O Essencial von Mises

0
Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Capítulo XI. A saída: um futuro promissor

 

Há sinais cada vez mais promissores de que o isolamento das ideias e contribuições de Ludwig von Mises vem sendo rapidamente superado. Por outro lado, as contradições internas e as consequências funestas dos falsos rumos tomados pelas ciências sociais e pela política tornaram-se cada vez mais evidentes nos últimos anos[18]. Na Europa oriental, a notória incapacidade dos governos comunistas de planejar suas economias gerou um movimento em direção a um mercado livre. Nos Estados Unidos e no Ocidente em geral, as panacéias keynesianas e inflacionistas revelaram sua falência básica. O colapso das políticas apregoadas por Keynes, ao lado das falhas evidentes da teoria deste autor, tem sido a fonte de uma inquietação crescente em relação a toda a estrutura keynesiana. Os flagrantes esbanjamentos dos gastos governamentais e o domínio da burocracia evidenciam, de maneira severa, a improcedência da famosa afirmativa de Keynes de que não importa que o governo gaste recursos em bens produtivos ou em pirâmides. O irremediâvel colapso da ordem monetária internacional obriga os governos pós-keynesianos de todo o mundo a desviarem-se de uma crise para outra, entre duas “soluções” insatisfatórias: taxas de câmbio flutuantes para papéis-moeda sem lastro, ou taxas de câmbio fixas amparadas por controles cambiais que prejudicam o comércio exterior e o investimento estrangeiro.

A crise do keynesianismo deve ser considerada no âmbito do quadro mais geral de uma crise de estatismo e de intervencionismo, tanto no plano das ideias como no das ações. Nos Estados Unidos, o moderno “liberalismo” estatista mostrou-se incapaz de enfrentar a crise que ele mesmo criara: o confllto de blocos militares nacionais, financiamento, conteúdo, pessoal e estrutura das escolas públicas, com a inflação permanente e a crescente resistência da população a impostos confiscatórios e prejudiciais. O moderno estado provedor-militarista vem sendo cada vez mais contestado justamente em seu caráter tanto provedor quanto militarista. Na esfera da teoria, há uma crescente rebelião contra a ideia de que uma elite de tecnocratas “científicos” nos deva manipular como matérias-primas de sua engenharia social. Por sua vez, a ideia de que o governo pode e deve compelir países subdesenvolvidos e desenvolvidos a um “crescimento econômico” artificial vem sendo também cada vez mais combatida.

Por toda parte, em suma, em todas as áreas de pensamento e ação, o estatismo moderno que Ludwig von Mises combateu toda a sua vida vem sendo alvo de um cada vez mais intenso fogo cerrado de críticas e desilusões. Os homens já não estão dispostos a se submeter docilmente aos decretos e ditames dos seus pretensos “soberanos” governantes. Mas o problema é que o mundo só conseguirá escapar ao miasma estatista quando puder encontrar uma alternativa viável e coerente. O que ainda não compreendemos plenamente é que esta alternativa já nos foi oferecida por Ludwig von Mises. Ele nos oferece a saída da crise e dos dilemas que se abateram sobre o mundo moderno: durante toda a sua vida, previu e mostrou as razões da desilusão que hoje experimentamos e forjou laboriosamente o construtivo caminho alternativo que devíamos seguir. Não é de espantar que seja cada vez maior o número de pessoas que vêm descobrindo e adotando esse caminho.

No prefácio (1962) à tradução inglesa de seu Liberalismus, Mises escreveu:

Quando, há trinta e cinco anos atrás, procurei elaborar uma síntese das ideias e princípios da filosofia social a que outrora chamavam liberalismo, não alimentava vã esperança de que minha exposição evitaria a iminente catástrofe a que as políticas adotadas pelas nações européias manifestamente conduziam. Tudo o que esperava era oferecer à pequena minoria das pessoas que pensam uma oportunidade de aprender alguma coisa sobre os objetivos do liberalismo clássico e sobre suas realizações, preparando, assim, o caminho para uma ressurreição do espírito de liberdade depois da derrocada que se aproxima. [19]

Em seu tributo a Mises, Jacques Rueff declarou: ( … ) Ludwig von Mises foi a salvaguarda dos fundamentos de uma ciência econômica racional ( …,Com seus ensinamentos, lançou as sementes de uma regeneração que frutificará assim que os homens voltem a preferir as teorias verdadeiras às agradáveis.

Quando esse dia chegar, todos os economistas reconhecerão que Ludwig von Mises merece sua admiração e gratidão.[20]

Multiplicam-se os sinais de que a derrocada e o colapso do estatismo estão de fato propiciando essa regeneração, e de que a minoria pensante que Mises esperava atingir cresce rapidamente. Se estivermos de fato no limiar de um renascimento do espírito de liberdade, este próprio renascimento será, então, o monumento que coroará a vida e o pensamento de um nobre e magnífico homem.

 

[18] Para uma interpretação filosófica da rejeição e menosprezo generalizados de que Mises foi objeto, ver Murray N. Rothbard, “Ludwig von Mises an the Paradigm for Our age”, Modern Age, outono de 1971, pp. 370-79.

[19] Mises, Liberalismus, pp. Xiv-xv.

[20] Ruef, Intrasigence, p. 16.