Nem votos nem balas

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Nota do tradutor: O artigo a seguir foi originalmente escrito para a primeira edição da publicação “The Voluntaryist”, em Outubro de 1982, traduzimos o nome para “O Voluntarista”

O Voluntarista busca recuperar a herança antipolítica do libertarianismo. Busca restabelecer a diferença clara e nítida entre os meios econômicos e políticos de mudar a sociedade. Essa diferença foi bem percebida pelos precursores do libertarianismo contemporâneo, que rasgaram o véu da legitimidade do governo para revelar uma instituição criminosa que reivindicava o monopólio da força em uma determinada área. Consequentemente, os primeiros libertários, como Benjamin Tucker, sustentavam que não se podia atacar o governo elegendo políticos mais do que se poderia prevenir o crime tornando-se um criminoso. Embora ele não questionasse a sinceridade dos anarquistas políticos, ele os descreveu como inimigos da liberdade: “aqueles que desconfiam dela como um meio de progresso, acreditando nela apenas como um fim a ser obtido através de pisotear, violar e ultrajá-la.” Essa rejeição do processo político (refiro-me à política eleitoral) foi moral, baseada na percepção de que ninguém tem direito a uma posição de poder sobre os outros e que qualquer homem que busque tal cargo, por mais honrosas que sejam suas intenções, está tentando se juntar a uma organização criminosa.

Em algum lugar na história do libertarianismo, essa rejeição do estado foi erodida a tal ponto que os anarquistas agora são aspirantes a políticos e podem ouvir as palavras “senador anarquista” sem vacilar. O libertarianismo não é mais dirigido contra as posições de poder, contra os cargos por meio dos quais o estado se manifesta; a mensagem moderna – completa com mentiras, retórica de campanha e evasão estratégica – é “eleja meu homem para o cargo” como se fosse o homem desgraçando o cargo e não o contrário. Aqueles que apontam que ninguém tem direito a tal posição, que tal poder é um anátema para o próprio conceito de direitos, são descartados como negativos, reacionários ou malucos. Eles estão sujeitos a ataques ad hominem que desviam a atenção das questões substantivas que estão sendo levantadas, as questões que serão discutidas no O Voluntarista.

O Voluntarista é único por refletir os vários séculos de tradição libertária e a atual vanguarda da teoria libertária. A tradição do libertarianismo americano está tão intimamente ligada ao anarquismo que, durante o século XIX, o anarquismo individualista era sinônimo de libertarianismo. Mas o anarquismo é mais do que simplesmente a não iniciação da agressão pela qual o libertarianismo é comumente definido. É uma visão do estado como o maior violador de direitos, como o principal inimigo. O anarquismo analisa o estado como uma instituição cujo propósito é violar direitos a fim de garantir benefícios a uma classe privilegiada. Para aqueles que acreditam na legitimidade de um governo limitado, faz sentido buscar um cargo político, mas para um anarquista que vê o estado como uma instituição fundamentalmente má, tal busca vai contra a teoria e a tradição que ele afirma compartilhar. Assim, o anarquista político deve explicar por que aspira a um cargo que julga ser inerentemente injusto. Talvez uma das razões para a erosão do anarquismo dentro do movimento libertário é que muitas das questões necessárias para uma análise institucional libertária do estado nunca tenham sido seriamente abordadas. Um objetivo do O Voluntarista é construir uma teoria coesa de libertarianismo antipolítico, de voluntarismo, que investigará questões como se as responsabilidades morais ou legais se adéquam ao ato de votar em alguém para exercer o poder sobre a vida de outra. Talvez, trabalhando os fundamentos dessa teoria, o infeliz espetáculo do “anarquista como político” possa ser evitado.

Outro objetivo principal é examinar estratégias não políticas. Na construção de uma teoria e estratégia antipolítica – que foi assumida pelos primeiros libertários sem estar bem definida – seremos rotulados como meramente contra o Partido Libertário por aqueles que inocentemente ou com malícia são incapazes de perceber o contexto mais amplo que leva a uma rejeição do próprio meio político. A miríade de estratégias não políticas disponíveis aos libertários será rejeitada ou aceita apenas como complementos úteis para a política eleitoral. É irônico que um movimento que usa o mercado livre como solução para tudo, desde estradas até a defesa nacional, declare que os meios políticos, a antítese do mercado livre, são necessários para alcançar a liberdade.

Como voluntaristas, rejeitamos o Partido Libertário no mesmo nível e pela mesma razão que rejeitamos qualquer outro partido político. A rejeição não se baseia em desvios acidentais ou corrupção dos princípios que ocorrem inevitavelmente na política. Ela se baseia na convicção de que para se opor ao estado é preciso se opor às instâncias específicas do estado, ou então essa a oposição será uma abstração vaga e flutuante e nunca terá aplicação prática. Os cargos políticos são o estado. Ao se tornarem políticos libertários, legitimam e perpetuam o cargo. Eles legitimam e perpetuam o estado.

Se o libertarianismo tem futuro, é como o movimento que assume uma postura retumbante e de princípios contra o estado. Aqueles que abraçam cargos políticos atrapalham os esforços dos voluntaristas que estão tentando se livrar dessa instituição de força. É comum para os libertários ver o anarquismo e o minarquismo como dois trens indo na mesma direção; o minarquismo simplesmente para um pouco antes do destino do anarquismo. Esta é uma noção errada. O destino do anarquismo é diferente e antagônico ao destino do minarquismo. A teoria e o compromisso emocional são diferentes. Murray Rothbard captou a diferença emocional ao fazer sua famosa pergunta no Fórum Libertário, “Você odeia o Estado?” Os voluntaristas responderam com um “sim” imediato e sincero. Minarquistas concordam com timidez e ressalvas ao mesmo temo que explicam a alegada distinção entre um governo e um estado. Os anarquistas políticos estão no reino cinzento de sinceramente concordar com princípios usando palavras que suas ações contradizem. É hora de ter as diferenças entre o voluntarismo e o libertarianismo político claramente expressas e de buscar alternativas não políticas.

É hora do O Voluntarista.

 

Artigo original aqui.

3 COMENTÁRIOS

  1. Eu concordo!
    Mas eu acho importante para mim ter isso em mente.
    Eu acabei influenciando muitas pessoas a medida que fui lendo.
    E tenho que ter uma certa responsabilidade nas minhas opiniões.
    As vezes o fato de eu defender o Bolsonaro numa discussão, faz uma pessoa que confia em mim desenvolver uma certa tendência de acreditar no estado.
    E se isso acontecer, eu falhei nas minhas leituras e na minha forma de me expressar.

  2. Eu tenho pensado bastante sobre o assunto.
    E eu tenho refletido muito sobre o Bolsonaro e o apoio de muitos libertários ao Bolsonaro, eu mesmo defendo muitas das suas posições.

    Ele possui muitas coisas positivas:
    – Não é quarentener
    – Armamentista.
    – Todo o establishment odeia ele.
    – Respeito a religião.
    – Nacionalista no sentido do progresso.
    – +- pro mercado (bem melhor do 99% dos políticos e das alternativas)
    – Ter uma pessoa forte na opinião pública defendendo e expondo essas pautas

    Mas eu me sinto mal apoiando ele. Eu varias vezes anulei votos nas eleições bem antes de ser libertario. Simplesmente não aparecia, ou se ia me dar trabalho eu ia e votava 99. Mas na última eleição votei nele.

    O que isso representa?

    Acho que o Bolsonaro serve muito bem para ilustrar o problema.
    Uma armadilha que eu mesmo cai.
    Quando você apoia o Bolsonaro por causas libertárias de alguma forma você está reconhecendo que precisa escolher um político que te representa, validando o estado agir em seu nome, e reconhecendo que não tem jeito, eu tenho que escolher o político mais libertário porque é assim que as coisas funcionam e assim que sempre vão funcionar.

    Como eu, como pessoa que reconhece o estado como uma instituição criminosa, como pessoa que reconhece o sucesso dos abolicionistas por dizerem que a escravidão deve ser encerrada para ontem posso cair nessa armadilha?

    Somos todos incoerentes, e temos que trabalhar nossa incoerencia dia a dia, você não para de mudar de opinião quando se torna libertário. Você faz a sua primeira mudança de opinião. Ser libertário é a busca eterna por coerência.

    Outro problema grave de apoiar o Bolsonaro é que como ele há muitas pessoas na opinião pública que defendem essas pautas libertárias, trabalhando com seus rendimentos do mercado, simplesmente por compromisso com a verdade e ao invés de eu citar essas pessoas nas minhas discussões eu cito um político, mamador de teta e putinha do establishment ao invés de dar o devido crédito ao empreendedores da opinião pública.

    Exatamente como as pessoas que fazem esse site, que até onde eu sei foram as primeiras pessoas na opinião publica brasileira a chamar a atenção para isso que estamos vivendo ser uma fraudemia.

    Reflitam

    • Relaxa brother, apoiar o bozoloide só serve para tirar onda com os soças. O discurso libertário é muito próximo dos liberaloides do estado mínimo, de maneira que sempre seremos a direita.

      É possível apoiar algo tipo o Bozo sem participar ativamente da farsa democrática. Eu nem título de gado eu tenho mais…

      Quando alguém me chama de bolsonarista, eu apenas afirmo que todos os políticos são genocidas. Simples assim, o assunto não tem continuidade, ja que eu extendo a característica de psicopatas a quem apoia a violência monopolista agressiva votando, ou mesmo somente tendo um título de ovelha do sistema.