O verdadeiro significado de inflação

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Uma característica distintiva dos economistas da chamada “Escola Austríaca de Economia” é que eles defendem uma teoria monetária consideravelmente diferente da dos seus colegas das outras escolas de pensamento econômico.

As diferenças entre as referidas abordagens já começam na própria definição da palavra inflação e esse será o tema principal do presente artigo.

Primeiramente vamos ver qual a definição mainstream de inflação. Segundo Mankiw (2013) inflação é:

“um aumento do nível geral de preços da economia” (MANKIW, 2013, p. 15).

Outros economistas do mainstream econômico que também definem de forma similar são, por exemplo, Olivier Blanchard (2007) e Thomas Sowell (2018).

De acordo com a visão mais aceita dentro da academia, a expansão monetária elevada é, na verdade, apenas uma das possíveis diversas causas da inflação.

Por outro lado, a maioria dos economistas austríacos optam por utilizar a definição original da palavra inflação e, portanto, afirmam que a inflação não é o aumento no “nível” geral dos preços e sim a própria expansão monetária. Isso fica claro no artigo intitulado “O básico sobre inflação”, de autoria do economista e jornalista norte-americano Henry Hazlitt, que define da seguinte forma:

Inflação é um aumento na quantidade de dinheiro e de crédito criado em decorrência desta criação adicional de dinheiro.  A principal e mais visível consequência da inflação é a elevação dos preços.  Portanto, uma inflação de preços — atenção para o termo correto — é causada unicamente pelo aumento da quantidade de dinheiro na economia.

Como podemos observar, o autor americano diz que a elevação dos preços é apenas uma das consequências da Inflação e o que causa a inflação de preços (que o mainstream chama apenas de inflação) é a expansão monetária.

O Nobel em Economia no ano de 1974, Friedrich August von Hayek (1899-1992), também utiliza a definição original de inflação:

Há muita confusão nas discussões atuais, em função do uso frequentemente inadequado da palavra “inflação”. Seu significado original e adequado é este: um aumento excessivo da quantidade de dinheiro que, por sua vez, determina um aumento de preços. Um aumento geral de preços, porém, causado, por exemplo, por uma escassez de alimentos decorrente de más colheitas não é inflação. Tampouco poderíamos apropriadamente chamar de “inflação” a uma alta generalizada de preços causada por uma escassez de petróleo, ou de outras fontes de energia, que determinasse uma redução absoluta de consumo, a menos que essa carência se transformasse em pretexto para um aumento adicional da quantidade de dinheiro (HAYEK, 2011, p. 66).

Ludwig von Mises (2010) acredita que um dos principais problemas dessa mudança de significado da palavra inflação é que essa revolução semântica gera uma perigosa confusão entre causa e efeito. O austríaco ainda argumenta que esta revolução é uma das principais características de nossos dias e que devido a ela hoje muitos abandonaram o significado original de inflação. É certo que a referida revolução tenha obtido grande êxito, já que a grande maioria do público leigo e mesmo diversos economistas (mesmo alguns se dizem austríacos) passaram a definir inflação ou deflação não com um grande aumento ou redução da oferta de moeda e sim como a sua mais visível consequência: a tendência generalizada de aumento ou redução dos preços (MISES, 2010).

Mises segue argumentando que essa revolução representa um papel importante na popularização do inflacionismo. Um significativo inconveniente da definição mainstream consiste no fato de que muitos inflacionistas passam a dizer que combatem a inflação, quando na verdade eles a estão a fomentando (MISES, 2010).

Observe que, se a inflação for definida como o aumento generalizado dos preços, então é plenamente possível que um leigo seja convencido de que isso é culpa da ganância e oportunismo dos empresários que querem lucros cada vez maiores. Entretanto, se a inflação é reconhecida em sua definição correta, isto é, sendo ela uma enorme expansão da oferta monetária, então a culpa recai sobre os governos e seus respectivos bancos centrais por abusarem do monopólio sobre a moeda. Repare que não é incomum ver políticos e até mesmo economistas defendendo que não existe relação entre a expansão monetária e o aumento generalizado dos preços.

Outro problema que os austríacos apontam na definição mainstream de inflação é que ela fala sobre um suposto “nível” de preços (algo que não existe no mundo real), e como já havia observado o professor Mises (2009), quando se fala em nível de preços a imagem que a maioria das pessoas tem é:

“a de um líquido que sobe ou desce, segundo o aumento ou a redução de sua quantidade, mas que, como um líquido num reservatório, eleva-se sempre por igual.” (MISES, 2009, p. 64).

Porém, nada poderia ser mais falso, pois os preços não se alteram na mesma medida e muito menos todos ao mesmo tempo. O que acontece é que as pessoas que recebem o dinheiro novo primeiro, terão um aumento temporário do poder de compra, à custa daqueles recebem por último. Os preços também não subirão de forma igual, como muitos acreditam, já que as pessoas que recebem o dinheiro primeiro irão gastar com bens específicos, o que faz com que os preços de alguns bens e serviços subam mais que outros.

Essa visão austríaca pode ser resumida na seguinte passagem do professor Ubiratan Jorge Iorio (2011):

A ideia central é que o dinheiro novo entra em um ponto específico do sistema econômico e, sendo assim, ele é gasto em certos bens e serviços específicos, até que, gradualmente, vai-se espalhando por todo o sistema, assim como um objeto qualquer, ao ser atirado na superfície de um lago, forma círculos concêntricos com diâmetros progressivamente maiores, ou como quando se derrama mel no centro de um pires e ele vai-se espalhando a partir do montículo que se forma no ponto em que está sendo derramado (analogias, respectivamente, de Mises e Hayek). Por isso, alguns gastos e preços mudam antes e outros mudam depois e, enquanto a mudança monetária – digamos, uma expansão do crédito – for mantida, sua irradiação para gastos e preços persiste em movimento (IORIO, 2011, p. 134).

Além disso, é importante atentarmos para o fato de que, por causa de sua definição equivocada de inflação, o mainstream age como se o índice de preços fosse o principal problema de se emitir grandes quantidades adicionais de dinheiro. Todavia, como mostrado por F. A. Hayek, Murray Rothbard, Jesús Huerta de Soto (2012) e Ludwig von Mises (2010), esses índices não são os únicos pontos os quais devemos observar. Existem diversos outros problemas causados pela expansão monetária.

O economista austríaco F. A. Hayek argumenta que a maioria dos economistas se concentram em demasia no nível geral de preços e não prestam atenção nos preços relativos, ou seja, em como o preço de bem A pode impactar no bem B considerando ambos dentro de uma mesma cadeia produtiva. Para Hayek, as distorções nos preços relativos vão causar uma desarticulação no processo de formação de capital. Como resultado, teremos má alocação dos recursos escassos.

Portanto, para que possamos realmente compreender os reais problemas causados pela inflação, é necessário que dominemos o tema, sabendo principalmente o que é e o que não é inflação. Somente desta forma é que conseguiremos seguir uma coerência lógica e assim poderemos abandonar de vez a definição rasa e confusa que o mainstream utiliza para definir a inflação.

 

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REFERÊNCIAS:

BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. Tradução de Cláudia Martins e Mônica Rosemberg. 4. ed. São Paulo: Prentice-Hall, 2007

DE SOTO, Jesús Huerta: Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos. Tradução de Márcia Xavier de Brito. 1. ed. São Paulo: Instituto Rothbard, 2012.

HAYEK, F. A. von: Desemprego e política monetária. Tradução de Og Francisco Leme. 2. ed. São Paulo: Instituto Rothbard. Brasil, 2011.

IORIO, Ubiratan Jorge. Ação, tempo e conhecimento: A Escola Austríaca de economia. 2. ed. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2011.

MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. Allan Vidigal Hastings, Elisete Paes e Lima, Ez2 Translate. 6. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2013.

MISES, L. H. E. von: Ação Humana: Um tratado de economia. Tradução de Donald Stewart Jr. 3. ed. São Paulo: Instituto Rothbard, 2010.

______ As Seis Lições. Tradução de Maria Luiza Borges. 7. ed. São Paulo: Instituto Rothbard, 2009.

SOWELL, T. Economia Básica: Um guia voltado ao senso comum. Tradução de Carlos Bacci. 5. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018.

2 COMENTÁRIOS

  1. Complementando o artigo, a fim de que o fenômeno “inflação” (monetária) seja devidamente analisado, é fundamental que se busque constantemente descobrir e avaliar todas as formas de “dinheiro” existentes nos mercados mundiais, principalmente aquelas mais exóticas e ocultas (“shadow money”) que escapam à mensuração e controle dos bancos centrais mas que são tão ou mais capazes de produzir efeitos econômicos do que os agregados oficiais compilados oficialmente nas estatísticas de entidades estatais (FRED St Loius; SGS do Bacen):

    https://mises.org/library/securitization-and-fractional-reserve-banking

    https://mises.org/wire/role-shadow-banking-business-cycle

    https://www.ineteconomics.org/uploads/papers/Towards_Theory_Shadow_Money_GV_INET.pdf

    https://www.financialresearch.gov/working-papers/files/OFRwp2014-04_Pozsar_ShadowBankingTheMoneyView.pdf