Posfácio à edição brasileira de VAP

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O livro de 1959 apresenta uma visão antagonista de que a ciência deve se manter sob a égide governamental. Ao longo dos capítulos vemos vários exemplos de como a ciência se não mantida livre, além de menos inovadora e ineficiente do que numa economia de livre mercado, tende a se desvirtuar para um programa de governo e não como a busca pela verdade que toda atividade científica pressupõe.

Como qualquer problema de alocação de recursos, é difícil decidir o quanto e onde alocar recursos, mas isso só se torna possível na medida de que não exista regulamentações, controles e artifícios que distorçam um sistema de preços. Somente através de uma ótica de lucros e perdas num sistema de preços livres que saberemos a verdadeira demanda por pesquisa científica, o salário real de pesquisadores, qual tema ou tópico é mais necessário a ser estudado naquele momento. Todo apologista do estatismo cai na falácia da janela quebrada de Bastiat por defender as coisas pelo status quo e não por fundamentos econômicos, sendo o progresso científico e tecnológico evidentemente incluído na economia. O quanto não haveria de mais dinheiro para P&D caso não houvesse expropriação estatal e sua inerente burocracia para se manter as coisas no “eixo”?

O livro começou a ser escrito em 1957, sendo que pouco após tivemos o lançamento do primeiro satélite artificial, lançado pela URSS, o Sputnik 1 e logo em seguida o primeiro voo tripulado por um ser vivo (a cadela Laika, falecida no teste) no Sputnik 2. Em tal época, a União Soviética e seus massivos esforços para se lançar na ponta de uma corrida espacial, científica e tecnológica dava ares de superioridade do regime socialista perante o bloco capitalista, encabeçado pelos Estados Unidos. O que tivemos da época do livro até hoje? Vejamos, a bem da verdade, por algum tempo a URSS de fato dominou a corrida espacial. Até meados do lançamento da Apollo 1, em 1967, tivemos poucas conquistas estadunidenses, enquanto a URSS dominava missões a Vênus e a Marte. Somente algumas sondas foram enviadas a Marte (Mariner 3 & 4) e a Lua (Pioneer 4) em breves sobrevoos orbitais com mais assertividade por parte dos estadunidenses. No entanto, já se podia notar o esgotamento do programa espacial soviético, principalmente após a ida do homem à Lua com a Apollo 8, algo exclusivo dos americanos e que nenhum país conseguiu repetir até hoje.

De fato, passados mais de 61 anos, alguns trechos do livro no mínimo envelheceram mal. No que tange ao individualismo aplicado à pesquisa científica, isso é quase um ideal suscitado por Rothbard, mas farei uma certa ressalva e até defesa dessa visão: de fato, boa parte da estrutura científica atual gera uma tendência a manter pesquisa científica num patamar que exige um investimento grande.[1]Há até no mainstream algumas críticas ao sistema de peer review e paywall, dado que encarece a ciência como um todo, gera uma reserva de mercado através de vantagem cumulativa – algo análogo ao Efeito Matthews[2] –  periódicos grandes permanecem grandes, pesquisadores de renomes só tendem a ficar mais influentes e importantes, sendo que seja lá quem tente adentrar na academia, tende a se adequar ao consenso e não a manter algo natural no próprio método científico – o contraditorium e o debate de ideias. Há mais uma concentração de ideias com passagem de bastão de orientadores do que de fato novas ideias ou originalidade[3].Sem contar o peso que o mercado de peer review tem, sendo necessário frisar aqui algo que nem todo mundo sabe: normalmente é o pesquisador/seu centro que paga para existir a revisão e publicação do artigo[4].Sem contar as assinaturas para poderem ter acesso ao conteúdo completo das pesquisas, o famigerado paywall.Se você acha que isso não possa ser um incentivo ruim pra produção acadêmica, vejamos o que o prêmio Nobel de Medicina Randy Schekman disse em uma carta aberta criticando periódicos de peso como Nature, Cell e Science:

“[…] Embora publiquem muitos artigos excelentes, eles não publicam apenas artigos excelentes […] Nem são os únicos editores de pesquisas de destaque. Esses periódicos fazem a curadoria agressiva de suas marcas, de maneiras mais propícias à venda de assinaturas do que ao estímulo às pesquisas mais importantes. Como designers de moda que criam bolsas ou ternos de edição limitada, eles sabem que a escassez aumenta a demanda, então restringem artificialmente o número de papers que aceitam. As marcas exclusivas são então comercializadas com um artifício chamado “fator de impacto” – uma pontuação para cada periódico, medindo o número de vezes que seus artigos são citados em pesquisas subsequentes. Melhores artigos, diz a teoria, são citados com mais frequência, portanto, periódicos melhores apresentam pontuações mais altas. No entanto, é uma medida profundamente falha, perseguir o que se tornou um fim em si mesmo – e é tão prejudicial para a ciência quanto a cultura de bônus para os bancos[5].”

Essas críticas modernas ao processo científico podem e devem ser abordadas por austríacos. Um foco mais atual poderia ser direcionado ao modelo chinês de desenvolvimento, que além das críticas do mainstream, ainda permanece viva a ideia que necessariamente maior gasto governamental em P&D se transforme em maior produtividade e maior crescimento econômico. A China não tem uma fama muito boa em relação à ciência e a pandemia de COVID-19 não melhorou isto.[6]Aliás, de fato friso que o modelo chinês se encaixa em muito com o modelo soviético quanto às críticas desse livro, apesar dos pesares. O livro de Rothbard ao meu ver serve muito bem aos propósitos da época (basicamente adicionar uma opinião contrária às viúvas do socialismo soviético, trazendo para a luz da historiografia falaciosa de que governos são a base da pesquisa científica exemplos do contrário), mas infelizmente é curto e datado em alguns trechos, podendo não ir muito além do que defendemos como pró livre mercado de indivíduos na ciência. Principalmente no que tange criticar a pesquisa militar governamental e dar um enfoque maior na participação civil é um baita acerto do livro e antecede uma tendência dos dias de hoje.[7]

Só pontuando, não acredito que haverá cientistas individualmente competindo num livre mercado nem quero fazer parecer que de fato Rothbard defendia algo do tipo, ainda mais no nível de P&D em que estamos. Mas indo além, podemos comparar a atividade de um cientista ( no sentido mais ideal da figura ) como um empreendedor ( não confundir com função empresarial ou empreendedor puro de Kirzner, mas sim no próprio conceito de empreendedor-capitalista rothbardiano que viria a emergir cerca de 16  anos depois ) : ambos precisam de criatividade para explorar o momento e as oportunidades que surgem e não cabem idealismos metafísicos que coloquem categorias econômicas numa superioridade que permitam a esses ter recursos oriundos do roubo e expropriação. Cientista algum está acima de outro agente econômico a ponto de fugir de coisas básicas, como risco e capacidade de financiar projetos. Faço aqui um adendo que ainda não encontrei em um comparativo austríaco: um ponto que poderíamos enfatizar futuramente é o complemento de certos conceitos talebianos[8] sobre atividades econômicas que a teoria austríaca não tem um termo muito bem definido mas que em nada contradiz visão misesiana ou rothbardiana, como por exemplo, “pele em risco” ou skin in the game. Todo ator econômico ou simplificando, empreendedor, possui pele em risco, mesmo que não queira. Na medida que se tenta fugir de suas obrigações é que há ações não válidas tanto na esfera ética (ou seja, agressões) quanto na econômica (fraudes, também não válidas eticamente). Chega a ser engraçado o quanto duas atividades, tão diferentes num primeiro momento, advogam por necessidade de financiamento público: a classe dos artistas e a dos cientistas, onde juntos estão no que pensamos ao imaginar a classe dos intelectuais. Essa suposta “necessidade” sempre cai nessa fuga ao risco e implicitamente em mais expropriação estatal.

Outro tópico que ao meu ver pode ser frutífero ao leitor com viés mais acadêmico é explorar a ciência como empreendedorismo em linha com a Teoria Austríaca do Ciclos Econômicos (TACE), algo que James McClure e David Chandler Thomas já exploraram recentemente, sendo que reproduzo uma parte aqui em tradução livre:

“Em linha com a Teoria Austríaca do Ciclos Econômicos (TACE), desde que esses sinais de mercado de fora do estágio de P&D de novos produtos estejam livres de restrições artificiais ou subsídios, prevemos que o erro empresarial em P&D de novos produtos será limitado o suficiente para impedir booms de mau-investimento (“malinvestiment”). Mas dada a ausência de sinais laterais dentro dos estágios de P&D de novos produtos, novamente sendo consistente com a TACE, há todas as razões para supor que uma expansão excessiva do crédito levará a taxa de juros abaixo da taxa natural e aumentará os erros empresariais em P&D de novos produtos, levando um nível de mau-investimento insustentável e estrondoso[9].”

Já há ares de que o atual sistema não permanecerá tão unânime, ainda mais com sites como arXiv ( onde você pode publicar sua pesquisa livremente, num repositório de acesso aberto, com a desvantagem de não possuir peer review ) ou Sci-Hub ( repositório com  papers de grandes journals pirateados ), sendo assim, sugiro ao padawan libertário que está lendo voltar seus olhares para críticas a China e sua forma ardilosa dentro da academia científica, além de se inteirar de temas como movimentos de free-culture, open-source e anti-propriedade intelectual, pois são tópicos onde há uma superioridade da Teoria Austro Libertária ainda não totalmente explorados  na aplicação para se entender os vieses acadêmicos.

Do mesmo Bastiat citado no início deste artigo, “o que se vê e o que não se vê” no progresso científico patrocinado pelos governos: vemos um grande financiamento, mas não vemos seus efeitos nefastos na totalidade e nem temos como mensurar o quanto outras formas de manter a ciência livre de influência políticas poderão ter resultados mais eficazes; Da mesma forma, vemos o momento como desfavorável ao libertarianismo devido ao crescimento da fé no Estado durante a pandemia, mas olhando em retrospecto, ciência e tecnologia está aos poucos se soltando das amarras estatais, mesmo que de forma lenta.

 

Sorocaba, janeiro de 2021

 

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Notas

[1] Em “Open access: The true cost of science publishing”, artigo de Richard Van Noorden na Nature, há esse comparativo. “Os custos de publicação de pesquisas podem ser muito mais baixos do que as pessoas pensam.”

[2] Ou numa versão do Efeito Matilda “o super-reconhecimento daqueles que estão no topo da profissão científica.”

[3] Há estudos no campo de redes analisando o elo entre pesquisadores influentes e essa herança deixada aos orientandos/alunos. Em economia, particularmente, dá para resumir todos os laureados do Prêmio Nobel como ligados a alunos de Knies ou Leontief.

[4] A cifra atual (início de 2021 ) em periódicos de relevância chegam a 5 mil dólares por artigo revisado, como na Nature.

[5] “How journals like Nature, Cell and Science are damaging science”- no The Guardian. Interessante é que o cientista removeu fisicamente (por assim dizer…) esses periódicos – o laboratório dele boicota essas revistas e se recusa a enviar trabalhos para lá.

[6] A China sofre bastante críticas no ambiente científico devido a casos de fraudes e até acusações de possuir fábricas de papers – literalmente um mercado negro onde se falsifica dados e autoria em artigos nas mais variadas áreas do conhecimento.

[7] Government Spending on “Innovation”: The True Cost Is Higher Than You Think. Peter G. Klein no Mises Institute.

[8] De Nassim Nicholas Taleb. Sobre o tema, recomendo principalmente os livros Arriscando a própria pele: Assimetrias ocultas no cotidiano (2018), onde é mais aprofundado a questão de pele em risco e Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos ( 2012 ) onde há um maior desenvolvimento sobre o empreendedor, mas já adianto que não é nessa abordagem austríaca.

[9] New-Product Research and Development: The Earliest Stage of the Capital Structure – The Quarterly Journal of Austrian Economics 21, No. 1 (2018)