O Essencial von Mises

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Capítulo IV. Mises e o ciclo econômico

Em The Theory of Money and Credit, já estavam presentes pelo menos os rudimentos de outro magnífico feito de Ludwig von Mises: a explicação, há tanto tempo buscada, do misterioso e inquietante fenômeno do ciclo econômico. Desde a expansão da indústria e da economia de mercado no final do século XVIII, observara-se que esta última está sujeita a uma série aparentemente infindável de períodos de prosperidade e de depressão, a expansões que por vezes crescem progressivamente rumo a uma inflação desenfreada ou a graves pânicos e depressões. Os economistas propuseram muitas explicações, mas mesmo a melhor delas apresentava uma falha básica: não procurava integrar a explicação do ciclo econômico à análise geral do sistema econômico, à teoria “micro” dos preços e da produção. De fato era difícil fazê-lo, visto que, segundo a análise econômica geral, a economia de mercado tende ao “equilíbrio”, com pleno emprego, com o mínimo de erros de previsão etc. Por que, então, sucessão contínua de períodos de prosperidade e de depressão?

Ludwig von Mises percebeu que, como a economia de mercado não podia gerar, por si mesma, um ciclo ininterrupto de períodos de prosperidade e de depressão, a explicação deveria estar fora do mercado: em alguma intervenção externa. Montou sua notável teoria do ciclo econômico com base em três elementos até então desconexos. Um deles foi a demonstração ricardiana do modo como governo e sistema bancário usualmente expandem a moeda e o crédito, impelindo os preços para cima (a prosperidade) e provocando uma evasão do ouro, com a subsequente contração da moeda e dos preços (a depressão). Mises se deu conta de que a abordagem de Ricardo, embora constituísse um excelente modelo preliminar, não explicava de que modo o sistema de produção era profundamente afetado pela rápida expansão econômica, ou por que a depressão era inevitável nesse caso. Outro elemento foi a análise böhm-bawerkiana do capital e da estrutura da produção. O terceiro foi a explanação do “austríaco” sueco Knut Wicksell sobre a importância que tinha para o sistema produtivo e para os preços uma defasagem entre a taxa de juros “natural” (a que não sofre a interferência da expansão do crédito bancário) e a taxa que é efetivamente afetada por empréstimos bancários.

Fundamentado nessas três teorias, importantes mas dispersas, Mises elaborou sua brilhante teoria do ciclo econômico. Ao funcionamento harmonioso e fluente da economia de mercado, juntou-se a expansão do crédito e da moeda bancária, incentivada e promovida pelo governo e seu banco central. Os bancos, à medida que expandem a oferta de moeda (em papel-moeda ou em depósitos) e emprestam o novo dinheiro às empresas, empurram a taxa de juros para um nível inferior ao da taxa “natural” de preferência temporal, ou seja, ao da taxa do mercado livre que reflete as proporções voluntárias entre consumo e investimento por parte da população. Quando a taxa de juros é artificialmente rebaixada, o empresariado recorre ao novo dinheiro e expande a estrutura de produção, promovendo um aumento do investimento de capital, sobretudo nos processos de produção “remotos”: projetos a longo prazo, maquinarias, matérias-primas industriais e assim por diante. O novo dinheiro é utilizado para elevar salários e outros custos e para transferir recursos para essas ordens de investimento “remotas” ou “superiores”. Assim, quando recebem o novo dinheiro, os trabalhadores e demais participantes da produção, cujas taxas de preferência temporal permaneceram inalteradas, gastam-no nas proporções anteriores. Mas isso implica que a população não economizará o bastante para adquirir os investimentos da nova “ordem superior”, tornando-se o colapso desses negócios e investimentos inevitável. A recessão, ou depressão, é, portanto, encarada como um reajustamento inevitável do sistema de produção, mediante o qual o mercado procede à liquidação dos superinvestimentos irrealistas da repentina alta inflacionária e retorna à proporção de consumo/investimento preferida pelos consumidores.

Desse modo, Mises integrou, pela primeira vez, a explicação do ciclo econômico à análise microeconômica geral. A expansão inflacionária da moeda pelo sistema bancário submetido à direção governamental provoca superinvestimento nas indústrias de bens de capital e subinvestimento em bens de consumo, sendo a “recessão”, ou “depressão”, o processo necessário pelo qual o mercado liquida as distorções do período de expansão rápida e retorna ao sistema de produção do mercado livre, organizado para atender os consumidores. A recuperação é alcançada quando esse processo de ajustamento se completa. No tocante à política governamental, as conclusões acarretadas pela teoria misesiana são diametralmente opostas às que estão hoje em voga, sejam “keynesianas” ou “pós-keynesianas”. Para o caso de o governo e seu sistema bancário estarem inflacionando o crédito, Mises propõe a seguinte receita: (a) parar imediatamente de inflacionar, e (b) não interferir no processo recessivo de ajustamento, não apoiar falsos padrões salariais, preços, consumo ou investimentos, de modo a permitir que o necessário processo de liquidação faça seu trabalho tão rápida e suavemente quanto possível. Caso a economia já esteja em recessão, a receita é a mesma.