Lembranças de Murray em seu nonagésimo quinto aniversário

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Conheci Murray Rothbard quando, como tesoureiro do Partido Libertário de Nova Jersey, o convidei para fazer o discurso principal em nossa convenção inaugural. Ele graciosamente concordou em fazê-lo por irrisórios US$ 75 mais um jantar. Antes de sua palestra, eu me apresentei a ele e conversamos um pouco sobre o estado do movimento libertário antes de mencionar que era um estudante de graduação em economia e estava lendo alguns dos livros e artigos que ele citou em seu tratado Man, Economy, and State. Nunca esperei sua reação ao meu comentário casual. Seus olhos se iluminaram imediatamente e ele mal conseguiu conter o entusiasmo. Ele procurou loucamente em seus bolsos por uma caneta sem sucesso e, quando eu lhe ofereci uma, ele me pediu minhas informações de contato e disse-me que as passaria para algumas pessoas em Nova Jersey que haviam formado um grupo austríaco de leitura de economia.

Na segunda-feira seguinte, recebi um telefonema de um aluno integrante do grupo que me convidou a fazer parte do círculo de leitura, que foi codirigido por outro de meus heróis libertários, Walter Block. Logo depois, fui convidado para o santuário interno do apartamento de Murray em Manhattan para um encontro pessoal com ele. Fui escoltado até seu apartamento por um membro veterano do grupo de leitura. Eu estava muito nervoso no caminho, porque estava antecipando uma entrevista um tanto formal, na qual Murray me atormentaria e exporia facilmente as impressionantes inadequações em meu conhecimento do libertarianismo e da economia austríaca. Mas minha apreensão se dissipou instantaneamente quando Murray me cumprimentou com entusiasmo na porta com um alegre “Joe, meu garoto, é ótimo ver você de novo.”

Foi uma noite memorável. O outro aluno e eu nos sentamos no tapete da sala enquanto Murray, no seu sofá, nos regalou com piadas, anedotas e suas observações sobre atualidades. A conversa foi leve, mas intercalada com perguntas para mim sobre meus pontos de vista sobre questões econômicas e políticas. Em um ponto, surgiu a questão de quais métodos eram justificados para recuperar uma propriedade de saqueadores. Murray opinou que o dono de uma loja tinha justificativa para usar violência defensiva – incluindo força mortal, se necessário – para defender sua propriedade de saqueadores. Mas ele acreditava que se o saqueador já tivesse confiscado a propriedade e estivesse fugindo, o proprietário não poderia usar força letal para recuperar sua propriedade roubada e teria que chamar a polícia. Eu timidamente sugeri que o dono da loja teria justificativa para usar força mortal, se necessário, para manter o controle de sua propriedade, quer envolvesse defendê-la ou recuperá-la. Murray pensou por um momento e disse: “Ahh, agora ESSA é uma conversa que estou disposto a ter.”

Também me lembro de discutir a questão de como a propriedade estatal deveria ser eliminada após a revolução libertária. Murray foi indiferente à minha sugestão de que deveria ser leiloada e os lucros divididos entre os pagadores de impostos. Ele também não estava interessado em entregar a propriedade aos funcionários, ou seja, escolas públicas para os professores, ferrovias para os engenheiros e condutores, etc. Essas opções seriam muito demoradas, exigiriam uma entidade tipo o estado para ocorrerem e poderia recompensar as pessoas erradas. O objetivo primordial, disse ele, era devolver todas as propriedades do estado para uso produtivo no setor privado o mais rápido possível. Além disso, ele destacou que era indispensável manter a unidade tecnológica relevante intacta, o que significava não apropriação gradativa de partes de rodovias, sistemas de água e esgoto, aeroportos, etc. A melhor solução, disse ele com um piscar de olhos, é dar a propriedade de todo o ativo físico aos “heróis da revolução libertária”.

Mais tarde, à noite, um atendente de aparência mal-humorada em um estacionamento decadente do outro lado da rua do apartamento de Murray no segundo andar começou a tocar uma trombeta estrondosamente. Como era uma noite quente e úmida de verão em Nova York, as janelas da sala de Murray estavam abertas e o som era cacofônico e perturbador. Murray estava ficando cada vez mais irritado e, depois de alguns minutos, não conseguia mais se conter. Ele começou a gritar empoleirado de seu sofá “CALA A BOCA! CALA A BOCA!” na perfeita gíria nova-iorquina. Nesse ponto, sua esposa, Joey, sabiamente interveio, silenciou Murray, fechou as janelas e trouxe um ventilador para dentro da sala. Saí do apartamento de Murray bem depois da meia-noite.

Nos anos que se seguiram, gostei de aumentar o contato pessoal com Murray. Eu o vi inúmeras vezes em conferências e seminários, e regularmente o encontrava para almoçar em Manhattan durante os intervalos do semestre e nas férias. O que mais me impressionou em Murray não foi apenas seu gênio criativo como economista, teórico social e filósofo político, mas o fato de ele ser uma “pessoa real”, um termo que ele mesmo costumava usar.

Uma pessoa real é aquela que ama a liberdade não como uma abstração vazia, mas como um sistema social e econômico real que produz os bens, instituições e cultura necessários para que os seres humanos de carne e osso vivam suas vidas de maneira pacífica, próspera e feliz. Isso explica por que Murray valorizava e celebrava a cultura e a sociedade americanas e tinha orgulho de chamá-las de sua. Murray era um admirador incondicional da cultura americana, porque a via como o produto histórico específico do sistema capitalista americano relativamente libertário e individualista. Assim, ele amava os filmes O Poderoso Chefão e os filmes de James Bond, visitas à madrugada aos restaurantes Denny’s e beber martinis com seus amigos no famoso Algonquin Club na Rua 44 em Manhattan (onde se encontra a Mesa Redonda Algonquin de escritores e críticos famosos, e os atores costumavam se reunir para almoçar todos os dias de 1919 a 1929).

Algumas outros episódios sobre Murray, a pessoa real, me vêm à mente. Certa vez, em uma conferência de economia austríaca em Hartford, Connecticut, Murray queria ir a um restaurante para continuar uma conversa tarde da noite que estava tendo comigo e vários outros alunos de pós-graduação. Então, todos nós entramos em meu carro e começamos a procurar um lugar para comer. Dirigimos por meia hora, passando por vários restaurantes que já haviam fechado. Por fim, Murray não conseguiu mais conter sua frustração e declarou: “O que há de errado com essas pessoas! Eles não percebem que a Revolução Industrial ocorreu há duzentos anos e que temos luz elétrica agora? Por que eles param de atender clientes famintos só porque está escuro lá fora?” Felizmente, quando estávamos prestes a voltar para o local da conferência, avistei uma pizzaria que estava aberta. Murray ficou radiante e exclamou: “Joe, você é um herói da revolução!”

Alguns anos depois, participei com Murray de uma conferência de quatro dias sobre metodologia na Academia Militar dos Estados Unidos em West Point. No final do segundo dia, Murray estava ficando entediado e ansioso para encontrar entretenimento fora dos limites da atmosfera enfadonha e um tanto opressiva do hotel do campus. Ele reclamou para mim que os acadêmicos em geral eram muito enfadonhos e pretensiosos e que precisávamos “sair do hotel e pular o muro para nos divertirmos entre pessoas reais”. Perguntei ao concierge do hotel se ele poderia recomendar um bar que tivesse música e dança. Ele recomendou um estabelecimento que ficava a 25 km de distância, em Newburgh, Nova York. Seis de nós, incluindo Murray, partimos em um carro em uma rota por estradas sinuosas e escuras através do relevo montanhoso adjacente ao rio Hudson. Depois de alguns minutos dirigindo, uma névoa densa surgiu e a visibilidade diminuiu para dez ou quinze metros. Reduzimos a velocidade para 30 km/h. Várias vezes falamos em voltar, mas em cada ocasião Murray nos exortou: “Avante tropas! Siga para o nosso destino!” Fizemos o que Murray pediu e acabamos nos divertindo muito, embora o clube fosse meio que só dos locais, com vários moradores rudes olhando feio para o nosso grupo festivo. Mas Murray ficou feliz em se sentar e absorver a atmosfera e beber, enquanto fazia comentários hilários sobre tudo que ocorria. Ele estava lá, ele nos disse, apenas como um “observador sociológico”. No caminho de volta, ele foi cantando as poucas partes que lembrava da música disco “On the Radio” de Donna Summers, que o DJ do bar tocou várias vezes naquela noite. Murray tinha um ouvido musical experiente e um bom alcance vocal, e cantava muito bem.

Talvez a maior virtude de Murray, no entanto, seja sua genuína e permanente humildade intelectual. Nesta altura, Murray não tinha nenhum traço de falsa modéstia com relação a suas próprias realizações intelectuais monumentais, e ele orgulhosamente reconheceu os títulos de “Sr. Libertário” e “Reitor da Escola Austríaca Moderna” concedido a ele por seus admiradores. Mesmo assim, ele sempre deu crédito generoso a seus predecessores e mentores e buscou desenvolver seus estudos com base nos deles. Assim, ele sempre se considerou, como um economista, não mais do que um “aluno de Mises”, e viu suas próprias contribuições prodigiosas para a teoria econômica como meras tentativas de avançar o que chamou de “paradigma misesiano”. Por exemplo, na famosa conferência em South Royalton, Vermont, que foi um catalisador para o renascimento moderno da escola austríaca, Rothbard deu uma palestra na qual se aventurou a criticar uma posição assumida por Mises sobre fazer julgamentos de valor ético com base na teoria econômica. Na época, Rothbard tinha quase cinquenta anos, era um autor prolífico e um dos economistas austríacos mais talentosos e reconhecidos do mundo. No entanto, depois que sua palestra terminou, lembro-me dele confidenciar a alguns de nós presentes que ainda estava um pouco “abalado” por ter criticado publicamente seu mentor pela primeira vez.

Outro exemplo ocorreu quando conheci Murray em sua delicatessen judaica favorita em Manhattan. Foi em algum momento do início da década de 1990, quando ele estava trabalhando em seu monumental tratado de dois volumes sobre a história do pensamento econômico. Durante o almoço, ele me falou ansiosamente sobre as muitas novas descobertas que ele fez: os economistas injustamente obscuros que ele desenterrou; como um economista aparentemente menor foi na verdade um brilhante construtor de movimentos, embora sua influência fosse má; como a psicologia moderna, que ele geralmente detestava, era realmente útil para explicar o pensamento de um famoso economista clássico. E assim por diante ele continuou em seu estilo nova-iorquino de falar rápido. Ele ficou alegre principalmente quando me informou sobre as novas interpretações e críticas que estava desenvolvendo, que destroçariam a reputação exagerada de algumas das figuras mais veneráveis ​​da história do pensamento econômico. Enquanto ele falava, eu raramente abria o bico, porque estava fascinado com o que estava aprendendo e com a intenção de absorver cada nova ideia e percepção. Também fiquei surpreso com a amplitude e a profundidade de seu conhecimento sobre um assunto sobre o qual ele não havia escrito com muitos detalhes. Mas ele deve ter confundido meu silêncio atípico com um sinal de tédio, porque depois de cerca de uma hora ele parou de repente e timidamente se desculpou por monopolizar a conversa. Assegurei-lhe que não estava entediado e o incentivei a continuar e, para minha alegria, ele alegremente retomou seu discurso por mais duas horas ou mais. Mais tarde, pensei comigo mesmo: como ele poderia pensar que eu iria querer interrompê-lo, um gênio criativo que estava me dando um seminário privado sobre um trabalho em andamento que estava destinado a ser um clássico assim que fosse publicado?

Feliz aniversário, Murray! Eu sei que o mundo não verá tão cedo alguém como você novamente.

 

Artigo original aqui.