Como a estadolatria avilta o homem

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Desde que a crise política começou em nosso país com a derrocada do PT e de seu sórdido projeto de poder, testemunhamos, por consequência, uma politização sintomática da sociedade brasileira, que foi ficando cada vez maior com o passar dos anos. Vários grupos, com várias demandas, passaram a exigir um estado de acordo com a sua ideologia. A partir de então, teve ascensão na sociedade brasileira um fenômeno interessante — não era novo, mas ficou cada vez mais palpável e pungente com o passar do tempo —, porém permanece sendo curiosamente pouco estudado e comentado: a estadolatria.

O conceito de estadolatria — por mais profundamente arraigado e difundido que esteja na sociedade brasileira — não é abordado e discutido com a frequência que deveria. Está na hora de colocarmos esse assunto na roda de discussão.

Mas o que vem a ser a estadolatria, e por que é tão importante falarmos dela?

Como a própria palavra diz, estadolatria é a veneração e a adoração pelo estado. E ainda que estatistas — sejam eles de direita ou de esquerda — não adorem o estado literalmente, com rituais, cânticos e oferendas (embora cerimônias similares ocorram em agremiações estudantis e conferências partidárias) suas ações, crenças e convicções mostram que o estado é para essas pessoas como se fosse um deus. O estado é, efetivamente , o centro da vida de todas as pessoas que fazem da política a sua principal atividade ou ocupação, ou uma de suas principais atividades e ocupações. Se o indivíduo deposita algum tipo de esperança, convicção ou expectativa no estado, ele é, sim, um adepto da estadolatria, não importa o quanto tente negar isso. Apenas antiestatistas genuínos (libertários e anarquistas) não podem ser acusados de estadolatria.

Antiestatistas ocupam uma posição diametralmente oposta nessa equação. Eles não possuem grande interesse pela política — ao menos não diretamente —, justamente por compreenderem que a política é uma enfermidade de natureza psicossocial totalmente imoral, antiética e contraproducente, que não atende e não está interessada em atender as reais demandas da sociedade e dos indivíduos.

Os antiestatistas interessam-se principalmente por empreendedorismo, mercado, produtividade, economia, ação humana e livre iniciativa. Por compreenderem perfeitamente que o estado atrapalha o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade como um todo, esse grupo busca formas e maneiras de retirar poder do estado para devolvê-lo ao seu proprietário original, o indivíduo.

Esse artigo pretende mostrar que não apenas os antiestatistas são os indivíduos que estão corretos, como explicará também como a estadolatria degrada o homem, e o deixa — seja através da tirania, do ativismo político, da doutrinação sistemática ou da lavagem cerebral — em uma condição análoga à escravidão, em todos os sentidos: espiritual, corporal, mental e intelectual.

O estatismo é a verdadeira utopia

Ainda que os anarcocapitalistas sejam frequentemente acusados de utópicos, os estatistas são as criaturas mais utópicas que existem, especialmente os de esquerda. Essas pessoas realmente acreditam que um grupo de burocratas — que no pensamento delas são criaturas puras, generosas, graciosas, sacrossantas, competentes e preparadas — podem organizar toda a sociedade de uma forma dinâmica, harmoniosa e impecável, muito próxima da perfeição. E o que é pior, eles realmente acreditam que a sociedade humana vai obedecer a esses burocratas com toda a complacência e cumplicidade, e não irão fazer absolutamente nada do que os burocratas proibirem.

Tomemos como exemplo a década de 1920 — período que ficou conhecido como proibicionismo —, nos Estados Unidos. O governo federal americano proibiu o consumo, a fabricação e a comercialização de bebidas alcoólicas. O que aconteceu? As pessoas pararam de beber? Elas pararam de comprar e vender bebidas alcoólicas? Alcoólatras foram subitamente curados e pararam com o seu vício? De maneira nenhuma. O que aconteceu foi exatamente o contrário. Destilarias e bares clandestinos proliferaram pelos quatro cantos do país. As pessoas continuaram fabricando, consumindo e comercializando bebidas alcoólicas, como se nada tivesse acontecido. Elas continuaram normalmente com as suas vidas. Apenas tornaram-se mais discretas quando o assunto era fabricar, comercializar ou consumir bebidas alcoólicas.

Aqui no Brasil, não faltam exemplos dessa natureza. Em 2017, alguns deputados — como Marcelo Aguiar, na época filiado ao DEM — elaboraram um projeto de lei cujo objetivo era bloquear conteúdo pornográfico na internet, indiscriminadamente. Ainda que eu seja ostensivamente contra a pornografia, algo tão arbitrário mostra uma total ignorância da classe política sobre a natureza humana. As pessoas que querem consumir esse tipo de conteúdo darão um jeito de fazê-lo. A sociedade sempre encontrará formas e maneiras de contornar as barreiras e os obstáculos estabelecidos por burocratas, porque elas irão saciar as suas necessidades com ou sem a conivência do estado. É a natureza humana. É literalmente impossível tentar regulá-la de acordo com os fetiches positivistas.

Estatistas, infelizmente, são completamente incapazes de compreender a natureza humana e a imprevisibilidade da ação humana. Não temos como prever, controlar ou antecipar de que maneira as pessoas irão reagir. É, portanto, de caráter ostensivamente utópico acreditar que seres humanos irão voluntariamente se submeter ao estado ou se transformar em robozinhos pré-programados, condicionados por decretos governamentais, e por livre e espontânea vontade, tentarão suprimir suas inclinações e sua natureza porque um burocrata decidiu impor uma lei arbitrária à pessoas sobre as quais ele jamais terá qualquer controle real.

Sob pressão, as pessoas podem até concordar com tais medidas, mas no seu íntimo, as crenças e as convicções delas não mudam jamais. Em Cuba, oficialmente todo mundo acha Fidel Castro (falecido em 2016) maravilhoso. Mas o que não faltam são cubanos que desprezam e odeiam o ditador. Quando estão em lugares livres para se expressar, cubanos geralmente não hesitam em dizer o quanto odeiam Fidel Castro e também o socialismo. Muitos falam isso com entusiasmo, alegria e uma real sensação de alívio.

Devemos atentar para um fato muito importante, para o qual estatistas normalmente são obtusos — assim como é impossível controlar a natureza humana, aqueles que tentam ativamente fazê-lo são necessariamente tiranos e ditadores. Não existem outras palavras para descrever o ato arbitrário de exercer ou tentar exercer controle sobre as vidas e os hábitos alheios. Todo estatista, portanto, em algum grau, é um ditador, um protótipo de tirano determinado a controlar e comandar a vida alheia.

Estatistas, no entanto, frequentemente percebem que suas políticas falharam. O proibicionismo sempre fracassa, porque as pessoas sempre irão buscar saciar as suas necessidades, independente de quais sejam as regulações do estado. Infelizmente — ao invés de tentar entender a natureza humana e perceber como ela é incompatível com o estado —, os estatistas assumem erroneamente que o problema foi o estado não ter feito um “bom trabalho”. Na concepção deles, o estado deveria ter controlado mais, taxado mais, fiscalizado mais, apreendido mais. Ou seja, para todos os efeitos, a reclamação dos estatistas vem do fato do estado não ter sido opressivo o suficiente.

Quanto a nós, celebramos essa situação, é claro. Ainda bem que — na grande maioria dos casos — o estado é brutalmente incompetente. Da incompetência do estado dependem a prosperidade e a liberdade dos cidadãos. O dia que o estado tiver competência máxima, iremos todos passar fome, pagar multas pesadíssimas ou parar atrás das grades pelos motivos mais estúpidos possíveis, como andar na praia durante um dia nublado, usar bermuda laranja no supermercado, fazer flexões no gramado do quintal de nossa residência ou dar pão para um cachorro na rua.

Não acredite que essas coisas não possam acontecer. Burocratas, além de naturalmente obtusos para todas as inclinações da natureza humana, sejam elas boas ou ruins, são especialistas em expandir a metástase do positivismo; se por alguma razão eles querem proibir alguma coisa porque isso ofende a sensibilidade ou a ideologia deles, eles o farão sem problema nenhum. Se você não gostar, o problema é todo seu.

Apenas para citar um exemplo hilário (ou trágico, dependendo do ponto de vista) nessa questão, Francisco Macías Nguema — que foi ditador da Guiné Equatorial de 1968 a 1979 —, proibiu terminantemente as pessoas de usarem óculos. Chegou até mesmo a ordenar que qualquer pessoa que fosse vista usando óculos fosse executada. É claro que esse exemplo é bem extremo, mas retrata a veracidade da natureza do estatismo. Submeter toda a população de uma determinada localidade aos caprichos dos tiranos do estado.

Portanto — mesmo quando conseguem constatar que o estado não funciona — estatistas parecem incapazes de raciocinar com clareza e lucidez. Não percebem que o problema é o estado. Por causa da dissonância cognitiva, o que eles fazem atenta contra toda a lógica e racionalidade, pois ao invés de exigirem a supressão imediata do estado, os estatistas exigem mais estado. Como explicado acima, para eles o problema é sempre atribuído ao fato do estado não ter controlado, fiscalizado e regulado o suficiente.

Para piorar a situação e deixá-la ainda mais crítica, o estatismo está inexoravelmente ligado a determinadas ideologias — que são totalmente estatistas em sua essência —, como o progressismo. Progressistas são indivíduos altamente politizados e não raro acreditam que todas as soluções para os problemas da sociedade exigem, necessariamente, a intervenção e a ação direta do estado. Não raro alguns são aguerridos opositores do voluntarismo, da ética, da autonomia e da liberdade. Alguns gostariam de determinar até mesmo que precisássemos solicitar a autorização do estado para atravessarmos a rua. O fato de termos liberdade para isso vai contra as sensibilidades autoritárias e despóticas de muitos adeptos dessa ideologia.

Ideologias nefastas como o progressismo foram diretamente responsáveis por agravar o estatismo e a estadolatria no século 21. Slogans como “não há solução fora da política” são comuns entre as Manuela d’Ávilas da vida, de todo o seu curral de sicofantas militantes e de todas as pessoas que, no geral, acreditam nas asneiras progressistas. Essas criaturas realmente acreditam que apenas o estado pode resolver problemas.

Ironicamente, toda essa fé inabalável no estado existe apesar do estado estar falhando continuamente, vez após vez, em uma arrebatadora sucessão de fracassos contundentes, como não incorreu nenhuma outra instituição no decorrer da história humana.

A estadolatria é justamente isso, essa confiança cega de que o estado pode resolver problemas, não importa quantas vezes o estado demonstre suas falhas, ingerências, incompetência e ineficiência infinitas, sempre em graus múltiplos e estarrecedores. Apesar de todos esses fracassos contundentes, o militante político está sempre lá, exigindo mais estado, fazendo campanha para os demagogos oportunistas que ele acredita serem capazes de implantar a sua utopia de estimação, e lendo Marx, Lênin, Žižek e todo o tipo de literatura mundana que ele acredita serem capazes de deixá-lo mais politizado.

O efeito mais dramático da estadolatria, no entanto, foi o de ter transformando homens em militantes irracionais, infantilizados, lobotomizados e totalmente submissos a projetos de poder. São pessoas que não se importam com fatos, lógica, eventos históricos ou racionalidade. Eles são capazes apenas de berrar automaticamente frases prontas, as mesmas que são frequentemente esbravejadas pelos seus políticos de estimação, assim como chamam todas as pessoas que expressam pontos de vista divergentes de fascistas. O estatista realmente acredita que — apesar de ser a instituição mais violenta, corrupta, ineficiente e parasitária do mundo, com um contundente histórico de fracassos sem paralelo na história da humanidade — o estado pode produzir o paraíso, ou algo muito próximo disso.

O estatista é um indivíduo que renunciou a toda a lógica, racionalidade e princípios. Ele realmente acredita nos seus demagogos populistas de estimação com uma devoção religiosa, sem jamais questionar os interesses escusos desses indivíduos, porque — de tão doutrinado que foi — ele realmente acredita que essas pessoas são extremamente puras, benévolas e bem-intencionadas. Assim que elas começarem a governar, tudo será impecável, magnânimo e maravilhoso.

É desse contexto que nasce a estadolatria: acreditar que o estado — contra todas as probabilidades históricas, e apesar da total ausência de incentivos, para não falar de uma absurda e irrefutável irracionalidade logística, moral e econômica — pode solucionar problemas, apesar de falhar continuamente.

Convém salientar que a estadolatria é frequentemente alimentada pelo populismo político, onde um partido ou uma associação de psicopatas oportunistas com um projeto de poder incentiva a devoção incondicional dos seus fiéis, estimulando a histeria coletiva do grupo, porque isso dá poder e respaldo às reivindicações dos demagogos da cúpula partidária, de que eles são os legítimos representantes desse coletivo abstrato que chamam de “povo”. Daí nascem os militantes histéricos e irracionais, que acreditam em todas as falácias que os seus políticos de estimação dizem, não importa quão contraproducentes, fantasiosas, imorais e irracionais elas sejam.

Além do populismo, a estadolatria também é alimentada pela demagogia política, pela doutrinação e pelo assistencialismo. Muitos políticos — especialmente os de esquerda — procuram comprar o seu eleitorado alegando que eles não precisarão trabalhar, se votarem nele. Em países como Alemanha e Suíça, onde há assistencialismo perpetuamente renovável, você não precisa trabalhar para viver. Você não precisa nem mesmo ter alguma deficiência ou sofrer de doenças crônicas para solicitar o benefício. Basta preencher um formulário e comprovar que você não tem nenhuma renda. Quando o benefício expirar, você pode renová-lo. Basta comprovar que você ainda está desempregado. Você pode fazer isso indefinidamente, pelo resto da vida. Você pode viver confortavelmente do assistencialismo enquanto políticos de esquerda continuarem no poder. Portanto, é óbvio que todas as pessoas que vivem de assistencialismo votarão em políticos progressistas.

Esse é um dos motivos pelo qual o estatismo e o progressismo permanecem tão fortes e basicamente indissociáveis. Essas doutrinas políticas são depravações oportunistas que exploram as fraquezas humanas, e fazem de seus adeptos e de seus eleitores pessoas dependentes daqueles que estão no poder, concedendo esmolas institucionalizadas a elas. Como Larry McDonald falou ainda no princípio da década de 1980, “cada vez mais pessoas são levadas a acreditar que é muito mais fácil votar para viver do que trabalhar para viver.”

O assistencialismo também reflete uma tendência governamental maléfica, a de explorar continuamente os indivíduos produtivos, para sustentar aqueles que não fazem nada. Sobre isso, Larry McDonald também falou: “estamos penalizando cada vez mais o setor produtivo da sociedade para subsidiar todos aqueles que não são produtivos.” Ou seja, a elite política que controla o estado confisca dinheiro da sociedade produtiva para sustentar o seu curral eleitoral com a clara intenção de se reeleger. Políticos não passam de parasitas oportunistas, que financiam suas carreiras públicas e seus projetos de poder comprando eleitores com dinheiro alheio, expropriado da sociedade produtiva através de impostos extorsivos e excruciantes. Poucas coisas conseguem ser mais aviltantes, deploráveis e degradantes do que a política.

Em essência, é assim que funciona o estado moderno, combinado a ideologias que lhe dão poder. O progressismo — e seu sintoma mais degradante, a estadolatria — diminui o homem por transformá-lo em um fanfarrão indolente, histérico e preguiçoso, incapaz de fazer qualquer coisa além de reclamar. A estadolatria transformou o homem contemporâneo em uma criança mimada, inútil, exigente e arrogante, que tem um medo mórbido da vida e de responsabilidades. Portanto, sente a necessidade de ser protegido pelo estado, já que ele tem medo de tudo.

O progressista — e outros estatistas radicais —, são indivíduos que precisam do estado porque são como criancinhas que tem um medo patológico da realidade e das responsabilidades da vida adulta. Foram condicionadas a comportarem-se como crianças e o estado é o seu gentil papai amoroso. Por ter sido doutrinado e infantilizado, o estatista precisa disso, porque como ele tem um medo absurdo do mundo e da realidade, ele quer ser subsidiado e protegido pelo estado pelo resto da sua vida. O que ocorre aqui é uma simbiose, entre o estado, que trabalha para gerar dependência, e o estatista, que quer depender do estado, porque tem medo das exigências da vida e da realidade, visto que é um medroso incompetente que se sente incapaz de prover para si próprio.

Claro, nesse ponto, podemos dividir os militantes em duas categorias. Aqueles que só querem assistencialismo e ficam felizes quando o recebem, e aqueles que são os utópicos irracionais e intransigentes, que querem realmente mudar o mundo e transformá-lo na sua utopia. Os dessa última categoria geralmente são militantes radicais, como marxistas e antifas.

Os antifas, claro, estão a toda hora protestando contra o “fascismo”. Eles querem um estado “antifascista”, capaz de atender às suas demandas, e estão sempre encontrando pretextos variados para combater o seu inimigo imaginário. Antifas também compreendem que o estado não funciona, mas — como a maioria dos estatistas —, ele querem um estado que funcione, e que seja capaz de atender as demandas da sua ideologia.

É claro que o resultado que essa gente espera atingir nunca é alcançado. O estado é indiferente a ideologias, embora se aproveite das que lhe ofereçam prerrogativas oportunas para expandir o seu poder.

Evidentemente, podemos afirmar que o estado funciona, sim, que é eficiente em tudo aquilo que se propõe a fazer, só que o estatista é completamente incapaz de compreender que o estado não funciona para ele ou para a população. O estado não tem interesse nenhum em funcionar para atender as demandas dos militantes ou do povo. O estado funciona muito bem para enriquecer políticos e burocratas, sustentar as regalias e os privilégios dos marajás, financiar a alta elite do funcionalismo, abastecer juízes com lagostas caras e champanhes importados, pagar salários de 600 mil a juízes que dão habeas corpus para os seus amigos no poder, subsidiar empreiteiras de oligarcas com conexões no Palácio do Planalto, financiar o corporativismo de lobistas interessados em obter licitações para obras públicas, entre muitas outras coisas que o estado se dispõe a conceder a todos aqueles que estão direta ou indiretamente associados ao Leviatã.

O estado existe para isso e para nenhum outro objetivo.

Alheio a tudo isso, o estatista ainda exige que paguemos os nossos impostos em dia, porque — muitas vezes bem-intencionado, porém ingênuo e idealista — ele realmente acredita que o dinheiro que o estado arrecada vai para a educação, para a saúde e para a segurança, quando esse não é o caso. Imposto é simplesmente transferência de renda: é dinheiro que é compulsoriamente confiscado da sociedade produtiva para ser redirecionado para a elite do funcionalismo e para os marajás do estado.

Evidentemente, algumas migalhas sempre serão direcionadas para a educação, a saúde e a segurança. Só que o militante utópico sempre acha pouco — e de fato é — o montante direcionado para essas áreas. Ao invés de exigir, no entanto, que a classe política e a elite do funcionalismo reduzam os seus salários, privilégios e benefícios, o militante passa a exigir que o estado cobre mais impostos da população.

Aumentar os impostos significa simplesmente que muitas empresas e investimentos irão debandar, que a sociedade produtiva vai ser estrangulada ainda mais, portanto produzirá menos e contratará menos, e que os burocratas do estado ficarão ainda mais ricos. Não interessa de quanto é o montante arrecadado, áreas como saúde, educação e segurança jamais serão priorizadas, ou algum dia receberão investimentos substanciais por parte do estado. Não é e nunca foi o verdadeiro objetivo do estado cuidar da população. O real objetivo do estado é depauperar a sociedade produtiva para se perpetuar, garantir a sua existência, custear todos os seus suntuosos privilégios financeiros e materiais e enriquecer os burocratas que estão no topo da hierarquia de comando do Leviatã. É para isso que o estado serve e para mais nada.

Por mais evidente que isso seja, estatistas não conseguem entender isso, porque são incapazes de compreender a veracidade de ocorrências incontestáveis baseadas em lógica, fatos e racionalidade. Mas esperar capacidade de raciocínio de um estatista é como esperar que Ciro Gomes toque bandolim na próxima turnê do Metallica. É algo que nunca vai acontecer.

Apesar de todos esses fatos irrefutáveis e contundentes — que expõem a natureza intrinsecamente malévola do estado —, o militante progressista, o antifa e o estatista social-democrata são completamente incapazes de despertar para a realidade. Eles realmente não conseguem compreender a verdadeira natureza do estado, tampouco são capazes de perceber que o estado não está se importando com as demandas deles, muito menos com o conceito de estado e “justiça social” de cada um. Mesmo que os políticos de estimação dessas pessoas fossem eleitos e viessem a ocupar cargos no estado, o estado não mudaria substancialmente, porque a função primordial do estado é uma só: expropriar a sociedade produtiva para financiar a sua existência e abastecer os seus integrantes.

O militante “prático”, por assim dizer — aquele que só quer assistencialismo —, normalmente é um oportunista que se dá por satisfeito quando populistas de esquerda estão no poder e ele recebe o que quer; o militante utópico, por outro lado, quer ver a sua ideologia de estimação sendo oficialmente implementada. Por isso, ele continuará participando de protestos e combatendo o fascismo imaginário que sustenta o discurso populista e os projetos de poder da esquerda política.

De qualquer forma, toda a corrosão moral e social que alastrou-se como uma enfermidade nefasta pelo mundo inteiro é uma consequência direta desse processo corrosivo de infantilização do homem. Todo o discurso subliminar, apesar de suas inúmeras variações, existe para transmitir a mesma mensagem: “Você é uma criancinha. Deixe deus-estado e papai-governo cuidarem de você”.

Consequentemente, a lavagem cerebral causada pela desmesurada reverência e adoração ao estado transformou centenas de milhares de indivíduos — que em uma sociedade moralmente coesa e salutar poderiam ser pessoas responsáveis, ativas e produtivas — em bebês histéricos, irracionais e chorões. Ao invés de se tornarem empreendedores aguerridos, inovadores e construtivos, que saem da casa dos seus pais cedo, se casam e tem filhos, inventam, renovam, desafiam, motivam, inauguram empresas e geram empregos, essas legiões de militantes infantilizados não são nada além de pirralhos prepotentes, arrogantes e inúteis, que não sabem fazer absolutamente nada da vida, a não ser suplicar que deus-estado e papai-governo cuidem de suas existências medíocres, e os sustentem e alimentem pelo resto de suas vidinhas simplórias e mundanas, dando comidinha diretamente na boquinha. Chegamos ao ponto em que isso tornou-se tão absurdamente corriqueiro, que nem questionamos mais esse fato. Tratamos como algo comum essa histeria coletiva que transformou homens adultos em criancinhas manhosas e choronas.

O medo da vida e da responsabilidade é tão grande que os militantes realmente querem passar o resto de suas existências fúteis e insignificantes na segurança do colinho do seu político de estimação. A estadolatria transformou homens adultos em bebês chorões, mimados, infantilizados, histéricos, deploráveis, irracionais e indolentes, em sua maioria totalmente irrecuperáveis. Se não estiverem com a chupetinha estatal na boca, o choro histérico não tem fim. Não me surpreenderia nem um pouco se começassem a usar fraldas e sentissem até mesmo orgulho disso, exibindo-se nas redes sociais, tirando fotos com fraldas coloridas, em “desafio” às instituições “burguesas” e à sociedade “patriarcal”, com a militância “lacrando” nos comentários.

A estadolatria degrada e infantiliza o homem de forma deplorável e contumaz, privando-o de desenvolver suas qualidades intrinsecamente masculinas, prolongando a infância pelo resto da vida. Isso expande o poder de ação do estado, que tem por objetivo gerar dependência na população. Evidentemente, o estado jamais vai permitir que a sociedade se desenvolva, e obtenha progresso e prosperidade. Isso poderia fazer com que muitas pessoas letárgicas, apáticas e sonolentas despertassem, e aí elas perceberiam que não precisam do estado para nada. O estado luta para que as pessoas não percebam quão descartável, imoral e obsoleto ele realmente é.

Para os militantes, o estado é deus e o governo é um papai, que os embala no colinho com uma constituição repleta de direitos e canta cantigas assistencialistas de ninar. Libertários anarcocapitalistas cultural e socialmente conservadores tem a obrigação moral de tentar desmantelar esse deplorável cenário de estadolatria e infantilização sistemática da população. O homem deve resgatar sua condição masculina. A infância permanente é incompatível com o progresso, com a prosperidade e com o desenvolvimento da civilização, assim como também é incompatível com a natureza humana. Homens devem voltar a agir como homens. A infância deve ser uma exclusividade das crianças, e não um estado permanente dos adultos.

4 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo, percebo em mim no passado esta mentalidade e em outas pessoas que agente conhece atualmente, sempre esperando por um novo salvador a cada quatro anos e não percebendo que a burocracia que dá sustentação ao Leviatã não muda.