Antonio Gramsci: O maior estrategista político da história

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 [Esta palestra foi apresentada dia 18 de julho na 2020 Mises University.]

O ano de 2020 não está passando calmamente. Nós estamos testemunhando eventos que eram impensáveis até alguns meses atrás: mantenha a sua distância anti-social, use uma máscara quando entrar em um banco, siga as setas no chão do supermercado, todos os eventos esportivos cancelados, homeschooling – até para estudantes universitários – é aceito por todos os cantos do governo e da sociedade. Ainda mais relevante para essa discussão: lojas de maconha, lojas de bebida e clínicas de aborto são essenciais, igrejas durante a Semana Santa não são.

Adicione a isso os protestos – mais especificamente os motins. A polícia recebeu ordens do governo para não fazer nada. Aqueles que tem a intenção de proteger suas vidas e propriedades são os julgados – pela mídia e potencialmente por procuradores do governo e tribunais. Ah sim: protestar e participar de motins afastam vírus – máscaras não são necessárias.

O que, de tudo isso, é relevante para vocês? Por que eu achei que era apropriado mudar o assunto dessa palestra nos últimos dias? Nós estamos passando por mudanças culturais massivas. Embora a cultura sempre evolua, nas últimas décadas as mudanças têm sido revolucionárias – e eu uso esse termo intencionalmente. Essas mudanças são destinadas a vocês e àqueles que estiveram sentados nos lugares que vocês estão hoje nas últimas décadas. O propósito é criar soldados para a revolução.

O que eu escuto das universidades, e também é verdadeiro dentro dos negócios e no governo, são histórias de várias doutrinações culturais – cada vez mais intensas, dado o pretexto para esses motins recentes. O discurso politicamente correto, incluindo falas obrigatórias, a cultura do cancelamento, auto flagelação, uma luta pela medalha de ouro nas olimpíadas da opressão. Se você discorda de qualquer dessas coisas, você é um fascista. Para consolidar ainda mais essa doutrinação, uma exigência de fazer matérias que destroem a Civilização Ocidental – até mesmo dizer essas duas palavras em um tom que não seja de desprezo pode ser prejudicial.

Há um propósito por trás disso, uma estratégia. Eventos pelos quais estamos passando recentemente não são espontâneos ou aleatórios. Isso não é acidental. Esses eventos são o resultado de uma estratégia política desenhada para nos tirar a nossa liberdade. É uma estratégia traiçoeira. É também uma estratégia muito efetiva.

Sabendo disso ou não, aqueles que estão levando essa estratégia a frente estão seguindo a cartilha do pensador marxista de maior sucesso na história. Dado o dano que essa estratégia tem causado às liberdades do Ocidente, eu considero que ele seja o maior estrategista político da história.

E é isso que eu gostaria de examinar. Antes de começar, eu devo lhes ser sincero sobre dois pontos: Primeiro, grande parte dessa cartilha marxista soa bastante como os desejos de libertários simplistas – libertarianismo para crianças, como um bom amigo meu rotulou. Eu voltarei a esse ponto mais de uma vez.

Segundo, vai haver bastante discussão sobre a tradição e a cultura ocidental nessa palestra. Inerentemente isso vai incluir o Cristianismo. Mas se você quer entender a cartilha do inimigo, então isso não pode ser evitado.

Agora, eu sei que muitos libertários batem forte nesse tópico: Cristianismo é desnecessário para a liberdade, na verdade ele é um inimigo da liberdade. Eu apenas pedirei para que vocês mantenham em mente: o mais bem sucedido pensador marxista da história acreditava que o Cristianismo é inimigo do comunismo; é o que impediu o avanço do comunismo no Ocidente. Por agora, eu peço que vocês se mantenham abertos à possibilidade de que ele estava certo – porque, quando eu olho a minha volta hoje em dia, ele com certeza parece estar certo.

Com essa trabalhosa introdução fora do caminho, vamos começar. O estrategista político de quem eu estou falando é Antonio Gramsci. Malachi Martin resume a importância de Gramsci, em seu livro “The Keys of this Blood” [As Chaves deste Sangue] :

[…] a fórmula política que Gramsci desenvolveu tem feito muito mais que o Leninismo Clássico – e certamente mais do que o Stalinismo – para espalhar o Marxismo pelo Ocidente capitalista.

Qual é essa fórmula? Gary North explica: Notando que a sociedade ocidental era profundamente religiosa, Gramsci acreditava que…

[…] a única maneira de alcançar uma revolução proletária seria acabando com a fé das massas de eleitores ocidentais no Cristianismo e com o sistema moral derivado do Cristianismo.

Religião e cultura estavam na base da pirâmide, eram os fundamentos. Era a cultura, e não a condição econômica da classe trabalhadora, que era a chave para trazer o comunismo para o Ocidente. Para ser honesto com Gramsci, ele não fez a bola começar a rolar; o Ocidente estava fazendo um bom trabalho deteriorando sua tradição cultural.

Alguém pode apontar para elementos do Catolicismo medieval, para a Reforma [Protestante] e a Renascença, para o Iluminismo (como eu já discuti previamente) e para o protestantismo pietista pós-milenista (como Murray Rothbard demonstrou de maneira bem clara), como sendo contribuintes para essa destruição bem antes de Gramsci entrar em cena. Mas sem essas rachaduras na armadura, Gramsci nunca teria tido sucesso.

Qual é a nossa condição atual relativa aos objetivos de Gramsci? Eu poderia falar da destruição da família, da perda de todas as significativas e intermediárias instituições de governança, da absurdidade de uma boa parcela do que se passa por estudos universitários hoje em dia, especialmente nas artes liberais e nas humanidades – todas as quais são sintomas do desmonoramento do alvo final no qual Gramsci mirava. Neste ano, foi nos dado evidências indisputáveis do sucesso de sua estratégia política, na resposta por parte de líderes Cristãos ao coronavírus. Apenas como um exemplo, de Kentucky:

Quando eu perguntei [ao Bispo John Stowe da Diocese Católica de Lexington] o que ele diria para um pastor planejando celebrar a Páscoa, ele foi franco: “Eu diria que isso é irresponsável,” ele disse. “Isso é colocar as vidas das pessoas em risco.”

Eu sei que vivemos em um mundo sem fatos, mas em algum momento foi sensato pensar que estávamos passando pela Peste Negra? Em epidemias pré-modernas, os líderes Cristãos agiram dessa maneira? A resposta simples para as duas perguntas é não, entretanto nós temos igrejas fechadas durante a Semana Santa. Eu não consigo pensar em uma representação mais simbólica da destruição do Cristianismo no Ocidente. Esse é o sucesso de Antonio Gramsci.

Quem é Antonio Gramsci? Ele era um marxista italiano (mais especificamente, um comunista italiano) que escrevia sobre teoria política, sociologia e linguística. Seu trabalho focava no papel que a cultura e a tradição desempenham na prevenção da disseminação do comunismo pelo Ocidente.

Gramsci nasceu em 1891 e morreu em 1937, o do meio de sete filhos. Corcunda, devido a uma malformação na coluna desde o nascimento ou a um acidente na infância, não se tem certeza. Um dos relatos contém ele caindo dos braços de um empregado por um lance íngreme de escadas. Apesar de sua família ter lhe dado como morto, sua tia ungiu seus pés com óleo de uma lamparina dedicada a Madonna (Virgem Maria). Irônico.

Continuamente adoentado, até seus 14 anos de idade foi lhe deixado um caixão pronto em seu quarto. Seu pai foi mandado para a prisão por causas políticas e sua mãe, de alguma maneira, manteve a família viva.

Antes de partir da Sardenha para Turim e para a universidade, ele era um nacionalista – Sardenha para os Sardos. Quando chegou em Turim, ele deu de cara com as fábricas de automóveis da Fiat. Foi aí que ele encontrou a luta de classes: patrões e empregados.

A Primeira Guerra Mundial deixou isso claro: meio milhão de italianos morreram, enquanto os lucros dos industriais aumentaram. Ele saiu da universidade e começou a escrever. Ele fundou um jornal: L’Ordine Nuovo, A Nova Ordem, com sua primeira edição sendo lançada no Dia Internacional dos Trabalhadores de 1919. Ele foi um fundador e líder do Partido Comunista da Itália e um membro do parlamento.

Com a imunidade parlamentar suspensa por Mussolini, ele foi mandado para a prisão. Muitos anos depois, uma troca de prisioneiros foi proposta pelo Vaticano: mande  Gramsci para Moscou em troca de um grupo de padres presos na União Soviética. Mussolini deu um fim a essas negociações no início de 1933.

Foi durante seu tempo na prisão que ele escreveu seu famoso “Cadernos do Cárcere”, descrevendo o conteúdo como “Tudo o que diz respeito ao povo”. O livro consistia de mais de 2.800 páginas escritas a mão. Vinte e um dos cadernos carregam o carimbo das autoridades da prisão. Dado o risco de censura, ele usou termos mais suaves no lugar da terminologia marxista tradicional.

Embora terminados por volta de 1935, esses só foram publicados entre 1948 e 1951 e não foram publicados em inglês até os anos 70. Até 1957, quase 400.000 cópias haviam sido vendidas.

Sofrendo de várias doenças cardíacas, respiratórias e digestivas, ele eventualmente foi transferido para uma unidade hospitalar da prisão. Em 25 de abril de 1937 – o mesmo dia em que ele recebeu a notícia de que seria solto – ele sofreu uma hemorragia cerebral e morreu dois dias depois.

Com seus Cadernos, ele introduziu diversas ideias na Teoria Marxista, na Teoria Crítica e na Teoria Educacional. Mais importante, foi a ideia de “hegemonia cultural”, que foi a ideia unificadora do trabalho de Gramsci desde 1917 até quando ele morreu.

Hegemonia Cultural: Por que a Revolução Marxista não havia varrido o Ocidente por volta do início do século XX? Gramsci sugeriu que os capitalistas não mantinham o controle simplesmente de maneira coerciva – como Marx descrevia – mas também de maneira ideológica. Os valores da burguesia eram os valores comuns a todos. Esses valores ajudavam a manter o status quo e limitavam qualquer possibilidade de revolução.

Enquanto Lenin achava que a cultura era coadjuvante para assuntos políticos (assim como muitos libertários), Gramsci via a cultura como a chave. A classe trabalhadora precisaria desenvolver uma cultura própria, separada e distinta dos valores comuns ao resto da sociedade. Controle as crenças das pessoas e você as controlará. Isso só seria possível se a hegemonia da classe dominante estivesse em crise.

John Cammet se aprofunda nesse ponto. A hegemonia é descrita como uma ordem difundida pela sociedade em todas as manifestações institucionais e privadas. Todos os gostos, a moralidade, os costumes, incluindo princípios políticos e religiosos, são impregnados com esse espírito. Esse espírito é ditado do topo – uma classe ou grupo por cima das outras classes. De Cammet:

A suposição fundamental por trás da visão de Gramsci da hegemonia é que a classe trabalhadora, antes de se apossar do poder do Estado, deve estabelecer a sua pretensão de ser uma classe dominante nos campos político, cultural e “ético”.

Existem três fases da revolução considerando essa visão: primeiro, reivindique ser a classe dominante na cultura; segundo tome o poder do Estado; terceiro, transforme completamente a estrutura econômica. Vocês podem decidir o quão longe estamos nesse caminho.

Uma segunda ideia importante era o foco de Gramsci nos Intelectuais. Gramsci acreditava que a classe trabalhadora teria que desenvolver seus próprios intelectuais, com valores que eram críticos ao status quo. Isso requereria a tomada do establishment educacional e das instituições. Esses intelectuais, através do establishment educacional e do estado, tinham quase que um reinado livre para avançar a ideia revolucionária.

A ideia de Gramsci dos intelectuais é muito mais ampla do que acadêmicos e similares. Do livro Gramsci’s Politics [A Política de Gramsci], por Anne Sassoon, Gramsci identifica dois grupos desses intelectuais: intelectuais orgânicos, vindos da classe trabalhadora, e intelectuais tradicionais – o clero, filósofos, acadêmicos. O último grupo aparenta um falso ar de continuidade de seus predecessores. Hoje eu incluiria líderes de pensamento do entretenimento, dos esportes, dos negócios e da política em um ou outro desses dois grupos.

Gramsci é, possivelmente, o teórico fundamental do que agora chamamos de Marxismo Cultural. Quando se trata da importância da cultura e do valor da mídia de massa para influenciar o sistema político e econômico de um país e de uma economia, o trabalho de Gramsci estimulou o crescimento de um movimento completo no campo dos estudos culturais.

Gary North descreve Gramsci como “o mais importante teórico anti-marxista que já se originou do movimento marxista.” Ele era anti-marxista porque, diferente de Marx, ele não colocava o modo de produção no centro do desenvolvimento social. Paul Piconne avança esse ponto: A visão de Gramsci contradizia a ideologia Marxista-Leninista oficial, provendo uma dimensão ética e subjetiva superior ao materialismo da mesma.

De acordo com Angelo Codevilla, Gramsci inclusive tinha desprezo pelo foco marxista em fatores econômicos: “coisas como essas são para pessoas comuns.” Era uma pequena fórmula para intelectuais “meia boca”. Relações econômicas eram apenas uma parte da realidade social; as partes principais eram intelectuais e morais.

Muitos libertários, assim como Marx, estão igualmente focados no modo de produção como a chave para a liberdade, mas do outro lado da moeda. Eles estão focados na liberdade econômica como o meio para trazer liberdade para todos e, como Marx, eles virtualmente ignoram ou inclusive desprezam quaisquer aspectos culturais. Gramsci sabia mais e – como deve estar óbvio pela comparação que eu estou fazendo – ele oferece uma lição aos libertários que acreditam que questões mais amplas além do princípio da não-agressão são irrelevantes para a liberdade.

Continuando com North:

Gramsci argumentou, e a Escola de Frankfurt o seguiu, que o caminho para os marxistas transformarem o Ocidente era através da revolução cultural: a ideia de relativismo cultural. O argumento estava correto, mas o argumento não era marxista. O argumento era hegeliano.

Mais a frente, a Escola de Frankfurt desenvolveu o conceito da Teoria Crítica. A Teoria Crítica ensina cada um a ser crítico de qualquer norma, atitude e atributo cultural vigente na sociedade; o propósito é desafiar as estruturas de poder e as hierarquias. Falando exatamente o mesmo discurso de tolerância com que nos deparamos hoje em dia, Herbert Marcuse da Escola de Frankfurt escreveria:

[…] a realização do objetivo da tolerância necessitaria da intolerância com relação às políticas, atitudes e opiniões vigentes, e a extensão da tolerância com relação às políticas, atitudes e opiniões que são proibidas ou suprimidas.

Uma revolução violenta não era a resposta. De Malachi Martin:

Embora firmemente comprometido com o comunismo global, [Gramsci] sabia que a violência falharia para ganhar o Ocidente. Os trabalhadores americanos nunca declarariam guerra aos seus vizinhos de classe média enquanto compartilhassem valores Cristãos em comum.

Martin continua:

As principais armas seriam a mentira, a manipulação e a infiltração. Escondendo sua ideologia marxista, os novos guerreiros comunistas almejariam posições de influência em seminários, no governo, nas comunidades e na mídia.

Gramsci concordava com Lenin que havia uma força inerente ao homem, dirigindo-o ao “Paraíso dos Trabalhadores”, mas ele achava que as suposições por trás dessa visão marxiana eram muito básicas e injustificáveis. Sim, a grande massa da população mundial era formada por trabalhadores, mas isso era insuficiente, como Martin notaria:

O que ficou claro para [Gramsci], entretanto, era que em lugar nenhum – e especialmente na Europa Cristã – os trabalhadores do mundo se viam como separados das classes dominantes por um abismo intelectual.

Esses trabalhadores não se levantariam contra seus correligionários, aqueles com quem eles compartilhavam uma cultura, costumes e tradições. Eles certamente não fariam uma tomada violenta enquanto essas tradições fossem tidas em comum. Novamente, citando Martin:

Porque não importa quão oprimidos eles possam estar, a “estrutura” da classe trabalhadora era definida não pela sua miséria ou pela sua opressão, mas pela sua fé Cristã e sua cultura Cristã.

Gramsci achou a lógica de Marx, que encontrava seu lar em Lenin, fútil e contraditória. Era de se surpreender que o único estado em que o marxismo foi colocado em prática o manteve pela força e pelo terror? Sem mudar essa fórmula, o marxismo não teria futuro.

Uma cultura em comum, enraizada no Cristianismo, sempre estaria no meio do caminho, requerendo cada vez mais terror… ou requerendo um caminho diferente. O caminho de Gramsci. Murray Rothbard notou a “longa marcha gramsciana pelas nossas instituições” em 1992, escrevendo cheio de energia: “Sim, sim, seus progressistas podres e hipócritas, é uma guerra cultural!”

Angelo Codevilla escreve que não haveria necessidade de força bruta – pelo menos não na linha de frente; novamente, contrário à visão geral marxista. Transforme o inimigo no soldado que você precisa; ele então fará o resto. O método de Gramsci seria mais maquiavélico do que marxista; no lugar do Príncipe, estaria o partido.

Esse método eliminaria a própria possibilidade de uma resistência cultural ao progressismo comunista. Não haveria nenhuma força cultural no seu caminho. Como Gramsci acreditava que a natureza humana não é fixa e imutável, o papel do príncipe maquiavélico moderno seria mudar a natureza humana.

Destrua as leis antigas, os modos usuais de se viver; inculque novos jeitos de se pensar e falar – em essência, introduza uma linguagem completamente nova. A linguagem é a chave para o domínio da consciência. A linguagem pode alcançar o que a força nunca conseguiu. Reforme a moral; reforme o intelecto. Dessa maneira, pessoas que de outra forma nunca gastariam sequer um minuto nessas coisas se tornariam os soldados mais raivosos.

Um martelo de força bruta não funcionaria. Discursar sobre uma revolução ou uma ditadura do proletariado só faria inimigos da classe trabalhadora. O sistema educacional era a chave. A trajetória de Gramsci para a revolução demoraria muito mais do que a proposta por Marx ou Lenin, mas ela seria muito mais completa e bem sucedida.

Nesse meio tempo, use as regras deles contra eles: o processo democrático, o lobismo e o voto, participação parlamentar completa. Aja exatamente como os democratas ocidentais – aceite todos os partidos políticos, faça alianças onde seja conveniente. Diferente da maioria dos marxistas, Gramsci cooperaria com todos os esquerdistas – comunistas e não comunistas igualmente; todo grupo que tinha algum problema com a tradição e cultura Cristãs era um aliado. Consciente ou inconscientemente, eles apoiariam a causa comunista. Martin escreve:

Os Marxistas devem se unir às mulheres, aos pobres, àqueles que acham certas leis opressivas. Eles devem adotar táticas diferentes para diferentes culturas e subculturas. Eles nunca devem mostrar uma face inapropriada. E, dessa maneira, eles devem entrar em toda atividade civil, cultural e política em todas as nações, pacientemente as fermentando assim como as leveduras fermentam o pão.

Sobre essas alianças, Fr. James Thornton adiciona:

No tempo de Gramsci essas incluíam, entre outras, organizações “antifascistas”, sindicatos e grupos políticos socialistas. Nos nossos tempos, alianças com a esquerda incluiriam as feministas radicais, ambientalistas extremistas, movimentos de “direitos civis”, associações anti-polícia, internacionalistas, grupos ultra-liberais da igreja, e assim por diante. Essas organizações, em conjunto com comunistas assumidos, juntos criam uma frente unida trabalhando pela transformação da antiga cultura Cristã.

O método seria descrito como sedução, em oposição ao estupro sugerido por Marx e cometido por Lenin e Stalin. Isso subverteria a cultura Ocidental; ela se redefiniria sem a necessidade de arranjar brigas com a mesma.

Gramsci estava escrevendo durante o período entreguerras. O Cristianismo já era um adversário enfraquecido: O Iluminismo divorciou Deus tanto do indivíduo quanto da razão. Nietzsche anunciou a morte de Deus na última parte do século XIX. A Primeira Guerra Mundial foi o golpe esmagador, deixando a Europa Cristã cambaleando. Gramsci encontrou um inimigo ferido e ele sabia que é aí que o golpe fatal contra o Ocidente deve ser dado.

Seja o que for que havia restado da mentalidade Cristã deveria ser mudado. Todo indivíduo, todo grupo e toda classe, deve pensar sobre os problemas da vida sem referência a Deus e às leis de Deus. Nenhuma transcendência Cristã; no mínimo, antipatia e até oposição ativa a qualquer introdução aos ideais Cristãos. Esses não poderiam ser permitidos na conversa acerca do tratamento e da solução para os problemas da vida moderna.

Eu poderia dizer as mesmas coisas sobre muitos libertários. Entretanto, quem você acredita que tenha um melhor entendimento da natureza humana, da direção que tal caminho leva: Antonio Gramsci ou qualquer libertário que vê a cultura em geral como secundária ou mesmo irrelevante para a liberdade? A cultura Cristã está sendo destruída; disso nós sabemos. Quem foi mais bem sucedido dado esse caminho de remoção da Cristandade? É a liberdade – definida como direitos a vida e a propriedade – que está florescendo nos destroços de seu rastro ou é a outra coisa? Fazer essa pergunta é respondê-la. Martin continua:

Todo o significado da vida humana e a resposta para toda esperança humana estavam contidos nas fronteiras do mundo material, tangível e visível do aqui e agora.

Com essa visão material oferecendo os limites de nosso sentido, é mera coincidência de que o Ocidente ao mesmo tempo está passando por uma crise de sentido? Nós não temos ideia de quem somos, de onde viemos ou aonde estamos indo. Dado que é nos dito para acreditar que não somos nada além de um resultado de átomos aleatórios colidindo entre si aleatoriamente, por que deveríamos?

Outra utopia, requerendo novamente outro novo homem. A perfectibilidade do homem agora era responsabilidade do homem, não de Deus. Nós temos uma guerra ao câncer, uma guerra às drogas, uma guerra à pobreza, uma guerra ao terrorismo, uma guerra a um vírus. Nós devemos eliminar a intolerância, o racismo e o preconceito. Nós devemos abraçar a diversidade: nós somos todos diferentes. Ao mesmo tempo nós devemos abraçar a igualdade: nós somos todos iguais.

As instituições acadêmicas já estavam avançadas em seu caminho. Orgulhosas de suas posições de vanguardistas com visão de futuro, essas novas interpretações marxistas da história, do direito e da religião eram como carne vermelha para um leão faminto. Adicione empréstimos estudantis fáceis de se pegar, estenda a experiência universitária para todos e adicione alguns milhões de novos cruzados doutrinados todo ano para a causa.

A secularização nas Igrejas Católica e Protestante ajudaria e aceleraria essa reforma. Tudo é material, nada é transcendental. Caso isso não estivesse óbvio para nós anteriormente, o que poderia ser mais óbvio do que igrejas Cristãs fechando durante a Semana Santa – a semana que dá sentido à totalidade do Cristianismo. Quão patéticos devemos parecer para Cristãos de séculos atrás, que davam conforto aos doentes durante verdadeiras pandemias.

Fale da dignidade humana e dos direitos do homem. Fale dessas coisas sem referências à transcendência Cristã que os sustenta; na verdade, fale da transcendência Cristã como sendo um obstáculo a essas coisas.

Tim Cook, da Apple, deu uma palestra que foi precisamente nessas linhas: a dignidade e os direitos do homem. Embora tenha encontrado uma maneira de mencionar Mmuçulmanos e judeus, ele não fez nenhuma menção ao Cristianismo. Como Jonathan Pageau nos aponta, o que Cook está descrevendo é um sistema totalizante, um sistema que inclui tudo – exceto o Cristianismo.

A partir da palestra de Cook, há apenas dois valores que importam: inclusão total e não oposição ao sistema. Inclusão total significa zero fronteiras: nem físicas – sejam estatais ou de propriedade privada –, nem mentais, nem emocionais. Nem mesmo o seu corpo. Se você não abraçar a inclusão total, por definição você está se opondo ao sistema, portanto você deve ser excluído. Essa era a mensagem de Gramsci – e é a de Cook.

Considere todos os sistemas de crença e pensamento que veem uma causa comum na grande estratégia de Gramsci: o humanismo secular, o materialismo, o progressismo, os neo-ateus, as várias religiões modernas, a Teoria Crítica, o pós-modernismo, e até aquelas vertentes libertárias que enxergam o Cristianismo e as normas tradicionais como inimigos.

Jeff Deist descreve esses libertários, os quais acreditam que…

[…] a liberdade vai funcionar quando os humanos finalmente abandonarem suas velhas ideias teimosas sobre família e tribo, se tornarem pensadores livres puramente racionais, rejeitarem a mitologia da religião e da fé e abrirem mão das suas alianças étnicas, nacionalistas ou culturais em troca do novo credo hiper individualista. Nós precisamos que as pessoas deixem de lado seus hábitos sexuais fora de moda e seus valores burgueses, exceto o materialismo.

Eu vou pedir a vocês que leiam essa citação novamente, mas apenas substituam a primeira palavra, “a liberdade”, com a palavra “o comunismo”. A sentença funciona perfeitamente para Gramsci. O “hiper individualista” que muitos libertários tem em mente era exatamente o tipo de indivíduo que Gramsci desejava para seu projeto. De Piccone:

[…] Gramsci considerava a constituição da individualidade resultante do processo revolucionário como um desenvolvimento irreversível, impedindo qualquer desintegração subsequente. Para Gramsci, o ego completamente individualizado não é o ponto de início da revolução sociopolítica, mas seu resultado.

Hans Hoppe também nos mostra que o libertarianismo é logicamente consistente com quase todas as atitudes tratando-se de cultura e religião. Ele escreve:

[…] logicamente alguém pode ser – e definitivamente a maioria dos libertários de fato são: hedonistas, libertinos, imoralistas, inimigos militantes da religião em geral e do Cristianismo em particular – e ainda ser um adepto consistente da filosofia política libertária.

Hoppe diz que libertários podem ser assim em teoria, mas que a liberdade não será o resultado:

Você não pode ser um “left-libertarian” consistente, porque a doutrina “left-libertarian”, mesmo que de maneira não intencional, promove fins estatistas, i.e, fins  não libertários.

Gramsci entendia exatamente isso que Deist e Hoppe descrevem. Gramsci acredita que a destruição desses valores tradicionais levaria ao comunismo; muitos libertários acreditam que a destruição desses mesmos valores levará a liberdade. Quem vocês acham que sabe mais?

Murray Rothbard adicionaria:

Libertários contemporâneos muitas vezes assumem, erroneamente, que os indivíduos estão ligados uns aos outros apenas pelo nexo da troca mercadológica. Eles esquecem que todas as pessoas necessariamente nascem em uma família, em uma linguagem e em uma cultura. […] muitas vezes incluindo um grupo étnico, com valores, culturas, crenças religiosas e tradições específicas.

Rothbard mostra que o hiper indivíduo de Gramsci não é um ser-humano; ainda assim, o hiper individualismo é a visão de muitos “libertários contemporâneos”. Hoppe resume, tratando-se do que é conhecido como posições “left-libertarian”, do seu livro Democracia: O deus que falhou:

As visões compartilhadas pelos “left-libertarians” sobre esses assuntos não são totalmente uniformes, mas elas tipicamente diferem pouco daquelas promovidas pelos Marxistas Culturais.

Em outras palavras, as visões culturais desses libertários não conseguem ser diferenciadas das de Gramsci. Isso não é dizer que esses libertários tem o comunismo em seus objetivos. Porém, olhe a nossa volta hoje em dia: a liberdade está avançando ou recuando? Nós estamos em um momento no qual as evidências não poderiam estar mais claras.

Nós vivemos em uma narrativa. O Ocidente possuía uma narrativa. Sempre vai haver uma narrativa. Destruir a narrativa tradicional não vai deixar um vazio; uma nova narrativa vai tomar seu lugar. Nós vemos isso nas ruas: ajoelhar-se, lavar os pés, sentar-se com os braços em direção ao céu, a santificação de um mártir de Minneapolis.

Uma vez que perdemos nossa história, nossa narrativa, nossa tradição, nós estamos perdidos. Somos facilmente manipulados, não possuindo qualquer princípio de sentido, de significado. Sem nenhum fundamento, nós sopramos livremente na direção da nova narrativa que fale mais alto.

As narrativas são sempre excludentes – e se você não abraçar a inclusão total dessa nova narrativa, você será excluído. O Cristianismo nos ensina uma maneira de lidar com aqueles que são excluídos – aqueles nas margens: amor. Essa nova narrativa ensina uma outra, e ela não é um bom sinal para a liberdade… ou para a vida. Voltando a Gramsci, de Martin:

O materialismo total foi adotado agradável, pacífica e livremente em todos os lugares em nome da dignidade humana e dos direitos humanos […] autonomia e libertação das restrições externas. Acima de tudo, como Gramsci havia planejado, isso foi feito em nome da libertação das leis e restrições do Cristianismo.

Crie o indivíduo autônomo, completamente soberano, liberto de todas as autoridades e liberto de todas as responsabilidades. Martin continua:

Foi através desse processo, de autoria de Antonio Gramsci… que a cultura Ocidental privou-se do que lhe dava vida.

Há apenas uma maneira de lutar essa batalha – uma defesa de valores objetivos no campo da Ética. Murray Rothbard sabia disso. Ele escreveu:

O que eu venho tentando dizer é que a abordagem utilitária e relativista de Mises no campo da Ética não é nem de perto suficiente para estabelecer uma defesa completa da liberdade. Ela deve ser suplementada por uma ética absolutista – uma ética da liberdade, assim como outros valores necessários para a saúde e o desenvolvimento do indivíduo – baseada na lei natural, i.e., a descoberta das leis da natureza humana.

Lei Natural. A Ética além do princípio da não agressão. Eu acho que eu me lembro de ter ouvido alguma coisa sobre isso previamente nessa semana. Uma ideia vinda de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, C. S. Lewis e Murray Rothbard – entre muitos outros. Disponível para todos a descobrirem – Cristãos e não-Cristãos igualmente – pela razão ordenada.

Me parece que a verdadeira divisão política na sociedade atual não é baseada nos estereótipos esquerda e direita, ou nos rótulos liberal/progressista e conservador, ou inclusive em libertários e estatistas, mas baseada na posição em que alguém se encontra quando se trata de Lei Natural e uma Ética objetiva.

Rothbard trata essa ideia de Lei Natural e da Ética objetiva de maneira bem séria:

[…] eu nunca acreditei que uma análise neutra, livre de juízos de valor, a economia ou o utilitarismo (a filosofia social padrão para economistas) fossem capazes de estabelecer uma defesa da liberdade.

Rothbard faz uma colocação mais contundente em seu livro Por uma Nova Liberdade: O Manifesto Libertário:

[…] a Lei Natural oferece a única base certa para uma crítica contínua das leis e decretos governamentais.

Conclusão

Friedrich Nietzsche escreveu, em Crepúsculo dos Ídolos: “Quando se abandona a fé cristã, subtrai-se de si mesmo também o direito à moral cristã.”

O que é a moralidade Cristã, senão, no mínimo, o princípio da não-agressão? Antonio Gramsci entendeu isso há mais de 80 anos atrás. É a sua estratégia política que está na raiz do que vemos acontecendo atualmente nas universidades, no governo e na sociedade de maneira geral.

Eu espero que isso seja útil para vocês entenderem esse contexto e também, possivelmente, para ganharem insights sobre o por quê libertários como Hoppe e Rothbard se preocupam com aspectos da cultura, da tradição e de valores objetivos quando se trata de Lei e Liberdade.

De qualquer maneira, seria útil se mais libertários levassem Gramsci a sério. Os inimigos da liberdade certamente estão, e ao o levar a sério, estão avançando. E é isso que faz Antonio Gramsci o maior estrategista político da história.

 

 

Tradução de Leonardo Otoni Conrado

 

8 COMENTÁRIOS

  1. Alguém poderia me dizer se a posição majoritária dos randianos ateus, se enquadra mais no que se propõe Gramsci como condição para implantar o comunismo ou é uma posição legítima? porque eu vejo muito liberal randiano propondo o aborto na base do free choice e fico horrorizado. O mais próximo do esquerdismo que eu já fui na vida era quando eu me declara liberal pró-mercado.

  2. Qual o título das obras dos escritores citados? Encontrei Malachi Martin (Os Jesuítas e a Traição à Igreja Católica) mas não sei se as citações aqui feitas são do meso livro que encontrei. Ajudem-me a encontrar as obras dos outros autores.

  3. Logos, do grego, significa verbo ou lógica, razão, sentido. Troque a palavra “verbo” pela palavra “razão” no trecho abaixo, retirado da Bíblia (João 1) e conheça Deus:

    “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

    2 Ele estava no princípio com Deus.

    3 Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

    4 Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

    5 E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”

    Deus é a razão, a lógica, o sentido das coisas. Jesus era o VERBO encarnado, a RAZÃO encarnada. Por isso ele sempre fez SENTIDO e é atual hoje e sempre. Porque todo ensinamento de Jesus está coberto por lógica e razão. Está coberto por Deus.