O medo é um monstro viral

2
Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Ler o livro do falecido Hans Rosling de 2018, Factfulness, durante o verão de 2020 cria uma sensação de surrealismo que estaria ausente se eu tivesse lido esta obra em 2018 ou 2019. Em quase todas as páginas de Factfulness Rosling acaba com o mito popular de que nós, cidadãos da modernidade, enfrentamos calamidades iminentes que destruirão a nós e à Terra. Temores generalizados – como a superpopulação, o terrorismo e os ricos ficando mais ricos enquanto os pobres estagnam – são metodicamente revelados como totalmente injustificados ou exorbitantemente exagerados.

Mas hoje, em meio as quarentenas em curso e sem fim à vista pela histeria do COVID, eu perdi todo o otimismo natural que há muito residia dentro de mim e que de outra forma teria sido fortalecido pelo esplêndido trabalho de Rosling.

Marretada

A imagem que sempre me vem à cabeça é a de uma marreta. Com força bruta, um instrumento rude e pesado foi lançado contra a sociedade pelo estado. Marretas demolem. Elas destroem. Essa é a sua única função. Elas não constroem. E enquanto o peso terrível desta marreta em particular – o macete maciço que é o lockdown COVID-19 – continuar a esmagar os escombros que causou, haverá muito pouca oportunidade para a criatividade humana e o esforço de trabalho desencadeado pelos mercados para trazer o tipo de melhorias que Rosling documenta.

A humanidade vai se recuperar? Será que nós – quando a marreta for levantada – nos levantaremos, sacudiremos a poeira e voltaremos para o caminho feliz em que estávamos antes de março de 2020? Claro que é possível. Mas agora existe uma nova realidade que torna uma continuação renovada do progresso pré-COVID muito menos provável: a própria marreta.

Quando esta marreta for retirada de nós, não será erguida por muito tempo. Agora sabemos que este terrível martelo está lá, pairando sobre nossas cabeças. Temos bons motivos para nos preocupar que os funcionários públicos provavelmente nos esmaguem quando outro patógeno transmissível surgir e virar notícia – como tal patógeno inevitavelmente fará, pois os patógenos virais fazem parte da existência humana desde o início. Como o empreendedorismo e o investimento serão alterados por esta ameaça sempre presente de uma marreta esmagadora? A criação, financiamento e operação de locais nos quais os indivíduos têm contato físico próximo uns com os outros – seja para recreação ou para o trabalho – certamente serão muito menos atraentes.

De modo mais geral, a disposição recentemente demonstrada dos funcionários públicos para destruir, com apenas alguns ditames executivos, centenas de bilhões de dólares de valor de capital não pode deixar de empurrar alguns empresários e investidores para a inatividade. Por que construir, ou construir grandiosamente, quando algum governador ou prefeito pomposo – alguém cuja única ‘habilidade’ e vontade mais intensa é exercer poder sobre outros seres humanos – pode, com uma mera assinatura, dar uma marreta e transformar em escombros os frutos de anos de sacrifício e trabalho árduo?

E como os que estão no poder – e os que buscam o poder – serão afetados pela demonstração que tantas pessoas deram de possuírem uma disposição bovina de serem condenadas pelo Estado à prisão domiciliar? Será que os primeiros-ministros, governadores e prefeitos sabiam em meados de março como seria fácil para eles afastar milhões de nós das atividades que nós, seres humanos, desfrutamos por gerações? Estavam esses políticos cientes de seu poder de convencer tantas pessoas sob seu comando de que cada indivíduo representa uma ameaça venenosa para todos os outros?

Para prosperar, nós, seres humanos, devemos cooperar na produção – Adam Smith chamou isso de divisão do trabalho – e no comércio extensivamente. A maioria dessas atividades requer contato face a face entre indivíduos que se vêem como parceiros de cooperação e intercâmbio, em vez de ameaças de morte. E para desfrutar o que produzimos também exige contato face a face, pois somos uma espécie social.

De posse de um poder ditatorial desconhecido há apenas alguns meses, os agentes do estado – um grupo que não merece muita confiança, mesmo nos melhores tempos – não se intimidarão em exercer seus poderes recém-descobertos. Os resultados serão horríveis.

Atento ao Medo

Ironicamente, em seu livro otimista, o próprio Hans Rosling oferece, sem querer, uma justificativa para meu pessimismo. Ele faz isso em um capítulo intitulado “The Fear Instinct”. Aqui está uma passagem importante:

Quando temos medo, não vemos claramente…. O pensamento crítico é sempre difícil, mas é quase impossível quando estamos com medo. Não há espaço para fatos quando nossas mentes estão ocupadas pelo medo.

Essa realidade inegável significa que um povo com medo é um povo que dificilmente avaliará com muita racionalidade os prós e os contras das políticas governamentais. E quanto maior o medo, menos capazes serão as pessoas de detectar e resistir aos excessos do governo.

Quem é tão ingênuo a ponto de negar que esta realidade dá aos governantes fortes incentivos para despertar o medo? Pessoas que buscam posições de poder político geralmente são pessoas que, por essa mesma busca, revelam que estão especialmente interessadas em exercer poder sobre seus semelhantes. E assim, se mais poder para o estado cresce a partir de mais medo das pessoas, os agentes do estado terão todos os incentivos para exagerar os perigos reais e inventar outros falsos.

O resultado é um ciclo vicioso. A posse de poder inclui uma capacidade desproporcionalmente grande de despertar o medo, e o medo despertado cria mais poder.

Além disso, as percepções de Rosling sobre a mídia implicam que ela contribui para esse ciclo vicioso. Aqui está Rosling:

Temos um escudo, ou filtro de atenção, entre o mundo e nosso cérebro. Este filtro de atenção nos protege contra o barulho do mundo: sem ele, seríamos constantemente bombardeados com tantas informações que ficaríamos sobrecarregados e paralisados…. A maioria das informações não passa, mas os buracos [em nosso filtro de atenção] permitem a passagem de informações que apelam aos nossos instintos dramáticos. Assim, acabamos prestando atenção às informações que se encaixam em nossos instintos dramáticos e ignorando as que não se encaixam.

A mídia não pode perder tempo com histórias que não passam por nossos filtros de atenção.

Aqui estão algumas manchetes que não passarão pelo editor de um jornal, porque é improvável que passem pelos nossos próprios filtros: “MALÁRIA CONTINUA A DECLINAR GRADUALMENTE.” “OS METEOROLOGISTAS PREVIAM CORRETAMENTE ONTEM QUE HAVERIA UM CLIMA AMENO EM LONDRES HOJE.” Aqui estão alguns tópicos que passam facilmente por nossos filtros: terremotos, guerra, refugiados, doenças, incêndios, inundações, ataques de tubarão, ataques terroristas. Os eventos incomuns são mais noticiáveis do que os comuns.

Um vírus invisível é o desordeiro perfeito para ser retratado como um monstro existencial. Como um espírito maligno, ele pode viver, geralmente silenciosamente, dentro do peito de cada um de nós. E assim, se um número grande o suficiente de nós puder ser convencido de que um monstro vil e invisível se esconde em todos os outros, o medo generalizado resultante capacita agetes do estado a fazer o que os agentes do estado fazem de melhor – e o que eles fizeram de forma tão horrível nos últimos cinco meses: destruir.

 

Artigo original aqui.

2 COMENTÁRIOS