O cálculo econômico sob o socialismo

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2. A natureza do cálculo econômico

Todo homem que, no decorrer de sua vida econômica, faz uma escolha entre satisfazer uma necessidade em detrimento de outra, está, por definição, fazendo um juízo de valor.  Tais juízos de valor, assim que formulados, incluem inicialmente apenas a satisfação da necessidade em si; e, só após isso, é que o indivíduo irá recuar e começar a refletir mais objetivamente nos meios para se atingir tal objetivo, começando com os bens de ordem mais baixa e então indo em direção aos bens de ordem mais alta.[5]

Em geral, o homem que conhece sua própria mente está em posição de avaliar quaisquer bens de ordens mais baixas.  E sob condições simples, é também possível que ele forme algum julgamento sobre a importância para ele de alguns bens de ordem mais alta.  Mas nas situações em que o cenário é mais complexo e há mais interconexões que não são facilmente discerníveis, meios mais sutis devem ser utilizados para se obter uma avaliação correta[6] dos meios de produção.  Por exemplo, não seria difícil para um agricultor em isolamento econômico fazer uma distinção entre a expansão de seu pasto e a expansão de sua atividade de caça.  Nesse caso, os processos de produção envolvidos são relativamente pequenos, e os custos e a renda inerentes a cada processo podem ser facilmente mensurados.  Mas a situação se torna bem diferente quando a escolha passa a ser entre a utilização de um rio para a obtenção de eletricidade ou a ampliação de uma mina de carvão ou a formulação de quaisquer outros planos para o melhor emprego da energia latente no carvão bruto.  Nesse caso, o processo de produção é maior e mais indireto, sendo que cada etapa é mais longa; consequentemente, as condições necessárias para um empreendimento ter sucesso são diversas, o que significa que não se pode incorrer em avaliações vagas.  Passa a ser necessário ter estimativas mais exatas, bem como algum julgamento das questões econômicas envolvidas.

Avaliações e valorações só podem ocorrer em termos de alguma unidade.  Entretanto, é impossível haver alguma unidade que meça o valor subjetivo de cada bem.  A utilidade marginal não postula qualquer unidade de valor, uma vez que é óbvio que o valor de duas unidades de um determinado bem é necessariamente maior —  mas menos que o dobro — do que o valor de apenas uma unidade.  Juízos de valor não mensuram; eles meramente estabelecem graduações e escalas.[7]  Mesmo Robinson Crusoé — que tem de tomar uma decisão em um ambiente onde não há um juízo de valor pré-definido, o que significa que ele tem de construir um baseando-se em estimativas pouco exatas — não pode operar utilizando unicamente seus valores subjetivos; antes, ele precisa levar em consideração a capacidade intersubstitutiva dos bens para então formar suas estimativas.

Nessas circunstâncias, será impossível para ele avaliar todos os bens de acordo com uma unidade já pré-estabelecida.  Ele tem de avaliar todos os elementos que devem ser levados em consideração na formação de suas estimativas baseando-se naqueles bens econômicos que podem ser analisados por um juízo de valor mais óbvio — ou seja, os bens de ordens mais baixas, além do próprio custo do trabalho.  Que isso só seja possível em condições muito simples é algo óbvio.  Para o caso de processos de produção mais complicados e mais longos, tal procedimento não trará respostas.

Em uma economia de trocas voluntárias, a unidade comum de cálculo econômico é representada pelo valorobjetivo de troca das mercadorias.  Isso gera uma vantagem tripla.  Em primeiro lugar, passa a ser possível basear o cálculo econômico de acordo com as valorações de todos os participantes da troca.  O valorsubjetivo que um dado bem tem para uma pessoa é um fenômeno puramente individual e, portanto, não pode ser imediatamente comparado ao valor subjetivo que esse mesmo bem tem para as outras pessoas.  Isso só se torna possível quando se utiliza valores de troca, os quais surgem naturalmente da interação das valorações subjetivas de todos os indivíduos que participam da troca.  Nesse caso, o cálculo baseado nos valores de troca fornece um controle sobre o método mais apropriado de se empregar os bens.  Qualquer um que deseje fazer cálculos relacionados a algum complicado processo de produção irá imediatamente perceber se ele está agindo de maneira mais econômica que os concorrentes ou não; se ele descobrir — por meio das relações de troca predominantes no mercado — que não será capaz de produzir lucrativamente, isso significa que outros estão sabendo melhor como fazer um uso mais adequado desses bens de ordem alta.  Por último, utilizar os valores de troca para se fazer cálculos econômicos é o que possibilita avaliar os bens de acordo com uma unidade de conta definida.  E para esse propósito — dado que os bens são mutuamente substituíveis de acordo com as relações de troca predominantes no mercado —, qualquer bem existente pode ser escolhido.  Em uma economia monetária, esse bem escolhido é o dinheiro.

O cálculo monetário tem seus limites.  O dinheiro não é um parâmetro de valor, tampouco de preço.  Nem o valor e nem o preço são mensurados em dinheiro.  Valores e preços são meramente representados pelo dinheiro.  O dinheiro transmite o valor, mas ele não mensura o valor.  Não há uma medida para um valor econômico.  Não há uma maneira objetiva de se medir um valor subjetivo.  O dinheiro é um bem econômico e, como tal, não possui um valor estável, como tem sido ingênua e erroneamente assumido.  A relação de troca que há entre o dinheiro e outros bens está sujeita a constantes — quando não muito violentas — flutuações, que podem se originar não só do lado dos bens econômicos, mas também do lado do dinheiro.  Entretanto, essas flutuações perturbam apenas minimamente os cálculos de valor, uma vez que, por causa das incessantes alterações que ocorrem nas outras variáveis econômicas, esses cálculos irão se referir a períodos de tempo comparativamente pequenos — períodos nos quais uma moeda “forte” irá sofrer apenas flutuações relativamente triviais em seu poder de compra.

A causa principal da inaptidão do cálculo monetário do valor não está no fato de o valor ser calculado em termos de um meio universal de troca, o dinheiro.  Mas, sim, no fato de que, nesse sistema, o cálculo se baseia no valor de troca e não no valor subjetivo que o uso de tal bem traz para um indivíduo.  O cálculo monetário nunca poderá ser utilizado como medida para calcular o valor daqueles elementos que estão além do domínio das trocas.  Se, por exemplo, um homem tivesse de calcular a lucratividade de se construir uma usina hidráulica, ele não seria capaz de incluir em seus cálculos os danos que tal esquema iria trazer à beleza das cachoeiras; o que ele poderia fazer seria prestar atenção à diminuição que poderia haver no fluxo de turistas ou coisas similares, os quais poderiam ser avaliados em termos monetários.  E essas considerações poderiam acabar sendo um dos fatores que irão decidir se a construção deverá ser feita ou não.

Convencionou-se denominar tais elementos como “extra-econômicos”.  Isso talvez seja apropriado; não estamos preocupados com disputas acerca de terminologias.  Não obstante, as considerações feitas dificilmente podem ser consideradas irracionais.  Em qualquer lugar em que o homem considere significante a beleza de uma vizinhança ou de um prédio, a saúde, a felicidade e a satisfação da humanidade, a honra de indivíduos ou de nações, estas coisas, tanto quanto os fatores econômicos, são forças que motivam a conduta racional, mesmo onde elas não são substituíveis entre si no mercado, o que significa que elas não entram, portanto, nas relações de troca.

Que o cálculo monetário não possa abranger esses fatores é algo inerente à sua própria natureza; mas, para os propósitos de nossa vida econômica diária, isso não reduz a importância do cálculo monetário.  Pois todos esses bens ideais são bens de ordens mais baixas, e podem portanto ser incluídos diretamente no âmbito de nossos julgamentos de valor.  Assim, não há qualquer dificuldade em levá-los em consideração, ainda que eles tenham de permanecer fora da esfera dos valores monetários.  O fato de eles não admitirem tal cômputo faz com que seja mais fácil — e não mais difícil — considerá-los nos aspectos diários de nossa vida.  Assim que percebemos claramente o tanto que valorizamos a beleza, a saúde e o orgulho, certamente nada pode nos impedir de ter a devida consideração por eles.  Aos espíritos sensíveis, pode parecer doloroso ter de equilibrar os bens espirituais com os materiais.  Mas isso não é culpa do cálculo monetário; é algo totalmente inerente às coisas em si.  Mesmo nos casos em que os juízos de valor podem ser estabelecidos diretamente sem qualquer cálculo monetário, a necessidade de escolher entre satisfação material ou espiritual não pode ser esquivada.  Robinson Crusoé e o estado socialista têm a mesma obrigação de fazer essa escolha.

Qualquer indivíduo que tenha uma noção genuína dos valores morais não padece qualquer dificuldade em se decidir entre a honra e o sustento.  Ele sabe muito bem qual a sua obrigação.  Se um homem não pode honrar seu pão, ele pode ao menos renunciar a seu pão em nome da honra.  Somente aqueles que preferem estar livres da agonia dessa decisão — porque não conseguem renunciar ao conforto material em nome da vantagem espiritual — veem na escolha uma profanação dos valores verdadeiros.

O cálculo monetário tem sentido apenas dentro da esfera da organização econômica.  Trata-se de um sistema por meio do qual as regras da economia podem ser aplicadas para o arranjo e a distribuição dos bens econômicos.  Os bens econômicos apenas participam desse sistema em proporção ao grau em que podem ser trocados por dinheiro.  Qualquer amplificação da esfera do cálculo monetário irá provocar equívocos.  O cálculo monetário não pode ser considerado um padrão de medida para a avaliação de bens, e não pode ser tratado em investigações históricas sobre o desenvolvimento das relações sociais; ele não pode ser utilizado como um critério para a riqueza e a renda nacional e tampouco como um meio de mensurar o valor dos bens que estão fora da esfera de troca. Afinal, quem seria capaz de estimar o grau de perdas humanas, em termos monetários, ocorridas por causa das emigrações ou guerras?[8]  Isso é uma mera tolice travestida de erudição, por mais que tal método seja utilizado por economistas normalmente perspicazes.

Apesar disso, dentro desses limites, os quais nunca são ultrapassados dentro da vida econômica, o cálculo monetário preenche todos os requisitos do cálculo econômico.  É ele quem nos guia através da plenitude opressiva das potencialidades econômicas.  Ele nos permite imputar a todos os bens de ordem mais alta o nosso juízo de valor, juízo esse que está estreitamente ligado aos bens que estão prontos para o consumo final, ou que são, na melhor das hipóteses, bens de produção da mais baixa ordem.  O cálculo faz com que os valores desses bens possam ser computados, o que consequentemente nos fornece as bases para todas as operações econômicas com os bens de ordens mais altas.  Sem a possibilidade do cálculo, todos os processos de produção que duram vários anos, bem como todos os processos longos e indiretos, inerentes à produção capitalista, seriam como tatear no escuro.

Há duas condições que governam a possibilidade de se calcular o valor em termos de dinheiro.  Primeiramente, não são apenas os bens de ordem mais baixa que devem estar dentro do âmbito da troca; os de ordem mais alta também têm de estar.  Se eles não fossem incluídos, as relações de troca não surgiriam.  As considerações que predominam no caso em que Robinson Crusoé, em seus domínios e por meio de sua própria produção, pretende trocar trabalho e farinha por pão, são indistinguíveis daquelas que predominam quando ele está preparado para trocar pão por roupas no mercado aberto. Portanto, é de certa forma correto dizer que cada ação econômica, incluindo a própria produção de Robinson Crusoé, pode ser denominada detroca.[9]

Ademais, a mente de um só homem, por mais brilhante que seja, é incapaz de compreender a importância de qualquer um dos inúmeros bens de ordem mais alta.  Nenhum homem pode jamais dominar todas as possibilidades de produção — que são inúmeras — de modo a estar apto a fazer juízos de valor diretamente evidentes, sem a ajuda de algum sistema de computação.  Se distribuíssemos para alguns indivíduos os controles administrativos sobre os bens de toda uma comunidade — cujos homens que trabalham na produção desses bens estão também economicamente interessados neles — teríamos de ter algum tipo de divisão intelectual do trabalho, algo que não seria possível sem algum sistema que calculasse a produção.

A segunda condição é que existe de fato um meio de troca universalmente empregado — a saber, o dinheiro —  que também executa a mesma função de meio de troca para os bens de produção.  Se esse não fosse o caso, não seria possível reduzir todas as relações de troca a um denominador comum.

Somente sob condições muito simples é que a economia pode dispensar o cálculo monetário.  Dentro dos limites estreitos de uma economia doméstica, por exemplo, na qual o pai pode supervisionar toda a conduta econômica, é possível determinar, mesmo sem fazer uso de auxílios avançados, qual a importância de algumas mudanças no processo de produção e, ainda assim, obter razoável precisão.  Nesse caso, todo o processo se desenvolve sob um uso relativamente limitado do capital.  Os processos indiretos de produção, típicos do capitalismo, que se encaixam neste modelo são muito poucos: nesse caso, o que estaria sendo manufaturando seriam bens de consumo, ou, no máximo, bens de uma ordem mais alta que estão muito próximos dos bens de consumo.  A divisão do trabalho está em seus estágios mais rudimentares: um único trabalhador controla a mão-de-obra daquilo que é, na realidade, um processo de produção completo de bens prontos para o consumo, do início ao fim.  Tudo isso é diferente, entretanto, nas produções comunais.  As experiências de um período remoto e antigo de produção simples não fornecem qualquer tipo de argumento para se estabelecer a possibilidade de um sistema econômico sem cálculo monetário.

Nos limites estreitos de uma economia doméstica fechada, é possível analisar completamente o processo de produção desde o início até o fim, e julgar durante todo o tempo qual procedimento vai produzir mais bens de consumo.  Isso, entretanto, deixa de ser possível nas circunstâncias incomparavelmente mais intrincadas de nossa economia social.  Assim, é evidente que, mesmo em uma sociedade socialista, 100.000 litros de vinho são preferíveis a 80.000; e não é difícil se decidir entre 100.000 litros de vinho ou 500 de azeite.  Não é necessário sistema algum de cálculo para se estabelecer o seguinte fato: o elemento determinante é a mera vontade dos agentes econômicos envolvidos.  Porém, uma vez que essa decisão tenha sido tomada, a verdadeira tarefa da orientação econômica racional está apenas começando — isto é, como colocar economicamente os meios a serviço dos fins.  Isso só pode ser feito com algum tipo de cálculo econômico.  A mente humana não é capaz de se orientar a si própria adequadamente ao longo de toda a atordoante massa de produtos intermediários, bem como dentre todas as potencialidades de produção, sem tal ajuda.  Ela simplesmente se quedaria perplexa ante os problemas de gerenciamento e ambientação. [10]

É uma ilusão imaginar que, em um estado socialista, o cálculo in natura pode substituir o cálculo monetário.  O cálculo in natura, em uma economia sem trocas, pode abranger somente os bens de consumo; ele fracassa completamente quando tem de lidar com bens de ordem mais alta.  E tão logo se abandone a idéia de preços monetários livremente estabelecidos para os bens de ordem mais alta, a racionalidade na produção se torna completamente impossível.  Qualquer medida que nos afaste da propriedade privada dos meios de produção e do uso do dinheiro, também nos afasta da racionalidade econômica.

É fácil negligenciar este fato quando consideramos que o grau de socialismo genuíno à nossa volta constitui apenas uma ilha de socialismo em meio a uma sociedade com trocas monetárias — e que ainda é uma sociedade livre, até certo ponto.  De certo modo, podemos concordar com a afirmação dos socialistas —  afirmação essa que, em outros contextos, é totalmente insustentável e defendida apenas por motivos demagógicos — de que a estatização de empresas não representa de fato o socialismo, uma vez que essas empresas são tão dependentes do sistema econômico e do livre comércio que as cercam, que não se poderia dizer que elas representam uma economia essencialmente socialista.

Aperfeiçoamentos técnicos estão sendo introduzidos em empresas estatais porque tais aperfeiçoamentos foram adotados por empresas privadas similares — domésticas ou estrangeiras — com bons resultados, e também porque as indústrias privadas que produzem os materiais para esses aperfeiçoamentos fomentam sua introdução.  Nessas empresas, as vantagens da reorganização podem ser verificadas porque elas operam dentro da esfera de uma sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção e no sistema monetário de trocas, sendo assim capazes de calcular e contabilizar.  Essa situação, entretanto, não seria predominante no caso de empresas socialistas operando em um ambiente puramente socialista.

Sem o cálculo econômico não pode existir uma economia.  Portanto, em um estado socialista no qual o cálculo econômico é impossível, não pode existir — no nosso sentido do termo — qualquer economia.  Em questões triviais e secundárias, a conduta racional poderia ainda ser possível, mas em termos gerais seria impossível falar de produção racional.  Não haveria meios de se determinar o que seria racional; e, sendo assim, é óbvio que a produção jamais poderia ser guiada por meras considerações econômicas.  O que isso significa — além dos efeitos sobre a oferta de mercadorias — está muito claro: a conduta racional estaria completamente divorciada de seu âmbito apropriado.  Mas será que de fato existe algo como ‘conduta racional’, ou, mais ainda, algo como racionalidade e lógica dentro de nossas noções e reflexões?  Historicamente, a racionalidade humana é um desenvolvimento da vida econômica.  Poderia aquela prevalecer se divorciada desta? Se tal evento acontecesse, como seria?

Por algum tempo, a memória da experiência adquirida com a economia competitiva — que, afinal, é o sistema dominante há alguns milhares de anos — poderia adiar um pouco o completo colapso da economia.  Os antigos métodos de procedimento poderiam ser mantidos, não por causa de sua racionalidade, mas porque aparentariam já estarem consagrados pela tradição.  Após algum tempo, esses métodos se tornariam irracionais, pois não mais seriam compatíveis com as novas condições.  Eventualmente, por causa da reconstrução generalizada do pensamento econômico, eles sofreriam alterações que os tornariam de fato antieconômicos.  A oferta de bens não mais prosseguiria anarquicamente por si só, como atualmente.  Todas as transações com o propósito único de satisfazer as necessidades mútuas estariam sujeitas ao controle de uma autoridade suprema.  Assim, em lugar de haver um método “anárquico” de produção, todos os recursos estariam entregues à produção irracional de maquinarias despropositais.  As engrenagens iriam girar, mas sem efeito algum.

Pode-se antecipar qual será a natureza da futura sociedade socialista.  Haverá centenas de milhares de fábricas em operação.  Poucas estarão produzindo bens prontos para seu uso final; na maioria dos casos, o que será manufaturado serão bens inacabados e bens de produção.  Todas essas empresas serão inter-relacionadas.  Cada bem passará por uma série de estágios de produção antes de estar pronto para uso.  Entretanto, nesse ininterrupto, monótono e repetitivo processo, a administração estará sem quaisquer meios de avaliar a eficácia de sua produção.  Ela nunca poderá determinar se um dado bem ficou ou não por um tempo desnecessariamente longo em sua linha de produção, ou se houve desperdício de trabalho e materiais durante a manufatura.  Ademais, como poderá ela determinar qual dos inúmeros métodos de produção é o mais lucrativo?  Na melhor das hipóteses, ela poderá apenas comparar a qualidade e a quantidade do produto final produzido, mas, somente em casos extremamente raros poderá comparar as despesas acarretadas pela produção.

Ela saberá, ou pensará que sabe, os fins a serem alcançados pela organização econômica, e terá de regular suas atividades correspondentemente — isto é, ela terá de atingir esses fins com o menor gasto possível.  Ela terá de fazer suas estimativas na esperança de encontrar o método mais barato.  Essa estimativa terá naturalmente de ser uma estimativa de valor.  E a esta altura já está eminentemente claro — e não se faz necessário qualquer prova adicional — que tal estimativa não tem como ser de caráter técnico e tampouco pode se basear no valor objetivo do uso de bens e serviços.

Por outro lado, no sistema econômico de propriedade privada dos meios de produção, o sistema de estimativa se dá pelo cálculo de valor, e este é necessariamente empregado por cada membro independente de uma sociedade.  Todos participam desse processo em uma via de mão dupla: de um lado, como consumidor; do outro, como produtor.  Como consumidor, o indivíduo estabelece uma escala de valoração para os bens que estão prontos para o consumo final.  Como produtor, ele arranja os bens de ordem mais alta de modo a gerarem o maior retorno possível na produção destes bens que os consumidores querem.  Dessa forma, todos os bens de ordem mais alta são posicionados na escala de valorações de acordo com o estado atual das condições de produção e de acordo também com as necessidades sociais.  Através da interação desses dois processos de valoração, os meios serão capazes de reger tanto o consumo como a produção, por todo o sistema econômico. Todo o sistema de precificação é um sistema de graduações, e tal sistema deriva do fato de que os homens sempre harmonizaram, e sempre harmonizarão, suas próprias necessidades com suas estimativas acerca dos fatos econômicos.

Tudo isso está necessariamente ausente em um estado socialista.  A administração pode até saber exatamente quais bens são os mais urgentemente necessitados, mas esse é somente um dos dois pré-requisitos necessários para o cálculo econômico.  E, pela natureza do socialismo, a administração terá de renunciar a esse outro pré-requisito — a valoração dos meios de produção.  Ela pode chegar a estabelecer algum valor para a totalidade dos meios de produção; este valor será obviamente idêntico ao valor dado a todas as necessidades satisfeitas.  Ela também poderá calcular o valor de qualquer meio de produção estimando quais serão as consequências para a satisfação das necessidades caso esses meios sejam retirados.  Todavia, a administração não poderá fazer com que esse valor seja expresso uniformemente na forma de um preço monetário, como o faz uma economia competitiva, onde todos os preços podem ser representados por meio de uma expressão comum em termos de dinheiro.  Em uma sociedade socialista, embora ela não tenha por necessidade que abolir todo o dinheiro, seria impossível utilizá-lo para expressar os preços dos fatores de produção (incluindo a mão-de-obra).  O dinheiro não terá função alguma no cálculo econômico.[11]

Imagine a construção de uma nova ferrovia.  O primeiro passo seria responder às seguintes questões: será que ela deve ser construída e, em caso positivo, quantas, dentre um número de trechos concebíveis, deveriam ser construídas?  Em uma economia monetária e competitiva, essas dúvidas seriam resolvidas pelo cálculo monetário.  A nova ferrovia iria baratear o transporte de alguns bens e seria possível calcular se tal redução de custos de transporte supera os custos envolvidos na construção e manutenção de uma outra ferrovia.  Tudo isso só pode ser calculado em termos monetários.  Não é possível chegar a alguma conclusão simplesmente contrabalanceando o consumo de equipamentos e o estoque de equipamentos.  Quando passa a não ser possível expressar ferro, carvão, horas de trabalho e todos os tipos de materiais de construção, de máquinas e outras coisas necessárias para a construção e manutenção da ferrovia em termos de alguma unidade comum, então não mais é possível fazer qualquer tipo de cálculo.  A contabilização de despesas, em termos econômicos, somente é possível quando todos os bens e serviços podem ser aludidos em termos monetários.  É fato que o cálculo monetário tem suas inconveniências, bem como sérios defeitos, mas certamente não temos nada melhor para colocar em seu lugar; e, para os propósitos práticos da vida, o cálculo monetário como o conhecemos, em um sistema monetário sólido, sempre será suficiente.  Tivéssemos de aboli-lo, qualquer sistema econômico baseado no cálculo se tornaria absolutamente impossível.

A sociedade socialista saberia como se virar.  Assim, provavelmente ela iria emitir algum decreto decidindo se tal construção deveria ou não ser realizada.  Entretanto, essa decisão iria, na melhor das hipóteses, depender de estimativas vagas; ela jamais seria fundamentada em algum cálculo exato de valor.

O estado estático pode dispensar o cálculo econômico porque nele os mesmos eventos da vida econômica ocorrem repetidamente; e se pressupormos que o primeiro arranjo de uma economia socialista estática será baseado no estado final em que se encontrava a economia competitiva, podemos até conceber — de um ponto de vista econômico — um sistema de produção socialista racionalmente controlado.  Mas isso é possível apenas conceitualmente.  Por ora, deixaremos de lado o fato de que um estado estático é algo impossível na vida real, uma vez que os dados econômicos estão em constante mudança.  (A natureza estática da atividade econômica é apenas uma suposição teórica que não corresponde a nenhuma situação real, por mais necessária que possa ser para o nosso raciocínio e para o aperfeiçoamento do nosso conhecimento econômico).

Ainda assim, é correto supor que a transição para o socialismo irá — como consequência do nivelamento das diferenças de renda e dos reajustes no consumo, e consequentemente da produção — alterar todos os dados econômicos de tal modo que um elo com o estado final em que se encontrava a economia competitiva seria algo impossível.  Mas aí então teríamos o espetáculo de uma ordem econômica socialista sem a bússola do cálculo econômico, o que a faria se debater em meio a um vasto oceano de combinações econômicas possíveis e concebíveis.

Portanto, em um estado socialista, cada mudança econômica se torna um empreendimento cujo sucesso não pode nem ser estimado antecipadamente e nem ser determinado retroativamente.  Há apenas movimentos cegos.  O socialismo é a abolição da racionalidade econômica.



[5] [Por “ordem mais baixa”, Mises se refere aos bens de consumo final, e por “ordem mais alta”, àqueles utilizados na produção.][6] Aplicando-se esse termo, é claro, apenas no sentido do agente que avalia, e não em um sentido objetivo e universalmente aplicável.

[7] Franz Cuhel, Zur Lehre von den Bedürfnissen (Innsbruck: Wagner’ssche Universität-Buchhandlung, 1907), pp.198 f.

[8] Cf. Friedrich von Wieser, Über den Ursprung und die Hauptgesetze des wirtschaftlichen Eertes (Viena: A. Hölder, 1884), pp. 185 f.

[9] Cf. Mises, Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel (Munich and Leipzig: Duncker & Humblot, 1912), p. 16, com as referências ali fornecidas. [Ver a tradução de H.E. Batson, The Theory of Money and Credit (Indianapolis: Liberty Classics, 1980), p. 52.]

[10] Friedrich von Gottl-Ottlilienfeld, Wirtschaft und technik (Grundriss der Sozialökonomik, Seção II; Tübingen: J.C.B. Mohr, 1914), p. 216.

[11]  Esse fato também é reconhecido por Otto Neurath (Durch die Kriegswirtschaft zur Naturalwirtschaft[Munique: G.D.W. Callwey, 1919], pp. 216 f.).  Ele defende a idéia de que toda economia completamente administrativa é, em última instância, uma economia natural.  “A socialização”, diz ele, “é portanto a busca pela economia natural”. Neurath meramente ignora as insuperáveis dificuldades que seriam inerentes ao cálculo econômico em uma sociedade socialista.

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.