não chega a explorá-las com a intensidade que lhe permitiria o conhecimento tecnológico atual. As minas são exploradas tão somente na medida em que não haja outro emprego mais urgente para as correspondentes quantidades de capital e trabalho. Existem, portanto, jazidas submarginais que não são exploradas. A produção nas minas que são exploradas é condicionada pela relação entre o preço dos minerais obtidos e o dos correspondentes fatores de produção necessários à sua obtenção.

4. A terra como local para se estar

O emprego do solo com a construção de residências, locais de trabalho e vias de transporte impede que esses locais tenham outras utilizações.

Não nos ocuparemos por ora da condição peculiar que teorias mais antigas atribuíam à renda de terrenos urbanos. Não há nada de especialmente notável no fato de as pessoas pagarem preços maiores por locais onde querem morar do que por outros locais que lhes agradam menos. É uma questão de fato a de que, para instalar uma indústria, um armazém ou um pátio ferroviário, as pessoas preferem locais que reduzam os custos de transporte, e estão dispostas a pagar preços maiores por esses locais, em função das economias que esperam obter.

O solo também é usado como local de recreação, para jardins e parques, e para o prazer de desfrutar a majestade e o esplendor da natureza. Com a difusão desse amor à natureza, que é um traço característico da mentalidade “burguesa”, a demanda por tais prazeres aumentou enormemente. O solo das altas cadeias de montanhas, que era considerado mera extensão árida e estéril de rochas e geleiras, passou a ser altamente apreciado como fonte dos mais sublimes prazeres.

Desde tempos imemoriais o livre acesso a esses espaços tem sido permitido; mesmo quando são propriedade privada, seus proprietários, geralmente, não têm o direito de impedir a passagem de turistas e alpinistas, ou de cobrar entrada. Todo aquele que tiver a oportunidade de visitar essas áreas tem direito a usufruir de sua grandeza e considerá-la como se fosse sua. Embora o proprietário nominal não usufrua nenhuma vantagem com a satisfação que a sua propriedade proporciona aos que a visitam, o simples fato de ela servir ao bem-estar humano faz com que lhe seja atribuído um valor. Mas como existe uma servidão de passagem permitindo o livre trânsito pela área, e como não há outra utilização possível para a mesma, essa servidão de passagem exaure completamente as vantagens que o dono poderia extrair de sua propriedade. Levando-se em conta que os serviços que essas rochas e geleiras podem prestar são praticamente inesgotáveis, e que elas não sofrem desgaste nem precisam de aporte de capital e trabalho para sua conservação, essa situação não produz as mesmas consequências que ocorreram, em situações análogas, nos locais de exploração florestal, de caça e de pesca.

Se na vizinhança dessas montanhas o espaço disponível para construção de abrigos, hotéis e meios de transporte (estradas de ferro de cremalheira) é limitado, os proprietários desses locais podem vendê-los ou alugá-los em condições mais propícias e, assim, obter para si uma parte das vantagens que os turistas têm pelo livre acesso a esses pontos culminantes da natureza. Quando não é esse o caso, os turistas usufruem todas essas vantagens gratuitamente.

5. O preço da terra

Na construção imaginária da economia uniformemente circular, comprar e vender os serviços de um determinado pedaço de terra não difere em nada de comprar e vender qualquer outro fator de produção. Todos esses fatores são avaliados em função dos serviços que poderão prestar nos vários momentos do futuro, levando na devida conta a preferência temporal. Pela terra marginal (como também pela submarginal) não se paga preço algum. Pela terra que produz renda (ou seja, a terra que produz mais, por unidade de aporte de capital e trabalho, do que a terra submarginal) paga-se um preço tanto maior quanto maior for essa superioridade de produção. Esse preço é a soma de todas as suas rendas futuras, descontadas à taxa de juro originário.[10]

Na economia real, as pessoas, ao comprarem e venderem terras, levam na devida conta as mudanças previsíveis que possam vir a ocorrer nos preços de mercado dos serviços a serem prestados pela terra. Evidentemente, o fato de que se possam equivocar nessas previsões é uma outra questão. Compradores e vendedores fazem tudo o que está ao seu alcance na tentativa de antecipar os futuros eventos que possivelmente alterarão os dados de mercado, e agem em função dessas opiniões. Se esperam que a renda líquida anual de um pedaço de terra irá aumentar, o preço será maior do que seria se não houvesse essa expectativa. É isso que ocorre, por exemplo, no caso de terrenos suburbanos na vizinhança de cidades cuja população está se expandindo ou no caso de florestas e de terras aráveis em países nos quais os grupos de pressão provavelmente conseguirão aumentar o preço da madeira e dos cereais por meio de tarifas aduaneiras. Por outro lado, o medo de um confisco total ou parcial da renda líquida da terra tende a diminuir os preços da terra. Na linguagem comercial corrente, as pessoas falam da “capitalização” da renda e constatam que a taxa de capitalização é diferente para os diversos tipos de terra e que, para o mesmo tipo, varia de um trecho para outro. Essa terminologia é imprópria, uma vez que deturpa a natureza do processo.

Os compradores e vendedores de terra reagem diante da carga fiscal, da mesma maneira com que reagem diante de qualquer evento futuro que possa reduzir a renda líquida da terra. Os impostos territoriais reduzem o preço de mercado da terra na proporção do valor presente da futura carga fiscal. Todo novo gravame fiscal desse tipo, cuja revogação não seja esperada, resulta numa diminuição imediata do preço de mercado dos terrenos objetos dessa nova taxação. A teoria fiscal denomina esse fenômeno de amortização de impostos.

Em muitos países os proprietários de terra ou de certas áreas rurais gozam de privilégios legais ou de um grande prestígio social. Tais circunstâncias também podem influir na determinação do preço da terra.

O mito da terra

As pessoas românticas condenam as teorias econômicas relativas à terra, por considerá-las fruto de uma mentalidade estreita e utilitarista. Os economistas, dizem essas pessoas, consideram a terra do ponto de vista do especulador insensível que degrada todos os valores eternos ao reduzi-los a questões de dinheiro e de lucro. Entretanto, continuam elas, uma gleba de terra é muito mais do que um mero fator de produção; é a fonte inesgotável da energia e da vida humanas. Para essas pessoas, a agricultura não é apenas um setor da produção; é a única atividade natural e respeitável, a única condição digna de uma existência realmente humana. Considerá-la meramente em função do retorno líquido a ser extraído da terra é uma iniquidade. A terra não produz apenas os frutos que alimentam o nosso corpo; produz, antes de mais nada, as forças morais e espirituais da civilização. As cidades, as indústrias e o comércio são fenômenos de depravação e decadência; sua existência é parasítica, destrói o que o homem do campo tem de incansavelmente recriar.

As primitivas tribos de caçadores e pescadores que há milhares de anos atrás começaram a cultivar o solo desconheciam esses devaneios românticos. Se as pessoas românticas tivessem vivido naquele tempo, louvariam os sublimes valores morais da caça e estigmatizariam o cultivo do solo como um sinal de depravação. Acusariam o homem do campo de profanar o solo que lhe havia sido dado pelos deuses para servir como terreno de caça; acusariam-no de degradá-lo, transformando-o num instrumento de produção. Nos tempos pré-românticos, o solo era considerado como uma fonte de bem-estar, um meio para a satisfação das necessidades humanas. Os ritos mágicos e as cerimônias religiosas relativas à terra visavam exclusivamente à melhoria da fertilidade do solo e ao aumento das colheitas. As pessoas não estavam preocupadas em alcançar uma união mística com traços e poderes misteriosos, escondidos no solo; desejavam apenas safras melhores e maiores. Recorriam a ritos mágicos e a cânticos porque acreditavam ser essa a melhor maneira de atingir os seus objetivos. Seus sofisticados descendentes se equivocaram inteiramente ao interpretar essas cerimônias como de cunho “idealista”. Um verdadeiro camponês não se compraz com sussurros extasiados sobre os misteriosos poderes do solo.

Para ele a terra é um fator de produção e não um objeto de emoções sentimentais. Se ambiciona mais terra é porque deseja aumentar sua renda e melhorar o seu padrão de vida. Os agricultores são pessoas que compram e vendem terras, e, quando necessário, hipotecam-na; vendem o que o solo produz e ficam muito indignados se os preços não são tão altos quanto gostariam que fossem.

A população rural nunca se preocupou com o amor à natureza ou com a beleza da paisagem. Foram os habitantes das cidades que levaram essas emoções para o campo. Foram os moradores das cidades que passaram a encarar a terra como natureza, enquanto que para os homens do campo a terra só tinha valor em função de sua produtividade para exploração florestal, caça, colheitas e criação de gado. Desde tempos imemoriais, as rochas e geleiras dos Alpes eram, para os montanheses, apenas uma terra inútil. Só mudaram de opinião quando os citadinos se aventuraram a escalar os picos e a trazer dinheiro para os vales. Os pioneiros do alpinismo e do esqui eram ridicularizados pela população alpina até o momento em que perceberam que poderiam obter um ganho com essa excentricidade.

Os autores de poesia bucólica foram aristocratas e burgueses requintados e não pastores. Dafnis e Cloé resultam da preferência estética de gente que não tem nada a ver com a terra. O mito político que a terra hoje representa não brotou do limo das florestas e nem do barro dos campos, mas das ruas pavimentadas e dos salões atapetados. Os agricultores se servem desse mito por encontrarem nele uma maneira prática de obter privilégios políticos e aumentar o preço de seus produtos e de suas fazendas.[1] Foi, segundo Fetter, Encyclopaedia of the Social Sciences, vol.13, p. 291, “uma teoria da marginalidade mal formulada”.

[2] Ver Amonn, Ricardo als Begründer der theoretischen Nationalökonomie, Viena, 1924, p. 54 e segs.

[3] Ver por exemplo, Haney, History of Economic Thought, ed. rev., Nova Iorque, 1927, p.275.

[4] A cataláxia não tem interesse em estudar as disposições legais que separam os direitos de caça, pesca e exploração de jazidas minerais dos demais direitos do proprietário de um pedaço de terra. O termo terra, tal como empregado pela cataláxia, compreende também as extensões aquáticas.

[5] Portanto, o problema da entropia também fica fora do âmbito da meditação praxeológica.

[6] Ricardo, Principles of Political Economy and Taxation, p. 34.

[7] Existem áreas nas quais praticamente todos os cantos são cultivados ou utilizados de alguma maneira. Mas isso é consequência de circunstâncias institucionais que impedem os habitantes dessas regiões de terem acesso a solos mais férteis ainda inexplorados.

[8] A avaliação de um pedaço de terra não deve ser confundida com a avaliação de suas melhorias, isto é, os investimentos de capital e trabalho, irremovíveis e inconversíveis, que facilitam sua utilização e aumentam a produção futura por unidade de aporte futuro.

[9] Essas observações, evidentemente, referem-se apenas às situações em que não haja barreiras institucionais à mobilidade de capital e trabalho.

[10] Não é necessário reiterar que a construção imaginária da economia uniformemente circular não pode ser levada às suas últimas consequências, de maneira lógica e consistente (vide acima p. ……). Em relação aos problemas da terra, convém ressaltar dois aspectos: primeiro, que no contexto dessa construção imaginária, caracterizada pela ausência de mudanças na atividade econômica, não há lugar para compra e venda de terras. Segundo, que para integrar nessa construção imaginária as atividades mineradoras e de prospecção de petróleo é necessário atribuir às minas e poços um caráter permanente e supor que eles são inesgotáveis, que não variam na quantidade produzida e nem nos aportes correspondentes, necessários à produção.

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.