Revivendo a memória dos expurgos stalinistas

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Conforme os anos vão passando, é cada vez mais frequente que pessoas sem caráter busquem torcer fatos históricos afim de dar uma roupagem heroica à indivíduos como Joseph Stálin. Tal estratégia contempla não somente a negação dos crimes cometidos pelo psicopata soviético, como também o enaltecimento das suas supostas conquistas.

Apesar dessas campanhas de desinformação, é uma dádiva o fato de ainda existirem na Rússia testemunhas oculares da tragédia que foi o comunismo, e que buscam eternizar a memória de algumas de suas vítimas. Por serem testemunhas oculares suas declarações estão blindadas da maioria das tentativas de falseamento histórico praticadas pelos stalinistas.

É o caso, por exemplo, do russo George Shajet, cujo avô, “Pavel Zabotin foi morto pelo órgão antecessor da KGB, sendo fuzilado em 1934 pela acusação de ser inimigo do povo.

Temendo que pessoas como Shajet possam tornar-se um estorvo, recentemente a Rússia tem tomado medidas para ocultar informações dos anos de 1937 e 1938, período conhecido como o grande terror, ou grande expurgo. Só nesse lapso temporal o número de pessoas fuziladas foi de mais de um milhão, com quatro milhões indo para trabalhos forçados e mais de seis milhões sofrendo deportação.

Para chegar as identidades das vítimas de Stálin, historiadores como Yan Rachinski e o pesquisador Denis Karagodin vem buscando acesso a documentos dos períodos dos expurgos, mas vem encontrando imensa dificuldade na execução do projeto. O avô de Shajet também foi uma das vítimas do açougue soviético.

Em seu trabalho investigativo, Sergei Prudovski, também historiador, relata que houve um grande número de pessoas ordenadas a trabalhar em 1935 na construção da ferrovia do leste da China. Porém, para a infelicidade deles, diversos dos homens que retornaram foram classificados como espiões da Alemanha e do Japão, sendo muitos deles condenados à morte.

Por mais que o assunto seja tabu e tratado na Rússia como segredo de estado, algumas pessoas de forma voluntária tentam colaborar com aqueles que perderam parentes para o regime genocida. A família Karagodin, por exemplo, acabou sendo contactada por uma das netas do seu verdugo, que sentiu necessidade de buscar o perdão das vítimas do seu parente. Como se vê, até aqueles que estiveram do lado dos vencedores carregam um mal-estar pelo contexto sanguinolento em que viveram suas famílias. Em contrapartida, ainda sobram stalinistas insistindo em negar a realidade.

Depois da morte de Lênin, teve início na URSS um verdadeiro pandemônio em meio ao alto escalão do partido Bolchevique. Isso por que Stálin decidiu que precisava adotar medidas drásticas para garantir o poder absoluto.

E nada disso era, como insistem alguns, uma espécie de mal necessário em prol da revolução. O derramamento de sangue veio diretamente da psicopatia de Stálin. A própria viúva de Lênin chegou a declarar em uma reunião de 1926 que Stálin colocaria o próprio Lênin na prisão se naquela altura ele ainda estivesse vivo.

Por mais que stalinistas tentem negar, o fato é que Stálin era paranoico e tinha claros sintomas de psicopatia. O historiador russo Boris Ilizarov chegou a publicar esboços de cartoons desenhados por Stálin os quais ele fazia durante as reuniões para se divertir. Os desenhos mostravam a execução e tortura dos desafetos de Stálin, como o cartoon de Nikolai Bryukhanov, que mostrava o ministro pendurado pelos genitais.

Para lidar com suas inseguranças, Stálin providenciou até mesmo o extermínio massivo da velha guarda do partido bolchevique. Ele simplesmente não queria correr o risco de ser superado em prestígio por qualquer um dos que atuaram ao lado de Lênin, providenciando um a um a morte de todos que podiam atuar como lideranças. Esses incidentes só confirmam o que já a muito se sabe: a pior coisa que pode acontecer para um comunista é ser governado por comunistas que não são seus amigos. Dentre os comunistas de 1917, poucos morreram de morte natural.

Antes de conseguir provocar a morte de Trótsky por meio de um lacaio na América Latina, Stálin teve de se contentar em atormentar a família de seu rival. Sergei, filho caçula de Trótsky, foi fuzilado ao se recusar a denunciar o paradeiro do pai, ainda que o rapaz nem sequer fosse envolvido em atividades políticas.

Depois do suicídio de uma de suas filhas, a primeira mulher de Trótsky escreveu para ele em uma carta:

“Nossos filhos foram condenados. Não acredito mais na vida. Não acredito que eles cresçam. A todo momento espero algum novo desastre”.

Mas se esse foi o inferno da família dos adversários de Stálin, Na casa do ditador a coisa não era melhor. Nadezhda Alleluyeva, esposa de Stalin também suicidou-se. Svetlana Alliluyeva, filha do ditador, também não aguentou e fugiu para os Estados Unidos.

Não podendo negar a realidade dos fatos, alguns comunistas ainda buscam amenizar a experiência stalinista, tendo por base uma suposta melhoria das condições da classe trabalhadora na Rússia. Porém, nada estaria mais distante da realidade. Nas fábricas da URSS, a realidade dos trabalhadores era de apatia geral, causada por jornadas extenuantes em ambientes gélidos, com privações e uma remuneração pífia.

Até os supostos avanços científicos russos e suas realizações na corrida espacial ficam eclipsados quando se recorda que em todas essas áreas os soviéticos foram completamente superados pelos americanos, mesmo que a URSS tenha precisado escravizar metade do mundo para tentar igualar seu rival.

Incrivelmente, ainda há os que tentam absolver o genocida, afirmando que Stálin teve um papel importante contra os nazistas na segunda guerra. Porém, foi o enfraquecimento da Rússia sob Stálin que deu coragem aos alemães para iniciar seus avanços militares. Seus expurgos chegaram a atingir 90% de todos os generais, 80% de todos os coronéis, e 30 mil dos oficiais de patentes mais baixas. Depois disso, foi fácil para Hitler convencer as lideranças militares de que eles deviam invadir a URSS. O argumento de Hitler foi: eles não tem generais.

Em seus últimos anos de vida, Stálin até acreditava que havia uma conspiração dos médicos para envenenar membros do partido comunistas. Muitos deles foram presos e mortos.

Circunstâncias como essas mostram como a política soviética era autofágica. Absolutamente nada poderia florescer sem que despertasse a inveja e a desconfiança da alta burocracia.

Para concluir, o quadro aqui apresentado é um resumo, mas acreditamos que tais informações possam ser úteis em meio a enxurrada de insanidades que atualmente se publica na imprensa.

Por fim, para evitar as insuportáveis críticas tradicionais, não utilizamos em nosso conteúdo nenhum argumento tirado de fontes liberais ou de direita. As fontes vem em boa parte do portal www.marxismo.org.br e dos livros lá citados.

Para conferência, ver: Comunistas contra Stalin: o massacre de uma geração. Esquerda Marxista. 

Quanto ao trabalho das pesquisas familiares que vem sendo estorvadas pelo governo russo, ver: A luta contra o esquecimento dos expurgos stalinistas. Jornal El País, abril de 2019.