Por que organizações marxistas como o BLM querem desmantelar a “família nuclear ocidental”

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Um dos objetivos mais citados e criticados da organização Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) é seu desejo declarado de abolir a família como a conhecemos. Especificamente, o site oficial do BLM afirma:

Rompemos o requisito de estrutura familiar nuclear prescrito pelo Ocidente, apoiando uns aos outros como famílias estendidas e “comunidades” que coletivamente cuidam uns dos outros, especialmente nossos filhos, na medida em que mães, pais e filhos se sentem confortáveis.

Essa ideia não é exclusiva do BLM, é claro. “Romper” a “família nuclear” é uma meta comumente declarada entre as organizações marxistas. Dado que os fundadores do BLM alegaram especificamente serem “marxistas treinados“, não devemos nos surpreender que a liderança da organização tenha abraçado uma visão marxista da família.

Mas de onde vem essa hostilidade para com a família? Em parte, vem das próprias teorias de Marx e Engels, e de seus pontos de vista de que uma versão anterior, matriarcal da família rejeitava a propriedade privada como um princípio organizador da sociedade. Só mais tarde é que esse modelo tribal de família mais antigo deu lugar à moderna família “patriarcal”, que promove e mantém a propriedade privada.

É claro que, na visão marxista, esse “novo” tipo de família deve ser combatido, pois a destruição desse modelo de família tornará mais fácil também a abolição da propriedade privada.

Primeiras unidades familiares na vida tribal

O livro de Frederick Engels de 1884, A origem da família, da propriedade privada e do estado, fornece uma perspectiva histórica da visão marxista do desenvolvimento da unidade familiar ocidental moderna e sua relação com os direitos de propriedade. (Engels, é claro, foi o antigo benfeitor e colaborador de Marx.)

Ao reconstruir as origens da família dentro de uma estrutura marxista, Engels remonta ao estágio primitivo “selvagem” da humanidade que, de acordo com sua pesquisa, revelou uma condição em que “relações sexuais irrestritas existiam dentro de uma tribo, de modo que toda mulher pertencia a cada homem, e vice-versa.”

Nessas condições, explicou Engels, “é incerto quem é o pai da criança, mas certo, quem é sua mãe”. Apenas a linhagem feminina pode ser reconhecida. “[Por ser as únicas progenitoras bem conhecidas das gerações mais jovens”, explicou Engels, as mulheres como mães “receberam um alto tributo de respeito e deferência, o que equivale a um governo feminino completo [ginicocracia].”

Além disso, escreveu Engels, as tribos foram subdivididas em grupos menores chamados de “gentes”, uma forma primitiva de uma espécie de família estendida.

Essas gens eram consanguíneas (ou seja, incluíam pessoas descendentes do mesmo ancestral) do lado da mãe, dentro da qual casamentos mistos eram estritamente proibidos. “Os homens de certa ‘gens’, portanto, podiam escolher suas esposas dentro da tribo, e o faziam como regra, mas tinham que escolhê-las fora de sua ‘gens’”, explicou Engels. E o “casamento” nesta fase era um assunto “comunitário”, o que significa que as parcerias múltiplas entre homens e mulheres estavam mais próximas da regra do que da exceção.

Como as mães eram os únicos progenitores que podiam ser determinados com certeza, e as gens menores eram organizadas em torno dos parentes da mãe, as primeiras unidades familiares eram de natureza materna e a lei materna em relação aos direitos e deveres de criação dos filhos e herança era o costume.

Transição para a “família de sindiásmica”                                   

Essa foi a situação por milhares de anos, de acordo com Engels. Com o tempo, no entanto, surgiu o que Engels chamava de “família sindiásmica”, na qual “um homem tinha sua esposa principal … entre muitas mulheres, e ele era para ela o marido principal entre outros.” Em grande parte, isso se devia ao fato de as “gentes” dentro das tribos desenvolverem cada vez mais classes de parentes que não podiam se casar. Devido a essas restrições crescentes, o casamento em grupo tornou-se cada vez mais impossível e cada vez mais substituído pela estrutura familiar sindiásmica.

Sob essa estrutura, no entanto, o papel das mães ainda era dominante. Citando Arthur Wright, um missionário da tribo Iroquois Seneca, Engels observa: “A parte feminina geralmente governava a casa … As mulheres eram o poder dominante nos clãs [gentes] e em todos os outros lugares.”

O fato de que todas as mulheres pertenciam à mesma gens, enquanto os maridos vinham de gens diferentes “foi a causa e o fundamento da supremacia geral e difundida das mulheres nos tempos primitivos”, escreveu Engels.

“Na antiga casa comunista composta por muitos casais e seus filhos, a administração da casa confiada às mulheres era tanto uma função pública, uma indústria socialmente necessária, quanto a obtenção de alimentos pelos homens”, acrescentou.

À medida que a sociedade evoluía, como Engels a descreveu, de “selvageria” para “barbárie”, uma evolução importante foi o desenvolvimento de armas e conhecimentos que o permitiram domesticar e criar animais melhor.

O gado e os animais domésticos tornaram-se uma fonte de riqueza, uma reserva de leite e carne. “Mas quem era o dono desta nova riqueza?” perguntou Engels. “Sem dúvida eram originalmente as gens”, respondeu ele, referindo-se a uma propriedade coletiva ou de grupo sobre as fontes de riqueza. “No entanto, a propriedade privada dos rebanhos deve ter começado cedo.”

“Obter os meios de existência sempre foi assunto do homem. As ferramentas de produção foram fabricadas e possuídas por ele. Os rebanhos eram as novas ferramentas de produção, e seu trabalho era domar e cuidar. Consequentemente, ele possuía o gado e as mercadorias e escravos obtidos em troca deles”, explicou Engels. Essa transição marcou uma passagem inicial da propriedade “coletiva” para a posse “privada” da propriedade – especialmente a propriedade dos recursos produtivos.

Tal transformação, observou Engels, “trouxe uma revolução na família”.

Parte dessa revolução envolveu uma mudança na dinâmica de poder da família.

“Todo o excedente agora resultante da produção passou para a parte do homem. A mulher compartilhava sua fruição, mas não podia reivindicar sua propriedade”, escreveu Engels.

A situação doméstica da mulher na casa, que antes envolvia o controle e distribuição dos meios de subsistência, havia sido revertida.

“O advento do homem à supremacia prática na casa marcou a remoção para sua supremacia universal” e, ainda, deu início à “transição gradual da família sindiásmica para a família monogâmica” (o que consideraríamos a família nuclear).

Com o status superior adquirido, escreveu Engels, os homens foram capazes de derrubar o direito materno à herança, um movimento que ele descreveu como “a derrota histórica do sexo feminino”.

A transição da unidade familiar para um patriarcado centrado no homem foi concluída, de acordo com Engels. Grande parte da culpa por isso pode ser atribuída ao surgimento da propriedade privada e à reivindicação dos homens sobre ela.

Como superar o patriarcado?

Na visão marxista, portanto, a família nuclear moderna vai contra a antiga casa “comunista” que Engels havia descrito anteriormente. É patriarcal e centrado na propriedade privada.

“Na grande maioria dos casos o homem tem que ganhar a vida e sustentar sua família, pelo menos entre as classes possuidoras. Ele assim obtém uma posição superior que não necessita de nenhum privilégio legal especial. Na família, ele é o burguês, a mulher representa o proletariado”. A unidade familiar, em vez da tribo coletiva, tornou-se a “unidade industrial da sociedade”.

A derrubada desse domínio patriarcal só pode ocorrer, de acordo com Engels, com a abolição da propriedade privada dos meios de produção – que ele e aqueles que estão imersos na ideologia marxista culpam pelo patriarcado.

“A revolução [comunista] iminente reduzirá todo essa preocupação com a herança ao mínimo, transformando pelo menos a parte esmagadora da riqueza permanente e herdável – os meios de produção – em propriedade social”, concluiu.

Como seria esse novo arranjo social, de acordo com Engels?

O cuidado e a educação das crianças se tornam um assunto público. A sociedade cuida igualmente bem de todas as crianças, legais ou ilegais. Isso remove a preocupação com as “consequências” que agora constituem o fator social essencial – moral e econômico – que impede uma menina de se entregar incondicionalmente ao homem amado.

Nisto vemos os primeiros ecos do mantra atual da esquerda moderna de atacar o “patriarcado” e a família nuclear como instituições essencialmente capitalistas e baseadas na propriedade privada.

Nisso, o BLM não é diferente de outros grupos marxistas. Os objetivos da organização vão muito além do abuso policial e da brutalidade policial. O objetivo final é a abolição de uma sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção.

 

Artigo original aqui.

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